Nightmares Of Glass
2 Teoricamente, eu a odeio.
Notas iniciais
A segunda-feira não demorou a chegar.
O final de semana fora rápido e tedioso para Annie, completamente normal, embora o acontecimento do espelho a tivesse deixado meio perturbada e agora ela evitasse olhar para o presente que Rose Leonhardt lhe mandara. Annie pensara até em cobrir o espelho com algum tecido, mas disse a si mesma que estava sendo paranoica: aquilo que vira no sábado fora apenas sua imaginação.
No entanto, ela não se permitia acreditar totalmente nisso.
Arrumou-se como sempre para ir à escola: vestiu uma camiseta preta qualquer, jeans brancos, coturnos e um casaco de frio cinzento com capuz. Aquela era uma manhã chuvosa, o vento era gélido e o ar estava carregado de umidade. Saiu de casa com sua mochila preta e distraidamente foi observando o asfalto e as calçadas molhados pela chuva e cheios de folhas que haviam caído das árvores.
Durante o caminho para a escola, Annie avistou uma ave grande e negra, de olhos avermelhados e um bico pontudo que brilhava como uma lâmina. Um corvo. Ele estava empoleirado num galho alto de uma árvore morta, sem folha alguma. A árvore era grande e tinha um tom marrom acinzentado.
Annie parou de encarar o animal e continuou seu caminho, mas sentia-se incomodada. Seu pai costumava dizer que corvos eram mau agouro. Não que Annie acreditasse nesse tipo de coisa, mas já havia passado por uma situação meio sinistra recentemente, e passar por duas já era suspeito.
Assim que avistou sua escola, alguém deu uma cotovelada repentina em Annie.
–E aí, Tucano! –Disse uma conhecida e irritante voz. Sem ânimo algum, a Leonhardt virou o rosto para a pessoa. Detestava quando comentavam sobre seu nariz.
–O que você quer, Hitch? –Perguntou Annie num tom frio.
–Ai! –Hitch fingiu estar ofendida. –Não parece muito feliz em me ver, hein? Que foi? Caiu da cama hoje?
–Por que exatamente eu deveria estar feliz em te ver? –Disse Annie, voltando a andar em direção ao prédio escolar, seguida pela irritante colega de classe.
–Como assim? Todos ficam felizes em me ver, Tucano!
Apenas ignore-a, Annie disse a si mesma. Se Hitch tinha um cérebro, ele com certeza estava em desuso, então tanto discutir quanto se irritar com aquela garota eram comportamentos inúteis. Assim que chegaram à entrada da escola, Hitch desistiu e foi atrás de outra vítima para atormentar.
Annie chegou à sala de aula e sentou-se ao lado de Mina, a garota que era o sinônimo mais próximo de uma amizade que ela tinha.
–Ei, Annie... –Murmurou Mina, corada. –Você fez a lição de física? Eu me esqueci...
–Fiz. –Annie olhou para a menina de cabelos negros e franziu a testa. –Por que você está vermelha?
O rosto de Mina ficou mais corado ainda. Ela parecia completamente sem graça e envergonhada, tanto que suas mãos até tremiam levemente. Apontou para o caderno roxo em sua mesa.
–Você pode me emprestar seu caderno para que eu copie a lição? –Mina murmurou timidamente, olhando para Annie de canto.
–Pegue...
–Obrigada. –Disse Mina, puxando o caderno preto de Annie para cima de sua mesa e colocando-o ao lado do seu. Começou a copiar concentrada, sem tirar os olhos das folhas de papel.
Annie não entendeu o porquê do nervosismo de Mina. Não era a primeira e com certeza não seria a última vez que a garota pegava suas respostas e as copiava antes da aula começar. A loura ficou observando Mina com o canto dos olhos, tentando decifrar o que estava acontecendo, mas como não concluiu nada, começou a olhar para a classe em volta.
Era uma segunda-feira comum, mas como o dia estava frio, os alunos estavam com mais sono ainda. Eren Jaeger praticamente dormia em cima de seus cadernos, enquanto Armin Arlert o cutucava no rosto, tentando despertá-lo. Ymir puxava Christa para perto de si enquanto Sasha tentava roubar os biscoitos da mochila de Connie, que não percebia nada. Hanna e Franz trocavam carícias e Marco servia de vela próximo a eles. Jean estava dormindo.
