Nemela

7 Separação


Notas iniciais
Peços *sinceras* desculpas pela demora do capítulo. Nada justifica o atraso de uma semana que eu cometi, eu realmente sinto muito.

Aqui está o sétimo capítulo de Nemela, a Nascida do Andarilho :P

Aviso que, logo mais, adicionarei mapas sempre que for necessário, tanto para capítulos futuros quanto passados, para manter o leitor mais atualizado sobre o que está acontecendo e aonde. :)

Um corte diagonal. Um corte em arco. Um corte transversal – todos bloqueados pela espada adversária. Mesmo quando conseguiu achar uma brecha para desferir uma bota não foi o suficiente. Girou pelo chão para se esquivar e logo depois estava de pé mais uma vez. Rodearam a si mesmos por um tempo, à espera de alguma oportunidade.

Desta vez, foi ele quem tomou a iniciativa. Avançou numa estocada como isca. Nemela mordeu-a e defendeu o golpe e, logo depois, Farkas girou com a sua espada. Bateu na ponta, de modo que a espada voasse longe, e mais uma vez girou, como um tornado, desta vez mirando na sua cabeça. Quando a espada se aproximou do pescoço, parou e encarou a mulher por uns instantes, pálida.

– Como você girou desse jeito? – indagou, assustada.

– Requer um pouco de treino até pegar o jeito. Mantenha a sua mente ativada para um plano de isca, e tenha sempre um plano extra, no caso de alguma falha. Caso contrário, você morre. – Farkas voltou a sua espada à sua bainha. – Além do mais, você errou a posição da bota. Chutar o estômago é uma boa, mas chutar o peito é ainda melhor. O inimigo fica caído e sem ar. Lembre-se disso. – Nemela assentiu e foi buscar a sua espada. Correu até ela, beijou-a à sua bainha e voltou-se ao companheiro.

– Podemos continuar depois? Pelo cheiro, o almoço está quase pronto.

– Como quiser. – Olhou ao seu redor por um tempo relativamente curto. – Provavelmente amanhã estaremos em Windhelm.

– Estamos perto da encruzilhada, não estamos? – perguntou a mulher.

– Tem certeza que é isso que querem? – respondeu Farkas com outra pergunta. Os seus grandes braços e peitorais ainda estavam com os músculos tensos. – Vocês podem ir até lá depois que nos instalarmos em Windhelm. Podemos até enviar um dos nossos companheiros para guiá-los.

– Agradeço pela sua preocupação, mas o dever deve estar em primeiro lugar, sempre – respondeu educadamente.

O guerreiro assentiu e, juntos, caminharam até perto da fogueira, logo atrás deles.

O bando havia acabado de atravessar uma ponte, e agora estava no meio de uma floresta. Alguns metros à frente, porém, tinha uma pequena parte plana com um morro de três metros logo acima e um rochedo incrustado, virado pra parte plana, e ali era aonde tinham se organizado. As carroças estavam recostadas na parte do rochedo, ao passo que os cavalos foram amarrados acima do morro em uma árvore qualquer. Um Dark Elf e uma Imperial de aparência excêntrica estavam sempre por perto deles, enquanto o principal grupo se acoplava ao redor das carroças. Farkas cumprimentou a dupla, que fez o mesmo e obrigou Nemela a dae continuidade. Quando desceram o morro, encontraram Kodlak, Aela, Skjor e mais alguns Companheiros numa espécie de “u”, juntos às carroças e alguns metros atrás da fogueira. Um suporte improvisado de madeira maciça para segurar o caldeirão foi montado para que Tilma, a velha empregada cozinhasse. Um último companheiro, de traços nórdicos, tanto na espessa barba quanto no cabelo, e rosto piedoso, treinava algumas lições de espada contra Stenvar. Aela olhou de relance e notou a dupla se aproximando.

– Olha quem vem aí – notificou. Seus cabelos lisos e ruivos repousavam em seu pescoço. Mesmo com a tatuagem de garras negras cobrindo o seu rosto, dava pra imaginá-lo belo, com lábios médios e claros, nariz pequeno e olhos que pareciam alternar entre cinza e amarelo. Seu peitoral era coberto por uma armadura de couro leve que possuía um pequeno decote na altura dos seios, coberto por três ligas de metal e pequenos pedaços de granada nelas incrustadas: uma na altura dos seios e as outras duas acima desta. Um saiote dava continuidade à armadura e era protegido por um pedaço de couro fervido e revestido por cota de malha que ficava pregado de uma sobrecoxa à outra, sem tampar a parte frontal das pernas, até os joelhos. Um emblema tampava à altura da sua genital, e botas feitas de couro bem trabalhado protegiam até a altura do tornozelo. Os ombros eram protegidos por pelagens de urso, ao passo que as suas luvas verdes começavam do antebraço, eram tampadas por braçadeiras revestidas por ferro nas extremidades, e terminava no começo dos seus dedos.– Derrotou o cabeça-de-alface, mulher?

