Never Let Me Go
12 You get caught
Acordei atordoada, meio tonta com o barulho do despertador martelando em minha cabeça. Desliguei-o com um só golpe e fiquei esperando minha mãe vir me chamar para levantar. Quinze minutos depois o despertador tocou novamente enquanto eu percebia que ela não viria, nunca mais viria. Levantei e percebi que ainda estava com as roupas de ontem, um short estampado e uma blusa azul. Meu cabelo preso em um rabo de cavalo todo bagunçado. Fui até o banheiro e lavei o rosto com água gelada. Percebi que havia esquecido o uniforme. Voltei ao meu quarto e peguei a calça cinza de sempre, e a blusa de manga branca com o logo da Mountain High. Tomei um banho rápido e não me importei de molhar o cabelo. Iria ficar com frio, mas só lembrei-me disso depois que eu saí do banheiro e o vento gelado bateu em meu rosto.
Coloquei a bota marrom clara de sempre, o casaco da escola, peguei minha mochila e desci as escadas pisando com força nos degraus. Fui até a porta, peguei meu gorro e minhas luvas, deixei o cachecol lá e saí porta afora. Não vi meu pai e nem escutei nenhum barulho enquanto me arrumava, talvez ele já tivesse saído quem se importa. Fiquei alguns minutos esperando Carol na porta de casa, percebi que havia terminado de me arrumar mais cedo hoje. Eram 7h50min e Carol ainda não havia chegado, o que significava que ela estava atrasada, então fui em direção à escola sem esperá-la, esse era nosso código. Se fossem 7h50min e a outra não tivesse chegado, quer dizer que ela estava atrasada e a que estivesse adiantada poderia ir.
Passei em frente a uma casa que tinha um desenho feito de giz colorido na calçada da frente. Era um cachorro eu acho. Que estranho. A menininha ou o menininho deve ter roubado giz da escola e deve ser bem estranho. Mal percebi a figura que andava ao meu lado.
“Bom dia Julia Foster.” Olhei para o lado desanimada. Quem é você?
“Ah... Oi”
“Pelo visto não se lembra de mim.”
“Lembro sim. Você é o menino estranho da escada.”
Ele nada disse, somente olhou para mim, ajeitou sua mochila e continuou andando ao meu lado em silêncio. Eu estava tão distraída que nem percebi que se eu tinha passado na frente da casa do menino, eu estava na rua da casa do... Engoli em seco antes de terminar o pensamento, pois a árvore que eu havia me escondido ontem acabara de entrar em meu campo de visão. Uma lágrima escorregou de meu olho, mas eu rapidamente passei a mão no rosto e sequei-a. Acho que o menino nem percebeu.
Quando estávamos passando na frente da casa, eu estava olhando para o chão me concentrando em minha bota e dando passos rápidos. Meu plano era passar despercebida. Eu estava andando tão rápido que o menino ficou para trás.
“Ei Julia Foster! Para que a pressa?”
Ele gritou e veio correndo ao meu encontro. Droga! Meu plano de passar despercebida havia sido estragado. Ele logo estava do meu lado sorrindo.
“Para que a pressa?” Ele perguntou novamente.
“Estou atrasada. Ou melhor, estamos atrasados.” Ele não respondeu, ficou parado em minha frente me analisando enquanto eu olhava fixamente a casa. Nenhuma movimentação aparente. Olhei para ele e percebi que eu deveria estar dando medo no menino.
“Vamos?”
Ele balançou a cabeça e logo estávamos andando lado a lado novamente em silêncio. Quando íamos virar na esquina, olhei mais uma vez de relance para a casa e vi o homem me observando, no canto das cortinas. Senti um calafrio, mas rapidamente virei para frente e continuei meu caminho.
O restante do dia foi normal, exceto quando eu encontrei Kate na sala de matemática e ela me perguntou como minha mãe estava. Eu teria de contar tudo para as meninas. Assim que ela perguntou, eu não respondi e fiquei fitando a parede algum tempo, até que outra lágrima ousou escapar de meus olhos e Kate percebeu que havia algo de errado. Saí de sua frente rapidamente e sentei no fundo da classe. Foi assim em todos os períodos, até os que eu tive com as meninas que já tinham certeza absoluta de que algo estava errado.
