Nightwalker
1 Capítulo 1 - \"O caminhante Noturno\"
Sexta, 19 de Julho de 2007, 00:37 min.
Delta Hotel, North Beach
Cidade de San Francisco, Califórnia.
Uma revoada de pombos passa diante dos olhos injetados de sangue de Patrick Nagatomi levantando um odor acre de fezes, penas e asfalto. Erguendo o olhar para o céu noturno ele recorda um filme de um certo diretor chinês no qual o sugestivo título o lembra de seu atual intento para com o infeliz fugitivo que se esgueira pelas sombras do telhado deste antigo hotel: “Bala na cabeça”. Ele ri.
Cuspindo um naco de detrito de parede misturado com sangue coagulado, ele quase se esquece que, por um breve instante, foi dado como morto debaixo de algumas dezenas de destroços em um dos apartamentos nos arredores do bairro. Qual não deve ter sido a surpresa de seus agressores quando foram surpreendidos pelo “falecido” enquanto estes se livravam das últimas evidências da sua malfadada “Operação Descarte”. Uma manobra de tamanha escala, envolvendo tantos interesses e, principalmente, tantos dedos gananciosos e desconfiados não poderia ser, nada mais nada menos, do que o prenúncio de uma inevitável “embolia” no fluxo de poderes do submundo da cidade. A cidade perdeu suas defesas naturais há anos. Só o que resta são as chagas, as doenças incuráveis que se alimentam das vítimas do sistema e os seus habituais parasitas.
Patrick se dá conta que andou por tempo demais entre estas formas de vida e agradece ao destino por ter recebido a oportunidade de, finalmente, atuar sob a égide de sua verdadeira natureza. A natureza voraz de um predador.
À sua volta, a cidade espreita como uma selva corrompida repleta de uivos de veículos motorizados e correntezas de luzes artificiais. Ao longe, com a proximidade do centro, divisa-se a ostentação da ‘Transamerica Pyramid’ erguendo-se em direção ao nebuloso céu noturno tal qual um monumento dedicado a um ‘deus pagão’ moderno. Mas não há nada de belo ou tranqüilizante nesta paisagem. Apenas a expectativa de morte. E assim como um vendaval macabro, o assassino de trajes negros e esfarrapados retorna à sua costumeira posição como o mercador de almas do submundo na selva de homens. O “Caminhante Noturno”. Patrick sente que terá saudades deste epíteto.
O projétil de chumbo que perfurou seu peito, quase trespassando-o há cerca de dois minutos, ainda se encontra quente. E o engenho que o disparou, uma Beretta de fabricação italiana; recuo curto, supressor de ruídos, carregador estendido e quebra-chamas para disparos noturnos, encontra-se em sua posse desde que o seu portador, – um dos homens enviados para terminar o serviço que a bomba oculta no pequeno cômodo não teria, inexplicavelmente, dado cabo de sua vida, fora eliminado impiedosamente.
– Uma arma propícia para assassinos de aluguel: elimina suas vítimas com precisão, silenciosa e invisivelmente – pensa consigo mesmo enquanto aperta ansiosamente a empunhadura da arma. – Não há coisa mais desagradável para um assassino do que estar do outro lado do gatilho.
A carga de 9mm fez um belo estrago à média distância do tórax de Patrick, mas o que o seu agressor não sabia era que o coração do jovem nipo-americano não poderia ser parado. Nem mesmo por uma arma de calibre maior... pois este já se encontrara MORTO HÁ ANOS.
Neste exato momento, ele já podia sentir a sua carne amortecida se contorcendo para expulsar o indesejável corpo metálico.
Patrick baixa o olhar para examinar o carregador da pistola. Para sua surpresa, ele nota que há um grande pedaço de vidro encravado em seu antebraço. Arrancando-o bruscamente ele quase agradece à divina providência (ou o que quer que seja responsável por sua atual condição) por quase não sentir a profunda laceração em seu membro.
Subitamente, uma voz rouca e borbulhante se faz ouvir a poucos metros após um ímpeto de tosse.
– sabe aquelas horas em que você se vê descabelando-se por conta de um molho de chaves que você não consegue encontrar de jeito nenhum, não importa o quanto você perscrute sua casa, garagem, jardim... – inquire o homem de terno cinza escuro esparramado sobre uma crescente poça de sangue. – ... e quando você menos espera, as malditas chaves estavam lá, pertinho, bem debaixo das tuas fuças... como se zombasse da tua cara feito um moleque safado que acabou de cagar na tua cabeça? – conclui enquanto tenta reerguer-se apoiando um dos braços no parapeito.
Olhando de soslaio para os flancos, Patrick apenas avança cautelosamente. Seus sentidos aguçados já captaram as sirenes ao longe e rapidamente conclui que já não há mais tempo para arrancar a verdade em detalhes deste saco de carne.
