Nicht Weinen
1 Capítulo 1: Immer Hier Sein.
Estava chovendo naquele dia, assim como em muitos outros que se seguiram. E talvez por isso aquilo tenha acontecido, o acidente. A morte deles, dos nossos pais.
Agora tanto eu quanto meu irmão pequeno estávamos de pé, vestindo sérios ternos pretos que eu tanto odiava, vendo lentamente os caixões serem abaixados até chegarem ao fundo de cada buraco, ainda chovendo. Todos ao nosso redor choravam, alguns familiares, bem poucos, outros eram amigos e ainda, curiosos que talvez tivessem achado aquele enterro simples ou extravagante demais.
Mas eu não chorava. Em toda a minha adolescência e começo da fase adulta, eu tinha uma séria e inabalável convicção que eu era incrível. Não, não era engraçado, era algo sério, talvez uma autodefesa contra todos os acontecimentos ruins, contra todos o maus fatos da vida.
Eu não chorava porque eu que deveria manter o resto da família, eu e meu irmão caçula, juntos, fortes, independentes. Eu teria que me tornar o mais novo mártir daquela família ou o que restara dela. Porque eu era forte demais para derramar uma lágrima sequer, mesmo no enterro deles.
Uma hora depois estávamos voltando para a casa que agora por direito era somente minha. Ludwig estava do meu lado, em silêncio, sério, os olhos vermelhos. Eu sabia que ele tinha chorado e que ele não gostava disso, e pela primeira vez não fiz nenhuma brincadeira, nada, apenas também fiquei em silêncio enquanto a chuva embaçava o vidro.
O motorista parou minutos depois e ambos saímos, entrando na mansão, ou casa, ou lar, o que quer que fosse, eu não me importava. Entramos e fechamos a porta, apenas nós agora ali. Todos os funcionários e empregadas tinham sido dispensados por um tempo indeterminado, o suficiente para eu pensar melhor se deveria mantê-los ou não.
Não que eu não pudesse arcar com tanta responsabilidade, eu podia, claro que podia, eu podia com tudo. Minha preocupação estava em outro lugar.
-Vou dormir.-Ludwig disse, de costas para mim enquanto ia em direção da escada em espiral que levava até o segundo andar. Aquele terno ficava muito sério em seu corpo diminuto, jovem, apenas com 12 anos ainda.
-Está cedo, West. Não quer ver TV? Comer alguma coisa? Vamos, eu cozinho alguma coisa pra você, prometo.-Eu disse, sorrindo o mais animadamente possível.
-Não, vou dormir.-Respondeu, subindo as escadas e desaparecendo no segundo andar enquanto eu o seguia com o olhar.
Meu irmão mais novo nunca fora muito apegado a ninguém... Exceto nossos pais. Nem eu, o primeiro, criado sozinho até meus 12 anos, quando ele nasceu, era tão apegado assim. Quem sabe depois de viver 6 anos fora noutro país eu tivesse me afastado, cortado as relações que realmente deveriam doer nessas horas.
E quem sabe por este motivo eu e ele, meu irmão, não fôssemos muito próximos.
Fui até a cozinha e abri a geladeira, pegando uma latinha de cerveja e a abrindo, bebendo direto da boca em seguida, gole por gole até que secou. Pensei em ligar para alguém, quem sabe para o Francis, para o Antonio, para alguém, mas para dizer o quê?
“Hey, meus pais morreram, mas e aí? Como é que você tá, cara?”. Não, isso só me valeria discursos e mais discursos de pena, e os outros sentindo pena de mim era a última coisa que eu queria.
Peguei mais uma latinha na geladeira, tomando mais lentamente desta vez. Eu não estava chateado, nem triste, nem preocupado comigo, na verdade, eu não sabia o que sentia. Sei lá, talvez houvesse sido irresponsabilidade demais dos meus genitores terem dirigido no meio da maior chuva em dez anos.
