New Perspective
1 Misunderstanding
Nathan
Eu estava entediado, oque não era novidade. É sempre assim nas férias, meus poucos amigos vão viajar e eu fico no meu quarto jogando no computador. Minha mãe nunca reclamou por isso, dizia que era melhor que ficar até tarde na rua com más companhias, "quem se mistura com porco, farelo come" é o sermão favorito dela.
O desfrutar de meu tédio foi interrompido por berros de minha mãe no andar de baixo, precisei retirar meus fones de ouvido para entender.
— Nathan! Você tem visita!
— Se for testemunha de Jeová diga que me converti! — Há duas semanas atrás minha mãe me disse essas mesmas palavras, desci correndo para atender a porta — não era sempre que alguém resolvia me ver. Ao abrir encontrei um homem de terno preto e óculos com uma bíblia nas mãos, olhei para minha mãe no batente da porta da cozinha com um silencioso e desesperado pedido de socorro, ela deu um sorriso maléfico e saiu de mansinho.
— É o Gavin! — larguei o celular e desci a escada, ouvi Gavin tentando convencer minha mãe de que não queria entrar que estava só de passagem.
Gavin Montgomery é meu novo vizinho, tem 13 anos e chegou na cidade a 2 semanas. Assim que soube da chegada dos novos vizinhos, minha mãe sempre querendo causar uma boa impressão, os presenteou com uma torta de frango, nunca irei dizer a ela que no dia seguinte avistei um cachorro de rua comendo a torta ao lado da lata de lixo. Os Montgomery não parecem ser muito amistosos, com exceção de Gavin, apesar de ser um pirralho, não é daquele tipo irritante que te joga pedra na rua quando se passa bicicleta.
— Eai pequeno! — baguncei seu cabelo, ele sorriu divertido.
— Obrigado por me emprestar o jogo, a jogabilidade é boa mas o gráfico é horrível! — Me devolveu o jogo.
— O gráfico foi proposital, deu um estilo único no jogo, mas a história... essa é a que conta! — ele sorriu mais uma vez e concordou com a cabeça. — Sabe tenho alguns que não jogo mais, se você quiser são seus.
— Sério cara?! Valeu! — fomos interrompidos por uma buzina de carro estacionado na frente da minha casa, pude ver uma garota morena, muito bonita aparentando ter uns 16 anos ao volante, ela parecia impaciente.
— É minha irmã — ele revirou os olhos — eu tenho que ir, a gente podia jogar juntos um dia desses. — ele acenou e voltou correndo para o carro, fiquei observando a garota e não consegui evitar de sorrir ao pensar que me aproximando de Gavin eu poderia a conhecer melhor. Fechei a porta e subi para meu quarto, ao chegar nele pude ver a bagunça que estava, cama desarrumada, meias sujas em cima da escrivaninha, copos e pratos sujos no chão ainda com meia pizza e roupas sujas pingadas pelo cômodo. Como ficar vidrado em uma tela de celular ou computador pode mudar o ambiente em pouco tempo, pensei, eu podia jurar que hoje pela manhã o quarto estava um brilho de limpo. Observei o quarto ainda por alguns segundos desanimado imaginando os discursos de dona Miranda (minha mãe) quando o visse, mesmo assim não tive vontade de arrumar aquilo, estava cansado de ficar lá dentro. Peguei meu tênis e meu casaco, chamei meu cachorro Tobi, ele apareceu de seu lugar favorito, embaixo da minha cama com o rabo balançando ja sabendo oque ia acontecer. Abri a porta e assoviei para me seguir e ele veio em um pulo seguido de um latido. Ao sair de casa escutei minha mãe dizendo para não chegar atrasado para o jantar e respondi apenas um 'ok'.
Olhei para o céu e estava muito nublado, Tobi ja estava urinando no primeiro hidrante que viu, o chamei para me acompanhar, coloquei meus fones e começou a tocar Still breathing do Green Day, fiquei observando os acontecimentos da rua, algumas crianças brincavam de bola em frente a suas casas, um senhor cortava a grama de seu quintal, senti aquele cheiro de grama cortada e uma leve sensação de conforto me invadiu.
