Neve

1 Capítulo 1 - Neve


“Ash, onde está você? Eu preciso de você. Tão frio aqui sem você....”

Sozinha. Eu nunca tinha ficado sozinha, nunca. Como eu havia me perdido dele? Por que ele não estava ali comigo? Aliás, onde eu estava? Eu havia acabado de acordar de um sono de quanto tempo? Eu precisava saber pois, a única certeza que tinha era que estava sozinha, e isso era assustador.

Ainda deitada, olhei para os lados a procura de entender onde eu havia vindo parar. O que eu estava fazendo antes de vir para cá?

– Ah sim... eu estava com Ash e então... – Droga! Eu não me lembrava, não sabia o que havia acontecido. Que desespero, que agonia isso!

Estava recobrando minha consciência ainda, minha vista estava embaçada e lentamente retornava ao normal, enquanto minha mente trabalhava em buscar na memória o que havia ocorrido antes de eu surgir ali. Mas... frio, que frio! Muito frio mesmo. Este, me obrigou a me abraçar, trêmula e, para melhorar, um vento gelado passou por mim agravando aquela sensação. Procurei me erguer, mesmo que batendo os dentes, para entender onde exatamente estava e... céus! Eu morreria se mexesse mais um centímetro para frente! Tão alto... como raios eu fui parar ali?!

– Ashtaroth! Ashtaroth! Ash...

Gritei alto, o mais alto que pude por que o frio me limitava. Agora, da visão que tinha sabia por que estava tão gelado. Estava no alto de um penhasco, completamente só. Eu, neve e mais neve. Eu estava com frio, morreria se não saísse logo dali, sabia disso. Então, ao menos podia concluir que não estava por ali a muito tempo porque essa capinha que vestia não me protegeria do frio intenso que ali pairava.

Olhei para trás para análise, mesmo que estivesse em um local alto de alguma forma eu tinha chegado ali, então concluí que eu pudesse descer também. Esperava que o fizesse com facilidade. Caminhei um pouco adiante, tentando não olhar pra baixo para evitar minha aflição e vi um caminho bem íngreme a minha frente, um passo errado e seria o meu fim. Haha! Engraçado pensar assim, até por que com esse clima, era capaz de eu não durar muito tempo mesmo.

Criei coragem e dei meu primeiro passo.

Consegui!

Certo, estava viva para dar mais alguns passos adiante. Aflita e atenta prossegui com mais alguns, mas, eu estava com muito frio! Não sabia nem dizer como estava de pé ainda. Mas okay, tinha que continuar.

–Merda! Merda! Merd...

Com um ato falho e desatento, deslizei minha perna direita, passando por uma pedra que me fez um belo de um corte na panturrilha. Era até bonito ver o sangue no meio daquela neve tão branca, entretanto não tive nem tempo de admirar pois, com esse meu deslize escorreguei desenfreadamente para frente e não sabia quando ia parar. A adrenalina era tanta que a dor em minha perna e o frio não eram nada, chegou ao zero. Eu tentava me agarrar a qualquer coisa que encontrasse, mas em vão. Meu coração batia aceleradamente e à medida que escorregava, era golpeada por algumas rochas que aumentavam minha dor e me presenteava com mais ferimentos. Achei por um momento que minha queda nunca fosse terminar, mas felizmente, finalmente ela chegou ao fim.

Que merda era aquela?! Que diabos de ser imenso era esse?!

– Não!

Olhei em volta agora que estava parada e a primeira coisa protetora que vi era uma rocha que formava uma cobertura que julguei que poderia servir para me proteger, logo me arrastei para lá, ficando rastros de sangue do meu corte para trás. A criatura que vi era semelhante a um enorme felino acobreado, com uma juba embaraçada e em sua cabeça haviam chifres, chifres enormes que até davam a volta nas pontas. Eu era tão frágil e pequena perto dessa criatura que não sabia dizer qual era o tamanho desse ser assim, só de olhar. Só que era muito grande e que eu estava apavorada. Me encolhi em posição fetal e prendi a respiração para que o ser não me identificasse. Ele passou próximo de onde eu estava e um frio percorreu minha espinha quando vi que cheirava o rastro de sangue.

