New Life

2 The Beginning


A viagem havia sido, por um lado, satisfatória. Antes de comprar o bilhete de trem, havia comprado uma mala repleta de roupas masculinas, para uso futuro. Escolheu para si uma troca de roupa simples, que não chamasse muito a atenção de outros traunseuntes, e estufou o recém-adquirido urso de pelúcia em sua mochila, onde havia escondido alguns artigos femininos, como absorventes e coisas afins. Sabia que não seria suficiente para o tempo que gostaria de se manter longe, mas pensaria em algo quando chegasse a hora. Afinal, mesmo que se vestisse como homem, ainda era uma mulher. Tinha suas necessidades básicas, que não podia deixar de lado. O que aconteceria quando aqueles dias do mês chegassem e não tivesse nada em mãos? Não poderia simplesmente entrar em uma farmácia vestida daquele jeito e comprar um pacote de absorventes.

Por outro lado, aquela viagem de trem havia sido completamente estressante. O medo de ser descoberta consumiu-a como formigas consomem um cubo de açúcar. Rápido e letal. Nunca havia feito algo daquele tipo antes, sempre havia se dedicado a ser a filha ideal. No entanto, aos poucos havia começado a perceber como havia sido estúpida em acreditar que seu pai só queria seu bem. Ele queria o bem de seu dinheiro, isso sim. Chame isso de crise de rebeldia da adolescência, mas Kagome não agüentava mais. Queria uma vida dela, não a vida que seu pai queria que fosse dela. Tudo bem, adorava cantar e tudo mais. Aquilo tudo era sua vida. Mas não podia se dar ao luxo de ser controlada pelo pai daquele jeito, ainda mais quando já tinha idade o suficiente para tomar suas próprias decisões. Tinha 16 anos, por Deus! Até quando iria tratá-la daquele jeito?

Kagome afastou aqueles pensamentos de sua cabeça e analisou sua imagem mais uma vez no espelho do banheiro masculino. Não devia estar tão mal assim... Afinal, ninguém a havia reconhecido. Suas roupas largas, assim como as faixas que apertavam-lhe o busto, escondiam perfeitamente suas curvas. Os hematomas do joelho e dos braços, resultantes dos ataques de fúria de seu pai, combinavam com o skate que segurava. Parecia mesmo um moleque...

A única coisa que a incomodava era seu rosto. Tinha colocado um esparadrapo em sua bochecha para esconder um suposto ferimento ocasionado da prática de skateboarding, mas ainda assim achava que era feminina demais. Muitas vezes, Kagome já tinha ouvido falar que era linda: revistas, repórteres, opinião alheia. Ela mesma não se considerava feia, muito pelo contrário – gostava de sua aparência. No entanto, seria um tanto incoveniente no futuro...

Ela amarrou seus cabelos negros em um conveniente rabo-de-cavalo baixo e colocou o boné azul, as incrições “RAIDERS” em vermelho destacando-se. Analisou sua imagem novamente no espelho. Parecia que aquilo era o máximo que podia fazer... Tinha até considerado cortar o cabelo curto, mas gostava demais das madeixas sedosas que havia herdado da mãe. Também havia pensado na possibilidade de usar peruca, mas conhecendo suas tendências desajeitadas e propícias a desastres, achou melhor simplesmente prender seu cabelo.

Agora, o próximo passo. Já tinha tomado o primeiro trem disponível para uma pequena cidade aleatória de Hokkaido (que aparentemente ainda não atingira a marca de 4 mil habitantes), e agora encontrava-se na estação. Mas e agora? O que faria? Não tinha onde ir, sequer podia ligar para um conhecido. Sacara todo o dinheiro guardado em sua conta e estufara tudo dentro do mais novo urso de pelúcia, substituindo a espuma. Nem pensara em levar o celular consigo. Já se livrara do cartão de crédito, para que não a rastreassem por suas compras; encontrara uma escola que a aceitaria, mesmo sendo outubro e completamente fora de época para se fazer uma matrícula... O único detalhe que faltava era uma moradia.

Ela vagou tontamente pela estação de trem, sua mochila nas costas e o skate debaixo do braço. Os tênis a incomodavam um pouco, mas não tardaria a se acostumar com um pequeno detalhe desses. Talvez pudesse alugar um quarto barato em algum lugar perto da escola... Mesmo que isso levasse tempo. Não se importava em dormir nas ruas, contanto que pudesse tomar um banho depois de ter tudo arranjado. Podia até comprar um apartamento se quisesse, mas provavelmente o corretor de imóveis desconfiaria quando aparecesse com aquela quantia de dinheiro à sua porta. Afinal, não era todo dia que um adolescente contava com um chumaço de notas, ainda mais comprar um apartamento com inúmeros deles. Sozinho. Sem os pais.

