Nightmares Of Glass
5 Proteja-me, idiota.
Notas iniciais
Mikasa empurrou a porta de madeira da casa velha. A princípio, Annie imaginou que a porta não fosse se mover, talvez estivesse emperrada. Uma esperança vã. Ao menor toque da asiática, a porta simplesmente rangeu e abriu, pois estava frágil de um modo que até balançou e quase caiu.
Assim que Annie deu um passo para dentro daquela casa, sentiu um forte cheiro de poeira, coisas velhas e guardadas, limo e umidade. Por dentro, o lugar não era mais amigável que por fora. As paredes internas também eram de madeira velha e esverdeada, o piso branco estava cheio de manchas pretas e havia teias de aranha por tudo que é canto.
A porta de entrada dava direto para um simples corredor estreito e claustrofóbico, escuro e sem janelas. Era difícil ver o final do corredor, pois mesmo que ele não fosse muito longo, estava muito escuro para lá.
–Que merda. –Annie olhou feio para a Ackerman, que no mesmo instante voltou a se mover como um robô em direção ao final do corredor. Ainda segurando o pulso de Mikasa, a loura teve que segui-la. –Isso é tudo culpa sua.
O pior de tudo era que Annie não podia de fato culpar Mikasa. Ela obviamente não estava se movendo por vontade própria: o que, é claro, só dificultava bastante as coisas.
Annie observava nervosamente as aranhas pretas e de pernas finas movendo-se em suas teias. Não tinha medo de aranhas, mas naquele momento, os insetos horrendos pareciam querer devorá-la. Seria impressão de Annie, ou ela estaria vendo aqueles pequenos olhinhos brilhando ao vê-la...?
Esqueça, Annie ordenou a si mesma. Só vai piorar as coisas.
E a parte escura do corredor foi se aproximando...
De repente, Annie sentiu náuseas. Sem perceber direito, soltou o pulso de Mikasa, que mergulhou na escuridão, sumindo do campo do campo de visão da loura.
Aquilo por acaso era cheiro de FORMOL?
Sem conseguir evitar, Annie deu um passo para trás, chocada. Formol obviamente significava cadáveres... E cadáveres definitivamente não eram bom sinal.
No entanto, ela de repente se lembrou de Mikasa.
–ACKERMAN?! –Annie gritou, percebendo que já não segurava mais a garota pelo pulso. –Puta que pariu!
Annie tinha duas opções: correr cegamente para as sombras, correndo o risco de ser assassinada pelo que quer que estivesse ali e tornar-se um cadáver com cheiro de formol, ou então poderia simplesmente dar meia volta e correr, deixando Mikasa ali mesmo e, quem sabe, sentir até um pouco de culpa depois...
Espere um instante. Mikasa havia entrado no espelho depois de provavelmente tentar salvá-la, certo?
Não que Annie fosse alguém nobre o bastante para sentir algum dever de lealdade ou responsabilidade por aquilo. Mas ainda assim, até aquele dia ela havia achado que Mikasa a odiasse. E talvez isso não fosse totalmente verdade. De qualquer forma, Annie queria descobrir se era ou não.
E, antes que mudasse de ideia, a Leonhardt correu para a escuridão e para o cheiro de cadáveres.
Imediatamente tudo ficou claro, pois depois de uma pequena área escura, havia uma salinha com janelas. Janelas sujas e rachadas, mas ainda assim emitiam um pouco de luz arroxeada – que era a cor do céu naquele lugar bizarro.
Não havia nada além de uma cadeira naquela sala, uma cadeira em que Mikasa estava tranquilamente sentada.
Mas assim que Annie entrou no cômodo, ela imediatamente se lembrou do pesadelo que originara aquela casa.
Era apenas uma criança, talvez com sete ou oito anos. Havia ganhado de seu pai uma caixinha de músicas, em seu aniversário. De cara, não gostara muito do presente, pois a melodia era doce e enjoativa demais. Mesmo assim, forçara-se a ir dormir escutando aquela musiquinha, só para agradar ao pai. Naquela noite, tivera um pesadelo horrível ao som daquela melodia...
Um pesadelo que estava se reproduzindo agora, bem diante de seus olhos.
Uma porta que Annie nem tinha visto se fechou atrás dela. Arregalou os olhos e olhou para trás. Correu até a porta, mas como havia previsto, estava trancada.
Olhou para frente e simplesmente deu de cara com uma garota. Sua pele era pálida e esverdeada, e ela com certeza era a culpada pelo cheiro de formol daquele ambiente. Seus cabelos negros estavam oleosos e brilhavam em sua cabeça. O mais bizarro de tudo era que em seu rosto haviam espetadas inúmeras agulhas; nas pálpebras, nos lábios, no nariz, na porta do queixo...
E não parava por aí. Havia agulhas espalhadas pelo resto do corpo.
Annie não sabia bem como não havia saindo correndo ou quem sabe tido um infarto. Ficou chocada demais, assustada demais processando aquilo. Achou que seu coração tivesse parado.
E de repente escutou um baque alto, e a garota verde caiu pesadamente no chão.
Mikasa estava suada, de olhos arregalados, simplesmente com uma cadeira nos braços.
–Corre! –Berrou ela, jogando a cadeira em cima do cadáver e pulando por cima do corpo. Puxou Annie pelo ombro e tentou abrir a porta. Para ela fora fácil abri-la.
–Como você fez is-...?
Em questão de segundos, a mão podre e gelada agarrou o pescoço de Annie, puxando-a para trás. Mikasa soltou uma exclamação de surpresa.
