New World
1 Prólogo - Dias de Guerra
Notas iniciais
Annie
Eu me lembro daquela noite perfeitamente.
Eu me lembro da raiva que perfurava o meu coração e da adrenalina que corroía as minhas veias. Eu me lembro de Nevra, Ezarel, Valkyon e Leiftan gritando pelo meu nome insistentemente enquanto eu adentrava mais e mais aquele arvoredo denso e escuro, de onde o único som que ecoava por entre as árvores eram as suas risadas estridentes e seus deboches indesejados.
Eu me lembro de que minhas pernas doíam graças aos arranhões que eu fiz enquanto tropeçava momentaneamente nas raízes altas daquela floresta. Eu me lembro da fumaça negra que adentrava as minhas narinas e descansavam em meus pulmões, queimando todo o meu sistema respiratório. Eu me lembro do cansaço que eu sentia enquanto a perseguia desvairadamente por entre galhos pontiagudos e ervas daninha que se agarravam aos trapos em que minhas roupas havia se transformaram. Eu me lembro das minhas queimaduras borbulhando em minha pele e da dor que elas causavam e eu me lembro do cheiro da minha carne queimando.
Eu juro que eu me lembro de tudo.
Meus olhos estavam fixos à sua silhueta debochada correndo mais rápido do que eu conseguia no estado que eu estava, mas eu não desisti. Meus pés doloridos e minhas pernas cansadas, por mais que quisessem, não cederam. Elas não cederiam até que o desejo corrosivo de vingança que eu alimentava fosse saciado e eu sabia perfeitamente que, para saciar a minha sede de vingança, eu teria de tê-la em minhas mãos. Eu teria que senti-la se debater em meus braços e eu teria que ver a vida e o brilho se esvaírem dos seus olhos. E aquele desejo era o combustível necessário para que eu não desfalecesse ali mesmo. Eu tinha trabalho a fazer.
Ao longe, ecoando minimante, os gritos dos rapazes (que me seguiam) morriam quando sincronizados às trovejadas retumbantes e os ventos violentos que chicoteavam meus cabelos em meu rosto. As folhas coloridas das árvores destruídas por aquele temporal violento dançavam incessantemente nos galhos frágeis onde estavam apoiadas, fazendo, assim, com que se desprendessem e fossem jogadas para o mais longe que aqueles ventos pudessem levá-las. Deixando seus troncos sozinhos para morrerem atingidos por rajadas poderosas caídas das nuvens espessas e cinzentas.
Eu estava com medo, eu realmente estava. Eu sentia dor e eu sentia desespero. Honestamente, eu não sabia se o que eu estava fazendo era o certo a se fazer, mas eu sabia que era o que eu mais desejava. Droga, ela destruiu a minha casa! Ela destruiu o único lugar que me acolheu quando eu estava completamente desamparada nesse mundo estranho! Droga, ela merecia pagar! ELA MERECIA MORRER!
Estes pensamentos tortuosos faziam meus passos se apressarem e faziam meu coração encher de desejo. Um desejo hipnotizante que guiava os meus pés por aquele caminho de folhas secas e raízes quebradas, ignorando meus pensamentos racionais e até mesmo as minhas limitações. Não importava o que eu perdesse, não importava se eu morresse naquela ideia insana de perseguição, ela iria me pagar pelo que fez.
Contudo, com a aproximação do encosto da montanha, até mesmo uma sociopata suicida percebia que era tolice continuar correndo, então eu vi você derrapar os passos e parar olhando o musgo grudento que formava nas rochas daquela montanha. Finalmente eu havia ganhado. Finalmente eu poderia ter a minha vingança e então voltar acompanhada dos rapazes para o QG onde Eweleïn me examinaria completamente e começaríamos a reconstrução da nossa fortaleza. Mas eu não esperava que ela tivesse uma carta na manga. Droga, ela seria esmagada se acaso não parasse de correr, uma morte, certamente, nada agradável, mas possível de se evitar, de tantas maneiras, que eu me senti, realmente, muito idiota de não ter pensado.
Mas confesso que o que viera a seguir me impressionara demais.
Sem que eu esperasse, sem que eu pudesse reagir, quase que instantânea a minha parada, sua face pálida virou-se para mim. Eu pude pela primeira vez que nos vimos prestar mais atenção nos orbes azuis de seus olhos e nos seus cabelos loiros ondulados e esvoaçantes. Sua face era esbelta e eu não era capaz de negar tal fato, mas surpreendeu-me vê-la levantar as laterais de seus lábios em um sorriso recoberto por um deboche desmesurável. Sua face inexpressiva, rapidamente tornou-se maliciosa e aquele sorriso, eu admito, gelou o meu sangue cálido.
