Nephilins - Interativa
3 Capítulo 3 - Asilo de Demônios
Notas iniciais
Gillian esperava que aquele fosse um dia diferente do habitual, ele havia marcado com alguns amigos de assistir um filme de terror que estrearia no cinema naquela noite, e ele tinha de confessar que estava animado — ainda que achasse que as olheiras que ele tinha iriam piorar se ficasse sem dormir naquele dia. A escola estava tomando conta de quase todo o seu tempo, e o resto que ele tinha, usava para visitar os orfanatos e asilos locais.
Assim que ele saiu da escola, se despediu dos amigos em frente ao portão e começou a seguir em frente, hoje em especial ele havia acabado de fazer um prova de biologia extremamente difícil, mas finalmente havia acabado e ele poderia ir para casa. Entretanto, ele precisava passar em um lugar antes.
Como o caminho até a sua casa era relativamente longo, ele pegou o celular e colocou uma das músicas que mais gostava, era uma composição do Chopin que sempre o relaxava e voltou a seguir seu caminho, enquanto olhava a movimentação das pessoas na rua.
Movimento esse que estava maior do que o normal. Passando em frente de uma das vielas em direção à rua principal — onde ficava o asilo — Gillian viu uma cena inusitada. Em um beco ao lado de um restaurante ele viu uma briga, ou deveria ser uma briga, mas na verdade, era uma disputa de dois contra um. — embora o que estava em menor número não estivesse em desvantagem — E esse um, que era o inusitado.
Parecia um garoto, com cerca de vinte ou dezenove anos, tinha os cabelos castanhos e despenteados, a pele clara e os olhos azuis. Se não fosse pelo cigarro em sua boca, Gillian poderia afirmar que definitivamente ele não se parecia com um garoto que arrumava brigas. Entretanto, as suas vestimentas é que não batiam — combinavam sim, com um casamento, mas não com uma briga —, ele usava um terno, e tinha as mangas dobradas até antes um pouco do cotovelo, e usava também um avental na cintura. Ele era obviamente um garçom, percebeu Gillian.
Ele estranhou o fato de não conseguir observar o símbolo em cima de sua cabeça. Normalmente, toda vez que Gillian olhava para humanos, ele conseguia ver uma espécie de relógio sobre as cabeças das pessoas, ele tinha quase certeza de que se tratava de um cronômetro, que contava o tempo de vida dessas pessoas, mas ele não entendia os símbolos que ficavam no lugar dos números do relógio, talvez fossem uma língua antiga, mas ele nunca havia achado nada parecido enquanto estudava.
O jovem olhou direto para o rosto de Gillian quando percebeu que ele estava encarando, parecendo entediado, mesmo enquanto brigava, apesar de ele não ter nenhum arranhão — percebeu Gillian. Percebendo o olhar, ele voltou a andar, deixando a luta de lado, não que ele estivesse fugindo, claro, mas ele detestava violência.
Pouco tempo depois, ele chegou no asilo Saint Carmo, a atendente que cuidava dos registros o deixou entrar, já o conhecia. Não era um local muito comum para um adolescente, mas ele não se importava com isso, gostava de conversar com os idosos e poupa-los um pouco da solidão, grande parte dos residentes ali quase nunca recebiam visitas.
Logo que entrou, ele pôde ver a dona Mary, uma velhinha faladeira com seus 80 e tantos anos e cabelos grisalhos marcantes da idade, assim como as rugas, que insistentemente lhe contava história sobre seu marido herói de guerra, e sobre como ele era — nas palavras da idosa — um ótimo partido. É claro que Gillian sempre ria de suas histórias, apesar de achar que alguns pontos poderiam ser omitidos. Ela sentava-se em um dos bancos no pequeno jardim de rosas do local, e Gillian decidiu que deveria começar com ela, afinal, ela era uma das mais conhecidas por Gillian, devido a seus problemas com a saúde.
Entretanto, a idosa não estava sozinha. Ao seu lado no banco estava uma jovem de longos cabelos castanhos e mechas claras, quase douradas, era magra e claramente mais alta que a senhora, parecia ter a mesma altura de Gillian e possuía expressivos olhos verdes que se destacavam na pele clara do rosto e do corpo curvilíneo. Ela usava apenas uma calça jeans com um all star e uma camiseta. Antes que pudesse se aproximar, no entanto, a jovem saiu, atendendo um pedido da idosa.
— E como está se sentindo hoje, dona Mary? — começou Gillian, sorrindo e sentando-se ao lado da idosa no banco.
— Nada bem meu caro Quinn, nada bem. Estou com uma dor traiçoeira nas costas, e uma dor de cabeça muito forte também. Ah, como eu sinto saudade do meu Joffrey, ele fazia remédios caseiros que curavam desde gripe a catapora. Sabe, uma vez ele curou a catapora de um dos nossos filhos só com folhas de arnica e uma meia quente! E ainda tem aquela sonsa da Cristina que fica enchendo meu saco sobre como eu faço barulho quando durmo. Bem, não é minha culpa que ela tenha o sono leve, velhos precisam roncar, sabe, é natural!