Ele vai me notar, ele vai me notar!

E ele realmente me notou, seus olhos de pupilas verticais me encararam profundamente, mas por algum motivo ele não fez absolutamente nada. Eu devia estar tão assustada que ele sentiu pena de mim. Acho que foi isso.

– Ali! Está ali! Vamos, mate-o!

A criatura e eu nos encarávamos até que escutamos várias vozes, tanto eu quanto ele voltamos nossa direção a elas.

Mate-o? Então há pessoas por aqui?! Será que eu poderia avançar em direção ao grupo que ouvi? Que aflição... a criatura estava muito próxima a mim, mas eu não sabia o que o grupo poderia fazer também se me vissem ali. Eram hostis? Não tinha como eu saber...

Nesse meio tempo dentro desse meu conflito interno, eu vi uma lança ser arremessada contra a enorme criatura. Foi certeiro, ela caiu em minha frente fazendo o chão dar uma leve estremecida e a neve em cima de minha cabeça dançar, caindo como pó branco em meus cabelos negros. Me encolhi ainda mais quando vi que o grupo formado de quatro pessoas – agora eu lhes via -, três homens e uma mulher mais velha e nariguda, se aproximaram da criatura que agonizava sem me notar inicialmente. Mas claro, logo me notariam, estavam exatamente no mesmo lugar que eu.

– Garota? O que faz aí? – disse a velha senhora. Ela estava com um cabo de madeira na mão, suas vestes eram pelos negros provavelmente de outra criatura. Parecia tão quentinho e aconchegante... eu queria aquilo para mim...

Ela começou a se aproximar demais, ela estava muito perto e eu tinha medo. Eu sempre temia o desconhecido. Ainda mais depois de tudo que já vivenciei. Decidi não respondê-la.

– Garota, eu te fiz uma pergunta! – Ela agora gritava comigo, uma vez que não havia lhe respondido devidamente.

Com a pressão da velha, cedi:

– Eu escorreguei dali de cima, até aqui.

Apontei para o alto do penhasco de onde tinha vindo, ela acompanhou apenas com olhar e arqueou a sobrancelha.

– Como diabos você foi parar ali, menina?

– Não sei, eu estava em um lugar completamente diferente com meu irmão e apareci aqui

– Não me venha com essa, garota!

– Eu não estou mentido! Eu não sei como vim parar aqui, sua velha nariguda!

Eu gritei, fiquei realmente furiosa por ela me desmentir. Mas loco fiquei quietinha, o frio estava demais e eu tremia muito, além de sofrer pela dor do corte em minha panturrilha mais as da queda. Não pude conter uma careta e sei que isso foi evidenciado em minha testa.

– Você está ferida, deixe-me ver.

Ela colocou a mão em minha perna e fez uma careta que me alarmou, me deixou com medo. Agora eu estava com tempo para olhar a ferida causada anteriormente e com essa atenção voltada diretamente a ele doía mais...e como! A velha analisava e fez um gesto para um dos homens ali presentes que com isso, tacou um pedaço de couro em cima de mim, parecido com o que a senhora usava.

– Cubra-se, você vai morrer congelada. Você virá conosco, aqui não tenho o que preciso para cuidar dessa sua ferida.

Eu apenas aceitei, estava quentinho e eu queria continuar assim. Quando tentei me levantar para acompanha-los, a dor do corte gritou e cambaleei voltando ao chão. Bom, pelo menos achei que voltaria ao chão pois, um jovem moreno, parecia ter a mesma idade que eu, por volta dos 12 anos – pelo menos fisicamente -, de cabelos platinados me segurou antes que o fato se concretizasse. Ele me colocou sobre seus ombros, meio ríspido, mas eu sabia que tinha as melhores das intenções. A velha suspirou e começou a caminhar tomando a dianteira, enquanto os outros dois homens amarravam cordas a criatura que derrubaram. Acredito que iriam arrastá-la até onde estivessem.

– Garota, como você se chama?

Ela me perguntou, me tirando de meus devaneios e eu, escorando meu queixo ao ombro do rapaz e muito mais calma agora, a respondi:

– Alphard. Meu nome é Alphard.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.