Cumprimentei a Senhora Perri com a cabeça enquanto andava pelos corredores da North Shore, bem cheios hoje por sinal. Esbarrei em algo. Algo não, alguém.

“Desculpe-me.” Precipitei-me apertando meu caderno de física com força no peito e preparando minha cara de “idiota”.

“Tudo bem, a culpa foi minha.”

“Mary?”

“Sim. Você é a Julia, não é?”

“Sou. Como você está?”

“Bem, na verdade acho que estou indo muito bem.” Ela me olhou nos olhos e deu um sorriso falso que pareceu meio maldoso.

“Que bom. Já voltou a falar com seu primo?”

Ela me olhou com a cara de “Como você sabe disso?” e depois fez uma careta de raiva. As grandes e roxas olheiras e seus olhos castanhos agora meio avermelhados indicavam que ela não dormia bem há muito tempo. Alguns fios de seu cabelo que estavam ressecados caíam em seu rosto. Ela rapidamente arrumou os fios, colocando o cabelo somente para um lado. Reposicionou os três livros grossos que carregava em suas mãos para que eles parassem de escorregar.

“Desculpe-me. Ele me disse uns dias atrás que não estava falando com ninguém. Eu não devia ter perguntado. Estou indo já.”

Ela nada respondeu. Mas virou-se para me observar continuar o caminho. Meio confusa, mas em silêncio. Mary Brown. Acho que ela tinha grandes chances de sobreviver, talvez ganhasse os Jogos esse ano.

Faltava uma aula para terminar a manhã, mas meu último horário era livre, então decidi sair mais cedo hoje. Guardei as coisas no armário, peguei minha mochila e coloquei os livros que precisaria em casa. Escrevi um bilhete e coloquei no armário de Carol dizendo que tinha ido e que ela não precisava me esperar. Fui em direção à saída e lá fora encontrei Mary mais uma vez, ela não me viu então decidi não fazer cena e saí rapidamente dali.

Enquanto caminhava vi minha mãe vindo em minha direção com uma cesta em sua mão esquerda, só que ela não tinha me visto. Ela estava indo na direção oposta, ou seja, vindo à minha direção. Escondi-me atrás de uma árvore e achei que ela iria passar. Só que ela não o fez, mas sim entrou na casa que tinha a árvore em que eu estava escondida. Ela bateu algumas vezes na porta e passou a cesta algumas vezes de uma mão para a outra. Parecia nervosa. Alisou o vestido branco. Eu nunca tinha visto aquele vestido. Achei que era o uniforme de onde ela trabalhava e que ela estava pegando roupas sujas.

Um homem alto, moreno e musculoso atendeu a porta. Eles falaram alguma coisa, ela sorriu algumas vezes, ele olhou ao redor. Escondi-me melhor atrás da árvore. Ele pousou os olhos na mesma, e quando eu achei que tinha me visto, ele fez um sinal com a mão indicando que minha mãe poderia entrar, ela o fez. Ele ficou mais alguns segundos observando o jardim, olhou em volta mais uma vez e finalmente entrou. Saí de trás da árvore e continuei caminhando indo para casa.

A cena que eu tinha presenciado agora fora estranha, mas decidi não argumentar, afinal, minha mãe só estava fazendo o trabalho dela. Pelo menos eu acho que estava. Por que ela havia sorrido tanto enquanto conversava com ele? Será que ele tinha dito uma piada? E que cesta era aquela? Muitas perguntas e dúvidas para minha cabeça que eu julgava ser pequena demais.

Outra coisa que não percebi enquanto caminhava foi que estava passando na mesma casa de umas três semanas atrás, quando vi um menino sentado na janela. Nem sabia que ainda me lembrava desse menino, ou que tinha guardado alguma memória dele. Só que dessa vez ele estava sentado na calçada, no terceiro degrau da porta para ser mais exata, olhando para o mesmo lugar da última vez que o vi, quando estava sentado na janela.

Olhei para o mesmo lugar. Somente algumas montanhas, capim seco e algumas casas brancas. Olhei novamente de relance para o menino. Ele era loiro dos olhos verdes. Estava com o uniforme da North Shore e uma mochila preta pousava do seu lado. Será que ele havia fugido da escola?

Ele me observou e sorriu. Deve achar que eu estava fugindo da escola também, afinal estava vestida do mesmo jeito que ele. Olhei para o chão e continuei andando em silêncio, tomando cuidado para não tropeçar. Chutei uma pedra. Passei por ele silenciosamente e uma coisa inesperada aconteceu.

