Nemela
3 Pausa para descanso
Notas iniciais
De qualquer maneira, aqui está o terceiro capítulo de Nemela, um descanso para o trio que foge de Helgen. Aproveitem e comentem :D
Desta vez, não tinha problema em seguir o caminho pela estrada; os guardas Imperials provavelmente já tinham passado pelo grupo, depois do corte da montanha até As Pedras Guardiãs. O rio seguia imponente para o nor-nordeste enquanto a luz do sol da manhã relampejava nas águas e era refletida de volta, causando um grande esplendor. Pinheiros, carvalhos e centenas de outras árvores se reuniam à direita das estradas por onde seguiam e do outro lado do rio. Era o último mês do verão, o Last Seed. Pelo modo como as frutas estavam terminando de amadurecer, era a segunda metade do mês.
– O dia de hoje será marcado para a eternidade — afirmou Ralof. — Décimo sétimo dia de Last Seed, quando o dragão atacou Helgen e anunciou a volta da sua raça. Me pergunto como deteremos tais criaturas.
– Sempre que os dragões voltam ao nosso mundo, o Dovahkiin aparece, segundo as antigas lendas, para proteger o nosso mundo. É sabido — afirmou Ulfric.
– É sabido.
– Dovahkiin? — Perguntou Nemela, com um ar ignorante.
– Dovahkiin, na Linguagem Antiga dos Dragões, significa "Nascido do Dragão". É o homem que consegue debater com os dragões usando o Poder da Voz, e vencê-los. Dizem também que ele absorve as suas almas para sempre, impedindo-os de renascerem — informou Ulfric.
– Seria você o Dovahkiin, Ulfric? Você consegue usar a sua Voz!
– Consigo, sim, mas foi mais por vontade própria do que por naturalidade. Passei dez anos recluso com os Barbas Cinzentas, em High Hrothgah, para me ensinarem o Caminho da Voz. O verdadeiro Dovahkiin consegue absorver o aprendizado da Voz em instantes.
Nemela já ouvira falar dos Barbas Cinzentas. Eram anciões de High Hrothgar, a maior montanha do continente de Tamriel, cujo tamanho era de aproximadamente sete mil passos até o templo no pico da montanha onde os anciões viviam, reclusos da sociedade e da guerra. Dizem que não proferem uma palavra a visitante algum, quando alguém ousa desafiar as montanhas, pois suas Vozes são tão poderosas que uma pessoa poderia ser cortada em pedaços pelo impacto que a Voz faria no ar.
– Ouvi dizer que, quando o Nascido do Dragão é revelado ao nosso mundo, os Barbas Cinzentas gritam aos céus numa força que qualquer pessoa, de High Rock a Black Marsh, de Summerset Isle até a mais distante ilha de Morrowind consegue ouvir o seu chamado — adicionou Ralof. Ulfric acenou com a cabeça.
– Se eu fosse o Dovahkiin, já teria sido chamado, sem sombra de dúvidas — cruzou os braços. — Sou apenas um homem que tem força de vontade e, o mais importante, que sabe usá-la.
– Então quem pode ser esse tal Dovahkiin? — Nemela estava perplexa. — O dragão foi até Helgen... E se ele soubesse que o Dovahkiin estivera por lá?
– Se estivesse lá, certamente teria sido ele a sair da cidade vivo, e não o dragão — observou. — Quem sabe o que se passa em suas cabeças? Talvez queria apenas um churrasco — e mostrou um sorriso, enquanto Ralof desatara a rir. — Descobriremos sua personalidade logo mais. Talvez demore, sim, mas os Barbas Cinzentas esperam o momento certo para anunciar a sua ascensão. Até lá, aceleremos os nossos passos.
Imagina só, pensou Nemela, ter o poder dos dragões. Poderia invocar os elementos e muito mais, quem sabe até domaria um para mim. Apesar dos horrores que passara em Helgen, ter poderes draconianos não seria tão mau assim. Eles não devem ser todos maus. Certamente há alguns que não praticam essa matança.