É, talvez eu estivesse com raiva, com mais raiva do que tristeza, por que como eles poderiam ter feito aquilo, não comigo, mas com meu irmão? Eu não, eu me viro só, nunca cheguei a realmente precisar de alguém, mas Ludwig... West... Meu único bruder... Não sei.
Ele não demonstra, na verdade, nunca o vi falando de seus sentimentos ou sobre si, exceto com nossos pais, e mesmo que tivesse tentado não chorar, chorou, e eu tinha certeza que naquele exato momento estava sofrendo bem mais que eu.
Joguei a lata de cerveja, agora vazia, dentro do lixo e fui até as escadas para ir até meu quarto, querendo tirar logo aquele terno que pinicava nos braços.
O meu quarto é o último do extenso e largo corredor, repleto de quartos, mas o do meu irmão e o dos meus pais ficavam ao lado do meu, e por isso, quando passei pelo do meu irmão primeiramente, a porta estava aberta e não havia ninguém lá dentro. Avancei mais alguns passos até chegar ao dos meus pais, e a porta também estava entreaberta, mas as luzes estavam acesas.
Me aproximei um pouco mais apenas para observar, sem me deixar ser visto, e pela fresta pude ver meu irmão abraçando um conhecido casaco que nosso pai sempre, sempre usava quando saíamos juntos.
Engoli em seco, vendo-o enterrar o rosto no couro negro mais e mais, segurando a peça de roupa com força, as mãos tendo as nodas dos dedos vermelhas de tanta tensão.
Me aproximei, certo de que deveria me expor, mesmo que ele não quisesse ser pego ali, fazendo aquilo, não que estivesse fazendo algo errado. Com passos leves, cheguei perto dele e toquei seu ombro.
Ele ergueu os olhos para mim, mas depois os abaixou, ainda segurando o casaco.
-Era a roupa preferida do papai.
-Eu sei.-Murmurei, apertando um pouco mais seu ombro.
-Queria que ele tivesse sido enterrado com ela, mas a tia Lizzy não deixou.-Ele comentou, a voz tremulando.
-Você pediu?
-Pedi, mas ela disse que ser enterrado com um terno era mais tradicional, e também ela começou a chorar, então não insisti.
Ficamos em silêncio então por minutos que mais pareceram anos, até que ele soltou o casaco e se afastou um pouco de mim, deixando-o sobre a cama, onde também estava um vestido vermelho de gala que nossa mãe tinha um ciúme tão grande que quase nunca usava, mas que todas as noites o vestia e passava horas de frente para o espelho.
-Mamãe também amava este vestido.-Ludwig disse, passando a mão sobre o tecido.
-É, ela ficava muito bonita nele.-Eu disse, pondo as mãos nos bolsos.
Se afastou do vestido e se virou para mim, olhando-me nos olhos enquanto eu retribuia o olhar de cima. O rosto era tão meigo, simpático, talvez não muito falante, mas certamente simpático, gentil da sua forma.
-Bruder, você acha que...-Engoliu em seco, mas balançou a cabeça e apertou os punhos.-Nada.
-O que você quer perguntar? Você sabe que pode dizer o que pensar comigo, West.-Falei, estranhando.
-Não é nada, esquece.-Então ele se aproximou e passou por mim, logo saindo do quarto até que eu ouvi um grande estrondo, sabendo que era porta do seu quarto sendo fechada e trancada com força.
Suspirei, guardando as roupas dos meus pais novamente no guarda-roupa e depois saindo, fechando as luzes e então a porta, voltando para o meu quarto. Tirei os sapatos e me despi, ficando apenas com a calça do terno, jogando tudo o mais no chão e me sentando na cama enquanto pegava o violão que tinha comprado meses antes, começando a tocar.
Deixei os dedos irem, fazerem como quiserem enquanto deixava a mente voar, sem compromisso de pensar em algo, mas sempre que eu fazia isso, uma melodia triste e lenta começava, então eu parava e tentava novamente, mas então outra melodia, desta vez rápida, como se expressasse raiva, vinha. Depois de isso ter acontecido umas cinco vezes, desisti, deixando o violão de lado.