“Oi.” Parei. Ele havia falado comigo? Olhei para trás e para o lado, não tinha mais ninguém na rua. Virei-me para ele.

“Oi.” Disse indiferente, sem nenhuma emoção aparente. Ele sorriu mais uma vez.

“Estuda na North Shore?”

Não respondi nada, apenas balancei a cabeça. Que pergunta idiota, todo mundo sabe que todos os jovens de Oak menores de dezoito anos são obrigados a estudar na North Shore. Queria ir embora logo, precisava ir para casa e eu nem sabia o nome desse menino.

“Desculpe-me, eu nem sei o seu nome.”

“Você deve ser um dos únicos de Oak então.”

Respondi friamente, virei-me novamente para a calçada e dei um passo para frente, querendo prosseguir com a minha caminhada. Ele se levantou e rapidamente estava do meu lado. Não fez caso e logo disse.

“Calma Julia Foster. Eu só estava brincando.” É ele me conhecia. Deve ter sido obrigado a me assistir quase morrer pela TV. Que divertido.

“Hum. Eu não achei graça.”

“Prazer, sou Jacob White.” Ele estendeu a mão. Olhei para a mesma e apertei a com mais força a alça de minha mochila, indicando que não iria soltá-la. Ela colocou a mão junto a seu corpo novamente, e sorriu sem graça. “Já vi que não gosta de desconhecidos.”

“É os Jogos estragam muitas coisas, não é?” Ele apenas balançou a cabeça. “Então, eu preciso ir.”

“Até mais Julia Foster.”

“Acho que não.”

Eu respondi e ele riu. Que menino estranho. Dei meia volta e continuei caminhando. Olhei mais uma vez de relance para a casa e nem ele nem a mochila estavam lá. Ele me parecia estranhamente familiar. Ele estuda na North Shore, devo tê-lo visto pelos corredores alguma vez de minha vida. Cheguei em casa e nem meu pai nem minha mãe estavam lá, como sempre. Subi as escadas correndo e joguei minha mochila no canto do quarto, assegurando-me de que se eu levantasse não iria tropeçar na mesma.

Esses últimos dias tem sido tão estranhos quanto os dias dessa mesma época no ano passado. E eu sei que só existem duas palavras possíveis para descrever isso. Jogos Vorazes. Desci as escadas e comi uma téssera. O gosto amargo do pão duro e ressecado penetrou em minhas papilas gustativas. Engoli com esforço um dos últimos quadrados de pão que tínhamos e voltei para a sala. Meia hora depois de questões de português minha mãe arromba a porta e caí no chão.

“Mãe?” Levantei-me desesperadamente e fui até ela que estava caída no chão. “Mãe? Mãe! O que aconteceu?”

Ela nada me respondia, somente gemia. Tinha sangue escorrendo em sua perna direita. Muito sangue. Seu vestido antes branco estava com algumas manchas vermelhas. Então corri para a cozinha, peguei uma vasilha qualquer e enchi de água. Peguei algumas ervas medicinais que estavam em um armário separado e eram usadas somente em emergências. Peguei um pano e voltei para a sala.

Ela estava mais branca que o normal e parecia não respirar. Havia parado de gemer e só olhava fixamente para o teto. Encharquei o pano e comecei a limpar o sangue da perna. Encharquei-o novamente e depositei-o em sua cabeça. Amassei rapidamente as folhas e as misturei à água. Misturei a água com a mão desesperadamente. Encharquei o pano.

“Mãe! Vamos mãe me responda! O que aconteceu? O que a Senhora estava fazendo dentro da casa daquele homem?”

Ela fixou os olhos em mim e uma lágrima escorreu. Passei o pano em sua perna, e o sangue havia sido totalmente limpo, mas eu ainda não via nenhum corte. Tirei o vestido dela, que ainda nada falava. Descobri de onde o sangue vinha.

Notas finais
Hey party people :p haha
Como estão?
Aqui está mais um capítulo novo! Todos comemoram! yay só que não...
Eu só queria dizer que essa semana eu vou postar tudo certinho, porque milagrosamente eu adiantei os capítulos no fim de semana. Então quarta tem mais :)
Espero que gostem e que deixem reviews ^^
Obrigada por lerem
Beijos
xxJuhxx @juhh_goomes