Entre pensamentos distantes e conversas, chegaram ao vilarejo. O sol já apontava para o oeste e a sua luz já reluzia em um tom dourado que anunciava a sua partida. As casas aceitavam e absorviam esta luz com prazer; as plantações pareciam mais vivas com o seu toque. Alfaces, cenouras, tomates, pomares com maçãs e diversas outras plantações se extendiam pelos campos, quase no ponto para serem colhidas, enquanto alguns camponeses tomavam conta dos animais entre conversas e barulhos de vacas, galinhas e bodes. Um pedaço de terra à esquerda do vilarejo cortava o rio em dois, ao passo que uma espécie de serraria usufruia de sua força, usando uma roda giratória como energia para cortar a madeira. Apesar do tamanho das terras serem parecidas com o tradicional, o vilarejo parecia bastante produtivo.
Enquanto adentravam o local, uma idosa conversava com um homem:
– Eu o vi, eu juro, eu o vi– afirmava incessantemente a idosa. Um capuz protegia a sua cabeça que não parecia dispôr de cabelos, enquanto sua pele estava extremamente caída e pálida. Seus olhos escuros mostravam sofrimento. Vestia uma camisa de tecido velho com alguns rasgos nos ombros e uma calça igualmente velha. — Um dragão! Estava voando a norte, em direção a Whiterun. Você tem que acreditar em mim, meu filho...
– Você viu dragões, e eu vi o Talos com os meus próprios olhos — debochou. — Deixe disso, mãe, você está ficando louca. Dragões não existem mais...
– Isso não é bem verdade — interveio Nemela, se aproximando dos dois. — Um dragão atacou Helgen, estávamos lá.
– Como é?
– Eu te disse que era verdade — apontou o dedo no rosto do filho. — É o Fim do Mundo, segundo a profecia. Primeiro, esta droga de guerra, agora dragões atacam vilarejos. Vamos morrer com o fogo do inferno derretendo as nossas almas enquanto nos distanciamos de Sovngarde, espere e verá — apontava o indicador aos céus e rodava o seu braço enquanto profetizava. Ao término, olhou para a Nemela, e então para os dois atrás dela. Não reconheceu Ulfric, mas reconheceu o rapaz ao seu lado. — Você... Ralof?
– Já faz um tempo, Hilde — deu alguns passos para a frente -, e Sven. Como vocês estão?
– Achei que tivesse morrido, rapaz — Sven deu uma gargalhada e o abraçou. Seu rosto era robusto, com curvas fortes e algumas veias saltando de seu pescoço. Como qualquer outro Nord, possuía olhos azuis e cabelos louros ondulados até os ombros. Suas vestes eram uma camisa azul que se transformava num saiote até os joelhos acompanhados de um colete beje que se abria no meio do peitoral e das pernas até o fim do saiote. Um cinto mantinha as roupas presas, e uma calça o protegia por baixo até as botas. Ralof retribuiu a risada. — Como você está?
– Na medida do possível — respondeu com um sorriso. — Hilde ainda cozinha bem como antes? Sempre senti falta dos seus pratos com peixes e bolos de limão.
– Mas é claro. Enquanto tiver mãos e vida, minha habilidade de cozinha não me abandonará. — Olhou para trás. — E quem é o homem atrás de você?
– É o Ulfric Stormcloak em pessoa. A mulher aqui é uma prisioneira que nos ajudou a escapar, chama-se Nemela.
Ajudei? Tudo o que fiz foi cortar um pedaço de pano de um machado que não era nosso e chamar a atenção de dois arqueiros, pensou, mas preferiu controlar a língua. Ulfric fez uma reverência moderada, e Nemela o repetiu.
– Orgulhe-se por isso, garota. Essa guerra é uma merda, sim, mas só a guerra pode nos salvar das mãos daqueles elfos nojentos. Que os dragões os levem e os façam comer as suas próprias orelhas, veremos do que irão se orgulhar, então — praguejou Sven.
– Certamente sua família ficará feliz com a sua chegada, Ralof — sorriu Hilde. — Por que não vá vê-los, antes de mais nada?
