New Feelings

19 Capítulo 18 - Voltando Para As Ilhas


Notas iniciais
Seis meses se passaram, e chega o momento de voltar às Ilhas do Sul para a coroação de Gardar...

O dia da coroação de Gardar aproximava-se, 24 de março. Embarcamos dia 21 de manhã, chegando dia 23 à tarde. Volto a dizer que a viagem não foi nada agradável – ainda mais para uma grávida de quase seis meses – e que o desembarque foi um verdadeiro alívio. Dessa vez, quando descemos no porto, notei que uma carruagem muito mais pomposa estava a nos esperar. Era muito maior do que a da última vez, tinha uma bandeira com o Brasão das Ilhas do Sul no topo e grandes W’s dourados nas portas. Impressionei-me com a mudança, e fiquei até um pouco desconfiada, mas entrei na carruagem. Ao sentar-me no banco, percebi duas pessoas sentadas à minha frente, e por um momento, senti medo. Felizmente, não havia motivo para pânico.

– Surpresa! – gritaram duas vozes femininas, uma ainda mais alta do que a outra.

– Dagny, calma! Não grite – pediu gentilmente Thrud.

Não pude conter o largo sorriso que surgiu em meus lábios ao ver que se tratavam das adoráveis esposas dos irmãos de Hans.

– Dagny! Thrud! São vocês mesmas! Que saudades!

– Quem você esperava? O assassino do bosque? – questionou Dagny, ironicamente.

– Dagny! Não amedronte Elsa com essas suas histórias tolas! – ela virou-se para mim com um sorriso sem graça – Não há nenhum assassino do bosque aqui, Elsa.

– Há sim, ele matou o antigo Du... – começou Hans, mas Thrud o olhou com um olhar repreendedor e ele mudou a frase. – Ora, isso foi há muito tempo.

Dagny passou os dedos pelos cabelos cor de mel e desatou a falar:

– Garanto que ninguém sentiu mais a sua falta do que eu! Você é tão legal! Não é todo dia que se conhece uma Rainha das Neves! Esses poderes são de nascimento ou é uma maldição? Não que eles sejam uma maldição, não foi isso que eu quis dizer...!

– Respire, Dagny. Mas eu concordo, você é uma ótima pessoa, Elsa! Agora, se não é pedir muito, pode nos contar como está sendo a primeira experiência maternal?

– É claro, está sendo tão maravilhosa que eu nem poderia explicar com palavras!

– Isso é incrível! Estou tão animada quanto você! – respondeu.

– Como Yran e os meninos podem não ficar animados em serem tios? – disse Dagny.

– Talvez porque já tenham mais de dez – riu Hans.

Não sei qual era o motivo, mas havia um conflito explícito entre Hans e as meninas. Eles não discutiam, mas mostravam claramente que não iam com a cara um do outro. Com o comentário de Hans, elas apenas torceram a cara como se ele fosse um moleque falando tolices.

Depois disso, acalmamos os ânimos conversando sobre os mais variados assuntos, até que a conversa caiu na coroação, e da coroação, foi para Gardar.

– Devo admitir que eu... – Thrud olhos para os lados e abaixou o tom de voz – Temo o que Gardar pode fazer.

– Como assim...? – não estava entendendo onde ela estava tentando chegar com aquilo. Afinal, que mal Gardar poderia fazer?

– O homem já era meio ruim das ideias, agora que vai ser rei, imagina as coisas que ele não vai fazer – acrescentou Dagny.

– Vocês acham que ele pode fazer algo de mal?

– Eu não acho, tenho certeza. Meu irmão não é bonzinho assim como você está pensando, Elsa.

– Mas a rainha não deixaria que ele fizesse algo de errado... Deixaria? – perguntou Dagny, deixando a questão no ar. Nenhum de nós tinha certeza sobre o caráter da Rainha, ela era uma mulher misteriosa e complexa demais para se prever as ações.

O silêncio reinou a partir de então. Ninguém disse nada até chegarmos ao castelo. A carruagem parou abruptamente e um lacaio abriu uma das portas.

– Altezas – ele fez uma reverência.

– Não tem por que das formalidades, Bjorn – disse Dagny, humoradamente, descendo com pressa.

Thrud, Hans e eu descemos em seguida. Desamassamos as vestes discretamente e entramos no castelo, que estava com as grandes portas escancaradas, como se desafiasse as pessoas a entrarem nele. Dagny e Thrud despediram-se de nós dois e foram atrás dos maridos.

– Onde fica a capela? – perguntei a Hans.

– A coroação não será realizada em uma capela, não haveria espaço. Será na Igreja, e iremos a pé. É um costume antigo aqui.

Segundos após ele completar a frase, o mesmo criado mirradinho da última vez apareceu para atender-nos, mas agora aparentava cansaço e um pouco de preocupação.

– Altezas, é um prazer revê-los. Em que posso servir?

– Pode levar as malas para o meu quarto, por favor? – pediu Hans.

– Com certeza, Alteza!

O pobre homem tentou pegar as malas, mas mal conseguia segurá-las de tão pesadas e grandes – quase maiores que ele próprio. Ao ver a dificuldade do criado, Hans ofereceu-se para ajudá-lo.

– Deixa que eu leve esta.

– De maneira alguma, Alteza! Eu sou seu criado, vivo para servir ao senhor e à família real – o homem pareceu um tanto quanto ofendido, mas certamente grato pela oferta. – Agradeço a sua bondade, mas isso é errado, eu seria um folgado se aceitasse.

