Quando abro meus olhos o sol já se foi novamente. Não faço idéia de que horas sejam ou de que dia é hoje mas eu não me importo. Só quero ficar no meu quarto para sempre... Quando procuro por Kurt e Blaine, não os encontro. Eles devem ter ido embora mas eu não os culpo. Não me lembro de ter visto eles comerem e hoje é quinta, ou seja, teve aula. Não posso obrigá-los a ficarem comigo. Eles já fizeram o bastante por mim.

Apesar de ter acabado de acordar, me sinto cansada e meus olhos teimam em se fechar com um peso absurdo. Quando estou prestes a me render ao cansaço mental e dormir novamente, Blaine entra pela porta com uma bandeija de comida. Ele ficou aqui esse tempo todo?

"Ei, Quinn. Trouxe um pouco de comida para a gente.."

Olho para ele e sinto meus olhos arderem com as lágrimas que repentinamente estão surgindo no meu rosto. Ele coloca a bandeija na escrivaninha e se deita ao meu lado, me abraçando com todo carinho que ele tem.

"Porque ele fez isso comigo, Blaine? Porque? Ele não quis nem tentar!"

"Eu não sei, Quinn. Eu sei que parece que o fim do mundo agora mas não é. Acredite em mim. Você é linda, inteligente e talentosa. Qualquer um teria a sorte de te ter como namorada!"

Afundo minha cabeça em seu peito e me permito a chorar mais um pouco. Talvez ele esteja certo. Talvez daqui a algum tempo eu aprenda a lidar com essa dor insuportável que sinto agora. Talvez.

"Quinn, você precisa comer. Você não comeu nada desde ontem...'

Eu limpo minha garganta e susurro torcendo para que tenha sido alto o suficiente para que ele me ouça.

"Que horas são?"

"São oito horas."

Oito horas? Eu me lembro do horário em que fui me encontrar com... ele. Eram três e meia da tarde. Quer dizer que se passaram mais de 10 horas que estou no meu quarto sem comer ou fazer qualquer outra coisa.

"Desculpe se eu fiz você e o Kurt ficarem aqui esse tempo todo."

"Está tudo bem, Quinn. Você é nossa melhor amiga e amamos muito você. Kurt foi para casa tomar um banho mas ele deve estar voltando a qualquer momento.. Mas agora você tem que comer."

Ele se levanta e traz a bandeija para perto de nós. Ele fez um sanduíche e um suco de laranja.

"Desculpe se não pude fazer uma coisa mais elaborada. É que eu não sou bom em cozinhar."

Eu tento forçar um sorriso para ele mas é em vão. Não tenho forças para sorrir agora.

"Está ótimo para mim."

Ele trouxe um sanduíche para ele também e enquanto comemos, ficamos conversando sobre tudo um pouco mas claro que sem tocar no nome dele. Ele me convence a tomar um banho e dar uma andada. Depois do banho coloco uma roupa e o acompanho até o andar de baixo, onde Kurt já está nos esperando com um monte de filmes na mesinha de centro. Assim que ele me vê, ele corre em minha direção e me dá um abraço.

"Estaremos sempre aqui, Quinn."

Isso faz com que meu coração doe e uma lágrima escorre pelo meu rosto. Acho que não mereço amigos tão maravilhosos.

"Ok, que filme vamos ver?"

Blaine fala e segura a minha mão me puxando para o sofá onde eu literalmente me jogo. Kurt senta ao meu lado e me puxa para perto, fazendo com que minha cabeça repouse no seu ombro.

"O que você acha, Quinn?"

"Qualquer um que não seja romance, por favor."

Eles riem e escolhem fazer uma maratona dos filmes antigos. O diário de Anne Frank de 1959, Tempos modernos de 1936 e muitos outros clássicos do cinema. Blaine se senta ao lado do Kurt e começamos o primeiro filme da maratona. Porém não consigo manter minha atenção no filme. As lembranças começam e as palavras dele se ecoam na minha cabeça. "Eu estou indo morar na França com meus pais daqui a dois dias e não sei quando ou se volto."

"Pera aí!"

Digo rápido demais para perceber que disse isso em voz alta. Blaine pausa o filme e eles imediatamente olham para mim esperando uma explicação.

"Ele disse que ia em dois dias! Ele vai amanhã! Ainda dá tempo de eu tentar fazer alguma coisa!"

Os dois se olham com uma cara de preocupação e Kurt logo segura minha mão.

"Quinn, não crie falsas expectativas. O que você está pensando em fazer? Chegar no aeroporto e fazer com que ele fique? A gente não vive em Friends, Quinn!"

Isso me dá uma pontada de raiva mas... Kurt está certo. Nada do que eu faça vai mudar alguma coisa. Ele está indo para França e não há nada que eu possa fazer sobre isso.

"Não... Você está certo. Isso foi uma idéia ridícula. EU sou ridícula!"

"Não, Quinn. Você não é.. Me desculpe por ter sido tão grosso mas você sabe que essas idéias não vão te levar a lugar nenhum."

Kurt aperta delicadamente minha mão e continua:

"Eu sinto muito, Quinn. Mas quanto mais cedo você aceitar que ele se foi, menos você sofre."

Eu aceno tentando segurar minhas lágrimas. Depois disso Blaine tira o filme do pause e continuamos com a maratona. Quando deu meia noite percebi que eles estavam muito cansados. Aparentemente eles não dormiram preocupados comigo.

"Meninos, eu agradeço tudo que vocês estão fazendo por mim."

"Não há de que, Quinn. Sabe que pode contar com a gente sempre!"

Blaine disse com o mais sincero dos sorrisos.

"E os pais de vocês?"

"Eu avisei ao meu pai e a Carole que eu ia dormir aqui hoje... Quero dizer, se não tiver nenhum problema."

"É claro que não, bobinho."

"Eu não vou poder ficar hoje, Quinn. Eles não deixaram eu dormir dois dias seguidos fora de casa.. Desculpa mesmo."

"Blaine, você não tem que pedir desculpas. Eu é que tenho... Por fazer você, ou melhor, vocês passarem por isso."

Eu dou um abraço nos dois e silenciosamente agradeço por tê-los ao meu lado. Se não fosse por eles, não sei o que faria. Blaine se despede e vai pra casa, dispensando a carona que ofereci a ele. Depois disso, eu e Kurt fomos para o meu quarto, onde deitamos e ficamos conversando por um tempo.

"Você acha que está pronta para ir para a escola?"

"Não, mas não posso ficar faltando as aulas para sempre. Talvez a escola ajude, certo? Com os estudos e o Clube do Coral, talvez eu nem tenha tempo para pensar.. nele."

Ele sorri e coloca a mão sobre a minha.

A dor não sumiu. Ouso dizer que está ficando pior. Parece que eu o vejo em todos os lugares do meu quarto e eu só quero impedir que eu começe a pensar de novo.

"Kurt?"

"Sim, Quinn?"

"Você pode... me abraçar?"

"Claro, querida."

E assim ele se aproxima de mim e durmo com a sensação de que, pelo menos agora, eu estou protegida.