Antes que eu pudesse conseguir segurar a haste de meu machado, antes que os rapazes conseguissem nos alcançar, sua voz hipnotizante ecoou graciosamente e se propagou pela floresta arvorada de forma ameaçadora e estranhamente familiar. Confesso que não prestei atenção no que dissera apenas me perdi no timbre garrido de sua voz até que senti mãos quentes e grossas envolverem minha cintura e me puxarem para trás em um movimento quase desesperado. Estávamos caídos, eu e Nevra estávamos estatelados ao chão relvado após percebermos que ela havia lançado uma rajada de chamas por suas mãos, mas seus olhos, antes calmos e maliciosos demonstravam que não estava contente com a interrupção descarada que sofrera dos rapazes.
Seus olhos já não me fitavam incessantemente, como antes. Meus olhos opacos e soturnos pelo misto de emoções que perpassavam minha cabeça já não mais conseguia ver os diamantes reluzentes que eram seus olhos, apenas conseguia ver os cabelos rebeldes e as sobrancelhas grossas na face do vampiro que permanecia em cima de mim. Nevra prendia-me entre seus braços, enquanto seu corpo escultural descansava sobre o meu, olhando-me preocupado com seu olho cinzento e o seu tapa-olho perfeitamente posicionado. Eu não sabia como reagir perante a face belamente indescritível daquele que ali me protegia, mas eu sabia que eu jamais desejaria ter parado de correr. Jamais desejaria ter feito aquele surto de adrenalina que me motivava parar de bombear o meu sangue, pois o calor do momento que a perseguição causava havia se extinguido, as dores em meus membros atingiram-me instantaneamente e eu conseguia sentir a queimação em meus pulmões e pernas, além da extrema exaustão por ter corrido além dos meus limites para encurralar alguém que eu não conseguira atacar quando tivera a chance.
Mas eu já disse que não desistiria até o trabalho ser feito.
Não soube de onde viera aquela força que me fizera empurrar Nevra de cima de mim (exclamando revoltoso com meu ato nada agradecido por ter me salvado de uma bola de fogo), apenas soube que aquele surto de adrenalina que esquentava o meu sangue voltara a bombear o meu coração e, com uma rapidez que eu não reconhecia, acertei uma machadada forte em quer que tenha sido. Honestamente, não sabia se havia acertado a pessoa certa, apenas descobri quando ouvi o gemido de dor gutural vindo do colossal Valkyon que, graças a mim, sangrava pelo dorso incontrolavelmente.
Ezarel e Leiftan continuavam a tentar acertá-la de todas as formas possíveis e impossíveis, sempre sendo retardados por suas bolas de fogo que os fazia recuar. Não sabia o que me fazia avançar contra aquela mulher, apenas soube, quando ela preparara mais uma bola de fogo para lançar nos meus amigos, que aquele era meu momento de agir. Tomada pelo impulso de ajudar, eu preparei o meu machado e com toda a força que eu pude, conseguira desferir um golpe, mas, impressionantemente, aquela mulher segurara na mesma haste que eu. Aqueles olhos azuis observavam-me impacientemente, enquanto eu tentava a todo custo afastar-me dela. Porém, creio eu que ela cansara daquela briga infrutífera que acontecia entre os membros da Guarda de Eel, afinal, com um movimento rápido ela tomara o machado de minhas mãos e me jogara contra a encosta da montanha com força. Uma pancada forte acertou minha cabeça e eu conseguia ver entorpecidos pontos brilhantes invadirem a escuridão quando fechei os olhos. Àquele momento foi quando eu senti a minha coragem se esvair de meu corpo e aquele surto de adrenalina que eu contava para me fazer sobreviver tornara-se o mais completo desespero. Aquele seria o meu fim, certo?
Minha visão entorpecida não me ajudava a descobrir o que se seguira àquela batalha confusa ente os membros da Guarda Reluzente e aquela mulher voraz, apenas consegui ver uma cabeleira azulada cair ao meu lado, seus olhos verdes brilhando em minha visão e tomando toda a minha atenção. Desde quando os olhos do Ezarel tornaram-se tão brilhantes?
Após alguns minutos apreciando o brilho que os olhos vidrados do elfo frente a mim proporcionavam, eu senti uma mão fina, porém forte, erguer-me pela camisa que eu usava. Eu senti uma tontura invadir minha mente e um enjoo revirar meu estômago. Já não conseguia mais suportar as dores em meu corpo, já não conseguia ignorar o estado em que eu me encontrava. Meus limites haviam sido alcançados, ou melhor, ultrapassados, eu já não tinha mais capacidade para sequer permanecer em pé. Contudo, tampouco precisei. Com a cabeça pendida para trás, eu conseguia ouvir nitidamente a voz inconfundível daquela mulher, era ela quem me segurava pelas minhas vestes em frangalhos e mantinha-me erguida sobre o chão, mas eu não conseguia ver seu rosto. Não conseguia saber se havia raiva ou desprezo em sua face e não conseguia saber o que viria a seguir. Já não sabia se meus sentidos estavam funcionando, apenas sabia que o sangue que escorria de meus ouvidos não ajudava na compreensão da fala daquela mulher.