Moro aqui há 10 anos, Augusta não é uma cidade ótima, mas também não é o pior lugar do mundo — mesmo os índices de homicídio, narcotráfico e furtos estarem aumentando todo ano. Minha família mudou para cá quando eu tinha 7 anos, não foi difícil me adaptar, meus primeiros amigos foram Carl, Dereck e Bruce. Carl foi morar com o pai em Tampa e o contato foi ficando raro e ate hoje não tenho mais notícias dele, Dereck continua sendo meu amigo, aliás, meu melhor amigo, e Bruce... Bem, tivemos uns desentendimentos que acabou resultando na inimizade, hoje ele é um daqueles jogadores babacas do colegial.
Minhas lembranças foram interrompidas por sirenes, olhei para trás e na pista vinha em alta velocidade duas viaturas da polícia e mais atrás uma ambulância, viraram em uma rua à direita e algumas pessoas curiosas fizeram o mesmo, por um momento esqueci que estava acompanhado, chamei Tobi e ele deu um latido em resposta logo atrás de mim. Atravessei a rua e comecei a seguir os outros curiosos, os carros pararam em frente a uma casa verde ao final da rua, pude ver de longe 2 policiais entrando na casa com armas em punho e outros 2 do lado de fora, não demorou muito para uma aglomeração de pessoas se formar e tapar a visão do espetáculo. Minha curiosidade aumentou, andei rápido e passei pela multidão que cochichava demais. Chegando no local vi os policiais saindo da casa com um homem furioso algemado e seguindo para a viatura a multidão aplaudiu a ação, os paramédicos entraram na casa com equipamentos de primeiro socorros e uma maca, os cochichos ficaram mais altos até que pude ouvir alguns, "Esse homem não pensa nem na própria família"; "ouvi dizer que a menina viu tudo"; "Ele tem que morrer!". Não posso negar, me senti mais fofoqueiro que um blogueiro de celebridades senti que só faltava uma pipoca pra acompanhar, companhia... isso me lembra alguma coisa... droga! o cachorro! pensei alto. Virei a procura de Tobi, olhei ao meu redor e vi pessoas com feições assustadas, curiosas e intrigadas, percorri meus olhos em toda a rua e nem um sinal dele, me afastei do tumulto andei um pouco e comecei a chamar, escutei um ganido baixo vindo de um beco um pouco afastado da confusão, chegando lá o vi sentado em frente de uma criança que parecia estar chorando agachada em posição fetal, pensei que ela poderia estar com medo dele já que é um cão de grande porte, isso já ocorreu algumas vezes mas Tobi é muito dócil, olhava aquela criança parecendo ter pena ou preocupação quase como um humano, me aproximei deles e chamei Tobi, ele olhou para mim e chorou baixinho e em seguida olhou para a criança.
— Vem cá! Esta assustando ela – ele não saiu a criança olhou para mim com os olhos vermelhos e levantou receosa, percebi que agora que ela tinha medo de mim. – Esta tudo bem, não vou te fazer mal, muito menos ele – apontei para o cão. Não tive muito sucesso, ela não relaxou muito. – Você esta perdida? – esperei alguma resposta mas ela apenas me olhava dando pequenos passos cuidadosos para trás.
— Sai de perto dela! – ouvi uma voz feminina ecoar por aquele estreito, escuro e úmido beco, olhei para trás e vi uma jovem de estatura média, cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo bagunçado, ela ofegava e suava, parecia ter corrido muito para chegar aqui, a criança passou por mim e correu ate ela – ele te machucou? Disse alguma coisa?
— Desculpe mas eu só queria ajudar! – ela ignorou minha fala e voltou a atenção para a criança que apenas balançou a cabeça negando. Segurou a mão da criança, olhou para mim e assentiu com a cabeça, seguiram andando apressadamente, preferi acreditar que aquele gestou foi um agradecimento.
Notas finais
Devo demorar a postar os próximos cap... tenho ficado muito ocupadinha.
Isso é tudo por hoje o/
Bjunda :*
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