— Sim, sim — começou Gillian, interrompendo-a, se ela continuasse a falar, ele sabia que aquilo ia durar o dia inteiro, e ele ainda tinha outras pessoas para ver — não posso te ajudar com a Cristina, mas talvez possa te ajudar com as dores.
Antes que terminasse de falar, Gillian já estava tocando a mão de Mary com a sua, e assim que a tocou, as dores da velhinha começaram a sumir e ela fazia um barulho de satisfação, no entanto, Gillian olhava para sua mão, percebendo que havia alguma coisa errada. Diferentemente do que acontecia normalmente quando ele “roubava” as dores de alguém, sua mão parecia estar queimando, como se estivesse em carne viva. Tanto que chegou um momento em que a dor se tornou insuportável e ele tirou sua mão rapidamente, com um movimento brusco.
— Algo estranho, querido? — Perguntou Mary, curiosa.
— Não, nada. — Respondeu ele sorrindo, embora segurasse sua mão direita com a esquerda, e olhasse como se para ter certeza de que ela ainda estava inteira.
— Obrigado querido, suas mãos são realmente milagrosas. Mas voltando, conte-me sobre você meu jovem, como está sua vida atualmente? Não tem nenhuma namoradinha? Ah, como eu me lembro do Joffrey jovem, ele era muito atraente, sabia? E ele era um ótimo partido, sabe, sexualmente falando. — Mary disse enquanto cobria sua boca e dava uma risadinha de vergonha sobre a última parte, embora Gillian soubesse que ele não sentia vergonha alguma — Anda fazendo muito... você sabe... aquilo? Quando tínhamos a sua idade, eu e Joffrey fazíamos muito aquilo — ela voltara a dar aquela risadinha, e cobrir a boca com as mãos.
Gillian riu, mais por respeito a senhora do que realmente por ter achado graça do que ela havia falado. Levantou-se do banco, pegando sua mochila do chão e começando a ir embora, dizendo:
— Você sabe que não vou falar disso com a senhora, Mary — ele disse, ainda apertando e soltando a mão dolorida, além da dor nas costas e da dor de cabeça que sentia depois de pega-las de Mary — depois eu volto a visita-la.
Antes que pudesse sair, entretanto, ela pegou em seu pulso, e ele voltara a arder ao toque dela, ele olhou profundamente em seu rosto, e reparando dessa vez, o pequeno símbolo do relógio em sua cabeça estava distorcido, embaçado e parecia que os ponteiros haviam parado — algo que ele nunca havia visto antes.
— Não, fique mais um pouco. — Disse Mary, com os olhos fechados e um sorriso no rosto.
— Eu não posso Mary.
— Por favor, estou lhe pedindo.
— É sério, não posso, eu tenho outras pessoas para ver...
Mas antes que pudesse terminar, a idosa puxou seu braço com tamanha força que parecia querer arrancá-lo. Pego de surpresa, Gillian despencou no chão, com mochila e tudo, ficando perplexo demais para reagir. Quando voltou a olhar o rosto da senhora, ele estava totalmente desfigurado, seus olhos pareciam — ou melhor, estavam — totalmente vermelhos, não existiam nem mesmo íris, eram como se fossem feitos de puro sangue. Seu rosto estava retorcido em uma carranca que sorria debilmente e sua boca parecia ter se alargado o suficiente para mostrar não uma, mas duas fileiras enormes de dentes parecidos com os de tubarão.
Assim que conseguiu se desvencilhar do aperto de Mary, Gillian começou a caminhar de costas, ainda pelo chão, tentou se levantar apoiando-se nos cotovelos, mas antes que conseguisse, a senhora havia saltado — algo que alguém de 80 anos não faz muito regularmente, pensou ele — e estava acima dele, bloqueando seus braços com os dela, enquanto sua boca repleta de dentes pronunciava algo que Gillian entendeu como “Nephilin”, apesar da voz gutural que ela fazia.
Antes que a criatura pudesse chegar mais perto, ele só ouviu o zumbido de algo cortando o ar, e poucos segundos depois, a senhora que ele já havia visitado tantas vezes tombara de lado sobre o pequeno roseiral, com o corpo inerte e uma flecha feita de luz atravessada na cabeça. O mais estranho era a falta de sangue, apesar dele ter total certeza que aquela flecha havia atravessado a cabeça de Mary.
Quando Gillian virou-se, viu a alguns metros a menina que ele tinha visto conversando com Mary antes, ela segurava um arco feito de luz pura, do outro lado do pátio, e começou a correr em direção a ele. Assim como o garçom brigão de anteriormente, a menina não possuía um relógio sobre a cabeça, percebeu.