– É o que eu planejava fazer assim que colocasse os pés na minha terra natal. Vejo vocês depois — fez um aceno moderado com a cabeça e se foi. Nemela e Ulfric repetiram a ação, e Hilde e Sven responderam da mesma forma.
Atravessaram uma pequena ponte de dois metros até a serraria. Uma mulher descansava sentada num monte de troncos empilhados. Estava com a cabeça abaixada, mas mesmo de longe era possível perceber o cansaço que aparentava. Quando se aproximaram, ergueu a cabeça. Seu rosto estava mesmo cansado e, além do mais, sujo.
– Em que posso aju... Ralof? Ulfric? Não acredito– se levantou no mesmo instante. — Hod, Frodnar! — Gritou enquanto abraçava o irmão. — Venham, Ralof e Ulfric estão aqui!
Um homem e uma criança chegaram correndo com descrença. Quando avistaram Ralof e Ulfric, porém, um sorriso tomou o lugar da dúvida. Logo em seguida, um cachorro também apareceu.
– Ralof! – gritou Frodnar e disparou em sua direção. Apesar de ser criança, as feições de seu rosto eram de um homem formado. Seus cabelos adotavam um loiro mais claro do que o tradicional loiro dourado dos Nords: à primeira vista, pensa-se que o cabelo do garoto é branco. Usava um camisetão que ia até o primeiro terço das coxas e calças escuras que eram fechadas por sapatos de couro. Abraços as pernas de Ralof, que se agachou para retribuí-lo. O cachorro o acompanhou e começou a cheirar o soldado Stormcloak. – Senti sua falta, tio! Matou muitos Imperials?
– Infelizmente, foram eles que nos pegaram, sobrinho. Mas conseguimos nos libertar – e deu um sorriso. – E você, tá treinando bastante?
– Se tô! Pergunta pro meu pai, uma dupla de Imperial tentou passar pela vila, mas eu e o o Stump botamos eles pra correr! – Passou a mão pela pelagem do seu cachorro e o acariciou na altura do pescoço. Stump pareceu gostar e, como retribuição, deu uma lambida no rosto do garoto.
– Frodnar, não deveria falar sobre isso – preveniu a mulher. – A família do ferreiro não gostou nada disso.
– Mas, mãe…
– Não se preocupe, Gerdur – levantou-se Ralof -, não vai acontecer nada de mais. Frodnar, por acaso um grupo de soldados Imperial passou por aqui?
– Sim, e era um grupo grande, uma dúzia de soldados. Não pude pará-los – admitiu com tristeza.
– Não se preocupe, isso não é tarefa pra você, ainda – e passou a mão pela sua cabeça. – Mais soldados podem aparecer daqui a pouco – mentiu. – Vigie as entradas, e nos informe de qualquer coisa.
– Sim, capitão – gritou a criança. – Stump, guarda a saída norte – e os dois se separaram ao olhar de todos.
– Cresceu bastante – comentou Ulfric.
– Já é um garoto, não acha? – concordou Hod. Parecia ter uns quarenta a cinquenta anos, pelas marcas na testa. Seu cabelo era pequeno e todo penteado para trás, e o seu bigode fazia um caminho pelas extremidades do seu queixo até terminar no começo do pescoço. De resto, não tinha um pêlo.Vestia uma camiseta similar a que os mineradores utilizavam, com um branco que ficava cada vez mais sujo, da gola até a metade do joelho. Um cinto prendia a camiseta com a calça meio suja que vestia, e botas de couro protegiam os seus pés. Um par de braçadeiras acompanhavam o final das mangas compridas da camiseta. – Acredito que estejam cansados, seja lá o que tenha acontecido a vocês. Além do mais, também temos coisas a contar – o vigor de sua voz pareceu ter fugido no final da frase — Venham conosco, podemos preparar o jantar enquanto descansam – fingiu um sorriso e os mostrou o caminho, com um dos braços pendurados nos ombros de Gerdur.