Foi então que ouvi um barulho alto vindo do quarto do meu irmão. Me levantei da cama e corri até lá, com um péssimo pressentimento, encontrando a porta ainda trancada. Bati, mas a resposta que obtive foram apenas trovões vindo da chuva lá fora e um alto ofegar do lado de dentro do quarto.
-West? Você está bem?-Perguntei, batendo da porta.
Não obtive resposta alguma, apenas mais um barulho alto, como se algo tivesse se espatifado no chão, vidro.
-Ludwig?! Ludwig?! Abra a porta!-Eu gritei, já investindo contra a porta com meu ombro, mas ela não estava cedendo. Ouvi mais alguns barulhos, já pensando o pior, então me afastei da porta, peguei distância e me joguei contra ela algumas vezes, até que abriu, mostrando meu pequeno irmão de joelhos no chão, a luz do quarto desligada e todo o cômodo sendo iluminado só pela luz da lua e de vez em quando pelo clarão dos trovões.
-Ludwig! West!-Corri até ele, erguendo-o do chão e vendo que em sua mão estava um enorme caco de vidro, sujo de sangue enquanto a outra mão estava ferida, quase no pulso. A janela no outro extremo do quarto estava quebrada, deixando muitos cacos de vidro espalhados pelo chão, um taco de beisebol jogado pelo canto da parede. Fitei meu irmão menor, olhando em seus olhos, avermelhados e úmidos.
-O que você estava tentando fazer, imbecil?!-Gritei, sacudindo seus ombros, mas ele não parecia responder. Peguei sua mão, olhando se tinha acontecido algo grave, mas apesar de os cortes serem longos, eram superficiais e o sangue já começava a estancar, em ambas as mãos. Peguei o caco de vidro de sua mão e joguei longe, olhando se tinha se machucado em algum outro ligar, mas parecia estar bem.
Pelo menos fisicamente.
-West, West, você tá me ouvindo?!-Perguntei, começando a realmente me preocupar, meus medos concretizados. Mas seus olhos não respondiam, na verdade, estavam opacos.
Talvez algo dentro dele houvesse se partido, se quebrado. Sacudi seus ombros mais uma vez, mas ele não respondeu, nada fez e nada disse. O ergui nos braços e desci até a cozinha, sentando-o sobre o balcão e tentando de todas as formas obter qualquer tipo de resposta.
Coloquei uma das mão em sua cabeça, em seu rosto, em seu peito, procurando algum ferimento, qualquer coisa, porque algo deveria estar errado, algo no corpo, não na cabeça, porque ele deveria estar bem, tão bem como eu, mas não estava e quem estava ficando louco ali era eu.
Por que diabos eles tinham que morrer, hã?! Tinham que fazer meu irmão sofrer tanto assim?! Eu não me importava comigo, eu sabia que suportaria, mas não Ludwig, que nunca teve muitos amigos na escola e que nunca foi popular, e que de vez em quando sofria algum tipo de agressão, por favor, não ele, não queria que ele sofresse mais.
Porque eu preferia que essas coisas acontecessem comigo mil vezes pior o quanto de vezes fosse possível do que ao menos pensar em acontecer com ele. Não, com ele não, qualquer coisa para que o azul dos seus olhos não fossem maculados, qualquer coisa para que seu já raro sorriso não desaparecesse completamente.
E mesmo eu dizendo que não precisava de ninguém e parecendo que ele precisava mais de mim do que eu dele, eu precisava dele, o necessitava, meu irmão, meu sangue, parte de mim que ninguém mais era e que dificilmente viria a ser.
-Ludwig.-Segurei seu rosto com ambas as mãos, aproximando o meu mais até quase encostarmos os narizes.-Vai ficar tudo bem, ouviu? Eu não vou embora, vou ficar aqui com você, você não vai ficar só, ouviu? Entendeu, West?