Quando ela chegou, Gillian já havia se levantado e dava pequenos tapinhas na roupa para tirar a poeira, ela parou a poucos centímetros dele, com o arco feito inteiramente de luz ainda nas mãos, e disse:
— Está tudo bem com você? Ela te mordeu, ou algo assim? — ela ameaçou tocar no ombro de Gillian, mas ele se desvencilhou — ele não gostava de ser tocado — sem notar.
— Não, não, está tudo bem, mas o que seria isso?
— É um demônio, mas não dá tempo de explicar, nós temos que ir, vamos! — Disse ela, se apressando e Gillian a seguiu.
— O que está acontecendo? — gritou Gillian.
— Olhe lá atrás, — respondeu Emily — parece que ela não era a única.
E realmente não era, quando ele olhou para trás, haviam vários rostos conhecidos — ou, na medida do possível, reconhecidos — de idosos que Gillian já havia cuidado e pegado as dores, mas agora, eles corriam como se não tivessem a idade que aparentassem, e todos tinham o mesmo rosto distorcido, assim como o relógio em suas cabeças.
Correndo, ambos saíram do asilo e começaram a correr novamente na rua, Gillian não sabia para onde, mas provavelmente Emily soubesse, já que corria na frente dele e fazia algumas curvas nas ruas, até que ambos pularam sobre o portão de uma igreja fora da rua principal. Ele não percebeu na hora, mas provavelmente ela estava abandonada, e quebraram a porta do templo, com o esforço de ambos, para que pudessem entrar.
Assim que entraram, eles fecharam a porta e começaram a colocar os bancos que sobraram contra as portas da igreja, como uma barricada, mas os demônios não forçaram a porta para entrar. Cansados, ambos cruzaram os olhares, e só então Gillian percebeu como Emily havia se mantido calma durante toda aquela situação.
— Isso — disse ele, tentando recuperar o fôlego — acontece normalmente na sua vida? Sabe, só pra eu ficar ciente e tal.
— Não, pelo menos, não até hoje.
— Então como sabia o que fazer? O lance da igreja.
— Minha mãe, ela me ensinou sobre eles. A velha, — continuou ela — ela te chamou de alguma coisa?
Apesar da adrenalina, Gillian conseguiu lembrar sobre o que Mary havia dito.
— Nephilin. — Disse ele, por fim.
— Como eu desconfiava, — disse ela — devo supor que você não saiba o que é, né?
— Não faço ideia. A propósito, nós não nos apresentamos. Gillian, Gillian Quinn.
— Emily Grace, mas você pode me chamar de Grace.
Gillian começou a andar dentro do templo, percebendo as teias de aranha no teto repleto de pinturas renascentistas. Possuía um amplo espaço interno, e tinha várias colunas para sustentar o teto, Gillian se pegou pensando em como ele provavelmente seria belo antes de ser abandonado. Agora, estava caindo aos pedaços, com móveis e até mesmo o altar quebrados, provavelmente a única coisa inteira eram as esculturas e alguns dos vidrais. Ele chegou próximo a uma parede, e socou-a com toda a força.
— Você... está bem? — Perguntou Emily.
— Eu conhecia a Mary há anos. Que merda cara. Ela morreu de verdade?
— Receio que sim. Mas se serve de consolo, provavelmente ela já estava morta, antes mesmo de eu, sabe, matá-la.
— Que droga, eu gostava dela, mesmo com as histórias sujas sobre como o Joffrey era bom de cama. — Inconscientemente, Gillian sentou-se em um dos bancos do local — um dos poucos que não estavam quebrados — e levou as mãos à cabeça, pensativo. — Bem, pelo menos ela deve estar em um bom lugar, agora. Ela era uma boa pessoa.
— Eu lamento — disse Emily — eu também gostava da Mary, sabe, eu costumava passar um tempo no asilo, eu gosto de observar e conversar com os humanos, principalmente os idosos, eles tem muitas histórias, como a Mary tinha — Emily sorriu para ele.
— Você viu os dentes daquele bicho? Duvido muito que aquilo seja dentadura. — falou Gillian, o que soou brincando, mesmo que ele não estivesse, não totalmente. — O que fazemos agora?
— Não sei, esperamos?
— Belo plano. A propósito, o que quis dizer com “observar os humanos”? Você não é humana?
— Não totalmente. Você também não, pelo visto. Sabe, se aquilo o chamou de Nephilin.
— De novo essa história, o que são os Nephilins, afinal? Eu sempre soube que não era normal, mas sei lá, nunca dei tanta importância pra isso, desde que eu pudesse ajudar as pessoas.
Emily sentou-se do lado de Gillian, e deu um sorriso sincero para ele, que ele retribuiu, ainda que pouco.
— Bem, eu vou tentar te explicar.
Gillian teria que tentar se desculpar com seus amigos mais tarde, ele não poderia assistir o filme com eles, pelo visto, ele estava vivendo a sua própria história de terror.
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