Nina e o Grand Chase

5 Capítulo V – A premonição de Arme


Capítulo V – A premonição de Arme

Seguiu-se que, enquanto estavam na viagem de carroça de volta à cidade de Altegria, os integrantes do Grand Chase contavam animadamente cada detalhe de sua missão que há pouco haviam completado. Elesis narrava a todos o momento em que fincara seus dois sabres em um dos golens e, em um grande arremesso, lançou-o violentamente contra parede de pedra; e Ronan descrevia como partiu um golem ao meio usando apenas as suas próprias mãos. Ryan e Jin se encarregaram de contar o que acontecera ao outro grupo nesse meio tempo.

- Quando me dei conta eu já tinha me transformado em um lobisomem e comecei a atacar todo mundo! – exaltou-se Ryan, ao ver o rosto de assombro dos amigos.

- Foi nesse momento que eu peguei minhas tonfas e tentei parar o Ryan – acrescentou Jin -, só que ele era mais ágil e quase me acertou. Se a Amy não tivesse feito algo para me salvar eu estaria em um sério problema agora – e deu uma piscadela para Amy, e esta deu um risinho em resposta.

- Foi aí que eu despertei meu verdadeiro instinto bestial, e, sem dó nem piedade, torturei, esquartejei, decapitei, trucidei, cortei e matei todos eles! – vibrou Ryan com uma risada diabólica, agora quase saltando para fora da carruagem de tanta alegria.

Ao momento só puderam providenciar um silêncio absoluto.

- Não exagera, Ryan! – alertou Jin.

- Pára de querer aparecer! – exigiu Lire com severidade.

- Você fez isso tudo com a gente? – perguntou Amy inocentemente, quase chorando.

- Não seja burra, Amy! – resmungou Elesis rispidamente. – Se isso acontecesse você teria perdido o seu cérebro, se é que você já teve algum...

Amy caiu no choro exageradamente. Arme e Lire tentaram consolá-la, dando tapinhas nas suas costas entre um soluço e outro.

- Elesis! Pára de falar feita uma mula! – vociferou Arme.

- Como é que é? – rebateu Elesis, levantando-se de seu acento ameaçadoramente.

- Briguem, briguem! – atiçou Ryan.

- Ei, ei, ei! – disse Ronan, alteando a sua voz para sobressair-se em meio à briga, segurando Elesis pelo ombro para que ela não avançasse para cima de Arme. – Podem parar agora mesmo! E pare de complicar as coisas, Ryan! – gritou, ao ver que Ryan continuava a estimular a briga. – Que guerreiros são vocês, que brigam com os próprios amigos enquanto deviam guardar tudo isso para os inimigos?

Todos permaneceram quietos e cabisbaixos sob o sermão do garoto. Este tornou a se sentar e disse:

- Será que podemos continuar a história em paz?

Então, sob um respeitoso silêncio, Arme contou aos amigos como encontraram Nina no meio do percurso, como ela estava presa na cúpula negra e seus esforços para a tirarem de dentro dela, inclusive como tiveram de parar o ataque súbito de Ryan, detalhe por detalhe. Ao terminar, todos pareciam observar Nina pelo canto do olho, na qual esta estava deitada debaixo de um cobertor no fundo da carroça ao lado de Lass (este estava cochilando sossegado na sua habitual posição de braços cruzados atrás da nuca), dormindo tranqüilamente.

- Mas por que será que ela estava dentro daquele negócio quando vocês a encontraram? – coçou-se Lire a perguntar. – E por que será que Ryan se transformou de repente?

- Não tenho certeza, mas eu tenho uma hipótese. – admitiu Arme.

- Hipótese? – repetiu Lire. – E qual seria?

- Aquela câmara de ar quente era feita por magia negra, e daquelas sinistras! – afirmou ela. – Só um mago negro poderoso o suficiente poderia ter feito algo daquele nível. E como vocês sabem, magia negra geralmente é praticada por seres malignos e impuros. Mas querendo ou não ser bonzinho, a pessoa que o fez com certeza teve a intenção de proteger a Nina, afinal quem iria conjurar uma cúpula quente para abrigá-lae protegê-la?

