Nightmare

1 Capítulo único.


“Nos olhos de sua mente vive uma memória

Difícil de ser encontrada, cegada pela dor

E sua voz fria canta uma melodia

Ouça-a cantar, chuva gélida infernal.”

1990

Ilusão.

Imerso em seus pensamentos mais profanos ele jazia. Podia ser tão lúcido quanto insano, ou talvez apenas não tivesse consciência do seu ser, aquele que lhe dominava, que lhe manipulava. Talvez ele fosse somente mais uma incerteza naquele mundo tão pecaminoso; era apenas alguém – ou algo – sem objetivo algum para ser alcançado, sempre submetido àqueles que, agora, não mais tinham um pulsante coração.

Seu corpo tremia por inteiro. As mãos colidiam por vezes com seu pescoço, procurando alguma maneira de aquecer-se. Lutava para não cerrar as pálpebras, enquanto os olhos castanhos vasculhavam toda a extensão do quarto, vigiando, precavendo-se. Não sabia exatamente do que protegia-se, ou talvez apenas não quisesse admitir para si mesmo. Ele apenas aconchegou-se mais, postando a cabeleira ruiva entre seu peito e os joelhos, agarrando as pernas.

O pequeno menino não soube exatamente quanto tempo havia se passado, mas a lua já iluminava o céu quando, finalmente, um fraco ruído pôde ser escutado. Ele ergueu a cabeça, sentindo o coração acelerar a cada segundo que se passava, embora sua expressão fosse serena. A porta foi aberta vagarosamente, deixando um fecho de luz adentrar o ambiente do quarto.

— Seth? Está aí?

O ruivo agora fitava, de forma aliviada, a senhora cuja voz desgastada havia ressoado por todo o cômodo. As madeixas alvas estavam presas por um coque frouxo, deixando com que alguns poucos fios caíssem por seus ombros. Um sorriso caloroso delineava-se em sua face.

— Vovó Margareth — ele sibilou, mantendo uma expressão insípida no rosto. — Onde estão meus pais?

Seth podia ser ainda uma pura criança, mas sabia reconhecer um olhar de pena, que por vezes haviam sido lançados a ele, e que Margareth agora tinha nos olhos. Ela o fitou, aproximando-se do canto do quarto e sentando-se na ponta da cama.

— Já conversamos sobre isso, Seth. — a idosa não pôde impedir que sua voz, de alguma forma, saísse angustiada. — Seus pais estão em um lugar melhor agora.

Ela pegou delicadamente nas pequenas mãos do menino, sentindo um suor frio pairando sobre elas. O conduziu até a cama, e quando ele finalmente já estava deitado, foi que ela o enrolou, esperando que ele se aquecesse rapidamente. Margareth levantou-se, indo à porta, mas não antes de tatear a parede, procurando o interruptor, achando-o brevemente.

— Mas... Mas aquela pessoa disse que eles voltariam.

— Que pessoa?

A voz preocupada e com uma indiscrição embargada da velha senhora era evidente. Em meio àquela sublime escuridão, ela pensou ter ouvido um riso contido, e sabendo não ser do garoto, simplesmente ignorou aquilo, pensando ser, talvez, apenas uma leve impressão. Notou a respiração de Seth ficar mais forte, e logo concluiu que ele houvesse adormecido.

Foi com uma dor aguda e forte no peito que deixou o quarto.

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2008

Eis que ele novamente estava encurralado naquele lugar tão familiar, mas que ainda desconhecia, tendo o desprazer de tê-lo presente em si todas as noites. Ao mesmo tempo em que Seth conseguia ouvir risos de crianças, choros angustiantes também ecoavam por ali. Palavras que, de início, pareciam estar sendo apenas sussurradas em sua vaga mente, passaram a gritar. Era ensurdecedor.

Os olhos avermelhados fitaram o corredor à sua frente, escuro como breu, misterioso. Seus pés, agora descalços, obrigaram-no a olhar para baixo assim que sentiu algo molhado sob si. Algo grosso e grudento o bastante para não ser apenas água. Um murmúrio enraivecido escapou-lhe pelos lábios secos.

