Nenhum de Nós

6 Os pássaros da noite


Notas iniciais
#6. Noite:Quando ela saiu de casa naquela noite, não sabia que não voltaria, nunca mais. Livremente inspirada em "O corvo" de Edgar Alan Poe (Celas- poema- drama e terror)

Reescrito em cima da tradução de Fernando Pessoa, o poema consta nas notas finais. Quem não conhece, peço que leia primeiro. A ideia na verdade não é minha, é de uma autora de SH que infelizmente não me lembro o nome. Mas com exceção daquela, nunca vi outra, muito menos de um anime. Espero que gostem.

Já era tarde, mas a missão chamava

Luar vermelho, triste, regado de desejos mortais

E eu já tremia, um arrepio que subia a espinha

Pelos ecos das mortes do dia, tão banais

“Só mais um tiro”, eu me disse “Mesmo tiros tão banais”


“Só mais um, e nada mais”


E mais que desse sentimento me lembro,daquela noite

Manchada de vermelho e negro, ressoante de ruídos guturais.

Em que eu queria estar em casa, em minha cama acomodada

Para cuidar (em vão!) de minhas feridas emocionais

Minha infância destroçada, minhas feridas emocionais


Mas devo continuar, desistir, jamais!


Sai do veículo escuro, encarando o local em ritmo contido e duro

Eu me encolhia, orava e tremia, cada grito soando alto, mais.

Mas, andando sempre, dizia, em voz baixa e trêmula

“Só um tiro certeiro, permanecer viva e seguir em paz

Permanecer viva e seguir em paz”


“Só um tiro, e nada mais”


E aos sons ao meu redor, sentindo nas costas o frio suor

“Noite estranha” disse um dos colegas “ esses gritos e sombras que o luar faz

Mas precisamos continuar, a vida desses homens salvar

Eu queria estar quieto em casa, seguro e em paz”

E eu repeti em minha mente “segura e em paz”


Mas devíamos marchar, marchar e nada mais.


Diante das trevas se alastrando, fiquei em silêncio, rezando

Temendo os menores sons e os gritos de dor mais mortais

Mas o medo era gigantesco, o desespero horrendo e sangrento

E a cada passo um homem caia, em velocidades desiguais

E minha respiração e coração doeram em velocidades desiguais.


Estamos mortos, e nada mais.


Foi quando com a velocidade do olhar, vi o monstro sorrindo sob o luar

E no susto atirei em seu peito, uma, duas, mais e mais

“Não é humano”, disse eu “Não é humano”

“Se não é humano pode atirar?” Ele me pergunta

“Qual deles há de me matar?” é o que meu peito me pergunta.


“É um monstro, e nada mais”


Corri com velocidade, força, pressa e vontade

Topando com um padre que aparentava costumes infernais

Não me cumprimentou, nem a mim nada perguntou

Só ergueu a arma, como se as vidas fossem mesmo tão banais

E agarrou, segurou e tocou, como se fossem atos tão banais


Me violaria, nada mais.


Quando ao longe vejo o monstro chegando, o sorriso mostrando

Com a alegria sádica de seus rituais

“Tens uns aspecto monstruoso”, pensei eu, “mas algo de honroso,

O monstro que vem ao longe, se aproxima mais e mais

Salvar-me-ia? Aquele que se aproxima mais e mais?”


Mas seus olhos diziam “Sempre mais”.


Meu coração parou, meu sangue gelou,

Como se ele tivesse proferido desejos tais.

Ele olhava para os lados, sorria desvairado

Analisando deliciado seus rivais,

E percebeu o que encontraria, nunca seus iguais

Humanos e monstros, fracos, nunca seus iguais.


Seu sorriso perguntava “Meus rivais?”


Mas o padre, apalpando meus seios, proferia seus anseios,

Pânico em minha mente, corpo e sonhos sofrendo em ais.

Sua voz, corpo e hálito em meus pescoço

“Nessa idade, virgem já não é mais

Explorarei o corpo e a consciência também te vais”.


Só pedia, “Deixa-me em paz”.


E o monstro ria, olhava em volta e sorria,

“É o fim”, pensei eu, “nessas dores infernais

Pelo mundo abandonada e por monstros violentada

Serei enfim enterrada, com a alma que se quebra em ais,

É o meu destino, repleto de quebras e ais.


A felicidade? “Nunca mais”.


Mas os tiros foram disparados, e o monstro caiu em trapos

O padre sorriu, era esse o monstro de tempos ancestrais?

Enterrado em seus fluidos, vítima de seus descuidos?

E ele ria com seus gritos guturais

Matando minhas esperanças em seus gritos guturais


Levantar-se-ia “Nunca mais”.


Mas eis que um riso eu ouço, leve como de um pássaro o pouso

E o sangue vermelho se torna negro, juntando-se nas origens de tais

E o mundo escurecendo e novo sangue percorrendo

No veludo de seus olhos infernais

Vejo a morte em seus olhos infernais


Seus movimentos são fatais


E de neblina e sangue o ar ficou denso, com aquele sinistro incenso

Para o monstro os tiros eram notas musicais

“Não é humano”, me ocorreu, “Mas há de me salvar?”

Mas matava seus inimigos, com atos tão banais

Como se fossem mesmo só isso, tão banais


O sorriso do padre morto em ais.


“Monstro”, disse ele, “É um monstro como eu!”

E o demônio continuava, matando seus rivais,

Dilacerava a carne sem pausa, com pressa e sem demora

Matava com gosto seus iguais

Não, nunca seus iguais


E o padre soube, nunca mais!


“Monstro”, disse ele, “É um monstro como eu!”

Contra Deus, somos ambos imortais

Vamos possuir essa vida enegrecida, sermos invencíveis nessa vida

E unindo forças dominaremos até os planos celestiais

Juntos , invencíveis, venceremos até os planos celestiais


Sorriu o monstro, “Não somos iguais”


“Pensa que me intimida!”, gritou o padre, “eu sou aquele que lhe tirará a vida!”

Mas o monstro sorriu, percepção em seus olhos infernais

E me pergunta, ainda que já soubesse, da verdade que espera que eu ateste

Que sou virgem, nunca me entreguei aos prazeres mais carnais

E afirmo envergonhada, a ausência dos prazeres mais carnais


E ele sorri, atira mais.


E o padre na noite interminada, cai em sua morte determinada

E o monstro suga meu sangue em seus dentes infernais

E quando tomo o seu, sinto minha alma nublada em breu

E o calor deixa meu corpo, seremos de mundos iguais


Sentir novamente? Nunca mais...



Notas finais
O CORVO *

(de Edgar Allan Poe)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.

"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.

É só isto, e nada mais."

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,

Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,

"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.

É só isto, e nada mais".

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,

Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais.

Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.

Isso só e nada mais.

Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."

Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.

"É o vento, e nada mais."

Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,

Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais,

Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais."

Disse o corvo, "Nunca mais".

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,

Com o nome "Nunca mais".

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais

Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais".

Disse o corvo, "Nunca mais".

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais

Era este "Nunca mais".

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais,

Com aquele "Nunca mais".

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais,

Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!

Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,

A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,

A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais

Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais!

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.

Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!

Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!

Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!"

Disse o corvo, "Nunca mais".

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais,

Libertar-se-á... nunca mais!

Fernando Pessoa