- Nisso você tem razão – aceitou Jin. – Mas onde fica o Ryan nessa história? Você acha que este alguém estava ali por perto provocando tudo?

- Calma, já vou chegar lá! – pediu Arme. – A pessoa não precisava estar lá a todo instante. Creio eu que ela havia colocado uma maldição na cúpula.

- Maldição? – perguntaram todos em uníssono, com uma nota de espanto na voz.

- Isto mesmo, se é que posso chamar assim. A pessoa, qualquer que seja, deve ter lançado um feitiço na Nina para que todas as criaturas vivas nos arredores fossem obrigadas a protegê-la a qualquer custo, eu pessoalmente já tinha ouvido falar de um feitiço assim alguma vez. Isso explica o fato dos golens terem nos atacado, explica por que Ryan foi forçado a se transformar em lobisomem para nos atacar quando chegamos perto dela!

Todos murmuraram entre si com assombro e concordância. Por fim, Ronan perguntou:

- O que devemos fazer em relação a essa pessoa? Será que esta do nosso lado?

- Não faço idéia, mas não podemos deixar de relatar isso para a comandante Lothos. – concluiu Arme.

Passaram minutos e mais minutos dentro da carroça discutido quem poderia ser a pessoa que protegera Nina a todo instante, sem nenhum resultado relevante, até que a velocidade diminuiu e, descendo do veículo à luz da tarde, viram-se diante do grande portão de madeira do Templo Central.

- Senhores, gostaria de avisá-los que, por ordem da comandante Lothos, partiremos para o quartel-general amanhã às onze horas da manhã – informou o piloto. – Por enquanto, estou encarregado de fazer uma checagem final na nossa aeronave, e vocês estão dispensados para fazerem o que quiserem pelos arredores da vila até a nossa partida.

- Beleza! – comemorou Ryan.

- Ah – exclamou Arme, lembrando-se subitamente de um detalhe e olhando para o dentro da carroça onde Nina dormia naquele momento -, e quanto à fugitiva?

- Não se preocupe, Lothos me pediu para que a levasse de volta ao presídio, caso vocês a achassem. Lá devem cuidar do resto.

A resposta do piloto não agradou muito aos ouvidos de Arme e dos outros e foi recebida com um silêncio imediato. Jin logo tratou de quebrar o clima tenso:

- Então, nos encontraremos amanhã aqui às onze?

- Sim.

- Só mais uma pergunta – apressou-se Ronan a dizer antes que fossem embora. – Qual é o seu nome?

- Ah, mil perdões! Como pude me esquecer de me apresentar depois de tanto tempo! – desculpou-se meio sem graça. – Meu nome é Basílio, prazer! – e fez uma ligeira reverência.

- Prazer! – disseram todos em resposta.

- Uma boa tarde para os senhores e até amanhã! – despediu-se, subindo na carroça e dirigindo-a a dar meia-volta pela estrada de chão.

- Certo! Agora temos o dia inteiro para aproveitar! – disse Ryan.

- O sol ainda está perfeito! – comentou Lire. – Que tal irmos à praia?

- Excelente idéia! – aprovou Arme.

- Oba! É hoje que vou poder experimentar meu novo maiô! – vibrou Amy. – Com “licencinha” que eu vou me trocar.

- Ui, imagina só a Amy de maiô...! – balbuciou Ryan, babando para uma visão maliciosa muito distante em sua mente.

- Ah, seu pervertido! – exclamou Elesis indignada, dando um forte tapa na cara do garoto, deixando sua bochecha vermelha.

- Ai, tá bom, desculpa! – choramingou ele, massageando o rosto sob as gargalhadas dos amigos que observavam a cena.

Juntos, os oito companheiros seguiram cada um para o seu devido quarto para despirem a roupa de batalha e, em troca, vestirem a roupa de banho. Depois, atravessaram o portão, desceram as escadarias e atravessaram a cidade para chegar até o litoral da vila, onde se encontrava uma praia de areias brancas e macias e um mar azul claríssimo que se estende por toda a parte sul do local.

- Uau, que lugar lindo! – elogiou Amy ao chegarem, respirando fundo o ar marítimo e correndo para se banhar no mar.

