Ninguém
1 Único
Notas iniciais
Ninguém
"Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa" Nietzsche
Percy respirou fundo. Ele tinha que falar. Ele ia falar naquele dia. Ele precisava falar.
Annabeth estava parada alguns metros a sua frente. Seus olhos estavam perdidos,observando o céu. No alto de seus treze anos, para Percy, já era a garota mais linda do mundo. Seus,cabelos loiros e compridos,iam até a cintura, e os olhos, de um cinza penetrante e capaz de hipnotizar qualquer um.
Percy não podia deixar de pensar que era uma injustiça uma garota como ela viver em um orfanato. Ela eram tão meiga, tão inteligente... Merecia ter uma família de verdade.
Mas como a vida não é perfeita, ela não tinha. Estava ali há tanto tempo quanto Percy, ou seja, desde os primeiros meses de vida. Seus pais tinham morrido em um acidente de carro e a pequena Annabeth Chase tinha sido a única sobrevivente.
Já Percy merecia estar ali. Era um nada. Não. Ele era uma grande ameba. Nem seus pais o quiseram. Eles o tinham abandonado ali,numa noite fria de inverno,antes de completar dois meses de vida. Era dislexio e hiperativo, assim suas notas na escola só eram o bastante para passar, isso quando eram. A única pessoa que realmente se importava com ele, era Annabeth. Sua melhor amiga. O amor de sua vida.
Percy se aproximou, ainda um pouco inseguro. Qual seria a reação de Annabeth quando dissesse seus sentimentos,a tanto,reprimidos?
- Oi, Annie — ele cumprimentou.
Annabeth voltou os olhos para o garoto e sorriu. Só aquele sorriso foi o bastante para Percy acreditar que todos os seus problemas estavam resolvidos. Ela se aproximou dele e o abraçou.
Percy enlaçou a cintura da garota e a trouxe para mais perto, sentido o cheiro de seus cabelos.
- Oi, Percy — ela disse sem se separar.
- Annie, eu preciso te contar uma coisa — disse ele sem soltar a garota.
Annabeth se afastou o bastante para olhar nos olhos do garoto.
- O que foi?
Percy respirou fundo e se preparou para falar, mas foi interrompido.
- Ei! Jackson! Chase! Venham conhecer o garoto novo! — gritou Travis, um dos gêmeos Stoll — Parem de se agarrar! Vocês estão muito novos para isso!
Percy viu as bochechas de Annabeth queimarem e ela se afastou dele.
- Não fale idiotices, Stoll — ela reclamou — Qual é o nome dele?
O menino sorriu.
- Luke Castellan
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Percy estava esperando Annabeth na "casa" deles. Agora, com seus dezessete — quase dezoito — anos, aquela pequena estrutura de madeira que tinham construído aos dez, não parecia mas tão espaçosa.
Percy respirou fundo. Quando construíra aquilo, sonhara em morar de verdade com Annabeth. Em se casar com ela, ter filhos... Mas isso parecia cada vez mais impossível.
Ela estava namorando com Luke há três anos e Percy nunca tinha dito seus verdadeiros sentimentos. A única coisa que o mantinha de pé, ainda ali, era que Annabeth precisava dele.
Era no ombro dele que ela chorava quando estava triste. Era nos braços dele que dormia quando tinha pesadelos. Eram os olhos dele que procurava quando precisava de abrigo. E tudo aquilo fazia Percy sentir que Annabeth ainda era um pouco dele.
Os três, Annabeth, Percy e Luke, estavam prestes a fazer dezoito anos, ou seja, teriam de sair do orfanato. Percy estava planejando pedir para Annabeth ir morar com ele. Não que ele tivesse um lugar para ir, mas tinha certeza de que, com ela ao seu lado, acharia.
Percy ouviu os passos de Annabeth e logo garota entrou na "casa". Ela se sentou ao lado de Percy e olhou em seus olhos. Seus cabelos estavam presos em uma trança de lado e os olhos brilhavam. Ela estava feliz. Percy só se perguntava o por quê de toda aquela felicidade.
- Então, o que você queria dizer ? — perguntou Percy curioso.
- Percy — ela disse olhando em seus olhos — Luke me pediu em casamento.
Naquele momento seus chão desapareceu. Sua vida ruiu. Seu mundo se despedaçou. Sua garota ia se casar com outro. Sua Annabeth.