Mas ela fez com que minha cabeça viesse a pender para frente, eu consegui, de relance, ver o sorriso perolado na face daquela mulher e consegui, finalmente, ouvir, pelo menos, uma pequena frase que ela pronunciava: “...sabe que posso levá-la comigo, se é isso que realmente quer. Posso fazer, finalmente, sua família se reunir e esta prisão que lhe impuseram será finalmente destruída. E então vem comigo?”, disse ela sorridente. Uma voz tão infantil que jurava que sua altura iria diminuir e eu iria voltar ao chão. Mas ela manteve-me sobre o solo relvado e eu entendi o que ela queria que eu respondesse. Fazendo força para levantar minha cabeça, por mais ínfimo que fosse o movimento, eu olhei fundo em seus olhos azuis, meu rosto ensanguentado e sujo de terra e fiz questão de cuspir em sua cara.
O movimento a seguir era previsível. Ela me jogou ao chão sem nenhuma cerimônia, eu a ouvia resmungar palavras incompreensíveis, enquanto ela caminhava de um lado para o outro, palavras sussurradas saídas de sua boca, eu já não sabia o que ela iria fazer comigo. Minha mente dizia que ela não me mataria, ora, do que adiantaria todo este papo-furado, se, na verdade, ela iria descartar-me? Apenas perderia tempo! Não, cria eu que seus planos para mim eram outros e confesso que temia o que poderia vir a seguir. Porém, ela parou de resmungar e andar em círculos e parou frente a minha carcaça quase morta. Eu consegui ver o sorriso malicioso em seu rosto e a expressão sádica que nele permanecia. Com uma voz morta e completamente assustadora, por pouco eu a ouvi dizer:
— Mas você não tem escolha, tem? — eu já não sabia o que pensar. Eu já não sabia o que pressupor. Seus olhos azuis permaneciam parados observando-me atentamente, até que eu vi um raio particular cair em uma árvore próxima. Ora, sabia que não havia mais nada o que fazer. Leiftan, Ezarel, Nevra e Valkyon, possivelmente, estavam inconscientes ou enfeitiçados ao nosso redor e eu estava ali, coberta por machucados sangrentos e um corpo quase morto, sem sequer conseguir movimentar mesmo que fossem os meus olhos. Eu tentava, tentava buscar pelos outros, mas minhas esperanças se diluíram quando eu percebi que eu estava à mercê daquela sociopata maluca.
Desesperançosa e amedrontada, eu fechei os meus olhos, esperando o golpe de misericórdia. Esperando que a morte envolvesse-me de uma vez por todas e me libertasse da dor quase indescritível que eu sentia em meu corpo. Mas eu não fui envolvida pelo abraço gélido da morte, não. Eu senti o clarão inundar a floresta em que estávamos e, rapidamente, eu arregalei os meus olhos para tentar entender o acontecido.
Porém, quando eu os abri, eu já não conseguia encontrar os arvoredos encharcados pela chuva. Eu já não conseguia sentir o roçar das plantas nas minhas pernas e tampouco sentia o desconforto de estar apoiada em uma montanha rochosa, não. Eu já não mais a via. Não mais reconhecia o lugar onde estava nem o que ali faria, eu apenas percebi que eu não estava na floresta. Eu não estava na clareira onde estávamos há poucos segundos e, em minha companhia, os corpos inconscientes dos meus amigos descansavam em lugares estranhos.
O corpo alto e musculoso de Valkyon estava debruçado sobre um patamar de uma escada de ferro presa às paredes de um edifício que eu não sabia que existia em Eldarya; Leiftan estava sentado dentro de uma caçamba de lixo de metal, suas costas apoiadas no ferro e sua cabeça pendida para fora; Ezarel estava de bruços sobre sacolas de lixo pretas, coberto por embalagens de comidas malcheirosas que estavam grudadas às suas roupas brancas; Nevra estava jogado ao chão sujo por poeira e fezes de diferentes tipos de animais, sua cara às sombras da escada onde Valkyon descansava e suas pernas sendo arranhadas por um gato pardo de rua que parecia raivoso. Já eu... Eu estava apenas com minha cabeça apoiada a uma parede que arranhava minha cabeça, minhas pernas e meu corpo estavam quase deitados pelo chão enquanto meu braço direito repousava confortável sobre a cabeça de um rato morto.