- Amy, espera! – pediu Ryan, com um olhar sonhador.

- Quem quer jogar futebol? – perguntou Jin, tirando uma bola da sacola que trouxera junto com ele.

- Eu topo! – disse Ronan prontamente.

- Não, obrigado, eu passo – murmurou Lass sem vontade, e se retirou para baixo da sombra de um coqueiral para se sentar e observar o mar.

- Ai, ai, por que será que homem só pensa em futebol? – perguntou Elesis sarcasticamente. – Eu prefiro tomar um banho de sol – e assim estendeu sua canga a metros dali e se deitou à luz dos raios solares.

- Vamos com você, Elesis! – disseram juntas Arme e Lire e juntaram-se à amiga.

E assim cada um aproveitou o momento a sua maneira: Amy e Ryan se banhavam pelas ondas e brincavam tolamente de construir castelinhos de areia; Ronan e Jin revezavam entre jogar futebol e vôlei de praia juntos; Elesis, Lire e Arme conversavam aos cochichos enquanto pegavam um bronzeado; e Lass, como sempre individualista, continuou mudo no seu canto e agora limpava delicadamente a sua katana com um pequeno pedaço de algodão.

A hora foi passando e o animado sol se transformou em um crepúsculo acompanhado de uma escuridão crescente. Jin recolheu a bola de futebol e gritou para os amigos:

- Pessoal, já está na hora de irmos embora!

Todos obedeceram e pararam de fazer o que estavam fazendo para se reunirem. Ryan e Amy voltaram após terem construído juntos dezenas de castelinhos (Amy estava chorando por Ryan ter tropeçado debilmente em um deles). Arme, Elesis e Lire guardaram suas cangas. Lass, que há pouco pegara um livro para ler, guardou-o na mochila, levantou-se e seguiu para perto dos amigos.

- Para onde vamos agora? – perguntou Lire.

- Vamos para o alojamento para nos trocarmos – sugeriu Ronan -, e de lá podemos ir ao centro da cidade.

- Ok, é melhor irmos andando, eu estou morrendo de fome – finalizou Ryan.

Voltaram depressa para o alojamento e, em seus respectivos quartos, puseram as roupas mais elegantes que tinham e desceram rumo ao centro da cidade debaixo do brilho do luar.

Foram direto a uma lanchonete onde puderam comprar sanduíches, salgados e refrigerantes para saciar a fome e sede que tinham, inclusive fizeram um rápido brinde ao sucesso da missão. A partir daí seguiram vila afora, adentrando de loja em loja para fazer compras. Assim foram neste ritmo até tarde da noite.

- É melhor irmos embora, está ficando tarde – informou Ronan, quando o grupo todo estava reunido em um banco de uma praça.

- Hã? Mas já? – protestaram Amy e Ryan juntos.

- Ronan tem razão, nós temos de acordar cedo amanhã, certo? – disse Lire.

- Logo agora que estava ficando tão divertido... – reclamou Ryan.

Voltaram sem pressa para o abrigo, conversando, cantarolando e rindo animadamente. Chegando lá, vestiram os seus pijamas aos bocejos e despediram-se para a longa noite de sono.

- Boa noite! – desejou Lire.

- Pra você também! – replicou Ronan.

- Bons sonhos! – disse Amy, fechando-se em seu quarto.

- Durmam bem para acordarem amanhã cedo! – lembrou Jin.

- Tá bom, boa noite! – despediu-se Arme.

E fechando a porta, Arme deitou-se à cama, jogou o cobertor sobre si, fechou os olhos e adormeceu.

***

Sentindo uma leve brisa soprar pelo seu rosto, Arme abre os olhos lentamente e se vê em um ambiente totalmente inesperado. Estava de pé no meio do completo vazio. Sua cama, seus pertences e até seu o próprio quarto desapareceram. Dando um passo à frente, sentiu seus pés descalços tocarem algo molhado, e olhando para o chão percebeu que estava de pé sobre a superfície das águas. Seria aquilo um sonho? Mas parecia tudo tão real, pensou ela.