Reiner e Bertholdt também estavam sonolentos, sentados do outro lado da sala.
O resto da sala também fazia o que costumava fazer todo dia, porém com um ar mais preguiçoso que o normal.
Entediada, Annie encarou a porta. No instante seguinte, Mikasa Ackerman entrou carreando sua mochila. Seus cabelos estavam um pouco mais compridos e a franja quase cobria um de seus olhos. Parecia ter acabado de correr, a julgar pelos fios negros bagunçados.
A asiática acabou encontrando o olhar de Annie e elas se encararam por exatamente um segundo. Annie foi a primeira a desviar os olhos e voltou a observar Mina, como se vê-la copiado sua lição fosse interessante.
Mikasa odiava Annie e vice-versa. Teoricamente.
A Leonhardt sabia que a Ackerman não ia com a sua cara desde o dia em que Eren, o irmão adotivo de Mikasa, escolhera fazer seu trabalho de física com Annie ao invés de tê-la escolhido como parceira. Mikasa era simplesmente obcecada por aquele garoto; pelo menos era assim que Annie via o sentimento da asiática para com o meio-irmão. Era irritante. Até parece que alguém da idade de Eren não podia fazer suas próprias escolhas; como se ele precisasse de uma babá idiota o tempo inteiro.
O trabalho já havia sido entregue há uma semana e Mikasa ainda não tinha parado de lançar olhares de antipatia a Annie, então talvez o rancor fosse permanente. De qualquer forma, não era como se a loura ligasse.
Quando o professor de história, Levi, entrou na sala de aula, todos os alunos pararam de conversar e endireitaram suas posturas. Até Sasha parou de tentar roubar biscoitos. Ninguém desrespeitava aquele professor, porque todo mundo tinha amor à própria vida.
–Bom dia, pirralhos. –Falou o professor com sua gentileza natural. –Peguem logo seus cadernos e me entreguem, quero conferir quem fez essa porcaria de atividade. –O Levi olhou diretamente para Mina, que copiava a lição de Annie. –Senhorita Mina Carolina, pode recolher os cadernos para mim, por favor?
Annie suspirou. É claro que não havia dado o tempo suficiente para que Mina copiasse a atividade toda, e Levi sabia disso. É claro que ele havia percebido o que ela estava fazendo.
Com o rosto muito vermelho, Mina começou a recolher os cadernos dos alunos.
Assim que ela retornou ao seu lugar, Levi disse:
–Darei uma olhada nesses cadernos, mas antes vou informá-los que estou passando um trabalho em dupla para ser entregue na semana que vem. Todos serão obrigados a apresentar, e não fiquem animadinhos, pois eu mesmo separei as duplas.
Houve uma chuva de murmúrios irritados, mas Levi simplesmente os ignorou.
Ali havia três coisas que Annie odiava: (A) apresentar um trabalho para o professor Levi, que era bastante rígido; (B) apresentar um trabalho em si; e (C) apresentar uma droga de trabalho com um aluno escolhido pelo professor. Com certeza ela não daria a sorte de ficar com Reiner, Bertholdt ou Mina.
O professor foi escrevendo as equipes no quadro. Mina ficara com Hanna, Reiner com Jean, e Bertholdt com Armin. Annie já esperava por algo assim.
Mas ela não esperava ficar justamente com aquela pessoa como sua parceira.
Ao lado de seu nome, Annie leu Mikasa Ackerman.
–Droga... –Murmurou ela baixinho.
–O que foi? –Perguntou Mina.
–Nada. –Disse Annie, levemente irritada. Como se já não bastasse ter que apresentar um trabalho de história para Levi, ainda teria de prepará-lo logo com a Ackerman. A única coisa que poderia ser pior era apresentar o trabalho com Hitch.
Annie olhou de canto para trás e viu a Ackerman, que estava há umas duas mesas de distância. A garota estava inexpressiva, olhando para o quadro como se ainda não tivesse caído a ficha.
Ótimo, pensou Annie voltando a olhar para frente, agora sim a minha vida está ficando cada vez mais maravilhosa.
E ela nem imaginava o que lhe aguardava mais à frente...
Continua...
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