- Como? — ele perguntou na esperança de que tivesse ouvido errado.
- Luke me pediu em casamento ontem — ela explicou — Nós passamos com bolsa para a NYU, vamos morar juntos,estudar e casar.
Certo. Ela estava certa. Percy não passara em nenhuma faculdade, com muito esforço tinha conseguido se formar. Talvez, se pudesse pagar, faria alguma delas, mas naquele momento mal tinha dinheiro para comprar um hambúrguer.
- Quando vai ser o casamento? — ele perguntou.
- Em dois meses.
Percy engoliu seco. Estava perto, muito perto.
- Percy, você seria meu padrindo? — ela convidou.
Percy arregalou os olhos.
- Annie, eu não sei. Acho melhor que seja outra pessoa ...
- Não, Percy! Por favor! — ela implorou — Eu preciso de você lá comigo!
Uma pequena chama se acendeu no coração de Percy. Ela podia estar indo viver longe dele. Ela podia estar indo morar com Luke, mas ainda precisava dele.
- Tudo bem — ele disse para logo depois ganhar um abraço bem apertado da garota.
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Os meses seguintes se passaram mais rápido do que eles esperavam. Percy, Annabeth e Luke tinham conseguido alugar apartamentos no Brookling(n/a:não sei como se escreve), mas vamos dizer que o do jovem casal de noivos estava numa localização bem melhor que o de Percy.
Logo o casamento veio. Foi um cerimônia simples, em uma capela, afinal ninguém ali tinha dinheiro para algo maior. Percy ficou encarregado de levar Annabeth ao altar e entrega-la a Luke.
Doeu,do fundo de seu coração, entrega-la a outro. Mais ele estava feliz. Sabia que com ele, ela seria feliz. Percy a amava mais que tudo em sua vida, por isso queria que ela fosse feliz, mesmo que não fosse com ele.
Nos meses seguintes ao casório, os dois não se afastaram. Apesar do trabalho e dos estudos, no caso de Annie, sempre arrumavam uma maneira de se ver. Mas de repente, seis meses depois, ela sumiu.
Não só Annabeth, como Luke. O casal Castellan tinha desaparecido. Percy descobrira que o apartamento deles havia sido alugado para outra pessoa, e não conseguia falar com nenhum dos dois.
Percy ficou em completo silêncio por três meses. Três meses pensando o pior. Três meses sem saber o que acontecera com a mulher que era a razão de sua vida. Foi quando ela apareceu.
Annabeth ligou de um número que não era dela, alegando ser um telefone novo,chamando-o para encontra-la no Starbucks. Percy estranhou, afinal era uma cafeteria cara, mas foi. Estava louco para ve-la novamente.
Quando chegou, encontrou uma Annabeth radiante sentada no fundo do estabelecimento. Enquanto andava até ela, percebeu que usava roupas novas e, aparentemente, caras. Quando tinha conseguido dinheiro para aquilo?
- Percy! — ela exclamou se levantando e abraçando o amigo.
Ao abraçar Annabeth, Percy, por um momento, acreditou que tudo estivesse normal. Que tudo voltaria ao normal. Mas foram precisos só alguns minutos de conversa para perceber que aquilo tudo era uma grande utopia.
O pai de Luke era o grade empresário Hermes Castellan, e só soube da existência do filho um ano antes, quando a mãe de Luke, May, morreu e falou no testamento sobre o garoto. Quando encontrou Luke, Hermes o acolheu e o tratou como um Castellan deveria ser tratado.
Ele deu um apartamento de presente de casamento e insistiu em pagar uma gorda mesada até que os dois se formassem.
Em resumo: Annabeth estava melhor do que nunca, e sem Percy. Sem precisar de Percy para absolutamente nada.
Percy sorriu forçadamente durante toda a narração. Ele queria ficar feliz por Annabeth, mas doía seu coração saber que ele não era mais necessário para que ela fosse feliz.
Percy mentiu quando Annabeth perguntou como estava sua vida e disse que estava tudo bem. Ele não ia estragar o momento dela dizendo que o único emprego que tinha conseguido havia sido de atendente de um bar que só bandidos violentos frequentavam. Também não diria que por o bar ser ilegal, ganhava menos que o salário mínimo e recebia agressões físicas e verbais todos os dias. Não diria que não tinha dinheiro para pagar o aluguel do quarto de pensão onde passara a morar, e nem que quase não tinha dinheiro para comer. Não, ele não diria nada daquilo. Ela não precisava saber. Era melhor que vivesse sua vida sem ele, ele a estava atrasando.