Atravessaram a ponte e seguiram pela esquerda. Só agora notei o barulho de martelo batendo no aço, pensou Nemela, com os olhos vidrados no ferreiro. Então se lembrou da conversa sobre o feito do garoto. “A família do ferreiro não gostou nada disso”. Poderia aprender de um ferreiro que não gosta dos Stormcloaks? Queria aprender sobre forjas o mais cedo possível, mas aquela não parecia ser a hora. Passaram também pelo que parecia ser uma loja, pelo emblema pendurado na entrada. Ao final da loja, viraram à direita e seguiram caminho até uma enorme casa que tinha um espaço para a plantação. Cenouras, alfaces e tomates se extendiam por alguns metros ali e algumas galinhas passeavam pelo espaço, ocasionalmente bicando algum grão abandonado. Por fim, adentraram a casa.
Era uma casa grande, para uma família de um vilarejo. Uma mesa com quatro cadeiras jazia à esquerda da porta, ainda encostada na parede, que fazia jus à fogueira com um caldeirão para cozinhar que se localizava bem na frente da entrada. Uma escada levava a um porão. À direita, haviam estantes com bebidas, uma segunda mesa menor do que a anterior, uma cama de solteiro e, mais para o fundo, uma cama de casal.
– Sentem-se na mesa maior, trarei uma bebida para vocês – Hod se dirigiu até as estantes e trouxe duas garrafas. – Hidromel dos Black-Briar, uma das minhas preferidas – Ralof deu uma pequena gargalhada, enquanto Ulfric sorriu. – Suponho que você beba, mulher?
– Se não bebesse, não seria uma Nord – risadas se desencadearam ao término da frase. Hod trouxe três canecas, uma para cada um, e depois duas para ele e a sua esposa. Encheu a caneca de todos. – Um momento. Querida, de quais ingredientes você vai precisar?
– Queijo de mamute, cebolas e tomate, o suficiente para nós cinco e o Frodnar – informou. Hod se apressou até o porão. Voltou e foi mais duas vezes para carregar todos os ingredientes de uma vez e os colocou na mesa menor que tinha sido arrastada até o caldeirão.
– Não saber cozinhar é uma desgraça – pausou para rir -, fico muito dependente. Um dia, aprenderei a cozinhar.
– Eu diria que esse dia chegaria quando os dragões voltassem, mas parece que essa piada já é antiga – e os dois riram. Nemela e a outra dupla se entreolharam.
– Então já sabem sobre o dragão? – começou Ulfric.
– Ah, então vocês também sabem? Essas notícias se espalham rápido, de fato. – deu um trago no seu hidromel. – Como descobriram?
Nemela começou a contar a sua história. A chegada dos Imperials, a sua mãe, que fora assassinada por eles, e como virou uma cativa. Em seguida, Ulfric detalhou o ataque surpresa que receberam. Estavam perto de Riften, quando o exército do Legate Fasendil os apanhou por dois lados e estraçalharam centenas de Stormcloaks em minutos. Ralof, Ulfric e algumas dezenas de soldados remanesceram vivos, e também viraram cativos. Então, contaram sobre Helgen.
– O dragão apareceu ali, bem na nossa frente. Transformou soldados em cinzas, e essa foi a nossa chance para fugirmos. Enquanto fugíamos, vimos o dragão indo para o norte.
– Foi aí que avistamos o dragão – cortou Hod. – Eu, Gerdur, e parte do vilarejo o avistou. Era uma criatura gigante, com asas tão negras que o céu se perdia na escuridão. Como poderemos nos defender contra tais criaturas? Contamos apenas com nós mesmos. Não temos soldados nem muralhas para nos proteger.
– Nemela – chamou Ulfric -, Ralof e eu seguiremos estrada com você até Whiterun, mas depois nos separaremos. Precisamos voltar para Windhelm. Acredito que você seria a pessoa perfeita para avisar o Jarl de Whiterun sobre o ocorrido.
– Sim, sim – concordou Ralof -, uma sobrevivente do ataque de um dragão certamente pode ajudá-los. Ouvi dizer que o mago da corte do Jarl é fascinado por dragões.
