Nero
1 Grasnar
Das vermelhas cortinas até a multidão, enquanto milhares de olhares se direcionavam á pequena pessoa no meio do palco, a bailarina se concentrava em apenas um deles, ou melhor, nem queria dar esse luxo.
"Coitada. Isso deve ser um grande choque para ela... Mas ela está tão... Indiferente."
"Deve nem ligar, você já ouviu que a mãe dela era louca? Até eu nunca ligaria se eu tivesse uma mãe assim."
Ótimas palavras para se ouvir no camarim, ouvia todo o tipo de fofoca passando por aquela finíssima porta, era bem engraçado e ao mesmo tempo trágico o quanto as pessoas gostavam de falar sem saber do assunto todo.
Amélie já estava lá, rodopiando pelo grande palco e sempre que podia olhava para a tal pessoa que ironicamente sentava-se na primeira fileira, rindo, aplaudindo como um verdadeiro orgulhoso. Mais falso quanto um dos personagens da peça.
Rodopiando e andando, sempre olhava para o único ponto louro na fileira, concentrando-se na orquestra e em seus pés, tentava esquecer, porém sem sucesso.
A razão de sua cabeça ter ido á loucura três dias atrás, a razão de ter feito seu coração parar num segundo e uma rápida sensação que o chão está caindo. A náusea estava voltando, e de novo a sensação de sem chão também, ao mesmo tempo em que o personagem deveria cair, sorte.
Falas clichês ensaiadas, toda vez que vinha a palavra "Arrependimento" ela dava um grande ênfase, enquanto olhava a pessoa loura na sua frente.
E veio a cena na sua cabeça, nitidamente como um filme.
"Estava lá o louro, rindo e fazendo piadas em cima de sua mulher que a essa altura estava com lágrimas descendo pelo rosto. Amélie ia descendo lentamente enquanto escutava cada pedacinho daquela discussão, não era a primeira, nem a segunda, mas sim uma das várias que cismavam em se manter na rotina.
Novamente algo sobre uma terceira pessoa, não que isso seria impossível já que ambos os dois eram belos, porém isso sempre foi como uma bala perdida, do nada, apenas se percebe quando atravessa a carne.
Sempre tinha em mente que aquilo era passageiro e que teria uma relação normal com a família igual ás de suas amigas.Teve a coragem de ir até a porta e ver a mãe chorando horrores enquanto seu pai no canto rapidamente fingia que nada acontecia.
– Se você realmente for, me suicidarei! — Sua mãe jogou com todas as cordas vocais.
– Você é até louca de fazer isso, mas não corajosa. — Seu pai cuspiu palavras.
– Eu poderei ser se for preciso, apenas fique aqui e ninguém falará do assunto.
– Sinto muito, prefiro arrumar uma vida não tão estressante quanto essa.
Essa foi a última imagem de seu pai, saindo pela porta com um andar orgulhoso, Amélie numa estúpida e infantil tentativa de resolver a situação, foi correndo atrás de seu pai, que tranquilamente se encostava num poste.
– Ela seria melhor morta, assim eu te aviso, você deveria sumir apenas. — Como um soco na cara, a fúria de seu pai que estava escondida foi rapidamente jogada em cima de Amélie, ela estava estática enquanto observava seu pai dando um peteleco numa pequena aranha em sua camisa. — Nojento.
Vários dias se passaram e várias tentativas de suicídio se foram, uma nova rotina.
Um dia, a bela mãe aparecia no quarto de Amélie, com olhos mais vermelhos do que nunca de tanto chorar e um jeito um tanto fraco.
– Mãe? Quer alguma coisa, uma água, ver televisão? — Sempre ficava nervosa com a situação.
– Amélie, sente-se aqui. — Sua mãe apontava para uma das cadeira próximas. — Rápido, não tenho tanto tempo assim no mundo. Escute, filha, tudo o que eu queria quando vi você nascer era te dar uma família digna, amor de pai, amor de mãe, tudo o que há de melhor no mundo, até ser a melhor mãe do mundo.
– Mas mãe, para mim você É a melhor mãe do mundo.
– Desculpe filhinha... Mas acho que eu não pude ser uma mãe que você merecidamente tinha que ter.
Morte por envenenamento.
No funeral, pessoas que nunca mais tinha visto por séculos, amigos muito próximos e parentes pouco arrogantes estava fazendo sua "presença", olhou novamente para a sua bela mãe que mostrava um sorriso um pouco triste, estava toda de preto, sua cor favorita.
Uma aranha subiu em seu rosto, num peteleco irritado Amélie tirou o bicho e voltou a sua atenção para a multidão, injustamente rotulando sua mãe de louca, alguém que nunca teve bom senso, a filha deveria estar envergonhada.
Mais aranhas andando pelo funeral."
E três dias depois, estava lá fazendo o último ato do espetáculo, o tal que contou tão euforicamente para a sua mãe e tão timidamente para o seu pai (Que quase não parava em casa), se sentia culpada, achava que estava dançando a sua morte.
O vestido negro, coberto por aranhas que fazia um grande contraste com sua pele pálida, o cenário pintado cuidadosamente misturando os tais aracnídeos com corvos.
E seu pai levantando para aplaudir, notoriamente todo vestido de preto.
Num ultimo ato, ergueu-se e levantou sua cabeça mostrando um grande e forçado sorriso, porém um grande susto para a platéia.
A maquiagem estava borrando, fazendo da pesada sombra negra ganhar algumas lágrimas, deixando Nero ter uma nova expressão, algo que pudesse misturar a alegria com depressão.
As cortinas estavam se cerrando e lentamente conseguia ver aranhas em todas as partes, em cima de seu pai e em cima dela mesma, parecendo que propositalmente estavam engolindo duas coisas que mereciam ser descartadas.
Sussurrava para si mesma, lamentos e agradecimentos para a sua melhor mãe do mundo.
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