– Foi o contrário – respondeu Nemela.

– E eu te entendo. O que ele tem de forte, ele tem de burro – Skjor, como sempre, acompanhara com uma boa risada.

– Você normalmente só me ofende quando eu faço alguma coisa errada – grunhiu Farkas, mas não como se tivesse levado a ofensa a sério.

– Estou só antecipando o momento. Por que não vai ver o que a Tilma está preparando?

– Podem desistir da ideia – gritou a velha. O seu queixo, de alguma forma, deixava o rosto com uma aparência quadrada, ao passo que marcas ferozes emitiam a todos que ela possuía uma idade bastante elevada. Uma bola pequena nascia acima do seu olho direito e, inexplicavelmente, seu couro cabeludo não era rarefeito e os seus fios grisalhos se extendiam até o início do pescoço. – Já disse que eu ouço tudo, vejo tudo e sei de tudo.

– Ensine algumas coisas ao guerreirão aqui, por favor – gritou de volta.

– Tudo o que preciso saber é aonde espetar a ponta da minha espada, e disso eu sei bem – provocou o guerreiro.

– Que tal um duelo entre vocês dois? – interveio Vilkas. Quem quer que olhe pra ele, o encarará mais como um diplomata do que como um guerreiro. Não tinha a mesma força do seu irmão gêmeo, Farkas, mas possuía habilidade em combate; além do mais, possui uma mente afiada. Seu pescoço era alto demais e lhe dava uma aparência estranha quando vestia a armadura de ébano. Sua barba era rasa e negra, mais negra do que os seus cabelos, que eram acastanhados; em compensação, eles eram indiscutivelmente mais longos, com algumas mechas escapando pelo seu rosto em forma de parábola. – Seria interessante de se ver.

– Mal teria graça – disse ela em resposta, mas não com a mesma firmeza de antes.

– Pelo tom de voz, acho que você não aguentaria a pressão – Farkas soltou um sorriso, e um “uuuuuuhhhhh” tomou conta do local.

– Não vamos levar isso a sério demais, rapazes – interveio Kodlak. – Não quero que terminem com a espada nas entranhas do outro.

– Ou uma flecha – provocou Aela.

– Que tal decidirmos isso no almoço? Quem comer mais, vence – sugeriu Vilkas, mais uma vez, e como sempre, tudo terminou entre risadas. Torvar era desarmado brutalmente por Stenvar quando a empregada dos Companheiros chamou a todos para o almoço antes da partida.

O grande banquete de Whiterun usufruiu de quase toda a comida da despensa. As caravanas com novos suprimentos teriam chego um dia depois da tragédia, embora não tenham cruzado com uma sequer durante os dois dias de viagem, portanto, não podiam usufruir de muita comilança; além do mais, viajar de barriga cheia definitivamente não é a melhor ideia: a sonolência provocada pode matar a todos. Portanto, todos almoçaram uma sopa composta por tomate e caldo de zimbro acrescida de alguns legumes em quadradinhos. Ninguém conseguiu superar Vilkas e as suas duas tigelas transbordando.

Enquanto a empregada foi limpar as tigelas, os talheres e o caldeirão, acompanhada de Aela e a mesma Imperial que estava cuidando dos cavalos, o restante do grupo ajudava a organizar as carroças. A fogueira fora apagada, os cavalos foram amarrados às carroças mais uma vez, os utensílios foram postos de volta aos seus devidos lugares, bem como todo mundo aos seus respectivos cavalos. Tilma ficou num espaço reservado a ela nas carroças, uma vez que ela era velha demais para andar a cavalo.

Por causa das carroças, a viagem ocorreu bem lenta. Não chovia há vários dias, o que retirava a possibilidade de uma estrada lamacenta esperando por eles para afundar as rodas e, talvez, até os cavalos. Pelo contrário, a estava estava bem empoeirada.

O sol dourava os campos como despedida quando se aproximaram de uma encruzilhada. Seguir pela direita era a rota para Windhelm, e seguir reto abria mais uma bifurcação, por onde Nemela e Stenvar pretendiam seguir.