– Pois é. Eu simplesmente odeio ser feito de trouxa. – O homem dispara sua pistola em direção ao seu algoz, mas tudo o que consegue acertar é o chão a poucos metros de distância. Sua arma, tão familiar quanto os dedos que a seguram, parece pesar uma tonelada e o simples apertar do gatilho faz com que todos os tendões do antebraço queimem de dor. Mas Alessandro Vicenzzo se recusa a demonstrar sua agonia.
– O tempo inteiro... eu o tive ao meu lado... – o homem troca o pente de sua arma, com certa dificuldade. – E você, seu desgraçado, esteve nos usando. Por todo esse maldito tempo... conquistou o coração e a alma de nossa organização. Apenas para se beneficiar com seus malditos métodos de ação e “horários de atividade excêntricos”.
Patrick se detêm por um instante. Por um segundo apenas ele se vê, mais uma vez, sendo arrastado por Vicenzzo e sua corja para mais uma noite de diversão em um dos bordéis de luxo patrocinados por seu antigo empregador, Giancarlo Andreoli. O grande “Capo” do norte da Califórnia... mas que agora não passa de um grande “embrulho sangrento” pronto para ser entregue à equipe forense da polícia local.
Mas Alessandro Vicenzzo, o chefe da segurança das operações locais de Andreoli era um homem bem diferente de toda aquela laia. Ele valorizava o sabor de uma boa caçada; e não desperdiçava o talento inato de novos “recrutas”. Vicenzzo não era um assassino covarde como a grande maioria que seu patrão empregava aos borbotões sempre que as coisas se agitavam além do “normal” naquelas paragens. Preferia conhecer tanto as suas vítimas quanto os seus aliados; o que não parecia ser uma boa ideia, a princípio, para alguém na atual condição de Patrick.
E, mais cedo ou mais tarde, ele sabia que tudo o que ocultara estes anos todos estouraria, desagradavelmente, como um grande tumor à mostra.
– Os homens da lei estarão aqui em menos de cinco minutos, Vic. – alerta Patrick não muito convicto da inclinação de seu ex-colega em ouvir a voz do bom-senso.
– E por isso você acha que eu devo facilitar as coisas pra você, não? Você acha que, só porque o nosso chefe está “vazando” sangue, neste exato momento, nos braços da piranha da mulher dele o meu trabalho agora não tem mais nenhum significado? – o homem se ergue guinchando ruidosamente enquanto expira todo o ar dos pulmões em um último esforço para segurar a arma com as duas mãos em direção ao rosto do assassino à sua frente – Eu não estou acabado ainda seu bastardo filho de uma puta...
– Está tentando justificar sua vendeta pessoal... só isso. Você irritou muita gente importante na cidade. Gente perigosa... e vai ter que responder por isso. – Patrick volta a avançar, só que, desta vez, assumindo uma postura se não amigável, um pouco menos ofensiva.
– É... eu irritei, não foi? – o moribundo homem sorri – Eu sei que vou pagar caro por isso. Vou ter que responder pelos meus atos... mas não pra você.
– E você vai fazer o quê, Vic? Me matar? Seis homens tentaram me enterrar esta noite... seis deles e um artefato explosivo bem debaixo da minha escrivaninha.
Nesse instante, Vicenzzo nota, estarrecido, as pulseiras das algemas arrebentadas ainda presas aos pulsos de Patrick. A confusão toma conta de sua mente. Não havia mais ninguém naquele apartamento e o japonês estava desacordado devido à tremenda surra que ele e mais dois homens o aplicara há duas horas no beco.
– Quem o ajudou a sair de lá? Responda... você não poderia ter se livrado da explosão sozinho, das algemas, e muito menos teria se livrado dos meus homens sem reforço.
Patrick hesita em seu avanço e, ao invés de retomar sua ameaça inquisitória, o jovem apenas dá meia-volta sobre o calcanhar, olha para o alto... e começa a gargalhar.
– Qual é a graça seu porco nojento? – esbraveja Vicenzzo em um arroubo de fúria vingativa contra mais esta insolência – Acha mesmo que vai se safar depois de ter arruinado mais da metade dos negócios da organização na cidade? Depois de ter manchado a reputação de toda uma operação que vêm sendo levado a cabo há anos seu idiota? – nesse instante o homem volta a cair de joelhos com um esgar no rosto a denotar a agonia que sua exaltação gerara.
– Ora, Vic... por um instante... – Patrick anda em círculos como se fosse um comediante a preparar seu próximo ato – Por um instante eu achei que você fosse meu alvo. Sabe... você lembra daquele restaurante que tomamos das mãos do “Chef” Antonio Dicarli? O mesmo DiCarli que roubava carregamentos inteiros de Heroína bem debaixo das fuças de Andreoli e o babaca do seu chefe o tratava como um irmão; um membro da família do “Capo” que merecia todo o respeito, mas que nem por isso deixava de comer mais do que a sua merecida parte?
