POV'S THOMAS

Demora alguns segundos até eu recuperar a consciência. Está tudo coberto de poeira, mas ainda sim, consigo ver vultos. Os meninos estão ajoelhados perto da beirada, e corro até lá. Gally agarrou o braço de Newt, que está pendurado. Procuro pelos outros dois, e consigo ver Chuck agarrado á grade, a expressão dele está apavorada. O Minho caiu.

– Newt! – exclamo eu, me ajoelhando ao lado de Gally.

– Minho, aguenta firme! – grita Gally.

– Mértila! Rápido! Não consigo segurar! – exclama Newt.

– AAA! AAAA! ME AJUDA! – Grita Minho, apavorado.

Quando a poeira baixa consigo ver a situação: Minho está preso nos escombros. Ele luta pra sair de lá, mas a madeira está em cima de suas pernas e cintura. Quando olho mais adiante, vi que o verdugo foi esmagado, mas há mais deles se aproximando. Não há a menor chance dele sair dessa.

– Newt, salva o Minho! – peço eu.

– Você enlouqueceu? Ele já era! Puxe-o pra cima! É suicídio! – diz Gally.

Newt me olha nos olhos, e eu entro em desespero. Sei que de certa forma, Gally está certo, e não tenho coragem de deixar Newt em perigo, mais do que ele já está. Por outro lado, deixar o Minho morrer ali será uma crueldade. Ele não me deixaria pra trás. Não mesmo. Tomo uma decisão.

– Não podemos deixa-lo sem ao menos tentar. Vai logo!

– Thomas, se eu o soltar ele se machuca também! Pense um pouco, seu mértila!

– Galera, eu estou ficando sem tempo aqui! – grita Newt.

Olho pra Newt novamente. Não posso manda-lo lá. Não sabendo que posso perde-lo. Mas não posso matar o Minho também. Droga!

– Pegue minha mão! – grito eu, estendendo a mão.

Newt agarra minha mão, e eu e Gally o puxamos pra cima.

– Tommy... – diz Newt, um tanto quanto pasmo. – Como você fez isso? Como você escolheu?

– Eu não escolhi. – afirmo.

Dito isso, me atiro ao andar de baixo, rolando pela escadaria. Me ponho de pé novamente e continuo correndo, até chegar ao corpo de Minho, que continua clamando por ajuda enquanto tenta rastejar pra fora dos escombros.

– THOMAS! – grita Newt.

– Minho, aguenta aí. – digo eu, jogando a madeira solta pra fora dos escombros. Seguro uma parte e levanto-a, abrindo uma passagem pra que Minho possa sair.

– Ok, vamos! – digo.

– Não consigo! Me ajuda, alguém me ajuda! – grita ele.

– Estou tentando! Você tem que me escutar!

Minho começa a entrar em desespero, atraindo os verdugos pro nosso lado.

– Minho, você tem que confiar no Thomas! – grita Newt.

Eu tento levantar outra parte da madeira, mas ela não sai de lá. Os verdugos estão quase ao nosso alcance, e Minho não tem condições de sair dali.

– Deixe-o! – alguém grita.

Sei que é a única maneira de me salvar, mas eu não posso. Tento desesperadamente achar alguma forma de salvá-lo. Pego a mão dele e o puxo.

– Vamos, Minho! – grito eu.

– Não dá! – grita ele.

De repente, sabe-se lá de onde, Alby aparece e pega em um pedaço dos escombros.

– Vai, puxe-o! – grita ele.

Alby levanta a madeira e eu puxo Minho. E na última tentativa de salvá-lo, consigo puxar Minho pra fora dos escombros.

– Vem! – grito eu.

Minho se apoia em mim e se levanta.

– Vem Alby! – grito.

Alby nos segue. Vamos correndo até um lugar vazio, onde não há verdugos.

– Precisamos de um plano. – digo eu.

– Eu sei. – diz Alby, tentando pensar em alguma coisa.

– Alguma ideia? Minho? – digo eu, me virando.

Minho está estranho. Me aproximo dele, ele está tremendo um pouco.

– Minho, o que há de errado?

– Essa não é a hora certe, Thomas. Temos que sair daqui. – diz Alby.

Olho pra Minho, depois sigo Alby. Ele nos segue mais atrás.

– Todos preparados? – pergunta ele.

