Neverending Nightmare
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Arfei, ofegante, aquele pesadelo de novo. Eu não lembrava dele, nunca lembrava, mas sabia que era o mesmo. No final, eu sempre tinha a mesma reação, acordava suado com um gosto metálico ruim e estranho.
“Oi, você está me ouvindo?” ouvi uma voz surgir. Levantei-me da cama a procura da origem, aproveitei e analisei o lugar onde eu estava. Quarto de madeira, velho, porém conservado. Televisão quadrada, modelo antigo, pelo menos eu sabia que eu tinha eletricidade naquele lugar.
Era estranho, eu conheci e ao mesmo tempo não conhecia aquele lugar, ele era e não era familiar. Me senti desconfortável com isso. Forcei minha memória, John, meu nome era John, e era a única coisa que eu me lembrava. Notei um gravador ao meu lado e apertei play.
“Isso está ligado? Acho que sim. De qualquer forma, meu nome é John. Infelizmente, isso é o máximo que eu consigo me lembrar. Me sinto estranho nesse lugar, as janelas estão trancadas e são resistentes a pancadas. Não há jeito de sair. Eu já… Espera, o que foi isso?”
Um barulho surgiu, parecia de algo se quebrando, vinha de fora do quarto em que eu estava. A fita parou de falar sozinha, não dava para rebobinar. Agora eu estava me decidindo se eu saia do quarto ou não. A curiosidade venceu.
Abri a porta e me deparei com um corredor pequeno e estreito. A minha frente, um quarto com florezinhas na porta e a minha esquerda uma escada. Decidi deixar o quarto para mais tarde, ou seja, desci as escadas. Ela deu de frente para uma porta, que deveria ser a principal, mas ela simplesmente não tinha nenhuma maçaneta ou fechadura, era só a porta. Notei, a minha direita, uma porta para a sala. A luz no cômodo, apesar de suficiente, era fraca e falha, me fazendo forçar a visão.
O próximo cômodo era uma espécie de sala, mas estava tudo quebrado e despedaçado. Roupas jogadas pelo chão, os sofás rasgados, o rack, espatifado em vários lugares e o papel de parede foi arrancado. Era um verdadeiro pandemônio ali.
Passei por aquela bagunça que ousei chamar de ambiente até a próxima porta, observando tudo ao meu redor. Até que eu vi. Fotos espalhadas, não, jogadas ao chão. Me aproximei delas, não ousando as tocar. Eram de duas pessoas, uma garota e uma mulher, ambas loiras, sorrindo para as fotos. Elas deveriam ser as donas da casa. Onde elas estão? E o pior, o que eu estou fazendo aqui?
Ainda cauteloso, entrei pela próxima porta, essa agora que dava para uma cozinha, que não estava em um estado tão deplorável quanto a sala, mas não estava nada mal também, apesar do fato de ter algumas manchas vermelhas manchando o chão. Uma grande panela de metal se encontrava no fogão, fervendo. O cheiro não era bom, mas também não era desconfortante ao ponto de ser sufocante.
Cacos de vidro espatifados ao chão, vindo de uma garrafa de whisky quebrada em dois. Peguei um papel em cima da pia e me pus a catá-los. Claro que guardei um maior comigo, só por segurança. Ouvi um barulho de alguém subindo as escadas e me apressei a voltar para lá. Quando cheguei ao topo, vi que a porta de flores estava entreaberta. Ainda hesitante, entrei lá. Me deparando com uma cena, no mínimo, perturbadora.
O quarto, destruído, chegava a estar pior do que a sala. Agora eu tinha certeza que as manchas vermelhas eram manchas de sangue, e elas estavam por todos os lados. O colchão, retalhado, com o enchimento jogado por aí; as cômodas quebradas, um pé enfiado na parede. Mas o pior de tudo era a parede. Manchas e borrões vermelhos formando “Ajude-me” em alguns lugares e “Saia daqui” em outro.
Quase corri para fora do quarto. Aquela cena não ia sair da minha cabeça tão cedo, decidi que não iria voltar naquele quarto. Eu precisava de um copo de água para me acalmar. Desci até a cozinha,tomando cuidado para não fazer barulho. Quando cheguei lá, notei uma porta que não tinha visto, na pressa de subir. Me controlei para não olhar, mas foi impossível. No momento em que eu abri a porta, me arrependi completamente. O cheiro de carne podre me dava náuseas. O banheiro, diferente do resto da casa, estava arrumado, quase intocado. Estranhei. A cortina do box estava fechada. Me aproximei e dei um puxão rápido. Me engasguei com o susto e segurei minha súbita vontade de vomitar.
O corpo, decapitado, de uma mulher, estava pendurado. Ele estava ali a muito tempo, pois a carne estava quase apodrecendo. Em sua barriga, as palavras gravadas na carne “Salva”. Era terrível de se olhar.
Corri para fora do local e fechei a porta. O que estava acontecendo naquela casa?! Outro problema aconteceu, a grande panela, começou a ferver e borbulhar, tive que ir desligar. Pensei se estaria com fome depois daquilo, não, durante um bom tempo. Mesmo assim, decidi abrir a panela para ver o que tinha ali dentro. Abri. Vomitei na pia logo depois. Duas cabeças, com bolhas e mais bolhas, o cabelo queimado e quase derretido, os olhos abertos, abertos não, nem pálpebras tinham, a pele queimada. Era agoniante. Larguei tudo e subi correndo as escadas.
Eu só queria sair! Que tipo de doente faria aquilo? Quando subi, notei um alçapão no centro do teto após a escada. Era a minha chance! Janelas de sótãos são velhas e frágeis, eu poderia sair por ali.
Puxei o alçapão e subi pela escada que caiu de lá, desesperado para ir embora, eu faria qualquer coisa.
Assim que eu subi, liguei a luz, ao mesmo tempo uma TV se ligava sozinha, ela era a única mobília no quarto. Um vídeo de gravações familiares começou a passar. As duas loiras apareciam muito.
“John!” a mulher do vídeo gritou sorrindo e meu rosto apareceu na câmera.
Um pouco depois, meu rosto apareceu de novo, dessa vez, sujo de sangue, com um sorriso quase que insano.
“Eles vieram, eu tive que fazer isso. Eles arrombaram a casa, eu não tive escolha. Eles as violaram, então eu tive que salvar elas”
Com pavor, lembrei da marca no corpo da mulher. “Salva”.
Não, eu não podia ter feito isso. Era impossível, eu nunca faria isso. Jamais faria isso com a minha esposa. Um pano rosa cobria alguma coisa ao chão, mas eu sabia o que era, ou melhor, quem era. Levantei-o, vendo o corpo desfalecido da minha filha. Lágrimas rolavam pelo rosto, mas isso não as traria de volta.
Eu não teria feito aquilo, eu não era capaz de fazer algo tão horrível assim, mas acontece que eu já fiz. Não, isso tudo não pode ser real, era um pesadelo. Onde raios eu estava!
A palavra “inferno” acertou minha mente, e finalmente eu entendi. Enquanto a palavra acertava minha mente, chocando-me, eu acertava o grande pedaço de vidro em meu estômago, decidindo acabar com tudo aquilo.
Grande engano.
Arfei, ofegante, aquele pesadelo de novo.
Fale com o autor