Nickyy.
2 Final
Jaden estava sentado na cama, mexendo em seu celular, enquanto Shay e Fabi ajeitavam o cabelo ansiosas para a festa, e Nicky se olhava no espelho, refletindo sobre o último ano na escola.
— Não é doideira isso? Tá acabando, gente. Pararam pra pensar?
— Penso nisso o tempo todo — concordou Fabi. — Não vejo a hora.
— É, mas, tipo. Depois disso nossa vida vai mudar completamente, sabe… — Nicky terminava sua maquiagem, falando sem parar. — A gente não vai mais caminhar até a escola, não vai mais ter lanchinho, aquelas tias chatas que ficam monitorando a gente e tal. Tudo diferente… Faculdade, responsabilidades.
— É, isso se a gente passar no ENEM, né — falou Shay, pouco animada.
— Isso se a gente passar de ano — acrescentou Fabi, rindo. — Porque do jeito que tá, não sei não.
— Verdade. — Nicky riu. — Mas vou sentir saudade da escola.
— Também vou — Shay concordou. — Até que é divertido.
— Mas… — Nicky continuava com seu raciocínio. — Também tô animado com a faculdade! — disse, desencadeando uma série de assuntos sobre faculdade, escolha do curso, ENEM, entre tantos outros.
Jaden, como de costume, era o que menos falava.
— E você, namorado perfeito — brincou Fabi —, vai querer fazer o quê?
Ele riu.
— Bom… Casar, eu acho. — Sorriu, envergonhadíssimo. Quis ser romântico na frente das amigas e já se arrependia. Nicky, é claro, ficou animado.
— Ah, não — protestou Shay. — O Nicky fala disso o tempo todo.
E, de fato, esse era um de seus assuntos preferidos: o futuro, a família, filhos.
— Claro! — Nicky exclamou, revoltado. — Casar e ter uma família com meu namorado lindo… Tem coisa melhor?
As amigas riam dos dois.
— Romantismo demais enjoa — brincou uma delas.
— Ajuda aqui, amiga — disse Nicky pedindo a ajuda da Shay para terminar a maquiagem de arco-íris que pretendia fazer no rosto, sem, obviamente, parar de falar sobre seus planos com o futuro marido.
Entre passado e futuro, os três conversavam animados e reflexivos.
— E quanto tempo, hein, migo? — perguntou Shay, se referindo a amizade deles. Seus pais eram amigos desde antes deles nascerem, o que significa que os dois eram amigos desde sempre. Já brigaram muitas vezes, obviamente, mas nunca conseguiram ficar mais de dois dias sem se falar. Shay foi a primeira a saber sobre as dúvidas em relação a sexualidade de Nicky, que por sua vez foi o primeiro a saber sobre seu primeiro namorado, entre tantas outras primeiras vezes que os dois compartilharam. Eram totalmente confidentes e se orgulhavam da longa amizade.
— Acho que desde que éramos fetos — disse, rindo. — Ou antes disso.
Eles sorriram um para o outro, dando uma piscadinha de olho, coisa que eles sempre faziam sem nem pensar no significado. Quando o garoto que Shay gostava passava pelos corredores, eles piscavam um para o outro. Quando iam passar cola na hora da prova, piscavam. Ou até mesmo quando a professora dava aquela bronca neles. O gesto era usado nas mais diversas ocasiões, para guardar um segredo, fazer uma piada interna, etc. Mas de modo geral, certamente, era uma demonstração de carinho.
Shay terminou a maquiagem orgulhosa.
— Prontinho.
— Nossa, amor, quanto exagero — comentou Jaden, sorrindo sem jeito. Ele não gostava de interferir no jeito de Nicky se vestir, mas achava desnecessário quando ele resolvia usar roupas mais chamativas ou pintar o rosto como naquela ocasião: cheio de purpurina e cores. Nicky, por sua vez, amava; quanto mais colorido, melhor.
— Não começa, Jaden. Tô arrasando, fala sério. — Se virou para o namorado, com um largo sorriso.
— É… — Ele sorriu, com um certo brilho nos olhos, não querendo admitir que Nicky, afinal, mesmo com todo o “exagero”, estava lindo.
— Então vamos, né — disse Fabi, se aproximando da porta. — Antes que sua mãe desista de te deixar ir, Nicky — falou baixinho.