– Sim. – digo eu.

Nós começamos a andar cautelosamente pelo gramado escuro, empunhando armas e atentos á qualquer barulho. Os verdugos começam a aparecer, e consigo sentir a respiração de Minho ofegando atrás de mim.

– Shh... quieto, Minho. – diz Alby.

Não funciona. Minho começa a se curvar e o medo toma conta dele. A respiração alta dele pode acabar atraindo os verdugos pra cá.

– Thomas, vem me ajudar! – diz Alby. – Aclame-o. Por favor, diga alguma coisa.

Começo a pensar no que dizer. Mas as palavras não saem.

– Thomas, você--

Um verdugo surge da casa ao lado e crava o ferrão no pescoço de Alby. Mortalmente ferido, ele começa a cambalear pra frente.

– Alby!!! – grita Minho.

O verdugo pula em cima dele, e o morde no pescoço, fazendo sangue jorrar no chão.

– ALBY!!! AAAALBY!!!! – Grita Minho, em pânico.

Os outros verdugos nos percebem lá, e eu entro em desespero.

– Minho, cale a boca! – digo eu, me virando pra trás.

Desvio o olhar pros verdugos, depois viro-me novamente.

– Minho, você me--

Mas ao me virar, Minho já está longe. Ele tropeça, mas continua correndo, desaparecendo em meio ao breu da noite.

– Mértila... – digo eu, com a lança em punho.

O verdugo que devorou Alby se vira pra mim. Cambaleio pra trás, tentando achar uma saída. Mas não vejo nada. Continuo andando de costas, quando caio pra trás. Não tem mais jeito. Porém, algo se abre debaixo dos meus pés e eu caio. Quando vejo, eram os outros meninos do labirinto. Estávamos dentro da caixa.

– Abaixe-se, Thomas. – diz Caçarola, me cobrindo com o corpo dele.

Obedeço. Finalmente estava a salvo. Mas a sensação de alívio não dura muito tempo: Newt ainda está lá fora.

POV’S NEWT

– Precisamos descer. – digo eu.

– Você enlouqueceu?! – diz Chuck, atrás de mim. Eu nem me lembrava que ele estava ali. – Vamos morrer se descermos!

– Chuck está certo. Você quis correr antes disso tudo, agora vai bancar o valentão? – diz Gally.

– Não estou bancando o valentão. Mas tem gente que precisa de mim lá em baixo.

– Você. Vai. Morrer. – retruca Gally, os olhos fixados em mim.

– Você não disse que se fosse pra morrer, morreríamos tentando? Disse, não disse?

– Isso foi antes, seu mértila! – grita ele.

– Gente, para! – o tom de voz de Chuck engrossa.

– Não interessa, Gally. Eu preciso descer. Preciso ver se ele está bem. – As palavras pulam pra fora, e só depois percebo o quanto soaram estranhas.

– Ele? Ele quem? Você está falando do novato? – indaga Gally.

– Não. Eu quis dizer eles. Precisamos ajudar.

– E ajudar como? Estamos presos nesse maldito observatório com os verdugos lá em baixo, e você quer descer pra dar de cara com a morte? Cresça, Newt!

– Estou tentando proteger todo mundo, Gally!

– Não. Você está tentando proteger o fedelho. Thomas, certo? É com ele que você está preocupado.

– Não diga tanta besteira. – retruco

– Besteira? Ah, Newt... Não me faça de otário. Eu já entendi o caso de vocês dois. Você não se importa com ninguém aqui além dele, não é?

– Calado, Gally! – grita Chuck.

– Deixe-me perguntar uma coisa. Se eu, ou o Chuck, ou qualquer outro menino daqui tivesse caído no lugar do Minho e quem estivesse no seu lugar fosse o Thomas, você mandaria ele pra lá?

– Eu...

– Não. Eu sei que não. Você não correria o risco de perde-lo, correria? Você puxaria ele e que se dane quem estivesse lá em baixo.

– Isso é mentira! – tento me defender.

– Eu sei que não é. E você sabe também. Você não é forte o suficiente.

Aquela frase me enche de fúria. Pego Gally pela gola da camisa e o prenso na grade de madeira.

– Quem é você pra falar do que eu sou capaz ou não? – indago.

Gally me encara.

– Thomas se sacrificou pelo Minho. Você faria a mesma coisa?