Um barulho pelicular fez com que o rapaz parasse imediatamente qualquer movimento; conteve sua respiração, deixando-a sair pausadamente somente instantes depois, quando tudo aquietou-se novamente.

— O que você quer?

A pergunta de Seth pairou no ar, como em todas as outras vezes em que ele a fez. Uma risada macabra ressoou, o ruivo nunca pôde identificar se vinha de uma mulher ou homem. Como em todas as ocasiões anteriores, ele somente pôs-se a cerrar as pálpebras, esperando acordar daquele pesadelo, que sempre era finalizado naquela parte.

Abriu os olhos, mas arregalou-os de imediato, não somente por perceber que continuava no mesmo local, mas ao enxergar algo, mesmo que embaçado, arrastando-se em sua direção. Pouco a pouco, as lâmpadas iluminavam o local, mesmo que de uma maneira extremamente precária.

— Quem... O quê é você? — indagou, logo que juntou força suficiente para conseguir falar.

Novamente o suor gélido acometeu seu corpo. Seth finalmente conseguiu enxergar por completo a pessoa que sempre emitia as risadas sonoras. Ele internamente se perguntou se realmente estava em mais um de seus pesadelos. Era tão real.

Era insano.

Madeixas louras, quase brancas, caíam sobre a face do que parecia ser uma mulher. Ao vê-la sorrindo, Seth pôde fitar os dentes avermelhados, algo líquido e rubro manchava boa parte de sua face pálida, completamente deformada, manchas roxas circundavam abaixo de seus olhos, e estes eram prateados, cuja pupila era inteiramente negra, e brilhava contra a fraca luz. Não havia membros inferiores, seu corpo ela finalizado no fim de sua barriga.

“Isso é apenas um pesadelo. Somente isso...”, pensava o jovem ruivo, tentando ao máximo não esboçar medo algum em sua face, embora ele recuasse para trás momentaneamente.

Um segundo depois de tal pensamento, talvez menos, os braços finos da criatura, porém grandes, agarraram-no bruscamente pelo pescoço, impedindo a passagem de ar por ali. Algo fétido entrou pelas narinas do ruivo. Ele tossiu, ofegante. Um calafrio percorreu todo o seu corpo ao notar o rosto desfigurado próximo ao seu, ainda com um sorriso inteiramente sádico no rosto.

— Aproveite seu último dia de vida, garoto. — disse-lhe, lambendo os próprios lábios de forma demorada. — O verdadeiro pesadelo lhe espera.

A escuridão voltou novamente a seus olhos.

Ao redor estava tão somente o seu habitual quarto, as cortinas esvoaçantes não podiam ser mais familiares. Seth estava, enfim, sozinho. O alivio contido em seu suspiro surpreendeu até a si mesmo.

— Quanta besteira em um simples sonho... — desdenhou, bocejando em seguida.

Descrença.

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A lua pairava no céu nublado, a rua estava quase deserta. O vento turbulento fazia com que seus cabelos ruivos se emaranhassem mais ainda, caindo-lhe por sobre a testa. Sentado sobre o velho e frio banco da praça, Seth logo se dispersou de pensamentos que acometiam-lhe quando menos os desejava.

Levou as mãos frias e pálidas ao bolso de sua calça jeans surrada, tirando de lá um maço de cigarros, acendendo um deles com o isqueiro que repousava na outra mão. O silêncio lúgubre do local o acalentava, o confortava. Era algo tão sutil, tão sem significado para alguns... Mas, ainda assim, era eterno, e isso era o quê realmente importava a Seth. O singelo som do nada.

E ele, então, notou-se estar navegando novamente em seu próprio mar de pensamentos, tão agitados quanto uma tempestade em dias chuvosos. Sentiu algo vibrando no bolso de sua calça, logo notando ser seu celular. Murmurou palavras enraivecidas antes de finalmente pegar o objeto e atendê-lo.

— Sim?

Esperou veemente que alguém logo lhe respondesse, o que não ocorreu. Erguendo uma sobrancelha, estava prestes a finalizar a tal chamada, mas ouviu uma forte respiração do outro lado da linha, fato que o deixou aborrecido; pensava ser realmente um trote. Teria desligado de imediato, contudo, uma voz, dessa vez familiar, ressoou no celular.

