Ninguém Precisa Saber - 2 temporada

23 Perda de tempo do universo


Acordamos cedo para pegar o vôo para Paris, mas Ethan parecia ter se acordado mais cedo ainda, pois havia deixado um bilhete na mesa da cozinha.

“Obrigada por tudo. Tente não se matar novamente na banheira! Ethan.”

– Como assim “tente não se matar novamente na banheira?” – Pergunta Theo, chegando atrás de mim e lendo também o bilhete.

– Theo é uma longa historia; tão longa que perderíamos nosso vôo, então eu conto quando estivermos já dentro do avião. Vamos? – Pergunto para ele fechando a porta dos fundos, que era a que faltava.

– Vamos. – Ele da um sorriso e pega a minha mão.

Saímos pela porta da frente com duas malas: uma de rodinhas e outra que eu coloquei no ombro.

Fechamos a porta e seguimos até a saída do condomínio onde um taxi esperava.

Chegamos ao aeroporto e como pessoas normais: pegamos um vôo normal para Paris.

Contei a Theo a historia da banheira, o que o deixou com a testa franzida.

– Theo, fale alguma coisa... – Falei para ele, que não havia dito nenhuma palavra desde quando eu terminei de contar.

– Não irá acontecer novamente. – Falou com tanta certeza que parecia ter dito que copos de vidro são realmente feitos com vidro.

– Como pode ter tanta certeza?

– Tenho certeza que eu não vou deixar isso acontecer com você.

Aquele trecho de conversa e deixou de um modo estranho; era como se misturasse minhas sensações de relaxamento a tensão a medo a proteção.

Desembarcamos em Paris e pegamos um taxi para o apartamento de Phillip; estava começando a chover.

Assim que saímos do taxi até chegarmos à portaria do prédio de Phillip, ficamos levemente encharcados.

O porteiro comunicou Phillip, que nos deixou subir.

Chegamos ao apartamento de Phillip, que me trouxe muitas lembranças do ano passado; toquei a campainha.

– Bella! – Ele me abraça; parecia o reencontro que tivemos depois da morte de Amélia; depois de eu fugir do cativeiro de Lucas, de sair da casa de Beth e vir até ele para buscar ajuda. – Onde você estava? Meu Deus do céu, Theo quase me matou quando eu disse que você ahn, havia ahn, morrido. Desculpe ter pensado nisso.

– Tudo bem eu te desculpo, mas da próxima vez certifique-se! – Falei brincando com ele, fazendo um gesto de arma com as mãos e apontando para ele.

– Entrem, Eleanor está cozinhando. – Phillip me olha e parece dizer com os olhos para eu não fazer nenhuma besteira.

Deixamos as malas no quarto de hospedes que uma vez eu fiquei; as roupas não estavam mais lá e o papel de parede rosa e florido havia mudado para um preto com bolinhas brancas.

Voltamos para a sala e eu me deparo com Eleanor colocando a mesa do almoço; vestida de Amarílis.

Fico tão chocada que não percebo que estou parada no meio do corredor até que Theo cutuca meu ombro.

– Você está bem? – Sai do meu torpor.

– Ahn, acho que sim. – Me virei para ele. – Você está vendo o que eu estou vendo?

– Depende... O que você está vendo?

– Eleanor está vestida como Amarílis. – Eu falei baixinho, tentando ser discreta.

– Bella, pessoas com luto às vezes fazem isso para poderem se lembrar das pessoas que amam e que morreram.

– Mas isso é tão... Estranho.

– Bella, comporte-se. – Theo falou isso para mim e foi ajudar Phillip a pegar os pratos. Resolvi cumprimentar Eleanor.

– Ahn, oi. – Falei, eu parecia uma criança.

– Bella! – Ela me abraça; abraço-a também, querendo logo que aquilo acabe.

– Quer ajuda?

– Não obrigada, já terminei. Então, onde esteve?

– Conhece Annelise? – A expressão sorridente dela se fecha.

– Há muito tempo eu não escuto esse nome.

– Presumo então que conheça. Sabia que eu era a encomenda dela? – Pergunto me encostando na cadeira; vejo se Theo ou Phillip não estão por perto para poder continuar. – Sabia que Ethan era servo dela não é? Também sabia que Amarílis era, e que depois que eu a matei – ela estremeceu e mordeu o lábio inferior. -, levaram a cabeça dela como prova de que eu era uma ótima assassina. Você sabia disso tudo não é? – Vi que ela contorcia o guardanapo nas mãos para disfarçar, mas eu percebi que elas tremiam.

– Seu projetinho de assassina... – Ela falou, me congelando com os olhos.

– Suas palavras não me ofendem apenas me deixam com mais dó sua. Tadinha, ninguém sabia da sua existência até pouco tempo atrás. Um desperdício de tempo do universo. – O guardanapo estava se rasgando; vi que Theo e Phillip estavam descendo as escadas, então me levantei e fingi que colocava um prato na mesa.

–... Devíamos fazer isso mais vezes! – Falava Phillip animado.

– Ótima idéia! – Theo olhou para mim e foi fechando o sorriso aos poucos; deve ter percebido o rosto de Eleanor.

– Vamos almoçar? – Perguntou Phillip ainda não percebendo o rosto de sua ‘amada’.

– Vamos! Estou faminta! – Falei, provocando Eleanor ainda mais.

Se Eleanor realmente ama Phillip, não vai surtar no meio de um almoço, por isso, vou ficar sim cutucando a onça com vara curta.

O rosto de Eleanor virou um misto de raiva e sorriso falso. Respondia com poucas palavras. Via no rosto de Phillip que ele estava percebendo alguma coisa errada; me senti um pouco culpada por estar estragando o romance dele com Eleanor. Mas eu precisava mostrar a ele que ela é um monstro, e que eu ainda – ainda – não sei o que ela está planejando com ele, mas vou descobrir.

O almoço estava realmente maravilhoso.

Phillip e Theo tiraram as coisas da mesa; Theo me olhava a toda hora, tentando impedir que a Bomba-Bella explodisse.

– Você não vai me impedir de contar a ele o que você é, sua mandante da Annelise! – Falei baixinho com um sorriso para Eleanor, á minha frente na mesa.

– Você vai fazer o que? Gritar que eu sou a cópia da minha irmã, que você decepou-lhe a cabeça, e dizer que eu fui mandada para cá por uma pessoa que ele nem conhece? E para fazer o que? Matar ele? – Vi que as palavras dela não saiam em um tom ameaçador, mas sim de duvida. Parecia estar tentando fazer com que eu não acreditasse nas minhas palavras; queria que eu não acreditasse.

– Exatamente. Como você adivinhou? – Eu cada vez abrindo mais o sorriso.

Phillip e Theo voltaram trazendo uma mousse de chocolate com morango para a sobremesa.

Estavam todos comendo quando eu tive a grande idéia de fazer o pronunciamento do monstro que estava à mesa. Se eu estava sendo inconseqüente? Acho que provavelmente.