Gally me pegou. Realmente, parei pra refletir se eu faria isso ou não. Mas antes de concluir, ele continua:

– O que Thomas fez provavelmente ninguém aqui faria. Porque ninguém teria coragem de arriscar-se de tal forma. Somos um bando de egoístas.

– Thomas é diferente. – digo eu.

– Eu sei. Deve ser por isso que ele sobreviveu. Até hoje.

– O que você quer dizer com isso?

Gally para por alguns segundos, posso sentir uma pontada de insegurança em seus olhos.

– Não sei como eles estão lá em baixo. – diz ele.

– Não diga uma coisa dessas! – retruco eu.

– Gente. – diz Chuck

– Estou tentando ser realista, Newt.

– Pare. Isso é pessimismo.

– Gente... – insiste Chuck.

– Desculpa, Newt. Mas eu devo descordar. Quero dizer, eles escaparam por um tris ali em baixo. Você está vendo eles lá? Porque eu não estou!

– Eles podem ter se escondido... – digo eu.

– Newt, nós dois sabemos...

– GENTE! – Grita Chuck.

– QUE FOI, MÉRTILA?! – Grita Gally.

– Olha! – Chuck aponta pro labirinto.

As portas começam a se fechar, e os verdugos correm pra dentro do labirinto antes que elas se fechem por completo. E, junto com eles, carregam os corpos dos meninos mortos. Em meio a eles, vejo alguns conhecidos, e um alívio me consome por não ver o de Thomas no meio.

Passam-se alguns segundos até que tudo se esvazie, e o labirinto se fecha. Respiro aliviado. Gally coloca a mão em meu ombro.

– Agora sim podemos encontrar seu ‘‘amiguinho’’.

Assinto com a cabeça e nós três descemos do observatório. Os meninos começam a sair do esconderijo, todos ainda baqueados com o que havia acabado de se passar. Ando pelo gramado da clareira, passando por cima das manchas de sangue espalhadas em vários cantos do lugar. Me aproximo da casa dos mapas: parecia o único lugar intacto. Já o resto...

– Newt! – é a voz de Tommy.

Quando me viro, ele me agarra, num abraço tão forte que quase quebra meus ossos.

– Você está bem? – indago eu.

– Sim, sim. E você?

– Estou sim.

– Cara, essa foi por pouco! – exclama ele.

– Pois é.

Gally nos observa, de braços cruzados. Ele olha em volta, e sua expressão muda.

– O Alby te ajudou? – indaga ele.

Thomas me solta e se vira pra Gally, o olhar baixo.

– Gally, o Alby... Ele até que tentou. Mas ele não conseguiu.

– Como assim ‘não conseguiu’? – Gally parece não estar acreditando.

– Quando saímos do observatório, o Alby foi picado e...

Thomas olhou pra uma mancha de sangue mais adiante.

– Não... – murmura Gally, os olhos se enchendo d’água.

– Gally, eu sinto muito... – diz Tommy, se aproximando dele.

– Não me toque. – Gally dá um safanão no braço de Thomas – Ok. Eu já entendi. Eu só... preciso de...

– Tudo bem. Quando você estiver pronto. Fico feliz que está aqui. – diz Tommy.

Gally sai, enxugando as lágrimas, e vai em direção a casa dos mapas.

– Ele só precisa de um tempinho... – digo eu, confortando Tommy.

– Thomas, cadê o Minho? – indaga Chuck.

– Ele não está com vocês? – indaga Tommy.

– Com a gente? Ele estava com você! – digo eu.

Thomas arregala os olhos.

– Oh, mértila...

Começo a me preocupar também.

– Minho! – grito eu. – Minho!

Sem resposta. Tommy faz o mesmo, e depois, todos os meninos começam a chama-lo enquanto o procuram. Depois de alguns minutos, não há sinal dele.

– Thomas, onde você o viu pela última vez? – indago.

– Eu não sei, é que depois do Alby ele... pirou. Começou a gritar como um louco, eu mandei ele se calar mas ele saiu correndo e eu o perdi de vista.

– Pra que direção que ele correu? – indago novamente.

Thomas se vira, apertando os olhos enquanto tenta apontar para algum lugar. Quando o dedo dele para, e olhamos na direção para que ele aponta, um desespero invade a clareira.

Ele estava apontando para o labirinto.