Foi uma despedida breve. A guilda continuou preocupada quanto a decisão da dupla, mas como não criaram tanta afinidade uns com os outros, não foi mais diferente do que um vendedor desejando boas viagens ao seu cliente. Ainda assim, alguns conselhos foram dados.

– Não importa o que aconteça, siga a estrada – recomendou Kodlak. – Vocês depararão-se com florestas e áreas montanhosas, lar de dentes de sabre, ursos, Spriggans e trolls, e eu garanto que vocês não vão querer confrontá-los.

– Há alguma estalagem pelo caminho? – Kodlak negou.

– Vão ter que seguir vigilantes. Vocês não terão carroças para se preocuparem, então é provável que só precisem dormir nesta noite. Por fim, peço que nos perdoem por não lhe oferecer um equipamento melhor, Nemela. A armadura de aço era tudo que tínhamos.

– Não se preocupem – respondeu -, fizeram por mim mais do que era necessário. Agradeço por tudo, mas agora é hora de partir.

– Sim – concordou o velho -, é hora de partir. Até algum dia, Nemela e Stenvar.

Ambos acenaram e trotaram em direção pela estrada, apenas como companhia a si mesmos. O ritmo era inquestionavelmente mais rápido, de uma maneira que um pouco mais tarde já se encontravam na bifurcação. Seguir reto dava numa estrada sem fim; pela direita, a rota subia e subia. Logo no começo, alguns pedaços de terra e pedregulhos se elevavam na altura de um homem; alguns metros à frente era aonde a floresta se mostrava tanto presente quanto imponente.

Árvores se extendiam metros e metros além; grandes bandos de pássaros que gorjeavam entre si, à procura de seus ninhos ou de qualquer local para dormir; a estrada, como imaginaram, não dava uma amostra sequer de descidas – pelo menos na perspectiva deles — ou planíces; apenas subidas e florestas. Guiaram os seus cavalos cuidadosamente. Algumas partes da estrada eram planas, embora continuassem rodeados por rochedos à esquerda e florestas, seguidas de uma grande queda à direita. Avistaram uma grande cachoeira, seguida por uma outra grande cachoeira, seguida por uma ainda maior. Por cima da primeira, o corpo inteiro de uma árvore servia como ponte de um lado para o outro.

Quando olharam para o outro lado, avistaram dois homem, com os peitos nus, assim como as espadas em suas mãos. Gritaram alguma coisa e tentaram atravessar, numa tentativa de nos roubar.

– O que faremos? – Nemela já estava com o cabo na espada élfica entre as mãos. Ao abandonarem Whiterun, acabaram passando pelo corpo inerte do dragão e, para a sua surpresa, ela estava lá, intacta. Logo entendeu o por quê: precisaram da ajuda de Farkas, Stenvar, Nemela, Skjor e mais dois para conseguir puxá-la para fora.

– Nada – respondeu o mercenário, que apenas observava.

Embora a árvore parecesse estar ali há tempo o suficiente para que as rochas se acomodassem entre e ao redor das raízes e do outro lado, ainda era perigoso. O segundo bandido vacilou, escorregou no meio do caminho e caiu, mas não sem antes tentar pegar no pé do ex-companheiro, numa tentativa de se salvar. Só serviu para esbofetar a dobra do pé direito e, por consequência, fazê-lo tropeçar. Ele acabou indo em direção à queda d’água, de qualquer forma. O bandido restante, porém, ao invés de cair, teve a infelicidade de tropeçar diante de um galho velho, porém ainda grosso o suficiente para empalá-lo. Sangue começou a encharcar o galho e, logo depois, pingava cachoeira abaixo. Enquanto isso, um barulho de algo se chocando com uma pedra foi ouvido e, logo depois, dois corpos caindo na água: o primeiro foi quase imperceptível; já, o segundo, fez a dupla olhar em direção à cachoeira. Não havia mancha de sangue alguma na pedra, uma vez que a água fez o seu trabalho bem rápido. Após a queda, algo parecido com uma cabeça boiava perto do seu ex-corpo.

Heh – riu Stenvar. – Não assaltariam nem um veado. Vamos prosseguir – disse, enquanto bateu levemente nas rédeas. — Se o azarado ali tivesse morrido um pouco mais perto, poderíamos tentar saqueá-lo – adicionou.

Nemela seguiu-o para prosseguirem a viagem. A estrada plana terminou, e agora mais subidas e curvas acompanhavam as cavalgadas.