Percy foi embora depois de algum tempo, com seu coração pisado e despedaçado. Naquela noite fitou o teto de seu quarto e pensou: Quem era Percy sem Annabeth? Ninguém, ele não era ninguém sem ela.
Ela era razão de seu viver. De seu respirar. Era ela a razão de ele estar ali, era por ela. Era por ela que ele aquentava ser espancado naquele bar todos os dias por uma miséria. Era por ela que ele pagava os traficantes toda noite para chegar vivo em casa. Mas agora ela estava feliz, casada com outro,amando outro, vivendo sua vida sem precisar de Percy e melhor do que em qualquer momento que esteve com ele.
Foi naquele momento que Percy percebeu, não existia vida sem ela. Ele sorriu com esse pensamento. Ele não tinha mais razão para viver.
Ele procurou um papel e escreveu uma carta, se é que aquilo podia ser considerado um carta.
No dia seguinte seguiu,pelo que ele sabia ser a última vez de sua vida, para o orfanato. Ele foi até a casa deles pela última vez e deixou sua carta.
Percy pegou o ônibus pela última vez. Correu pelas ruas pela última vez. Sentiu o sol tocar seu rosto pela última vez. Cumprimentou a dona da pensão pela última vez. Abriu a porta de seu quarto pela última vez.
Mas ele estava feliz, porque ela estava feliz. Ela não precisava dele e ele não precisava viver.
Percy pegou a única cadeira de seu pequeno quarto e a posicionou debaixo do ventilador. Foi até o armário e pegou sua única gravata, a que o usara no casamento de Annabeth. Sem pressa, subiu na cadeira e amarrou a gravata no ventilador.
O sorriso não saia de seu rosto. Ele não parava de sorrir enquanto dava o laço que traria sua morte. Ela estava feliz e sem ele! Ele não precisava mais aguentar aquilo! Ele não tinha mais motivo para viver! Ele não tinha mais por quem viver! Ele não tinham mais por que viver.
Percy colocou o pescoço no laço e, sem arrependimentos, chutou a cadeira. Seu último pensamento foi o nome dela, como tinha sido todos os dias desde seus cinco anos.
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Três dias depois a dona da pensão encontrou o corpo de Percy. A mulher, já preocupada com o rapaz que não saía do quarto há três dias, usou a chave extra para entrar no quarto, se deparando com a mórbida cena.
O notícia chegou aos ouvidos do casal Castellan dois dias depois e Annabeth caiu aos prantos pelo amigo, pelo irmão. Ela não conseguia entender porque o amigo tinha cometido tal ato que demonstrava tanto desapego a própria vida. Não tinha ele com quem se importar? Não tinha ele motivo para continuar?
Dois dias depois, logo após o enterro do jovem Jackson, Annabeth voltou ao local onde se conheceram, onde cresceram juntos.
Ela caminhou pelo orfanato com os olhos marejados,mas não pode segurar as lágrimas ao ir a "casa" deles. Ela se sentou onde ele costumava sentar e chorou. Chorou como uma criança. Ela não queria que ele fosse! Ela queria Percy! Ele era seu irmão! Ela não podia te-lo deixado ir!
Quando o choro diminuiu um pouco, ela levantou os olhos e encontrou um papel no canto, dobrado com cuidado. Ela tomou o papel nas mãos e voltou o chorar quando viu o letra dele.
"Para Annie"
Ela desdobrou o papel, ainda chorando, e leu :
" Queria desabafar antes de ir, mas não te achei, então escrevi:
Ninguém gosta de você
Ninguém gosta de falar com você
Ninguém ama,muito,você"
Annabeth parou antes terminar. Como seu melhor amigo tivera a coragem de dizer tudo aquilo em uma carta mortuária? Será que nunca tinha sido seu amigo de verdade?Leia até o fim ,Annabethdisse uma voz em sua cabeça.
Annabeth abaixou os olhos e leu a última frase. Ela chorou como nunca havia chorado. Molhava,com suas lágrimas de dor e arrependimento, a última declaração do amigo.
" Adeus,com amor,Ninguém"
Notas finais
Reviews, ok? Quero saber o q vcs acharam. Bjs, até! EuSemideus
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