Ele piscou algumas vezes e levantou o olhar, mesmo ainda estando um pouco opaco, sem vida. Engoli em seco. Não tinha muita experiência em consolar alguém, tinha até um certo receio, mas ele precisava daquilo, precisava que alguém lhe apoiasse e deixasse claro que ficaria tudo bem, mesmo na verdade não estando. E eu faria aquilo, porque se meu irmão precisava, eu faria.
-Ludwig, você pode, ahm... Chorar, não tem problema. Vai ficar tudo bem, nossos pais já estão em um lugar muito melhor, tenho certeza. Vai ficar tudo bem.
Então ele piscou mais vezes, os olhos umedecendo rapidamente enquanto a respiração se acelerava mais. Então o brilho dos olhos voltou, embora se eu olhasse dentro deles, bem dentro, poderia ver toda a dor que estava sentindo, e talvez até culpa.
-Bruder...-Ele murmurou, e eu o puxei para perto, abraçando-o, pondo uma de minhas mãos em sua cabeça e outra em suas costas, deixando seu rosto enterrar-se na curva do meu pescoço enquanto sentia as lágrimas escorrerem em minha pele descoberta, já que eu estava de calça apenas.
-Shhh, está tudo bem, West.-Eu sorri, ainda o abraçando.-Somos incríveis, lembra? Vamos passar por essa, era o que nossos pais iriam querer.
-E-eu s-s-sei...-Ele murmurou, tentando não fazer muito barulho, mas logo ele começou a soluçar e a gritar tão alto que se tivéssemos vizinhos muito próximos viriam aqui, e mesmo ficando meio surdo de um dos ouvidos, deixei que continuasse enquanto fazia cafuné em seus cabelos.
Não sei quanto tempo ficamos assim, mas ele ainda soluçava quando se afastou de mim, coçando os olhos e engolindo em seco.
-Bruder, foi minha culpa...-Ele murmurou.
-O quê? Não, foi apenas um acidente, foi só...
-NÃO! FOI MINHA CULPA!-Ele gritou, levando as duas mãos até o rosto enquanto falava tão alto que eu mal entendia.-Estava chovendo e você ainda não tinha chegado da viagem e eles estavam numa reunião, então eu liguei pra eles e implorei para que voltassem mais cedo pra casa, mas eles disseram que tava chovendo e não iam chegar tão cedo, mas eu implorei! Implorei! Mas eles negaram e então eu briguei com eles! Eu acho que a mamãe ficou triste por isso, com culpa, não sei, e então ela convenceu o papai e eles capotaram o carro! É minha culpa!
-Não, não foi sua culpa, estava chovendo e eles sabiam o que estavam fazendo.
-Foi sim! Se eu não tivesse pedido e implorado e gritado com eles, eles ainda estariam aqui!-Ele gritou, chorando novamente. Levei uma de minhas mãos até seu rosto novamente, para que parasse de chorar, limpando suas lágrimas.
-Não foi sua culpa, e mesmo que fosse, eu não me importaria. Eu vou ficar aqui com você, e só vou embora quando morrer, ouviu? E isso não vai acontecer tão cedo, West.-Eu disse, sorrindo.-Eu amo você, bruder.
-Mas... Mas...
-Mas nada, não foi sua culpa. Nossos pais não ficariam nunca com raiva, e eu não lhe culpo por nada. Não há motivo para se culpar, West.
Ele fungou mais um pouco e então se jogou em cima de mim, quase caindo do balcão da cozinha onde estava sentado. Chorou por tanto tempo que quando vi, tinha adormecido. O segurei nos braços e o levei não para o quarto dele, mas para o meu, onde o deitei na minha cama e me deitei em seguida, ao seu lado, certo de que não queria acordar sozinho depois.
Me aproximei e beijei sua testa, deitando minha cabeça no travesseiro. Quando fechei os olhos, imaginei ter ouvido uma frase.
“Também amo você, bruder”.
Notas finais
Se você gostou pode mandar uma review, que tal? SEJA UM LEITOR LEGAL E MANDE UMA REVIEW!!! HAHUHUA!!
Kisses e Danke por ter lido!
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