Pararam no meio da estrada em frente ao corpo de um veado morto. Stenvar rapidamente ordenou que descessem para verificar o corpo. Como o mercenário suspeitava, o sangue ainda estava fresco, e marcas de mordidas no pescoço logo entregaram quem já tinha começado a caçar.

– Eles ainda devem estar por perto – disse. – Se continuarmos a cavalo, eles podem nos cercar, e aí provavelmente teremos que seguir o resto do trajeto a pé.

– Mas não podemos deixar os cavalos na estrada enquanto caçamos – opôs-se a nórdica. – Podemos esperá-los por um tempo. Se não aparecerem, nós continuaremos a viagem. – Stenvar achou esta uma boa ideia. Arrancou a espada de duas mãos das costas ao passo que Nemela segurava o escudo e a espada élfica.

Vários minutos se passaram, e nenhum sinal de lobos ao redor foi percebido. Como planejado, embainharam as suas armas e voltaram a cavalgar pela estrada.

Mais à frente, receberam outra perspectiva da última cachoeira, sobre rochedos e pinheiros. A montanha se erguia centenas de metros acima e, de alguma maneira, os pinheiros conseguiam manter-se vivas entre rochas e inclinações. Agora as duas luas estreavam pelo céu estrelado; uma dominava o céu, ao passo que a outra estava tímida e tudo o que ela permitia-se a mostrar era uma pontinha. As suas luzes brancas e puras irradiavam sobre a montanha inteira, enquanto o rio mostrava-se notavelmente mais agressivo. Essa era possivelmente o último trecho em que a cachoeira seria vista novamente: uma curva depois e agora estavam rodeados por pedras, mesmo quando o lado direito ou o esquerdo da dupla estava aberto à natureza.

Metros adiante, sete lobos jaziam mortos à estrada. Suas peles estavam intactas, embora não houvesse um lobo sem cortes ou sem mutilações. Os cavalos empinaram com medo, mas conseguiram dominá-los novamente. Assim que se acalmaram novamente, seguiram viagem mais uma vez, mas não sem conversar sobre.

– Quem poderia ter matado sete lobos de uma vez?

– Nem mesmo um dente de sabre conseguiria. Talvez um urso, mas só dos mais parrudos, mas aqui não é lugar para ursos, pelo menos não no trecho onde estamos. Ainda assim, os cortes eram retos, assim como as mutilações. Isso foi trabalho de um homem – explicou o mercenário, com a mão afagando a sua barba.

– Deveria ser um bando médio. Talvez grande – imaginou Nemela.

– Precisamos continuar alerta. Não sabemos quantos eram…

Dessa vez os cavalos não empinaram, mas eles mostravam-se irrequietos. Quando olharam à frente mais uma vez, dois dentes de sabre eram dominados por alguns corvos. Não fosse por eles, a pele dos animais estaria inteira, exceto pelos cortes, assim como a dos lobos. Desceram para averiguar e descobriram um grande corte profundo no abdômen de um dos tigres. As entranhas ocasionalmente escapavam pelo corte, e isso foi o suficiente para que deixassem os mortos para os corvos. Limparam as mãos sobre a pelagem morta e subiram nos seus respectivos cavalos mais uma vez.

Mais ou menos uma hora de cavalgada se sucedeu até que eles pararam por um tempo. Olharam para o norte, à esquerda deles, e descobriram o céu limpo e estrelado servindo de fundo para as nuvens e o pico de outras montanhas. Podiam jurar que, daonde estavam, era exatamente o pico de uma segunda montanha à lés-nordeste, assim como a de uma terceira a quarenta e cinco graus à esquerda.

– Já subimos bastante por aqui.

– E não parece que vamos parar tão cedo – disse Stenvar, sem pestanejar à paisagem que presenciavam. Retirou o elmo para que pudesse ver melhor e mais confortavelmente. – Não me importaria se a estrada levasse direto para High Hrothgar, ao invés de Ivarstead, porque isto é… isto é… wow. – A dupla contemplou os céus por mais um tempo até decidirem seguir caminho.

Mais alguns minutos se passaram até que os pinheiros voltassem a aparecer, mas não em tão grande quantidade quanto antes, em conjunto com outras árvores que também marcavam presença por aquela área.

Sobre as árvores à direita, um rugido chamou a atenção dos dois.

