Nightmare
1 Pesadelo
Notas iniciais
Espero que gostem.
Como de costume, depois da escola dei uma passada na casa de Nicolle junto com ela. Nós começamos a ser amigas depois da morte da minha irmã mais nova. Fiquei arrasada, não comia, não saia, ficava no quarto o dia inteiro, mas aí ela apareceu e me tirou do meu estado depressivo.
Fiquei lá mais que o normal, pois ela me chamou para ver um filme de terror. Quando o filme terminou colocamos outro. Já eram nove horas da noite quando eu cheguei em casa. Minha mãe estava na cozinha e quando eu entrei ela veio direto falar comigo.
– Onde você estava? – perguntou.
– Estava na casa de Nicolle estudando.
– Da próxima vez avise, fiquei preocupada.
– Ok, mãe. Vou subir. – disse e fui para a escada que dava para o segundo andar.
– Não vai jantar?
– Comi na casa da Nicolle.
Tomei um banho e fui para cama, estava muito cansada e amanhã cedo eu tinha que ir para escola.
Deitada na cama, fiquei olhando para o teto até o sono chegar, desejava não fazer isso.
De inicio o sonho foi perfeito. Eu estava em um campo lindo cheio de flores, uma brisa lave batia em meu rosto e o sol me esquentava. O vestido que eu estava usando, um até o chão caindo em camadas negras, um espartilho e umas manguinhas de renda azul ou lilás, não sei direito, levitava aonde quer que eu ande.
Fiquei andando pelo campo até que eu vi um caminho de pedras que dava para um lago. Andei por esse caminho e quanto mais chegava perto do lago, uma névoa ia se formando. Nem liguei deveria ser por alguma coisa natural, um grande erro meu.
Cheguei ao lago e a névoa rodava ao meu redor. Quando chequei perto da agua eu me inclinei para tocas sua superfície. Uma mão vinda de dentro agarrou meu pulso e me puxou para o fundo, mas eu não senti agua, sim um vazio como se estivesse caindo em um buraco.
Quando cheguei ao chão havia um homem na minha frente. Ele usava uma blusa vermelha, uma calça preta, botas e um sobretudo preto. Seu rosto estava oculto por uma cartola, mas dava para ver que ele usava o que parecia ser uma máscara.
– Olá, Ângela. – falou o homem. – Seja bem vinda.
– Quem é você? – perguntei olhando em volta e vendo nada além de escuridão. – Onde estou?
– Eu sou Lúcifer. – Pânico se apoderou de mim quando ouvi seu nome. Ele abriu os braços e disse – E você está no inferno.
– Isso não pode ser verdade. – falei. – Isso é um sonho!
– Não, minha querida. Isso é a realidade.
Comecei a correr para o mais longe que conseguia dele, uma tentativa falha de fuga. Pude sentir que era perseguida, mas continuei correndo. Ousei olhar para trás, mas o que vi foram seres que aterrorizariam até mesmo os mais corajosos. Corpos vermelhos e pele oleosa, olhos negros e dentes afiados. Demônios. Só poderiam ser isso.
Tentei correr mais rápido e fugir dos demônios, mas acabei batendo em Lúcifer e caindo no chão. Fechei meus olhos e comecei a rezar para ver se esse pesadelo acabava de uma vez por todas. Ao som de uma gargalhada aterrorizante eu abri meus olhos e olhei para cima. Lúcifer tinha a cabeça jogada para trás e ria.
– Odeio distorcer sua mente, mas Deus não está ao seu lado. Isso é uma velha crença dilacerada.
– Isso não pode ser verdade! – exclamei me levantando e saindo correndo novamente.
Quanto mais eu corria mais sentia o fedor repugnante de alguma coisa queimando, mas eu não conseguia parar de correr. Tinha que ir o mais longe possível dele até que eu finalmente pudesse acordar.
Eu estaquei no meio da minha corrida. A minha frente tinha um precipício onde homens eram queimados. Seus gritos eram horripilantes. O que eles devem ter feito em vida para terem que passar por isso? Pensei colocando a mão na boca de horror.
– Homens como eles tem a alma tão fácil de roubar… – murmurou uma voz ao meu lado. Lúcifer estava ali olhando para baixo, para as pessoas ali queimando.
– Afaste-se de mim. Fique longe. – disse recuando. – Talvez assim esse pesadelo acabe mais rápido.
Quanto mais eu me afastava, mais eu percebia que aqueles demônios estavam se aproximando de mim e me encurralando. Dei mais passo para trás me afastando daquelas criaturas, mas não consegui tirar meus pés do chão.
Olhei para baixo e vi uma linha rubra desenhada no chão onde eu estava pisando. Antes que eu desse por mim, as criaturas infernais estavam quase em cima de mim. Pude sentir suas mãos oleosas e suas garras rasgando meu vestido e puxando meu cabelo.
Gritei o mais que conseguia. Fechei meus olhos e cai de joelhos no chão. Assim que senti suas garras longe de mim eu abri meus olhos lentamente. A minha frente, no chão, havia um revolver.
“Uma vez eu ouvi que em alguns sonhos ou pesadelos se você morrer nele ele acaba… “ lembrei-me logo do que minha amiga tinha me dito a algum tempo atrás. Sem hesitar eu peguei a arma e a segurei na minha têmpora, pronta para atirar.
Quando estava prestes a atirar a voz da minha mãe veio em minha cabeça. Uma lembrança antiga. “Suicídio é considerado pecado. Um suicida irá direto para o inferno para a punição de seu pecado.” Como eu já estou no inferno isso não fará diferença nenhuma. Fechei meus olhos com força e puxei o gatilho.