— Seth... Fuja.

A voz sufocada de Margareth desapareceu no momento em que o ruivo arregalou levemente os olhos. As risadas que outrora havia escutado em seu quarto voltaram a preencher-lhe os ouvidos, obrigando-o a cobri-los com ambas as mãos. Cerrou os orbes; minutos depois a intensidade com que o vento batia em sua pele havia cessado.

Somente no instante em que sentiu que a ensurdecedora voz havia interrompido-se, foi que ele abriu os olhos, novamente.

Tão surreal quanto real.

Não havia mais cigarro algum entre seus dedos, a solitária praça na qual antes estava havia desaparecido. Novamente o local que atormentava-lhe em seus mais vagos pensamentos estava ali, diante de si. As paredes mofadas eram inconfundíveis, assim como o odor. Não parecia ser algo de sua cabeça, as coisas eram tão palpáveis. Sentiu o mundo ao seu redor girar – ou talvez só estivesse tonto. O ruivo tentou caminhar, o que não pôde concluir com êxito, pois logo teve que apoiar-se na parede, cambaleante.

Estava difícil respirar.

Estava difícil pensar.

As luzes acenderam-se de imediato, clareando o extenso corredor. Os gélidos orbes de Seth vasculharam todo o local, e ao fazê-lo, eis que encontraram, adormecida no chão frio, Margareth. As madeixas prateadas da velha senhora misturavam-se ligeiramente com um líquido escarlate que permanecia em volta de sua cabeça. Sua flácida pele parecia ainda mais pálida que de costume, as pálpebras fechadas serenamente.

Seth não moveu-se.

Um calafrio percorreu todo o seu corpo, mas ele continuou parado. Não sabia ao certo o tipo de sentimento que deveria sentir ao ver tal cena. Era isso o que ele perguntava-se internamente, não encontrando nenhuma solução. Nenhuma solução plausível. Aproximou-se de sua avó, notando só então que ela não respirava. Crispou os lábios, sentindo seu corpo esquentar. Queria, covardemente falando, chorar perante a cena que observava, mas lágrimas não mais lhe enchiam os olhos.

— Você nem ao menos lembra-se de qual foi a última vez em que chorou, Seth Wardy.

O ruivo não sabia se ele mesmo havia proferido tais palavras, ou se elas apenas ressoaram em sua mente. Talvez houvesse alguém ali, perto de si, embora não sentisse presença alguma. Talvez...

O odor que vinha da idosa era entorpecente. O pescoço, Seth notou, estava aberto. Parecia ter sido rasgado por alguém — ou algo — com afiadas presas. Parte de sua roupa também estava rasgada, e ao aproximar-se ainda mais da avó, o ruivo notou que as vestes dela estavam molhadas, pesadas... Retirou por completo a parte que estava prestes à cair, tendo o desprazer de fitar algo que não o agradou muito — afinal, o que lhe agradava? -, a barriga de Margareth havia sido inteiramente aberta, mas por dentro, por algo. Seus órgãos estavam à vista, o que deixou o ruivo enjoado.

Antes que afundasse novamente em pensamentos inoportunos, pôde escutar ao longe um barulho de água sendo derrubada em algum canto dali. Não soube lhe dizer exatamente o porquê, mas algum tipo de instinto o obrigou a caminhar para o local de onde o som vinha. Seus pés o guiavam dentro daquela plena escuridão.

Havia, de fato, uma torneira ali ligada, deixando com que a água corresse por toda a extensão daquele banheiro. Seth a fechou. Somente no momento em que levantou a cabeça, percebeu um espelho ali, embaçado; limpou-o suavemente com o dedo indicador.

Encarou a si mesmo com seus orbes que ficavam indecisos entre o castanho e o vermelho. Gélidos, tristes... Baixou a cabeça, deixando as madeixas rubras grudarem em sua testa devido ao suor. Suspirou pesadamente, algo dentro de si não encaixava-se, não estava normal.

— Talvez seja pelo fato de quê você é feito de anormalidades. — um sussurro ecoou atrás do rapaz, fazendo-o erguer a cabeleira ruiva. — Surpreso em ver-me?