Não contestaram: era o rugido de um urso. Amarraram os cavalos numa árvore segura quando ouviram um rugido de dor. Se esgueiraram entre as árvores para achar o urso morto, seu corpo deitado sobre uma moita. Pela pelagem escura, era um urso das cavernas. Um orc estava parado, observando o animal morto com um machado largo nas suas duas mãos. Uma árvore-sentinela se erguia e se ramificava em imensuráveis galhos repletos de infinitas folhas cada um. Avistou o grupo atrás de uma macieira e então andou em sua direção, sobre as folhas caídas e sobre a pequena elevação que se formava no caminho. Parou numa distância de dois metros.

– Vocês me dariam uma boa morte? – perguntou, de súbito. Nenhum dos dois sequer imaginara alguém fazendo esse tipo de perguntar, então o orc repetiu. – Vocês me dariam uma boa morte?

– Por que eu te mataria? – indagou Nemela.

– Sou muito velho para me tornar um chefe ou pra tomar uma mulher. Se for para morrer, que eu morra em batalha para honrar o deus Malacath.

– Quem sabe eu possa te dar uma boa morte? – desafiou Stenvar. Nemela não sabia quem era Malacath, mas sabia que aquilo era loucura. Provavelmente foi ele quem matou todos aqueles lobos, e aqueles dentes de sabre, pensou. Porém, nunca tinha visto Stenvar realmente lutando.

– Será mesmo? – contestou o velho orc. Sua armadura era simples, feita de pele de animais com um cinturão de metal. A sua barriga estava desprotegida, e o seu peitoral era protegido por um emblema metálico redondo que soltava quatro faixas de couro em forma de X. Apenas uma ombreira protegia o seu lado esquerdo, enquanto o outro possuía apenas a tal faixa de couro.

– Claro que sim. Apenas eu e você. Se eu perder, a mulher aqui pode terminar o trabalho. – Stenvar ajeitou o seu elmo. Nemela agora estava com uma cara perplexa; isso era demais para ela aguentar.

– Stenvar, você… — começou.

– É o que veremos – terminou o orc, que agora recuava pra perto do urso, como se quisesse formar uma arena por ali. Stenvar o acompanhou e retirou a sua espada de aço das costas. Nada poderia pará-los.

Começaram a rodear-se por longos segundos. Nemela nada pôde fazer a não ser assistir perto a uma árvore próxima, com escudo e espada nas mãos, preocupação na sua mente.

O orc avançou com um giro e um corte diagonal. Stenvar desviou do machado, que afundou no chão, e se preparou para apunhalá-lo. O orc, porém, apoiou-se no machado para pegar impulso e pular em arco para o outro lado. Dessa forma, a espada perfurou o ar, ao passo que o machado inimigo fora retirado do chão. Uma nuvem de terra e poeira levantou-se com o machado bem na direção do mercenário, que ficou desorientado por um momento, tanto pela terra quanto pela ponta dupla que passou raspando pelo seu rosto, tempo o suficiente para que o orc arrumasse a posição da lâmina, ainda levantada, para desferir um corte vertical. Stenvar conseguiu dar um salto pra trás a tempo, mas a lâmina fincou na terra de novo. Dessa vez, deu dois passos para a direita, levantou o machado para o mesmo lado com as duas mãos, o que criou uma onda de poeira e, logo depois, o homem brandira o machado com apenas uma mão, mirando a cabeça. O alcance era perfeito, a força com que o homem manejava a arma era descomunal o suficiente para fazer Stenvar cambalear e quase perder a espada de suas mãos após defender o golpe.

Ambos recuperaram um pouco do fôlego por alguns breves segundos. Nemela estava aflita e quase soltou as armas para levar as mãos à boca quando Stenvar cambaleou. As duas luas observavam a cena, silenciosas; uma curiosa demais para se posicionar no céu aberto, a outra ainda tímida demais para mostrar mais do que apenas uma parcela de si mesmo. Ofereciam apenas as suas luzes como torcida, para todos e para ninguém em específico. A árvore-sentinela servia como juíza do duelo, exatamente entre os dois combatentes, à direita deles.

Desta vez foi Stenvar quem avançou. Desferiu uma estocada que foi defendida com maestria; dividiram golpes em arco, cada um vindo de uma extremidade e provocando um choque ensurdecedor. Recuaram as armas e a si mesmos, exceto Stenvar, que girou enquanto o orc ainda estava no ar e desferiu outro golpe vindo da mesma direção. Não tinha como defender-se disso, mas a espada apenas lambeu o estômago do inimigo. Um pouco de sangue começou a sair do corte pequenino. O orc praguejou enquanto metia a mão na mancha que se formava. Seu rosto revelou fúria, e logo depois moveu-se para mais um golpe em arco. Stenvar abaixou-se e desferiu uma cabeçada no estômago. O orc urrou de dor e recuou, exatamente como o mercenário havia planejado. Brandiu a sua espada e tentou cravá-la no crânio.