Hans revirou os olhos e, como se não ouvisse o velho criado, pegou a mala maior e subiu as escadas o mais rápido que podia, fugindo das reclamações do homem, que achava aquilo um absurdo. Com um sorriso risonho, subi atrás deles com calma, firmando-me no corrimão.

– Tomara Deus que ninguém tenha visto isso, ou então será o meu fim! – preocupava-se o criado.

– Acalme-se, eu sou bem capaz de carregar minhas próprias malas – respondeu Hans.

– Que Sua Alteza não se ofenda, mas não é nada parecido com os irmãos.

– É... Por isso mesmo que eles me excluíam – ficaram em silêncio por alguns segundos.

– Bem, se o senhor me permite, com licença – ele fez uma reverência e depois saiu.

Após o criado sair, parei para olhar melhor o quarto de Hans; limpo. Cheirava a naftalina, não mofo. Lençóis de seda, belas cortinas e piso brilhante davam a ele um novo aspecto. Algo quase mágico parecia ter acontecido ali.

– Mas o que aconteceu com este quarto? – perguntei confusa.

– Estou me perguntando o mesmo...

– Digamos que isso é o que chamamos de causa e efeito.

Viramos para a porta, onde Magnor encontrava-se, junto à esposa.

– Magnor? O que você tem a ver com isso?

– Tudo! Magnor foi quem pediu que arrumassem o quarto para vocês – disse Clarisse, com um sorriso nos lábios.

– É mesmo? E por quê? – insistiu Hans.

– Aceite como um pedido de desculpas pela minha atitude egoísta com você durante todos esses anos, quando quis minha companhia.

– Não sei... Isso não é o tipo de coisa que você faz.

– Hans, eu não sou mais um adolescente, nem você é mais um garotinho. Vamos parar com esse comportamento hostil, sim? Dê-me um abraço – Magnor aproximou-se de Hans, e então notamos que ele mancava uma perna, e apoiava-se numa bengala.

– O que houve com a sua perna?

– Ah, fui mordido por uma onça. Mas não foi nada.

– Como não foi nada, seu maluco? Poderia ter perdido a perna!

– Deveras, mas isso não vem ao caso agora. Abrace-me logo, antes que eu caia.

Os dois abraçaram-se de uma forma tão estranha que pareciam nunca terem feito isso antes, bem, talvez não tivessem.

– Elsa! Perdoe meus maus modos, nem a cumprimentei. Como vai? – disse-me Magnor apertando minha mão, depois de sair do abraço.

– Não se preocupe, Magnor. Vou bem, obrigada. E você... Parece estar se recuperando com saúde.

– É, o pior já passou. Agora é só seguir as instruções do médico e em breve estarei novo em folha.

– Mas não se esqueça da advertência que ele lhe deu: “Você não deve fazer esforço.” – lembrou Clarisse.

– Eu sei, eu sei... Pare de lembrar, me faz sentir um velho.

– Espera, se está sem poder fazer esforço, como vai andar até a Igreja? – perguntou Hans, aparentando certa preocupação.

– Com a ajuda de uma bengala de aço e uma esposa de ferro – o loiro pegou a mão da mulher e beijou-a.

– Agora sei por que você tinha dificuldades para namorar, suas cantadas não prestam. Como você conseguiu conquistar Clarisse?

– Clarisse é uma mulher inteligentíssima.

– Quer dizer que ela entendeu as suas cantadas?

Magnor suspirou e revirou os olhos.

– De forma curta e grossa, sim.

Após alguns segundos de silêncio, acho que Clarisse deve ter percebido que tínhamos acabado de chegar e estávamos cansados, e resolveu deixar-nos a sós.

– Acho que a viagem deve ter sido bastante exaustiva, vamos deixar que eles descansem em paz, amanhã será um longo dia.

– Com certeza. Vemo-nos no jantar? – convidou Magnor.

– Se nada nos acontecer, sim.

– O que está dizendo? É claro que nos veremos no jantar. Até breve – eu disse.

Eles sorriram e saíram do quarto. Depois de me certificar de que eles estavam longe, fechei a porta e sentei-me na cama ao lado de Hans, que já estava deitado e de olhos fechados.

– Então... O quê você fazia para se divertir? – perguntei, tentando conversar.

– Brincava sozinho, andava a cavalo, lia no meu quarto, praticava esgrima...

– Nenhuma das coisas parece muito atraente.

– E tocava piano – completou.

– Piano? Onde? Eu nem sabia que tinham um aqui no castelo!

– Fica em uma sala lá embaixo, exclusiva para aulas.

– Todos vocês sabem tocar?

– Não, só Triwar, Magnor e eu. Mas nenhum de nós é profissional...

– E isso importa? Eu quero ver esse piano!

– Depois. Estou morto, vamos dormir.

– Você sabe que horas são? – perguntei irônica.

– Não sei nem quero saber, para mim é como se fosse madrugada.

Revirei os olhos e deitei-me, no fim das contas, o dia seguinte realmente exigiria uma disposição e ânimo que, no momento, eu não tinha.

________________

Notas finais
Lembram-se de que a lua-de-mel de Magnor e Clarisse foi na América do Sul? Pois é. No próximo capítulo: A coroação e o baile. Bjs, até lá :).