O silêncio que ali se fazia, confesso que me perturbava. Não havia o som de nenhum pássaro a cantar ou cobras a rastejar. Não ouvia os mascotes amedrontados em suas tocas fazendo a torcida da batalha que ali se encontrava acontecendo. Ao invés disso, eu estava encontrado edifícios estranhos, os quais eu não sabia sobre sua existência e encontrando animais diferentes aos que eu estava acostumada, afinal, não me lembro da última vez que eu vi um gato ou um rato correndo pelos jardins do QG.
Enojada por ver moscas pousando sobre a pele do rato morto, eu retirei minha mão e, com muita força, tentei ajeitar-me. Endireitei minha coluna dolorida e a apoiei na parede que roçava minhas costas lastimosas — tentava reprimir os gemidos e urros por sentir aquela superfície pontuda arranhando meus machucados mais dolorosos, mas eu precisava descobrir onde eu e os meus amigos estávamos. Aonde aquela mulher doente havia nos mandado?
Eu tentava apoiar-me em o que quer que pudesse me ajudar a ficar em pé, mas meus braços não possuíam forças para me levantar e minhas pernas cediam todas as vezes que eu tentava. Eu sentia a pancada contra a minha cabeça continuar a escorrer e sentia as queimaduras em minha pele arderem. Meus olhos estavam cheios de lágrimas de dor e, por mais que eu tentasse, eu não conseguia evitar fazê-las escorrer. E, depois de tantas outras tentativas de ficar de pé, eu desisti desta tentativa desastrosa. Permaneci imóvel, apoiada naquela parede desconfortável, sentindo dores indescritíveis em todo o meu corpo e observando meus amigos inconscientes ao meu redor. O que eu poderia fazer para ajudá-los, droga? Estão nessa por minha causa! Por causa da minha idiotice, eles tiveram de me seguir por toda a floresta lamacenta onde estávamos e travaram aquela batalha por mim... Por minha causa eles estavam à beira da morte, mas eu não poderia fazer nada porque, afinal de contas, eu também estava. Não aguentava sequer ficar em pé, como poderia encontrar uma maneira de voltar ao QG que, àquele momento, estava em escombros?
Eu encostei a minha cabeça na parede e deixei as minhas lágrimas correrem. Eu estava assustada, me sentia culpada e cria piamente que tudo isto era culpa minha... Eu sabia que a minha tolice havia nos posto nesta situação de risco e entendia perfeitamente o motivo para não conseguir ajudá-los. Droga, eu estava, praticamente, aleijada. Duvido que, logo, logo eu pudesse estar andando por aí ajudando qualquer pessoa que berre pelo meu nome como o superman. Eu não era uma super-heroína, por mais que me fingisse ser. Eu era apenas uma humana em uma dimensão mágica, cercada por coisas que eu não entendia e tentava aprender... Mas a verdade era aquela e eu não poderia mudá-la... Eu não pertencia àquele mundo.
Àquele mundo...
Àquele mundo...?
Eu não pertencia àquele mundo...?
A escada onde Valkyon estava debruçado tinha vários patamares, todos ligados a uma porta de madeira... Uma escada de incêndio. Eu estava encostada em um muro rabiscado e sujo... Pichações. Leiftan estava deitado em uma caçamba de lixo e Ezarel estava repleto de embalagens plásticas de alimentos que não existem em Eldarya! Droga, há embalagens de batas chips! BATATAS CHIPS! Isso, com certeza, não era possível... Ou será que era...? Uma carcaça de rato morto e um gato raivoso arranhando o Nevra... Moscas rodeando aquele fedor inteiro e um edifício desconhecido quase como se fosse... Humano...
Certo, eu já não ligava para as minhas dores, eu apenas precisava entender o que estava acontecendo... Onde diabos eu estava... Então, mesmo não conseguindo andar, eu pus todas as minhas forças nos meus músculos e engatinhei rapidamente até a esquina, onde eu encontrei uma estrada perpassando o beco onde estávamos. Uma iluminação noturna cegou os meus olhos e eu logo ouvi o som de carros apressados e motos que arrastavam seus pneus na rodovia. Eu consegui ouvir os apitos dos guardas de trânsito e ouvi as vozes animadas conversando... Mas eu ainda não sabia se aquilo era real... Droga, ISTO É IMPOSSÍVEL!! Mas, aparentemente, estava realmente acontecendo. Frente a minha face, estava uma metrópole que eu conhecia mais do que qualquer outra. A iluminação dos prédios que dali se seguiam e as pessoas indo e vindo falando aos seus celulares. Mas, o que mais me chamou a atenção foi o prédio ao centro. Uma construção luxuosa que tocava os céus de tão alta, com uma tela de plasma que partia desde sua base até alguns andares acima... com um anúncio claríssimo sobre uma marca de maquiagem famosa.
Contudo, a informação mais significante daquela placa estava escrita um pouco menor do que o anúncio:
“25 de novembro de 2017, Nova Iorque, Estado Unidos da América”.
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