A mesma criatura que perturbava-lhe durante as poucas horas de sono que tinha resolveu ressurgir ali, novamente. Contudo, diferente das outras vezes, ela não exibia sorriso algum em seus lábios, embora o sangue permanecesse em sua deformada face. Seus olhos, embora sinistros, faziam com que Seth a fitasse, mesmo que isso não fosse da vontade do rapaz.

Ele sentiu uma imensa vontade de perguntar algo, mas não sabia exatamente o quê. Estava enfrentando a maré cara a cara, poderia simplesmente deixar-se ser levado pelas ondas, ou continuar navegando, lutando contra a tempestade. Questionava-se internamente se era medo aquilo que sentia em seus pesadelos; ou talvez fosse apenas a excitação por algo irreal, que o tirasse do tédio.

— O fato de ver sua avó morta lhe agrada, admita. — pronunciou o ser que estava frente a ele. — Sei disso porque sou uma parte de você. Aquela que você reprimia desde criança, aquela que você teve medo.

Por mais que tentasse, não conseguia negar aquilo. O que sentia não era mais puro. Mas também não sentia nada impuro. Não mais tinha sentimento algum dentro de si. oluçcontrando uma so perguntasv sentir ao ver tal cena. Era isso o que ele perguntasv

O ruivo arqueou uma sobrancelha e abriu a boca, mas antes que proferisse quaisquer palavras, uma forte dor pôde ser sentida em seu abdômen. Uma lâmina havia sido cravada ali por aquela coisa, que a remexia conforme a expressão do ruivo passava de indiferença à nada mais que a demonstração de dor. Ele ainda tentou golpeá-la de volta, em vão, o que o desesperou.

— Morrerá ainda hoje. — ela disse, afundando mais ainda a lâmina na barriga do rapaz.

Sangue escorregava deliberadamente por toda a extensão de sua barriga, manchando sua blusa, antes alva, agora rubra. Seth a empurrou para longe de si, deixando um sorriso sádico, quase imperceptível, delinear seus finos lábios.

— Viver eternamente é sonho de grande parte da humanidade. Eu mesmo tinha esse sonho.

— Você ainda tem esse sonho.

Um sorriso debochado escapou do ruivo. Ele jogou a cabeça para trás, levando uma das mãos às costas, permanecendo assim por poucos instantes. Aqueles olhos tristes e vazios haviam perdido a vida e seu brilho por completo.

Ensandecido, mas de uma maneira incrivelmente normal. Ou seria apenas mais um rapaz normal que havia sido tomado pela loucura? Talvez ele apenas estivesse cansado de navegar. De lutar. De viver.

— Você... Você disse que seria imortal. — disse raivosamente a criatura, jogando a lâmina contra o ruivo, e de uma maneira certeira, ela logo ficou cravada em sua garganta.

— Almas são imortais. Corpos, não. — a voz de Seth havia saído com uma dificuldade evidente.

A mão que antes permanecia atrás de si, agora mostrou-se portadora de uma arma prateada, cujos símbolos estavam ilegíveis. Não demonstrava hesitação alguma, totalmente indolente para com tudo aquilo. Se perguntava por que ainda permanecia vivo.

— Você é uma parte de mim, não é mesmo? — questionou o rapaz, mesmo que não precisasse realmente de uma resposta; tudo estava tão óbvio ali. — Caso eu passe a deixar de existir, você também desaparecerá.

Sangue jorrava com abundância da boca dela, juntamente com algo branco, parecido com espuma. A íris de seus olhos tornou-se completamente negra, assim como a pupila.Vociferando palavras desconhecidas, ela avançou na direção do ruivo, que sorriu, desdenhoso.

— Enquanto pessoas tiverem o sonho de viver eternamente, minha alma será imortal, indestrutível.

Ao término de tais palavras, eis que ele somente pôs-se a puxar o gatilho, com a arma apontada para sua boca, aberta. Com um sorriso torto nos lábios ele despediu-se daquele impuro mundo, não importando-se realmente para onde seria levado; sua imortal alma permaneceria a vagar pelo mundo, procurando um novo corpo para resguardar-se.

Na realidade, tudo aquilo não passava de uma bela fantasia. Um simples...

Pesadelo.

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