Até que viu ao longe: havia algo incomum, uma espécie de sombra bruxuleante estava pairando em sua direção. A sombra se aproximou da garota e após uma pequena pausa perguntou:

- Então, queres saber toda a verdade?

- Hã? Quem é você? – perguntou Arme, espantada.

- Saber quem eu sou é algo vão neste momento – falou a sombra, veemente. — Queres realmente saber toda a verdade?

- Mas... verdade do quê?

- A minha verdade, e a verdade detrás da minha protegida.

- Eu... não entendo...

- Então, farei com que tu entendas.

Um brilho de cegar os olhos acendeu-se por todo o espaço vazio, e Arme percebeu que algo penetrando dentro de sua cabeça, algo vindo de um lugar distante no tempo, em que parecia estar acontecendo em sua mente.

Poucos anos após ser fundada, a vila de Altegria parecia finalmente prosperar depois das intermináveis lutas do povo em busca da Terra Prometida. Alegres pela benção que receberam, os altegrianos enchiam o altar do templo de diversas oferendas e dízimos como forma de demonstrar a gratidão que sentiam pelos deuses, chegando a formar um vínculo perpétuo de lealdade com eles.

Mas com o passar do tempo, o vínculo já estava se corroendo. Roubos, assassinatos, blasfêmias e ódio estavam sendo plantados nos corações das pessoas aqui e acolá, e isto não agradava nada aos seus deuses, pelo contrário, eles pareciam ter se arrependido de terem doado as novas terras aos homens.

Foi aí que tiveram uma idéia: testariam o povo para ver se realmente mereciam o seu perdão e deles iria eleger pelo menos uma pessoa que irá guiá-los para longe do mal.

Em um dia desses, uma linda jovem de cabelos negros e olhos verdes estava passando pela sua rua deserta junto com seus amigos, até que ouviu-se gemidos que vinham de dentro do matagal que margeava o lugar. Procurando pela fonte, a garota encontra uma mulher caída no chão de vestido branco que possuía o rosto vetado por uma venda de pano; de seus pulsos pendiam correntes, e nas suas costas havia um par de belas asas brancas cobertas de penas. Desesperados, os garotos decidem procurar ajuda. Levaram a moça para a sua casa e lá seus pais puderam cuidar dos seus ferimentos.

Logo no dia seguinte, ao acordar cedo de manhã, a menina de olhos esmeralda ouvira de sua cama pequenos sussurros e, aproximando da moça de asas brancas que estava em outro cômodo, ouvira-a dizer baixinho:

“Um desejo pelo teu segredo.”

Surpresa, a mocinha decide chamar os pais para que a ouvissem também. Sua mãe se aproxima da mulher e, próximo ao de seu ouvido, experimenta fazer a ela uma rápida confissão: confessou que estivera precisando muito de comida ultimamente, afinal havia uma crise de fome assolando toda a vila naqueles tempos.

No outro dia, a jovem de vestido continuava adormecida na cama em que estivera, porém, para felicidade da família, as hortas que cultivavam em seu próprio terreno e que serviam para o seu auto-sustento haviam produzido dezenas de vezes mais. Aliás, as poucas galinhas que possuíam puseram muito mais ovos, e das vacas ordenhadas conseguiram retirar uma quantidade de leite assustadora. Juntando todos esses acontecimentos, a família transcorreu por um período de fartura à mesa, e, lembrando-se de sua confissão, a mãe logo ligou esta ocorrência ao pedido que fizera ao anjo que se hospedava em seu próprio teto. Assim, todos os dias a família parava em frente a sua cama para desejar algo, e por isso tudo de bom lhes acontecia.

As pessoas da vila começaram a se perguntar o porquê desta família estar sendo tão bem-sucedida, enquanto muitos moradores passavam por um aperto tremendo. Certa vez, os amigos da menininha fizeram-lhe esta mesma pergunta, e ela contou lhes tudo, sobre o anjo, os pedidos e as suas realizações. Estes, porém, repetiram a história para seus pais, que em seguida espalhou-se por quase todo o vilarejo. Ao saberem de tal caso, todos decidiram passar de vez em quando pela casa do anjo para fazer pedidos, até que a situação chegara a tal ponto que o estabelecimento sempre permanecia cheio, todos só tinham tempo para fazer confissões. Abandonavam suas tarefas, seu tempo, talvez a própria vida neste ato. Afinal, pra que trabalhar duro, pra que orar e orar, se o que precisam está apenas em um desejo?

