Nemuru - Desperta-me
10 Wonder(ing) 怪しむ
Notas iniciais
“Heeey Nemuru” dizia a mensagem. E continuava na linha seguinte : “ Vou fazer uma intervenção na esquina do shopping este domingo, quer ir ver?”
Pisquei algumas vezes. Era sério isso? Ela realmente me procurara? O que estava acontecendo? As pessoas subitamente estavam me procurando, mas eu continuava sendo só… eu. Eu sempre tive dificuldade de fazer amigos, e agora que havia uma pessoa tentando se aproximar... Era quase estranho. Não era como se eu não quisesse a amizade dela, ela era uma pessoa bastante interessante. Era só dificil de acreditar.
“Claro!” respondi, acrescentando emojis de carinha sorridente feliz. “Estarei lá.”
Por um momento até esqueci que eu deveria responder o Daniel, coitado. Marquei com ele no sábado de irmos comer algo, talvez um hambúrguer.
Me joguei na minha cama e meus olhos bateram no meu quadro imantado e no meu desenho da árvore florida. Respirei fundo e soltei com força. Aquele desenho, aquela ideia continuava martelando minha cabeça.
Eu tinha a sensação de que estava fazendo tudo errado.
****
Sábado. Estava estudando como sempre de última hora. E ainda havia marcado coisas pro fim de semana. O que eu tinha na cabeça? Miojo?
Olhei o relógio para ver se já era hora de me vestir. Estava com uma certa preguiça de tirar o pijama, mas era a vida. Ainda faltava umas duas horas na verdade, mas eu já estava de saco cheio de estudar. Taquei meu caderno na cama e peguei meu bloco. Estava com vontade de rabiscar.
Comecei sem saber o que estava fazendo, colocando linhas curvas sobre linhas curvas. Isso depois se tornou um longo cabelo ao vento, ao qual adicionei voltas, fios soltos e brilho. Abaixo dele esbocei um corpo. Tracei ombros, um torso de costas, uma curva de cintura. Acentuei-a, desci o lápis pelo quadril e tinha se tornado uma mulher de costas, com cabelos ao vento. Coloquei nela um vestido esvoaçante, com as dobras da saia sacudindo ao vento. Em volta adicionei algumas folhas diminutas para ilustrar melhor o vento. Afastei-me da peça. Gostei dela. Sorri-lhe, imaginando quem poderia ser, qual seria sua história.
Eu era meio maluca, gostava as vezes de dar histórias para personagens que eu desenhava. Eu podia me perder nisso o dia todo, mas quando olhei mais uma vez para o relógio, vi que me atrasaria. Larguei tudo e fui me vestir.
Encontrei meu amigo (?) na porta do shopping. Ele tinha um sorriso sincero no rosto. Me senti mal por ser tão confusa e não estar tão nisso como ele parecia estar. Respirei fundo para tentar ser o mais legal possível. Ele não merecia que eu fosse fria com ele.
—Oi Nemu! — ele me deu um beijinho, o qual retribuí de uma forma meio estranha. — Olha!
Ele me estendeu um papelzinho amarelado comprido. Entradas de cinema? Sim, isso mesmo.
—Quê? Você comprou entradas de cinema e nem me avisou?
—Pensei em fazer uma surpresa.
Ai. Ele era fofo. E eu aqui sendo babaca. Por quê eu não conseguia gostar dele? Qual o meu problema?
O filme era naquela hora de modo que fomos direto. Daniel comprou pipoca para nós e sentamos. Durante o filme entretanto, não consegui prestar total atenção. Ele segurava minha mão, passava a mão no meu cabelo, ou a colocava na minha perna. Nesses momentos eu só conseguia ficar tensa porque não fazia ideia do que fazer. Eu me sentia mal não retribuindo nada desse carinho de bom grado, mas também não me sentia bem aceitando tudo isso. Me incomodava essa intimidade que eu não sentia. Esse toque que eu não pedi. Mas eu estava tentando ser uma pessoa mais aberta a relacionamentos não? O problema estava só na minha cabeça. Relaxa.
Relaxa.
Relaxa!
Inútil. Meus esforços foram inúteis. E cada vez mais eu me sentia a árvore verde. Cada vez mais eu me sentia errada, babaca, problemática. O que afinal eu precisava fazer?
Respirei aliviada quando o filme acabou. Não prestei atenção em muitas partes. Droga, ainda gastei o dinheiro dele a toa. Mas foi ele que resolveu comprar sem falar nada, né? Então acho que tudo bem. Quando fomos comer eu estava mais tranquila. Falamos como amigos, rimos, passamos um tempo legal.
Será escroto dizer que senti alívio ao chegar em casa?
—Ate mais, Nemu. Te vejo semana que vem? — ele disse, com um sorriso sincero e doce. Eu, com um sorriso forçado respondi-lhe:
—Claro. A gente combina.
Me despedi dele e fui direto pro banho quando entrei. A água caindo na minha cabeça parecia melhorar minha tensão, minha ansiedade.
Deitei na cama e meu desenho chamou minha atenção mais uma vez. Virei pro outro lado com raiva. Passou pela minha cabeça tirar ele dali. Estava me assombrando. Mas eu estava teimosa. Tentaria mais uma vez.
Um vento frio invadiu o quarto e sacudiu meus papéis. Tremi. Levantei para fechar a janela e o desenho que eu tinha feito mais cedo ainda estava em cima da escrivaninha. Peguei-o e observei. Aquela mulher parecia tão livre. O vento levava o que quer que lhe preocupasse. Mas ela obviamente não era eu.
Dessa vez não era eu.
