New Feelings
18 Capítulo 17 - Duas Cartas, Dois Problemas
Notas iniciais

Os meses passavam cada vez mais rápido, logo Syver já tinha três meses e tudo parecia continuar estabilizado; um grande engano. Em apenas um só dia, tudo o que tínhamos construído com tempo e esforço desabou. E pior, continuamos acreditando que estava tudo bem, mas não estava. E pensar que tudo começou com o que parecia uma simples correspondência que logo seria esquecida.
Mais uma vez, Hans estava recebendo uma carta, mas quem me dera fosse uma carta comum, um convite para um casamento ou algo assim. Não, estava mais para uma intimação. Em silêncio e apreensivo, ele abriu a carta lentamente. À medida que lia, sua expressão ia ficando mais séria, e suas sobrancelhas se contraíam.
– Este suspense está me matando! Diga logo, o quê está acontecendo?! – perguntei, nervosa.
– Uma ameaça, é isto que está acontecendo, Elsa! – ele amassou o papel na mão, e eu tomei-o de si.
Li com ansiedade, passando os olhos com tanta rapidez que chegava a ficar tonta.
Olá, peste,
Então, antes de qualquer coisa, saiba que foi você quem começou isso. Hans, o caçulinha, rei de Arendelle? Não me faça rir! Escute, é melhor dormir com um olho aberto e o outro fechado, eu não vou perder meu tempo com você. Sinceramente, pensa que pode ser feliz? Você nunca foi nem nunca será, e eu farei tudo ao meu alcance para me certificar de que você fique no seu lugar. Se tivesse apenas continuado como estava, invisível... Nada disso seria necessário. Apenas aproveite a sua felicidade momentânea, porque quando você e essa gentalha que chama de família estiverem distraídos, eu farei questão de pegar tudo o que é meu por direito.
Senti-me mal ao terminar de ler essa carta, quis vomitar, desmaiar... Mas me contentei em apenas sentar no trono e massagear as têmporas. Foi como se ela tivesse me tirado completamente as forças.
– Por que você foi ler a carta...? – Hans aproximou-se, preocupado.
– E o que você queria? Que eu não lesse? Que não me preocupasse?! – aumentava o tom de voz a cada frase. – O que significa isso, Hans?!
– E eu vou saber?! O que eu sei é que alguém está querendo me ver num caixão, só para poder vir aqui e tomar tudo o que não me pertence! Agora, por que disso eu não sei! – comecei a chorar.
– Por que justo agora que estávamos tão felizes? Por que algo sempre tem que estragar tudo...? – Hans abraçou-me.
Anna entrou de repente – como sempre – e nos olhou com espanto.
– Nossa, quem morreu?
– Ninguém, por enquanto – disse Hans, e eu dei-lhe uma cotovelada – Não! Digo... Não foi nada! Era besteira.
– São lágrimas de felicidade! – corrigi, secando o rosto. – O quê foi, Anna?
– Hum, bem, eu só ia avisar que chegou alguém. Quer falar com você.
– Ah, certo. Estou indo – andei até Anna. – Estou com cara de choro?
– Não, peraí, só um pouquinho – ela limpou algo no meu rosto. Sorriu – Bem melhor.
Enlaçamos os braços e fomos até a sala onde a visita se encontrava, uma senhora de vestes que eu nunca vira na vida, na certa não era daqui. Tomava chá e tinha uma expressão muito séria. Ao me ver, sorriu e fez uma leve reverência.
–Rainha Elsa, não sabe a honra que é finalmente conhecer a senhora.
– Por quê? Ouviu falar de mim?
– Ah, eu conheci os seus pais! Adoráveis pessoas, pena que se foram tão cedo – ela suspirou. – Sempre quis conhecer as filhas deles.
– Desculpe, mas de onde conhece meus pais?
– Bem, é uma longa história... Digamos que eu sou uma amiga da família. Conheci seus avós, pais da sua mãe.
– Nem eu os conheci...
– É, faz bastante tempo – ela riu baixo. – Mas enfim, eu senti muito pela morte dos seus pais. Gostaria de ter vindo antes, mas meu marido estava muito doente, sofreu muito até morrer há um ano, então ainda tive que esperar um tempo até finalmente poder vir visitá-las. Ainda assim, não posso me demorar, só vim entregar algo que lhes pertence.
– Algo que nos pertence? Não entendi – intrometeu-se Anna.
– É uma carta; da sua mãe. Aqui ela explica... Tudo o que vocês precisam saber agora, e o que precisarão saber depois – ela entregou-me uma carta de aparência velha, embolorada e amarela.