Até que a notícia chegara aos ouvidos do Templo Sagrado Central, em que este se sentira completamente contrariado. Os fieis estavam sumindo do Templo, estavam se confessando para o anjo ao invés de estarem louvando aos deuses. Tentaram avisar ao povo que aquele anjo era um demônio que estava tentando prová-los, mas ninguém dera ouvido. Tomando-se de uma terrível cólera, o Templo reuniu vários moradores a fim de organizarem uma revolta contra o anjo, e acendendo tochas e empunhando foices e facões, partiram para o seu extermínio. Mas neste mesmo momento, a garotinha dos olhos verdes havia presenciado o início do protesto e, entendendo o motivo de tal agitação, correu desabaladamente para casa, chegando antes dos outros.

Aproximando-se do anjo, a menina contou ao seu ouvido desesperada sobre o perigo que estava correndo e lhe pediu para que partisse imediatamente. De repente, o anjo levantou-se da cama e abraçou a menina, dizendo: “Foste tu a única pessoa que me contaste um segredo sem pensar em teu próprio bem. Agora posso afirmar que, embora este mundo seja imerso na imensa podridão do pecado, ainda há um brilho de esperança que irá devastar todo o mal. Portanto, confio a ti a minha proteção e que seja de bom proveito para ti, teu próximo e aos deuses. Por hora me despeço, mas saiba que algum dia voltarei pra ti, não importa em que século, ou em que corpo estarás, apenas peço-te a tua paciência. Adeus.”

E assim dizendo, uma luz de cegar os olhos brilhou por toda a casa e esvoaçando as suas asas, o anjo levantou vôo em direção ao céu e sumiu de vez, mesmo sob os protestos dos manifestantes que se encontravam do lado de fora. A partir daquele dia, fora decretado pelo Templo que qualquer tipo de magia negra era expressamente proibida nos limites do vilarejo, e a história da donzela tornou-se uma lenda contada até hoje na localidade.

A história se encerrou na mente de Arme e, subitamente, ela notou que havia retornado às superfícies das águas. Virando-se encontrou a sombra ao seu lado.

- Quem era aquele anjo? – perguntou imediatamente. — E aquela menininha, ela é a... Nina?

- Ainda não percebestes? – retrucou secamente. — Aquele anjo era eu... pelo menos eu era assim antes de perceber o quanto os humanos são patéticos e estúpidos, sempre pensam no bem próprio. Fui enviada em uma missão à terra a fim de testar o povo escolhido, a fim de buscar pelo menos uma alma que reflita a bondade divina e torná-la a minha protegida, a mesma que irá guiar o mundo para longe das trevas. Mas, vejas só! Em vez de alegrarem-se, de agradecerem pela salvação, estavam maltratando, torturando, molestando a menina! Foi então que meu próprio espírito começou a mudar. Antes eu era luz, mas agora só transpareço ódio, o ódio que tenho destes humanos!

- Mas você não está confundindo a pessoa? Eu tenho certeza que aquela não era a Nina...

- Lembre-te: “não importa em que século, ou em que corpo estarás”. Na carne, ninguém é o mesmo nem ontem, nem hoje e nem sempre, mas sempre será o que é no espírito, penses nisto.

- Como tem certeza?

- Ainda estás em dúvidas? Vejas então a verdade!

Mais um brilho de cegar os olhos cobriu todo o lugar e Arme teve a sensação de ver mais uma história dentro de sua cabeça. Desta vez ela viu tudo sobre a Nina: o seu nascimento, os seus casos estranhos, a sua prisão e a sua fuga. Recebera estas informações tão rapidamente que sua cabeça parecia girar. Agora ela entendia porque haviam a prendido, porque haviam molestado tanto dela e que ela era inocente. E mais, soube quem era a pessoa que estava por trás disso tudo, quem estava tão determinada em proteger a garota o tempo todo.