Fui embora sem Carol. Estava nervosa e triste e milhões de coisas se passavam em minha cabeça. Fui andando rapidamente em passos largos e apressados, olhando para o chão. Não vou dizer que passei a manhã inteira sem chorar, por que seria mentira. Cheguei em casa, bati a porta da frente e fui com tudo para meu quarto. Mas foi só depois de ficar no extremo silêncio, que percebi que meu comportamento não teve sentido, afinal, ninguém estaria em casa para me fazer perguntas sobre o que havia ocorrido, ou sobre o que eu queria para o almoço.
Comi um pão de tésseras, e voltei para o quarto, para tentar fazer alguma coisa. Mas de nada adiantou, pois a dor de cabeça que havia tomado conta de meu ser, não me deixava nem concluir pensamentos. Acho que a única vez que senti alguma felicidade nesse dia foi quando a Oficial Johnson e o Oficial Steiner bateram em minha porta para me pedir que ajudasse eles a encontrar a casa do homem suspeito de ter abusado sexualmente de minha mãe.
Subi as escadas e deixei os oficiais na sala, enquanto tirava a blusa de manga do colégio e a substituía por uma preta. Peguei meu casaco, minhas botas e meu gorro. Quando desci os oficiais pararam de conversar e pediram que eu fosse à frente. Quando saí porta afora, fiquei assustada com a quantidade de pacificadores presentes em meu quintal. Deviam ter pelo menos vinte homem grandes e armados, todos vestindo macacões brancos.
Pensei comigo mesma, e tudo o que fiz foi refazer o caminho que eu fazia para ir à escola todos os dias. O mesmo caminho que eu fiz hoje. Fui na frente e durante todo o percurso fiquei mordendo minhas unhas, até que a Oficial Johnson se posicionou do meu lado e perguntou:
“Onde está seu pai?” Ela disse baixo. Assustei-me com o fato dela falar comigo, mas mesmo assim respondi a pergunta.
“Trabalhando nas minas.” Ela concordou com a cabeça e nada mais disse durante o caminho.
Assim que avistei a árvore novamente, parei. Ela parou ao meu lado e me analisou em silêncio. O Oficial Steiner veio para meu lado esquerdo e perguntou:
“Qual é a casa?”
Apontei para a árvore e ele concordou com a cabeça. Não sei por que, mas estava travada. Com medo do que poderia acontecer a seguir. O Oficial Steiner chamou a atenção dos pacificadores e os-conduziu até a casa, todos em fila. Fiquei parada a alguns metros de distância na calçada, observando tudo em silêncio. A Oficial Johnson ficou ao meu lado.
Observei eles invadirem a casa, quebrando a porta. Alguns minutos depois, o homem saiu imobilizado por dois pacificadores. Fiquei olhando diretamente para ele, que primeiro me fuzilou com o olhar cheio de ódio e raiva, e no minuto seguinte começou a rir. Sua risada era meio... Sombria. Senti os pelos de minha nuca se eriçarem. Logo depois, o Oficial Steiner deu alguma ordem aos homens, e eles seguiram pela rua em fila, na direção da Capital. De algum modo eu me sentia mais segura, mais livre. A Oficial Johnson ainda permanecia ao meu lado.
“Vai me acompanhar de volta?” Perguntei baixo. Ela virou sua cabeça para mim e balançou-a levemente.
O caminho de volta foi tão silencioso quanto o da ida, e eu já havia parado de ficar desconfortável com isso. Assim que cheguei em casa, eu me virei para ela e agradeci por ter me acompanhado. Ela me surpreendeu mais uma vez.
“Tome cuidado Julia.” Deu meia volta e seguiu no caminho para a Capital.
Entrei na casa escura e silenciosa, e encarei o chão da sala por algum tempo. Eu preciso me acostumar com tudo isso. Deixei meu gorro e meu casaco na entrada e subi as escadas em silêncio. Abri a porta de meu quarto, tirei minhas botas e sentei-me na cama para tentar mais uma vez fazer o exercício de química. Meu lápis caiu no chão assim que eu peguei o caderno. Ele foi parar em baixo da cama, e quando eu estiquei meu braço para pegá-lo, senti um papel. “Deve ser algum papel velho.” Pensei.
Mas assim que tirei a mão de baixo da cama, a carta que minha mãe tinha me entregado tomou conta de minha visão.
Notas finais
Como prometido, mais um capítulo hoje yay Consegui postar no dia certo!yay
Eu não gostei muito desse capítulo, na verdade eu achei ele meio parado, acho que vocês vão gostar mais do próximo :)
Reviews são sempre bem-vindas :)
Obrigada por lerem e espero que gostem ♥
Beijos
xxJuhxx
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