****
Domingo. Um novo dia. Mas eu não estava com vontade de nada na verdade. O dia estava nublado e frio lá fora, meu edredom estava quente, meu gato estava quente deitado sobre meus pés como uma meia endotérmica particular. Peguei o celular para verificar a hora. 11 horas, puta merda! Eu tinha algumas novas mensagens, uma delas dizia : “Vem umas 15hrs! Já estarei lá”. Esta era da Marina.
Droga. Tinha quase me esquecido.
Ponderei por um momento se iria mesmo. Mas decidi por ir já que eu tinha dito que iria sim, com certeza. Será que ela estava mesmo esperando que eu fosse?
De qualquer forma tomei banho para tirar a cara amassada de dormir por tanto tempo, almocei um negócio rápido para então sair. Minha mãe estava fazendo uma das coisas que ela mais gostava em domingos de manhã/pós almoço: ler artigos médicos no sofá, de pernas estendidas e usando só um robe de seda. Às vezes tomando chá. Eu passei tirando sua atenção do tablet.
—Vai onde, Nemu?
—Vou no shopping encontrar uma amiga.
—’Tá bem, qualquer coisa liga.
Deu-me um beijinho e então saí. Resolvi ir à pé mesmo, era muito perto para pegar um maldito ônibus. Estava frio, então morrer no sol não seria um problema.
Acabei passando da hora, mas acho que era até melhor. Cheguei na frente do shopping e ali na esquina havia uma garota vestida em cores escuras, um suéter cinza sobre uma calça jeans preta e coturnos, na cabeça com o cabelo todo trançado de lado, tinha uma boina de crochê. Ela tocava o violino com desenvoltura, movendo-se com a música. No braço do violino as mesmas fitinhas nas cores do arco íris, e no pulso também uma pulseira com as mesmas cores.
Reconheci a música. Era “I Was Here”, da Beyoncé.
Uau.
Bastante emocional. Tinha gente em volta fascinado. Eu olhei, também emocionada com aquele som, aquela paixão. Sua expressão mudava conforme a música, e toda a cena soava como um grito “ I was here! I lived, I loved, I was here!”
Confesso que não consegui desviar os olhos, que ameaçaram encher de água. Ao final da música, muitos aplausos. Meus inclusive. Ela passou os olhos pela galera até que me viu, boquiaberta como eu devia estar. Ela riu, aquele sorriso produziu algo em mim que eu não sei explicar. Me aproximei.
—Nemuru! Você veio afinal!
—Acho que já ouvi essa frase. — disse, lembrando-me do dia da exposição. Ela riu de novo.
—O que você achou?
Nem soube responder. Mas acho que a minha cara respondeu por mim.
—Foi tão...nem sei Marina. Parabéns.
—Fica aí que eu vou tocar mais umas e depois podemos subir para pegar algo para comer.
Assenti. Ela voltou para sua posição junto à caixa do instrumento, onde tinha uma placa que dizia: “Nós existimos! Não à homofobia”
“Nós”, pensei. Então ela era parte da comunidade. Eu queria confirmar, mas como se pergunta isso pras pessoas?
Sentei e esperei na beirada da parede do shopping enquanto ela tocava músicas conhecidas de uma forma totalmente diferente de covers normais. Era uma coisa quase mágica como o som transmitia emoção. E eu via muitas pessoas a parabenizarem e jogarem notas e moedas na caixa do violino. Umas quatro músicas depois ela parou, respirou e guardou o instrumento na caixa, vindo até mim.
—’Bora comer? Estou faminta! — ela disse.
Eu ainda estava, como se diz? Acho que não tem palavra melhor para descrever que “dumbstruck”.
—Vamos, claro! — eu disse. — Você toca muitíssimo bem.
—Obrigada — ela sorriu — Que bom que gostou. Acho importante fazer esse tipo de coisa. Conscientizar, e principalmente normalizar todo tipo de amor. O que tem de errado nisso? Tudo bem, talvez nós iremos para o inferno, mas eu não ligo. Serei BFF do capeta então.
Eu ri. Ainda queria confirmar o que era óbvio, mas sei lá né. Existem várias identificações de sexualidade por aí, e não queria ser indelicada eventualmente caso eu presumisse coisas. Mas estava curiosa.
—Mas então…- comecei — você é…
—Lésbica? — ela me cortou, completando minha frase. — Ué, pensei que você soubesse desde que eu te resgatei daquele cara na festa.
—Ah… — verdade, ele tinha chamado ela de sapatão, ou algo assim. Eu não lembrava.
—Algum problema? — ela perguntou, suspeita.
—Não, claro que não — apressei-me em dizer antes que ela pudesse entender algo errado. — Não tem o menor problema, amor é amor e eu sinceramente não ‘to nem aí pra quem as pessoas pegam ou deixam de pegar.
Ela me olhou com um sorriso torto engraçado que me deixou nervosa. Será que ela estava pensando que eu era homofóbica? Ou talvez foi apenas minha maneira estranha de falar.
Chegamos na praça de alimentação no último andar e ela escolheu comer um sanduíche.
—Meu estômago está derretendo ele mesmo. Vou querer um desses bem grandes de picanha com tudo dentro!
Eu pedi um sanduíche pequeno e um milkshake porque estava mesmo com vontade de gordice doce.
Ela estava mesmo com fome, pois comeu sem quase falar nada, só uns sons de prazer enquanto tirava grandes mordidas do hambúrguer.
—Posso tomar um gole? — ela disse apontando para meu milkshake.
—Claro- eu disse, enquanto roubava umas batatas dela também.
Por algum motivo, quando fui tomar meu milkshake de novo, eu pensei que ela havia usado meu canudo.
“E daí? Nicole faz isso o tempo todo”
Dei de ombros, eu só estava sendo super observadora por nenhum motivo.
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