- Então é você! – exclamou Arme, após voltar a si. – Você é quem esteve protegendo a Nina todo o instante!

- Sim, me alegro em saber que finalmente chegaste a esta conclusão. Mas não posso deixar a minha protegida exposta a esse inferno por mais um minuto. Hoje a tarde será o ultimato: será o dia em que ela será executada por vocês. Até lá deixarei que vocês humanos decidam se pretendem matá-la ou não. Se não a matarem, tudo bem, mas se tentarem a outra alternativa, será o fim.

- Mas por que está me mostrando isso tudo? A Nina será executada hoje?

- Estou mostrando-te tudo, pois creio eu que tu sejas a única que podes me escutar, e você e seus amigos são os únicos que podem intervir diante desta situação. Portanto, para que entendas o terrível mal que está por vir a sua raça, mostrar-te-ei... mostrar-te-ei o teu futuro – e dizendo isto, a sombra foi caminhando lentamente pela direção oposta.

- Ei, espere! Eu tenho mais perguntas pra te fazer! Ah...

Mas novamente um jorro luminoso emergiu por toda a imensidão vazia e Arme sentiu seus pés abandonarem as águas. No momento seguinte em que a claridade sumira, ela se viu em outro cenário: estava em Altegria, mas só havia uma diferença; o local estava todo destruído. As ruas estavam desertas e cobertas de escombros, os prédios, aparentemente recém demolidos, estavam crepitando em chamas. Por onde olhava não conseguia encontrar nenhuma alma viva sequer. Tremendo compulsivamente, Arme seguiu pelo que sobrara do lugar. Após minutos caminhado, não conseguiu encontrar nada além de ruínas. Até que, saltando com um susto, a garota localiza Elesis e Ronan inconscientes no chão.

- Elesis, Ronan!

Correndo ao encontro dos amigos, Arme se abaixa para examiná-los. Elesis tinham vários cortes fatais pelo corpo e Ronan tinham um grande hematoma na cabeça manchada de sangue. Consultando a pulsação dos dois percebeu que estavam mortos. Sem se conter, Arme começou a soluçar com brusquidão e grandes lágrimas escorreram pelo seu rosto. Virando-se instintivamente, encontrou o corpo de Ryan e Amy.

Era uma infelicidade grande demais para agüentar. Seus amigos mortos era algo quase impensável, não podia estar acontecendo. Agora tinham que buscar pelos outros. Lass, Jin e Lire deviam estar em algum lugar por ali. Tomando-se de um impulso, Arme deixou os corpos dos companheiros e saiu correndo pela sua busca, o som de seus passos ecoando pelo silêncio. Quase cega pelas lágrimas em seus olhos, tropeçou acidentalmente em uma pedra no meio do caminho, e, gemendo de dor, viu a um canto entre os escombros o corpo de Jin e Lire, e mais à frente o de Lass.

Arme permaneceu sentada, incrédula. Entretanto, pensou consigo mesma: “se isso for realmente uma visão de um futuro próximo, então eu deveria estar neste futuro também! O que será que teria acontecido comigo? Será que eu também teria... morrido?”

Arme levantou-se decidida de onde estava e começou a vasculhar os arredores a procura de seu “eu” do futuro, até que, não muito longe dali, encontrou uma mão de uma pessoa sobressaindo-se dos destroços. Removendo os destroços a sua volta, pulou de susto novamente: dessa vez encontrou ela mesma, o seu “eu” do futuro, mas era apenas o seu corpo morto, manchado de sangue.

- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO!!!

- Arme, o que está acontecendo?

Ouviu-se um estrondo por perto e Arme notou que havia despertado do sonho e estava de volta ao seu quarto. Lembrando-se do que acabara de presenciar, ela se encolheu e desatou a chorar em um grande desespero. Ronan arrombou a porta do aposento e todos os outros entraram no quarto espantados.

- Arme, o que houve...? – perguntou Lire, extremamente preocupada.

- Nós... nós temos que parar a execução da Nina, e rápido! – pediu ela em voz alta, em meio aos soluços. – Antes que seja tarde demais!