Kagome demorou-se em frente a um mural de avisos, mas não encontrou nada que lhe fosse útil. Dirigiu-se ao balcão de informações, onde uma mulher mastigava a tampa da caneta que segurava em mãos, distraída enquanto pensava em alguma coisa.

— Com licença – chamou ela.

— Em que posso ajudar? – perguntou a informante, sequer levantando os olhos de seu caderno de palavras cruzadas.

— Será que sabe onde posso arranjar um quarto de aluguel? Ou mesmo alguém que esteja disposto a abrigar um estranho em troca de serviços domésticos.

— Hm... Desculpe, mas não me vem nada à cabeça. – ela preencheu mais uma coluna, e coçou a cabeça com a caneta.

Kagome esperou que a mulher dissesse mais alguma coisa, o que não aconteceu. Impacientemente, ela tamborilou os dedos no balcão e espiou por cima dos ombros da atendente, fitando o quebra-cabeça ao que a mulher se dedicava.

— Sean Connery — disse ela, a irritação em sua voz bem disfarçada. — É o ator que procura.

A atendente finalmente olhou para Kagome, pretendendo dizer algo, mas mudou de idéia ao fitá-la.

O efeito foi instantâneo. Ao vê-la, a informante gelou; um incômodo silêncio espalhou-se pelo local por alguns minutos. A garota corou dos pés a cabeça e abriu a boca, tentando inutilmente emitir algum som.

— Uh... Senhorita? – perguntou Kagome, confusa.

— T-t-tem uma velha senhora que precisa de ajuda com afazeres domésticos, talvez queira perguntar a ela... – gaguejou ela. – Seu nome é Kaede, ela é sacerdotisa do templo Sengoku Jidai. – a garota pegou a mesma caneta com que estava completando palavras cruzadas e, distraída, desenhou um mapa atrás de um documento que parecia ser importante. Kagome achou melhor não discutir.

— Ok, muito obrigado – ela sorriu gentilmente, pegou o mapa e dirigiu-se à saída. Quando olhou de relance ao balcão de informações, três outras conversavam animadamente com a primeira, olhando para Kagome. Quando perceberam que as olhava, acenaram um adeuzinho.

Kagome suprimiu uma risada, deu de ombros e saiu.

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Kagome não tardou muito a encontrar o templo. Havia vagado apenas por meia hora quando finalmente reconheceu a escadaria padrão de lugares como aquele. Até aquele momento, havia achado o pessoal daquela cidade muito agradável: pelo menos umas duas ou três pessoas, quando viram que a garota carregava uma mala e um mapa, haviam oferecido instruções. Isso, para ela, foi extremamente estranho. Não estava acostumada com pessoas gentis, tendo vivido toda sua vida em Tóquio. Tudo bem, não podia dizer que as pessoas de lá eram rudes, apenas... Indiferentes. Mas, ainda assim, era uma realidade completamente diferente da sua.

O templo Sengoku Jidai era humilde, mas bem apresentável. Apesar das centenas de milhares de degraus – segundo a contagem de Kagome, que desistira após o 150 – parecia ser um lugar bom para se morar. Uma árvore centenária dava-lhe as boas-vindas, acenando com seus inúmeros galhos ao ritmo do vento suave.

Parecia ser um lugar bom para se viver. O ar era fresco e puro, muito diferente do da cidade. Tóquio era sempre tão apinhada de gente que às vezes Kagome sentia-se sufocada, claustrofóbica. As pessoas da cidade grande não desfrutavam da vida, viviam às pressas sempre tentando agradar aos chefes no trabalho. Mas uma aldeiazinha do interior era muito mais reconfortante: nada de aglomerações humanas, apenas a natureza a se admirar e o ar fresco que engolfafa as pessoas prazerosamente.

Kagome correu os olhos pelo templo, esperando encontrar a tal sacerdotisa. Uma senhora, com trajes típicos de tal, varria as folhas caídas da árvore, distraída com seus pensamentos. Tristemente, toda vez que a velha senhora juntava mais folhas secas à pilhas ao seu lado, uma brisa separava outras do amontoado. Até que conseguisse chegar aonde as folhas tinham ido parar e varrê-las de volta à pilha, outra brisa já tinha soprado e levado mais um chumaço de folhas secas para o canto oposto. Kagome seguiu-a com os olhos por alguns minutos, absorta em sua pequena rotina. Depois de um tempo aproximou-se.

— Com licença... A senhora é a Kaede?

A senhora levantou os olhos e sorriu ternamente.

— Sim, meu bem. Em que posso ajudá-lo?

— Ouvi dizer que a senhora precisa de ajuda com afazeres domésticos...

— Oh, sim – ela parou de varrer e sentou-se em um banco de pedra ali perto. Fez sinal para que Kagome se juntasse a ela. – Estou ficando velha demais para essas coisas. Ainda assim, não tenho dinheiro para contratar alguém para fazê-lo...