Subitamente, a confusão toma conta, mais uma vez, dos pensamentos de Vicenzzo enquanto o seu algoz acena em direção ao foco de incêndio que se desvanece com a ação dos bombeiros em um quarteirão próximo. O suor de seu rosto arde em seus olhos enquanto tenta, com alguma dificuldade, observar em detalhes o evento que se difunde em meio a centenas de reflexos que se mesclam às luzes de sirenes que projetam-se entre os prédios da vizinhança.
– Mas... do que porra você tá falando? – indaga Viccenzzo que já não consegue conter a impaciência advinda da certeza de que seu algoz está debochando de seu deplorável estado.
– O seu chefe estava a par de todo o ‘esquema’ organizado por aquele fuinha do DiCarli e sua corja de cozinheiros. Tudo o que passou por baixo daquela ponte, toda a água suja de propinas, extorsões e um sem-número de recursos utilizados para reter toda uma parte dos lucros de Andreoli por meio de supostas ações da polícia não passou despercebido pelo nosso poderoso ‘Capo’. Ao menos, não por muito tempo. Eu estive por trás da maior parte das execuções sigilosas da “Operação”. Foi de minha autoria o conveniente sumiço da carga de narcóticos que atravessava o rio camuflada de balsa de detritos... mas a eventual captura de DiCarli não estava nos planos de retomada do esquema portuário.
– Se vai tentar me convencer que está agindo em “legítima defesa”, e que não teve nada a ver com o incidente... cara, você é um pulha pior do que pensei. – Vicenzzo volta a engatilhar sua arma escorregando os dedos nervosamente, uma, duas vezes devido ao sangue que empapa por entre seus dedos – Suas malditas mãos de açougueiro foram as responsáveis pela chacina do iate. Sua assinatura estava praticamente gritando em neon naquele mezanino e você praticamente deixou suas malditas digitais sanguinolentas por toda a extensão da zona norte da cidade, seu carniceiro de merda...
Patrick se põe de cócoras diante do homem fazendo com que este perceba que se encontra em uma desconfortável postura de joelhos perante seu provável carrasco. Suas mãos, trêmulas e doloridas, o lembram que o ferimento à bala o fez perder uma considerável quantidade de sangue. E, antes que sua mente organize as ações necessárias para efetuar uma derradeira e desesperada investida contra o pálido arauto da morte à sua frente, eis que um pequeno e relativamente pesado objeto metálico despenca e quica entre os dois adversários chamando a atenção de ambos para o chão.
– Você não pode culpar um homem por fazer o seu trabalho, Vic. E você está a par, melhor do que ninguém, daquilo que faço com grande maestria. – Patrick levanta-se lentamente e olha, sombria e melancolicamente, para algum ponto no horizonte.
– Eu sirvo a uma força maior do que aquela que move os interesses mundanos dos que se aproveitam de carcaças largadas às hienas. Eu sempre tirarei o fôlego de vida na própria fonte, independentemente dos que se debatem para controlá-lo com suas válvulas de dinheiro e poder ilusório. – Patrick abre os braços e fita Vicenzzo nos olhos como se intentasse, com esta atitude, transmitir seus pensamentos mais sombrios através do espaço que os separa.
Forçando a visão turva para o pequeno item que, à primeira vista parecia tratar-se de uma moeda, Vicenzzo nota, abismado, que o referido objeto que outrora sua mente racionalizara ter sido interceptado por um possível colete de Kevlar, se encontra coberto de sangue. Atentando para o peito do jovem asiático o desconcertado homem percebe também que vários outros disparos o acertaram em cheio e, mesmo se este se encontrasse devidamente equipado com uma proteção adequada, provavelmente o trauma de tantos impactos o poria fora de ação. Mas não há proteção alguma no tronco de Patrick. Não há sinal de perfurações profundas, exceto por aquela donde teria caído o projétil para o qual atentara há instantes. E não há qualquer sinal, a não ser pequenas pontuações vermelhas em sua camisa de seda branca, de qualquer hemorragia proveniente daqueles supostos ferimentos.
– Mas... mas o quê, em nome da misericórdia divina, é você seu maldito aborto da natureza? – grita Vicenzzo.
Patrick joga sua arma como se fosse a ponta de um cigarro barato e se volta para a escada de incêndio que se encontra a poucos metros de seu ex-empregador.
– Vamos combinar desta forma, meu velho. Você não me pergunta nada... e eu não serei forçado a mentir pra você. Você vislumbrou, por um mero acaso do destino, um mundo muito além da sua limitada compreensão. Não ouse me seguir. Esqueça que uma vez confrontou-me e talvez faça valer a minha decisão de deixá-lo para trás pra ver mais um nascer do Sol.
* * *
Fale com o autor