Regina, desde que Nicky a comunicou sobre a festa, foi contra sua ida. Ela não gostava nem um pouco que o filho saísse à noite e só conseguia pensar em todos os perigos, principalmente do jeito que a cidade andava violenta. Mas, conforme a idade do filho ia avançando, ficava cada vez mais difícil proibi-lo de sair. Ele entendia o lado da mãe perfeitamente, por isso mesmo evitava ao máximo sair à noite, porém uma vez ou outra ele insistia: “Mãe, pelo menos de vez em quando eu preciso me divertir”. Mesmo com medo, ela cedia, já que Nicky era um filho obediente e quase não dava trabalho nenhum, nem mesmo com as notas na escola.
— Tchau, meu filho. — Regina, com o coração apertado, abraçou o filho pouco antes deles saírem. — Eu não gosto que você saia à noite, você sabe, mas…
— Deixa o garoto se divertir, mulher — interrompeu Enofre, que estava sentado no sofá sem tirar o olho da televisão.
— Tá vendo, mãe? Até meu pai tá falando. — Nicky sorriu. — Relaxa, mãezinha. Não vou voltar tarde.
— Eu cuido dele. — Jaden sorriu para Regina, pois sabia que ela confiava bastante nele, mesmo com a pouca diferença de idade.
***
O salão predominantemente rosa e com painéis e bandeiras LGBT estava lotado naquela noite. A música agitada embalava os corpos que se remexiam animados no ritmo das batidas. As luzes coloridas, que piscavam sem parar, compunham o movimento frenético da festa. Logo depois de algumas bebidas, o grupo se separou, ficando Jaden e Nicky sozinhos para dançarem agarrados o resto da noite, mesmo com as músicas agitadas.
— Até mais, Nicky — Shay gritou no ouvido do amigo antes de sumir. — Vou ver se acho uns boys héteros pra mim — falou animada.
— Boa sorte, bitch!! — gritou de volta, piscando para ela em seguida. — Vai precisar!
A grande expectativa era o show das Drags, e Nicky, certamente, era um dos mais ansiosos. A cada Drag que passava por perto, Nicky olhava atento, perguntando se seriam elas e se o show já começaria.
— Amor — disse Jaden, puxando levemente o rosto de Nicky para perto do seu —, e em mim, você não vai prestar atenção? — perguntou, com seu sorriso arrebatador.
— Claro que sim — ele respondeu, quando, na mesma hora, começou uma música um pouco mais lenta. Nicky sorriu animado. — Parece que o universo conspira a nosso favor — ele disse, sem perceber que dissera a frase de uma das músicas de que Jaden muito gostava, “de janeiro a janeiro”.
— A consequência do destino é o amor — Jaden completou, porém sem ser ouvido, já que a música estava alta demais.
— O quê?
— Nada.
— Repete, você falou baixo.
— Eu te amo — Jaden respondeu em seu ouvido, arrancando-lhe um delicioso sorriso apaixonado, ganhando um beijo não menos apaixonado em seguida.
Depois do clima romântico, Nicky teve que correr ao banheiro, pois já tinha bebido o suficiente àquela altura.
Sentado no bar, Jaden o esperou mais pacientemente possível, pois sabia o tanto que Nicky demorava se olhando no espelho e ajeitando o cabelo. Não muito tempo depois, porém, decidiu ir ao banheiro também. Sorria sozinho ao pensar na vaidade quase exagerada do namorado, quando, de repente, sentiu uma mão em seu ombro.
— Jaden! — exclamou uma menina, animadíssima. — Tá lembrado de mim?
Ele olhou melhor e reconheceu a antiga colega de escola, com quem ficara algumas vezes antes de se assumir pra si mesmo.
— Oi… Júlia? — Ele sorriu, um pouco na dúvida.
— Pois é. Quanto tempo, hein. E aí? — ela perguntou com um largo sorriso.
— E aí… Eu tava indo no banheiro e… — Antes que ele pudesse terminar de falar, a menina lhe surpreendeu com um beijo, quase impossível de desgrudar.
Nesse mesmo momento, Nicky saiu do banheiro, dando de cara com a cena. Em poucos momentos ele se sentira tão mal quanto naquele. A sensação de brigar com Jaden e imaginar perdê-lo já era insuportável; vê-lo beijar outra pessoa foi uma verdadeira pontada. O chão parecia se abrir sob seus pés, o que lamentou não ter acontecido, pois o que ele mais desejou foi sumir dali. As lágrimas lhe vieram subitamente aos olhos, junto com um impulso em seus pés, que o fez sair depressa, o guiando através da desilusão e tristeza que lhe invadiam. Mesmo com a sensação de que desmaiaria ali mesmo, Nicky conseguiu sair pelos fundos.