O mercenário calculou mau o quanto o inimigo cambalearia e, por isso, errou o golpe. Stenvar pagou pelo erro e recebeu uma bota no rosto. O orc parecia estar num frenesi enquanto Stenvar cambaleava, cego e sem defesa. O corpo do machado atingiu a direita do seu crânio com tamanha força que o homem caiu inerte no chão. Nemela segurou um grito de aflição.

Parado sobre o seu corpo, o orc moveu-se em direção a ela, calmamente, e disse:

– A vida deste fraco depende da sua, mulherzinha. Veremos se conseguirá defender as duas – e saiu em disparada em sua direção.

Saltou, com a arma pronta para cortá-la ao meio. Nemela rolou por baixo e escapou da morte, desta vez, e o machado do homem mais uma vez fincou na terra. Novamente, ele impulsionou-se em arco com o machado como apoio, e subitamente teve uma ideia, mas precisaria obrigá-lo a realizar esse mesmo movimento. Recuou para não ter o mesmo destino de Stenvar, e o homem apenas retirou o machado da terra. Grunhiu e novamente tomou a iniciativa. Girou e atacou em diagonal, perfeitamente bloqueado pelo escudo redondo e médio de Nemela. Sentiu a sua mão doer pelo impacto, mas não vacilou e empurrou de volta o machado, preparada para uma estocada. Entretanto, a espada não foi apenas bloqueada pelo machado como fincou entre um dos buracos do corpo do machado. Atento a isso, o orc brandiu o machado e fez a espada voar por metros além. Aproveitou o movimento para atacá-la sem chance aparente de contra-ataque.

Nemela defendeu um, dois, três, quatro, cinco golpes, até que ela sentiu um barulho vindo do escudo de aço. Sentiu que logo mais ele se despedaçaria e, portanto, preferiu esquivar-se de um corte transversal, apenas para receber um chute no estômago. Urrou e observou o orc a tempo de rolar-se em esquiva do que seria o golpe de misericórdia. Utilizou as suas últimas esperanças para correr até a espada. O orc seguiu-a, aparentemente a mesma velocidade.

A Nascida do Dragão conseguiu alcançar a sua espada, mas assim que olhou para trás deparou-se com o orc saltando em sua direção, com o machado no alto, como na última vez. Num ato de total desespero, girou e arremessou o escudo. O escudo voou e voou até a face do guerreiro, bem na testa. O escudo de aço caiu no chão, assim como o orc, estonteado com o golpe inesperado vindo da mulher. O machado caiu e afundou na frente de Nemela.

Aquela era a sua chance: era ali que o duelo terminaria, ela estava certa disso. Correu até o seu corpo virado de barriga pra cima, ainda um pouco trêmula, e percebeu que ele estava quase perdendo os sentidos. Ajoelhou-se para matá-lo.

Infelizmente, ele ainda não havia perdido os sentidos.

Suas mãos alcançaram o pescoço de Nemela, mais uma vez aflita por ainda estar lutando pela sua vida. Não conseguiria arrancar as duas mãos com apenas uma, portanto decidiu fazer daquela morte uma bem dolorosa. Sua espada atravessou as duas mãos numa estocada só, e agora ela conseguiria respirar. O orc urrava de dor enquanto os seus braços encharcavam de sangue. Com a espada livre, e com toda a fúria de quem acabara de escapar da morte, não sabia se mataria-o de uma vez ou em partes. Contudo, a sua boca resolveu fazer o trabalho sujo.

Yol – gritou, incovenientemente. O homem, que agora gritava ainda mais, foi envolvido e consumido pelas chamas que sairam de Nemela. Por um momento, não entendeu o que isso significava, mas então lembrou-se de Ulfric utilizando o mesmo Grito para acender uma fogueira, quando fugiram de Helgen.

Sentiu-se maravilhada pelo poder que tinha ganhado, mas não sabia como o adquiriu. Será que foi o dragão que ela matou, em Whiterun? Poderia Stenvar também utilizar do mesmo Grito?

Independentemente, sabia que, naquele momento, tinha algumas prioridades. Pegar o machado para si, por exemplo. E checar se Stenvar estava bem.

Notas finais
Não se esqueça de dar as suas críticas quanto ao capítulo! :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.