— Oh, não se preocupe – disse Kagome, meio sem graça. – Não quero dinheiro.

Kaede fitou-a.

— Não?

— Não. – ela sorriu – Na verdade, queria saber se me aceitaria em sua casa por alguns dias, até que ache um lugar para morar... Enquanto isso, pagaria o aluguel com afazeres domésticos. Sei cozinhar, lavar, limpar, passar... Só me diga o que quer que faço para a senhora.

Kaede pareceu pensar um pouco.

- E seus pais? Não tem ninguém responsável por você aqui por perto?

- Ah – Kagome refletiu rapidamente. Não tinha pensado naquele detalhe. – Meu.. Pai está viajando a negócios e vai ficar fora por algum tempo. Ele não confia em mim para cuidar da casa, sabe?

- E sua mãe?

Kaede pareceu notar uma pequena sombra nos olhos de Kagome, mas nada disse. A sensação foi embora tão rápida quanto veio.

- Não a vejo há muito tempo. Faleceu juntamente com meu irmão.

A velhinha nada disse. O único som a ser ouvido era o farfalhar das folhas das árvores.

— Pode ficar o tempo que precisar. – disse ela, sorrindo para o céu — Esta velha senhora precisa de uma companhia... E uma pequena mãozinha no dia-a-dia.

O rosto de Kagome iluminou-se. Problema resolvido. Ela deu uma olhada em volta, no que seria sua nova casa dali em diante, até que encontrasse um novo lar. Seu olhar se demorou em uma grande árvore, que parecia ser sagrada. Aquele lugar dava-lhe uma sensação estranha de tranqüilidade, como não havia sentido há muito tempo.

Sem demorar-se mais, ela seguiu a gentil senhora para dentro da casa.

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A casa de dona Kaede era um tanto quanto simplória, mas aconchegante. Era uma casa em estilo japonês, com portas de correr e tablados de madeira. Seus cômodos não eram muito decorados, o que fazia parecer um tanto quanto vazio, mas ainda assim era agradável aos olhos. No mesmo instante, Kagome sentiu que havia conseguido um lar.

Kaede guiou a garota por alguns corredores e parou em frente a uma porta. Abriu-a, revelando um quarto pequeno e empoeirado, que claramente havia sido usado para guardar bugigangas pelos últimos anos. Kagome espirrou.

— Gomen ne... – desculpou-se a velha senhora, espanando a poeira de uma escrivaninha ali perto – Há muito tempo que vivo sozinha... Não tenho outro uso para esses quartos a não ser depósito.

Kagome riu.

— Não preocupe-se com isso, Kaede baa-chan. Não é difícil limpar tudo isso... Logo, logo, vai estar tudo brilhando.

Kaede virou-se para sair e deixar Kagome, mas virou-se novamente.

— Estou mesmo ficando velha... Quase me esqueci de perguntar seu nome.

— Aoi... – disse Kagome. Havia pensado muito sobre isso enquanto viajava de trem. Sentiu um pequeno aperto no peito de arrependimento por ter que mentir a uma velhinha tão dócil, mas não podia correr riscos. – Higashi Aoi.

A velha sorriu e, com um aceno de cabeça, retirou-se.

Kagome analisou seu novo quarto. Apesar de empoeirado, podia dizer que gostaria de ficar ali. Tinha tudo o que precisava: uma escrivaninha, uma cama, um armário, uma televisão – velha, mas que funcionou quando Kagome testou-a – e uma vista fenomenal da cidade de sua janela.

Ela deitou-se de costas na cama e fitou o teto. Estava um tanto quando amedrontada por ter feito o que fizera, mas precisava de uma mudança na sua vida. Não sabia quanto tempo mais agüentaria se tivesse que continuar a morar com o canalha a quem chamava de pai.

Kagome rolou na cama, deitando-se de lado, e encarou seu mais novo amigo, seu ursinho de pelúcia. Seus olhos pareciam confortar-lhe, dizendo-lhe que tudo ficaria bem. Como gostaria de acreditar em tudo aquilo fiel e cegamente... Mas algo em seu subconsciente não a deixava relaxar. Pelo menos ainda não. Ainda haviam muitos riscos pela frente. Teria que mudar drasticamente seu comportamento a fim de não ser reconhecida, e isso tomaria algum tempo. Não podia se descuidar enquanto não conseguisse masterizar sua nova personalidade; o menor deslize poderia dedurá-la. E, caso isso acontecesse, tinha certeza que seu pai a perseguiria até onde estivesse — e a agrediria como sempre fizera, talvez até pior do que o usual.

Cansada demais continuar se preocupando com tais coisas, Kagome fechou os olhos e acabou por adormecer.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.