A iluminação de cor alaranjada da rua completava o clima de melancolia em seu peito. Tudo parecia estar em câmera lenta, e se ele conseguisse pensar em algo, provavelmente estaria se perguntando como seu corpo conseguia o guiar daquela forma automática. Suas pernas caminhavam o mais rápido possível. Sua mão foi até o bolso pegar o celular para, quem sabe, ligar para Shay, para sua mãe, para… sabe-se lá para quem. Automaticamente seu dedo foi até o ícone do WhatsApp, mas no mesmo instante o celular apagou diante de seus olhos. Bateria descarregada. Irritado, ele continuou caminhando, enquanto as lágrimas lhe percorriam o rosto.
Desamparado, queria correr dali, fugir daquele cenário dramático e melancólico. Ouvia apenas o som de seus passos, que, de repente foram silenciados por um grito, um pedido de socorro. Assustado, tentou andar na direção da voz e, assim que virou a esquina, viu ao longe dois homens, armados com barras de ferro ou madeira, que chutavam incessantemente uma mulher caída no chão.
Com o coração disparado e instintivamente, ele saiu em disparada na direção da cena, gritando para que a soltassem com uma voz surpreendentemente grossa, que ele provavelmente estranharia se não estivesse tomado por uma onda de ódio e repúdio à agressão. Se aproximando, Nicky conseguiu identificar que a agredida era uma das Drags com quem provavelmente havia cruzado na boate.
Fora de si, ele se atirou no meio dos dois e dava-lhes socos e chutes. Os homens, que estavam vestidos de preto e com o rosto coberto, o agarraram, mudando o foco da agressão, xingando-lhe de todos os nomes possíveis enquanto riam. Assim que pôde se levantar, a Drag saiu em disparada na rua deserta em busca de ajuda.
Nicky ainda tentou lutar, mas, logo que levou uma pancada com uma das barras, desmaiou; nem isso fez com que os dois, embebidos de ódio, parassem com a agressão.
***
— Você tá maluca?! — exclamou Jaden, estarrecido, enquanto empurrava a menina que acabara de beijá-lo.
Ela sorria, satisfeita.
— Não gostou? — Se agarrou ao pescoço dele, mas logo foi empurrada novamente.
— Me solta. Eu tenho namorado e estou esperando ele.
— Você? — perguntou com surpresa. — Namorado? — Riu. — Quem diria!
Jaden ficou um tanto envergonhado com a risada de Júlia. Sem nem conseguir pensar no que dizer, apareceu um rapaz, que a puxou para dançar. Antes de ir, ela ainda gritou:
— Desculpa aí. — Mesmo rindo, ela estava visivelmente constrangida.
Ainda consternado, ele continuou esperando por Nicky. Conforme os segundos iam passando, a preocupação surgia. Tudo bem que ele costumava demorar ajeitando o cabelo, a roupa, etc., mas nem tanto assim. Não muito tempo depois, foi procurá-lo.
Seu coração se apertou quando ele viu que o namorado não estava no banheiro, no bar, e aparentemente em nenhum canto da boate. Depois de mandar várias mensagens em seu celular, Jaden contatou Shay, na esperança de eles estarem juntos. Qual não foi o desespero de ambos ao se darem conta de que Nicky não estava em lugar algum e nem atendia às ligações.
De repente, Shay sentiu seu celular vibrar; era Lívia. Ao ler a mensagem ela sentiu uma súbita falta de ar, que durou alguns segundos. Seu coração palpitava.
“Shay, uma Drag foi agredida e parece que um rapaz tá morto… tem um montão de gente aqui fora já, eu n sei direito”
Não poderia ser ele. Não era ele. Olhando em volta, ela notou uma agitação por partes das pessoas que estavam ali, todos pareciam falar sobre o mesmo assunto, mesmo com a música ainda tocando. Jaden a olhava fixamente esperando alguma reação. Ela refletia sobre o que dizer a ele, e preferiu apenas lhe mostrar a mensagem.
Jaden leu e releu aquelas palavras. Olhou para Shay, incrédulo. Sentiu uma sensação terrível dentro de si, e, súbito, abriu caminho entre as pessoas e saiu dali, sem olhar pra trás. Queria ter certeza do ocorrido, queria encontrar logo seu namorado, abraçá-lo e saber que tudo estava bem. Com o coração apertado, andou o mais rápido que pôde, ainda olhando em volta na esperança de ver Nicky em um daqueles tantos rostos. A cada rosto que não reconhecia parecia sentir uma facada no estômago. Pensava no beijo repentino e desesperado daquela menina, de quem mal se lembrava. “E se ele viu?”, se perguntava, enquanto andava na mesma direção que algumas pessoas, seguido por Shay, que quase precisou correr para alcançá-lo.