Se passaram um minuto, mas nada havia mudado, não senti a dor da bala atravessando meu crânio ou o som ensurdecedor do disparo.Nada. Absolutamente nada.
Abri meus olhos e o vi na minha frente com um sorriso em seu rosto mascarado. Sua voz se fez audível em meus ouvido.
– Você deveria saber o preço do mal. E dói saber que seu lugar é aqui, não é?
Ele segurou meus ombros e me ergueu. Não protestei de imediato por ainda não ter entendido que minha inútil tentativa de acordar não dera certo. Este pesadelo ainda não terminou.
Voltei de meu devaneio momentâneo ao sentir minha mão ser acomodada em um ombro e minha outra mão ser acolhida em uma mão que pertencia ao ultimo ser que eu gostaria de tocar. Minha cintura foi envolvida e meus pés obrigados a acompanhar a dança com o Senhor Infernal.
Senti vontade de lutar, de sair dos braços dele, mas para que? Ele irá me encontrar de qualquer jeito… Estarei presa a esse inferno até que minha consciência pare de me atormentar. É errado, mas ou mesmo tempo parece tão certo… Por que me preocupar? Todos merecem o inferno.
Minha irmã não merecia morrer, pelo menos do jeito que morreu. Uma doce criança… Muitos anos ainda para viver, muitos anos de felicidade… Todos eles interrompidos precocemente por uma alma verdadeiramente merecedora do inferno. Lembranças. Lembranças foram as únicas coisas que sobraram da minha querida irmã Lara.
“Nunca desista de lutar pelo o que é certo. Não se deixe levar pelo caminho mais fácil, pois esse será a pior escolha” Lara sempre me falava isso, mesmo tendo apenas cinco anos elas já era bem esperta. Eu acho que a estou desapontando, afinal eu estou me rendendo…
– Ninguém para chamar. Todos para temer. Seu destino está tão claro. – sussurrou em meu ouvido.
De súbito eu empurrei meu parceiro desta dança que eu acompanhava. Tentei fugir mais uma vez. Não deveria desistir de fugir. É isso que minha irmã iria querer que eu fizesse.
Lúcifer segurou meu braço fazendo com que eu ficasse de frente para ele. Tentei me soltar de suas mãos que me sujeitavam por perto.
– Lute! Não falhe! Ou você vai acabar como os outros. – gritou-me ele. – Morra! Morra de novo! Encharcada com o pecado.
Ele me jogou em uma das milhares de possas que se formavam no chão. Um líquido preto e espesso manchou minhas vestes e meus membros. Percebi que de todos os lugares onde as pessoas eram torturadas saia um pequeno canal com esse estranho líquido enegrecido. O pecado. O pecado sendo drenado de todas aquelas pessoas. Era isso a essência que me impregnava.
Levantei-me e corri novamente. Vi a alguns meros metros de distancia uma escada. Corri para ela. Talvez ela desse para um lugar melhor do que aquele em questão.
A cada passo ficava mais e mais quente. Labaredas já se formavam perto de do final da escada, disse eu sabia pois havia uma luz muito forte depois de uma curva que a escada fazia.
– ÂNGELA!
Estaquei. Essa era a voz de Lara, minha querida Lara. Mas estava tão sofrida e atormentada…
– ÂNGELA, SOCORRO!!
– LARA! – gritei já avançando para o final da escada.
Dei-me com uma parede e cai no chão. Comecei a rastejar para o som dos pedidos de Lara, mas percebi que não havia final. Esse era o final da escada, aquela parede.
Olhei para cima e fiquei paralisada. Minha irmã estava ali, junto com outras milhares de pessoas, todas elas amarradas em cruzes de cabeça para baixo sendo cortadas e dilaceradas por demônios . Mas logo que eram abertas as feridas, elas se fechavam muito lentamente, como se para o tormento não ter fim.
Levantei e olhei mais uma vez para minha irmã. Ela não mudou nada, mesmo tendo se passado sete anos desde sua morte.
Senti mãos novamente em meus ombros, retirando meu cabelo do meu pescoço. Senti uma respiração na pele sensível perto do meu ouvido, um hálito quente.
– Eu sei que você ouve a voz deles chamado de cima. – murmurou próxima ao meu ouvido. – Eu sei que podem parecer real.
– O que eu preciso fazer para você a libertar? – perguntei em um fio de voz ainda olhando minha irmã sendo torturada e a pedir ajuda. – Eu faço qualquer coisa.
– Nossas vidas são feitas de escolhas. – disse-me ele me puxando para perto de seu corpo. – Algumas sem possibilidades de recorrer…
Ao sentir seus lábios em meu pescoço tudo ficou escuro.
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Quando acordei já era de manhã. Alguns raios de sol entravam pelas frestas da cortina. Levante-me ainda me lembrando do pesadelo de acabara de ter. Ele parecia ter sido tão real.
Me arrumei para a escola e fui para as minhas aulas. Não consegui prestar muita atenção no que os professores falavam. O meu pesadelo não saia da minha cabeça.
O dia se passou rapidamente. Quando voltava para casa estava com a sensação de que alguém me observava. Ao levar meus olhos do chão dei de cara com um homem que me olhava do outro lado da rua. Ele usava uma cartola que encobria parte do seu rosto, mas assim que ele a tirou pude ver a máscara que escondia parte do seu rosto e o reconheci.
Lúcifer.
– Agora seu pesadelo ganha vida.
Sua voz chegou até a mim como um sussurro. Ao dizer essas palavras ele começou a gargalhar. Um carro passou pela rua e quando se foi Lúcifer não estava mais em lugar algum, mas sua gargalhada ainda preenchia o ar a minha volta.
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