A Leonhardt começou a lutar contra aquela coisa. Curvou o corpo para baixo e tentou derrubá-la, mas sempre que tentava tocar aquele corpo maldito, uma agulha lhe espetava. Mikasa, desesperada, pulou em cima das duas, derrubando Annie no chão e se pondo a rolar com a morta-viva no chão.
–Será que você podia feder menos?! –Berrou a Ackerman, tentando socar o rosto daquela coisa.
De repente, uma lembrança veio à mente de Annie como um flash: o canivete.
O canivete que guardara no bolso do moletom antes de entrar no espelho, que pegara por precaução temendo que algo saísse dele.
Não era bem o caso, mas era mais do que útil.
Enfiou a mão no bolso e tirou de lá o canivete afiado. A lâmina limpa brilhou, quase pedindo para ser usada.
Annie agarrou o objeto com as duas mãos, e correndo, o enfiou com uma força tremenda na cabeça da morta-viva. A coisa soltou um som que provavelmente fora um grito; o que Annie achava estranho, pois se ela já estava morta, não deveria se incomodar.
Deu um de seus poderosos chutes na cabeça daquilo, rasgando um pedaço de seus jeans com as agulhas, mas fazendo aquela coisa rolar para longe de Mikasa.
A Ackerman se levantou num salto rápido e agarrou Annie pelo braço. As duas correram o mais rápido que conseguiram para fora daquela casa mal cheirosa, e logo estavam do lado de fora, respirando um ar quase puro. Pelo menos era menos sufocante.
Annie caiu de joelhos no chão. Seus cabelos louros estavam completamente desalinhados e quase soltos, uma de suas pernas sangrava por causa das agulhas e ela já estava com uma mão ferida desde quando os corvos resolveram fazê-la em pedacinhos.
–Que... inferno! –Rosnou ela.
–Acho melhor você não ficar revoltada com a vida logo agora, vamos sair de perto dessa casa primeiro. Depois eu deixo você surtar. –Falou Mikasa, lutando para retomar seu fôlego. Seu rosto também estava meio arranhado.
Annie fez uma careta. Quem a Ackerman achava que era para falar com ela daquele jeito, como se fosse alguma criança?
Mas não estava com muita vontade de discutir agora. Simplesmente voltou a ficar de pé e começou a caminhar pelo cemitério que ficava do lado de fora da casa. Depois de alguns segundos, Mikasa a alcançou, e as duas ficaram andando em silêncio, lado-a-lado.
Quando estavam prestes a sair do cemitério, Annie parou e disse num único fôlego cansado:
–Os corvos.
Mikasa resmungou e passou uma de suas mãos no rosto. Esquecera-se completamente daqueles malditos pássaros que estavam esperando-as do lado de fora. Ela se sentou pesadamente no chão e cruzou os braços.
–Então vamos ficar aqui mesmo.
–Logo, logo outra coisa vai aparecer. –Annie disse, suspirando em seguida.
–Eu sei. E é melhor que não estejamos muito cansadas quando isso acontecer.
Annie apenas concordou e se sentou no chão, apoiando as costas numa lápide. Por alguns silenciosos minutos, ela quase parecera normal com sua típica expressão entediada. Até perceber que Mikasa a encarava.
–Algum problema, Ackerman? –A loura perguntou.
–Bem... Você está usando meu cachecol?
Annie arregalou os olhos azuis e olhou para o próprio pescoço, onde estava enrolado o cachecol vermelho. Ela nem mesmo se lembrava de ter colocado ele, mas por alguma razão seu rosto ficou um pouco corado.
–Hã... acho que sim. –Annie começou a tirar o cachecol, mas Mikasa fez um gesto com as mãos para que ela parasse. –Que foi?
–Pode usar. –Disse Mikasa. –Quando sairmos daqui você me devolve.
–Se nós sairmos daqui...
–Nós vamos sair. –Assegurou Mikasa. Ela parecia bastante cansada, embora não estivesse tão ferida.
–É... –Murmurou Annie, baixinho. –Para você voltar a ver o Eren.
–O quê?
–Hã... Esqueça.
Annie franziu a testa e encostou sua cabeça na lápide, tentando relaxar. Mas sua mente ficava se perguntando o porquê de ela ter dito aquilo. Que idiota.
Mas seria impressão sua, ou ela vira um pequeno sorriso nos lábios da Ackerman?
Fechou seus olhos com força.
Foi impressão sua, Annie. –Disse a si mesma.
Só percebeu que tinha dormido quando abriu os olhos sendo sacudida por Mikasa, que invadia inegavelmente seu limite de espaço pessoal e estava quase batendo com a testa na dela.
–Que foi? –Annie resmungou.
–Aranhas. Muitas aranhas. ENORMES.
–COMO É QUE É?!
Annie se moveu tão rapidamente que sua cabeça de fato se bateu com a da Ackerman, que caiu para trás.
–Ai, vadia!
–Vadia é sua avó!
–Vadia é a sua mãe!
–Ah, pare com isso! –Annie resmungou. –Que aranhas?!
–Que tal aquelas ali?! –Mikasa apontou para um ponto distante, próximo às árvores que antes estavam cheias de corvos. Ao invés destes, vinha pelo chão uma enorme massa de aranhas gigantes e peludas.
–Caralho. –Foi só o que Annie conseguiu dizer.
–Você tem medo de aranhas?!
–Não, não. Borboletas. Não está vendo?
–Não é um bom momento para ser irônica! Eu também odeio aranhas! Então CORRE! –Berra Mikasa, indo na frente e disparando para fora do cemitério.
–Me espere sua idiota! –Rosna Annie, indo atrás da Ackerman.
“Você realmente estava sendo muito insana ao pensar que a Mikasa fosse sua salvação, Annie!”, disse a loura a si mesma, correndo atrás da asiática.
Continua...
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