Não demorou muito para que vissem a aglomeração. Os dois pararam de repente, lado a lado. Shay também olhava em volta, procurando pelo melhor amigo. Mas, por algum motivo, ambos pareciam não ter muita esperança.
Logo em seguida, Jaden se infiltrou entre as pessoas, empurrando todos com pressa, para ter certeza de que não era Nicky que estaria no meio. Não poderia ser….
Mas era. Diante de Jaden estava a única pessoa a quem ele amou, e ainda amava; seu primeiro e único namorado, aquele com quem ele sonhava em casar, estava agora estirado na calçada, frio como o cimento da noite, pálido como nunca.
O tempo parou.
O chão pareceu se abrir lentamente em baixo de seus pés, seu peito doía, sua cabeça girava. Antes que ele pudesse encaixar as coisas em sua mente, sentiu, de repente, alguém caindo ao seu lado, segurando em sua calça. Era Shay, que, com a mão na barriga, chorava, gritava em silêncio. Sua dor era visível. Ela olhava para Nicky, mas não o via; em sua cabeça apenas o sorriso do seu melhor amigo, sua alegria, a piscadinha que ele dava para ela. Algo parecia ter se aberto dentro de si; havia vozes ao redor, mas Shay não ouvia nada. Não sentia nada, àquela altura estava entorpecida, incapaz de perceber qualquer coisa. Queria gritar, mas sua voz se perdia na imensidão da sua dor.
Em vão, Jaden tentou levantá-la. Puxava-a para cima, mas seu corpo parecia querer estar colado ao chão, como se a gravidade a puxasse. As lágrimas corriam com pressa pelo rosto de Jaden, que quase não esboçava nenhuma expressão, mesmo estando explodindo por dentro.
Ao redor, pessoas assustadas, um burburinho sem fim. Para os dois, apenas Nicky e a dor estavam ali presentes. O mundo parecia ter parado de girar.
***
Perder um filho é com certeza uma das piores dores da vida. D. Regina sempre fora uma mãe dedicada, amava Nicky, óbvio, ele era seu chão, uma das razões de sua vida. Ela ainda se lembrava do dia em que ele nascera, o sol estava lindo, parecia querer dar as boas-vindas. O sorriso dele era tão radiante, aquela felicidade que o acompanhava sempre, e irradiava para todos. Enofre queria parecer durão, mas não resistia às palhaçadas do filho; o amava muito, apesar de ter dito isso poucas vezes. Ah, se o tempo voltasse.
No dia em que Nicky saíra, sua mãe havia sentido o coração apertado, aqueles presságios que só as mães têm. Queria agarrar o filho e implorar para que ele não saísse, mas não pôde. Se arrependimento matasse… Só de pensar que não veria seu filho novamente, desejou juntar-se a ele. Sentiu culpa por tê-lo deixado sair. Sentiu raiva pela impunidade. Os dois homens fugiram, estavam mascarados, dificilmente seriam encontrados. A cada notícia de violência, e sobretudo, relacionada a homofobia, Regina estremecia. E agora, seu filho, seu único filho fora a vítima.
Enofre nunca chorou tanto na vida. Dessa vez, não tentou esconder os sentimentos, esmurrava as paredes, não queria acreditar. Como um simples telefonema poderia carregar tamanho sofrimento? A própria Regina havia atendido. Seu peito pareceu se abrir naquele instante. Desabou no chão, desabou em lágrimas. O casal se abraçava, sabia que sentiam a mesma dor. E a dor da perda tende a ser insuportável, inimaginável, impossível, impassível. Por que ele?
Nicky ainda tinha tanto a viver… Tantos sonhos. Mas era tarde. Nada o traria de volta. Ficaria, agora, apenas sua memória, que jamais seria apagada. Seus pais, sua família, os amigos, o namorado. Nenhum deles deixaria aquela alegria personificada em gente ser esquecida. Nicky era puro amor; ria, brincava e amava a todos a sua volta. Morreu como herói. Na melhor das intenções, ou melhor, sem intenção nenhuma, já que não pensara, acreditara que pararia o ódio alheio; mas o ódio contra a diferença pode ser mais forte que tudo. Às vezes, mais forte que a vida.
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