“Maravilha. Mais uma carta.” – pensei.
– Quando quiserem, vocês poderão encontrá-la nas montanhas, ela nunca fica muito tempo no mesmo lugar, mas é sempre perto da neve – não fazíamos ideia do que a misteriosa senhora estava nos falando, apenas a encaramos com confusão. – Bem, vou indo. Bom dia e até breve – ela virou-se para ir embora.
– Espere! Nem nos disse o seu nome! – chamei-a.
– Meu nome não interessa. Sou apenas uma pessoa que quer ajudar, nada mais – ela virou-se mais uma vez, mas voltou a falar – Ah, Elsa. Por favor, tome cuidado, e não se deixe dominar jamais.
Dessa vez ela realmente foi embora. Tão rápido como apareceu, sumiu. Entrou no que deveria ser sua carruagem e partiu.
– Quem era? – perguntou Kristoff, que aparecera do nada, junto a Hans.
– Eu não faço ideia.
– Mais cartas? – apontou Hans, já preocupado.
– Sim, não sei do que se trata, mas ela disse que era da minha mãe.
– Abra logo, Elsa! Estou curiosa! – pediu Anna.
Sentei-me na poltrona mais próxima e comecei a ler em voz alta:
Cara amiga,
Desculpe se incomodo, mas realmente preciso falar isso para alguém, e como a pessoa mais próxima de minha família – além de ter sido nossa fiel conselheira por anos – não confio em ninguém mais do que em você. Enfim, o que temíamos realmente aconteceu: Elsa não controla seus poderes. Meu medo é que ela se torne igual à tia. Sei que você pode pensar que Ingrid é um caso à parte, mas não posso descartar essa possibilidade. Afinal, com ela também começou com inocência, e logo se tornou algo incontrolável e ameaçador. Temo por Elsa, por Anna, pelo reino e por mim mesma. Não sei o que pode acontecer, o futuro a partir de hoje é incerto.
Acredito que você não vai contar isso a ninguém, mas, caso algo nesse incerto futuro faça necessário que Elsa e Anna tomem conhecimento desses fatos, não hesite em contá-las tudo. Principalmente sobre Ingrid. Um dia, sei que Elsa terá curiosidade sobre a origem de seus poderes, e só Ingrid poderá dizer. Mas não sei onde ela se encontra, provavelmente em alguma montanha. É importante que mantenhamos distância dela, e você sabe por quê. Aguardo pela sua resposta. Espero que esteja bem, e melhoras ao seu marido.
Atenciosamente,
Idun
Se antes eu não tinha dúvidas, agora minha cabeça estava cheia delas. Já havia me perguntado sobre a origem dos meus poderes, mas como não havia resposta óbvia, apenas aceitava o fato de que eu era “diferente”.
– O que foi isso...? – Anna estava tão confusa quanto eu. — Essa tia... Por que nossos pais nunca nos falaram sobre ela?
– Não percebeu? Eles a afastaram assim como fizeram comigo... Você acha quê...? – tentei perguntar, mas Hans me cortou.
– Não, Elsa. Não sei o que a sua tia fez, mas não é boa ideia procurar ela, pelo menos não agora.
– Eu também acho, ela pode ser perigosa – ponderou Anna.
– Foi só uma ideia. Mas já temos coisas demais para nos preocuparmos para pensar nessa tia que nem sabemos se ainda existe.
– É, e que pode não ficar nada feliz com uma visitinha – disse Kristoff.
– Eu só queria recomeçar este dia todo, desde o início – eu apoiei a cabeça na mão.
– Você está muito estressada, descanse, esqueça um pouco os problemas – Anna ajudou-me a levantar e guiou-me até o quarto.
– O que você acha que devo fazer, Anna? – perguntei, com a voz quase desaparecendo.
– Acho que tem que parar de se preocupar e deixar as coisas acontecerem. Afinal, não dizem que tudo sempre tem um final feliz? – ela sorriu.
– Queria ter o seu otimismo – tentei acompanhar o seu sorriso, e ela me fez sentar na cama.
– Eu vou jogar fora essas cartas, e não quero saber de correspondência por um bom tempo! Trate de descansar e esquecer tudo isso.
"Esquecer”. Isso pode ser bom ou ruim. Que efeito teve na nossa situação eu não sei ao certo. Se eu tivesse me lembrado das ameaças, por exemplo, poderia ter salvado nosso destino? Talvez sim. O fato é que eu não me lembrei, e isso colocou muitas pessoas em perigo.
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