Abri os olhos e a dor logo ressurgiu. Uma claridade enorme me atingiu e eu achei que havia morrido.

Logo percebi que era o sol.

E que eu ainda estava na mansão.

Preciso sair daqui.

Apoiei-me com o meu braço bom no chão e fui me rastejando até a parede, para poder me levantar. Consegui me levantar e também descobri que eu conseguia andar, mesmo com uma bala alojada – novamente – na minha perna.

Fui até a enfermaria. Nem me lembrava de ter matado tantas pessoas; havia corpos para todo o lado. Fui até um armário e peguei morfina e seringas.

O meu ombro doía; o meu pulso estava provavelmente quebrado; a minha coxa doía; e a minha barriga doía.

Bem o tiro não exatamente na barriga, foi mais perto do osso do quadril.

Peguei gases, água oxigenada e limpei um pouco os ferimentos. Também achei uma tipóia que iria me ajudar muito.

Depois que terminei, tratei de pegar alguns remédios que poderiam me ajudar e fui tentar subir a escada.

Subir uma escada toda cheia de balas alojadas em varias partes do seu corpo não é nada fácil.

Cheguei à sala de armas e tratei de pegar mais umas, para caso eu precisasse.

Subi mais outra escada e fui para o helicóptero. E para uma pessoa que nunca havia pilotado um helicóptero antes, não me sai mal. Pelo menos ainda estou viva.

Cheguei novamente ao heliporto particular da falecida Annelise. Desço e caminho, caminho, caminho, até chegar à maldita rodovia. Na qual eu irei, andar, andar e andar debaixo deste sol fritante para chegar a São Francisco. Isso se uma alma de puro e bom coração não me der uma carona.

Acontece que não apareceu uma alma pura e de bom coração para me dar uma carona. Caminhei até chegar a São Francisco, e tive que caminhar mais ainda para chegar ao condomínio.

Meus pés doíam; parecia que eu havia feito escalda-pés em lava.

Minha perna eu nem sentia mais, não sei como ainda conseguia me equilibrar.

Quando cheguei ao condomínio o porteiro me ajudou a ir até a minha casa.

Nunca vou me cansar de dizer que a melhor visão que eu poderia ter era de ver a minha casa.

Teria corrido, mas minha perna estava com uma bala alojada na coxa.

Cheguei ao cercadinho da casa e disse para o porteiro que poderia voltar para o seu posto.

A porta estava fechada, apertei a campainha; Theo demorou uns dois minutos para atender.

Abriu a porta e logo o aroma de café invadiu meu nariz. Theo estava com um roupão preto e o cabelo bagunçado. Aquela visão estava completa.

– Voltei! – Dizendo isso, abri um sorriso; só não corri para seus braços por que... Ah vocês já sabem.

– Já? – Eu olhei pasma para ele. – Estou brincando. – Ele abriu um sorriso de orelha a orelha e veio até mim.

– Cuidado!

– Por quê? O que houve? – Theo parou e me observou dos pés á cabeça. – Temos que ir para o hospital. Agora.

Theo me pegou no colo – o que me deixou com mais dor ainda, seja no ombro quanto na perna – e me levou para dentro e me colocou no sofá.

– Espere aqui, vou chamar um taxi. – Ele fechou a porta e subiu as escadas.

Era obvio que eu não ficaria ali sentada esperando; fui até a cozinha e peguei uma xícara de café.

– Bella! Eu disse para esperar! – Escutamos uma buzina. – O taxi chegou, vamos.

Theo havia mudado de roupa tão rapidamente que eu até me surpreendi. Carregou-me e colocou dentro do taxi. Fomos para o hospital.

Chegando lá, por um milagre, estava com poucas pessoas. E quando viram o meu estado, vieram enfermeiros de tudo quando é lado e me colocaram numa maca. Nem entendi o que estava acontecendo, mas me doparam e eu logo fui perdendo o foco da minha visão. Apaguei.

– Bella... Bella meu amor acorde. – A voz de Theo desperta um sorriso em mim.

– Meu amor? Vou ter que me acostumar com isso ainda. – Escuto sua risada. – Quanto tempo eu dormi? –Assim que eu abro os olhos vejo os de Theo bem acima dos meus.

– Um dia inteiro. Está com fome?

– Agora que você me lembrou, muita.

– Ultimamente a única coisa que tem te abastecido é soro, mas você já tem alta. Podemos ir para casa, quando chegarmos vou fazer um prato especial para você.

– Hmmm, estou curiosa. O que vai ser?

– Surpresa! – Ele me beija. A saudade que eu estava sentindo daquele beijo era tão dolorida que eu demorei um pouco mais a me afastar.

Pouco depois nos separamos me levantei e troquei de roupa. Minha perna ainda doía, mas não muito. Meu pulso estava engessado; o ombro, enfaixado e a barriga, com umas gases.

– Vamos? – Theo entrou e perguntou me estendendo o braço.

– Claro.

Saímos do hospital e pegamos mais um taxi de volta.

Para andar ainda doía, especialmente o quadril. Então, Theo me pegou no colo e me carregou até a nossa casa. Para agradecer, fiquei dando vários beijos em seu rosto.

Ao chegarmos em casa, ele me largou e abriu a porta, entramos e ele me acomodou no sofá, ligou a TV em um canal qualquer e disse que me prepararia o tal ‘prato especial.’

– O que você esta fazendo? Não sinto cheiro de nada.

– Seu olfato só pode estar contaminado com o cheiro de café. O meu prato é o melhor.

– Serio?

– Diga você. – Ele me traz em uma badeja fechada o tal prato.

Pego o prato no colo e abro a bandeja e vejo uma caixinha preta. Meu coração para.

– Theo... Isto é o que eu estou pensando?

– Será que o que você está pensando corresponde com o que está na caixinha? – Ele sorri se ajoelhando no chão para ficar da minha altura e pega a caixinha nas mãos.

– Aimeudeus...

Theo abre a caixinha e o que tem dentro é... Outra caixinha.

– Ah é serio isso? – Pergunto, meu coração batendo mais forte que uma escola de samba no sambódromo.

– Abra. – O sorriso dele cada vez aumenta mais, seus olhos escuros brilham.

Peguei a caixinha e vi que as minhas mãos estavam destruídas, unhas quebradas, dedos machucados e... Elas tremiam.

Abro a caixinha devagar e lá dentro tem um anelzinho pequeno, com pequenos e delicados cristais.

– Meu deus... – Falo, hipnotizada e praticamente, sem ter o que falar.

– Bella, quer ter uma vida extremamente animada, cheia de adrenalina, amor, provável irritabilidade, com inúmeras ameaças de morte e se casar comigo? – Ele pega a caixinha das minhas mãos tremulas antes que ela caia.

– Eu... Eu...

– Sim? – Ele ri.

– Será que digo sim? Será que você merece ter tanta felicidade na sua vida? Hmm, acho que você merece sofrer eternamente tendo a mim como sua eterna companheira. – Começo a rir e sinto que vou chorar. Na minha cabeça começa a tocar Photograph, do Ed Sheeran.

Pulo em seus braços e começamos a rir. Theo me levanta e gira comigo no meio da sala; esqueço minhas dores. Esqueço de tudo. Estou completa.

Serio isso? Desde quando virei sentimentaloide?