– Fascinado pela morte, só se for – cuspiu Hod. – Fora isso, você é a nossa salvação, Nemela. Vá até Whiterun e informe-os de nossa situação.
– Tudo bem, farei isso. Quando pretendem partir?
– Quando você estiver pronta – respondeu Ralof.
– Nesse caso, partiremos ao amanhecer – Ralof e Ulfric apenas assentiram com a cabeça.
– Excelente. Contamos com você, não se esqueça.
Mais conversas e tragos de hidromel se seguiram até o jantar. Frodnar chegou um pouco antes.
– E aí, garoto – saudou o tio. – Avistou algum Imperial?
– Não, tio, nenhum soldado. Que continuem assim, se não quiserem sentir a fúria do Stump e da minha adaga – bradou com a mão pousada no cabo da arma. – O que tem de bom hoje?
– Queijo de mamute com tomate e cebolas – informou a mãe.
– Queijo de mamute? Desde quando temos isso?
– Chegou hoje na loja do Lucan, compramos algumas porções – conseguiu pressentir o sorriso do filho ao ouvir a notícia. – Aliás, está pronto. Venham servir-se. Hod, sirva os pratos e os talheres.
E assim foi feito. Nemela nunca tinha provado queijo de mamute, pois sua família era muito pobre para ter tal luxo. Mamutes eram criaturas vigorosas e fortes, com chifres da altura de um homem. Ameaçar um também significava ameaçar a manada toda, que não costumava ser muito grande, mas também ameaçava os gigantes. A arma de um gigante variava, desde o fêmur de algum antepassado até uma clava enorme, mas a sua força colossal mandava inimigos literalmente voarem centenas de metros. É uma delícia, confirmou, após experimentar um pouco. Repetiu a porção mais uma vez, até ficar satisfeita.
– Sinto dizer que não temos espaço para todos aqui – informou Hod para Nemela e Ulfric, com pesar -, mas vocês podem se acomodar na estalagem do vilarejo. Deixem por minha conta.
– Não tem problema algum, Hod. Agradecemos pela comida e pelo hidromel. – Nemela assentiu — Ralof, encontre-nos na saída norte – Ralof acenou com a cabeça. Saíram da casa e foram em direção à estalagem, à direita da estrada que os levavam até a casa.
Ao entrarem, Sven terminava a canção sobre Ragnar, o Vermelho.
E não tinha mais glórias para o Ragnar, o "Fanfarrão",
Quando sua feia cabeça vermelha rolou pelo chão do salão!
Algumas palmas de dois bêbados e do dono da estalagem deram sequência ao término da canção. Uma mulher, com aparência de velha, apareceu de um dos quartos, gritando pelo dono.
– Orgnar, precisamos de mais suprimentos. Estão faltando bebidas, alho, tomate e carne de galinha – o dono não pareceu ter ouvidos. – Orgnar, está me ouvindo? Orgnar!
– O que foi, mulher?
– Você ouvi o que eu disse?
– Sim. Estão faltando bebidas, alho, tomate e carne de galinha – repetiu, num tom cansado.
– Ah, bom saber – fungou a mulher. – Às vezes, acho que sua cabeça está nas nuvens – o homem nada disse quanto a isso. A mulher o fitou com raiva e voltou para o quarto. Nemela e Ulfric andaram até o dono, que estava no balcão.
– Ah, novos visitan… Vejam só quem está aqui, se não é o Ulfric – anunciou em voz alta. – Fizemos uma competição pra ver quem bebia mais, uma vez, ainda se lembra disso?
– É claro que sim. Nunca vou me esquecer de como você caiu do banco, de tão bêbado – a resposta abriu portas às gargalhadas de quem estava à escuta.
– Não precisava se lembrar disso – outras gargalhadas se seguiram -, mas você saiu cambaleando daqui, disso eu lembro – e deu uma risada. – O que vai querer hoje?
– Dois quartos, um pra cada um.
– Nenhuma bebida? Que decepção – e mostrou um sorriso.
– Se eu colocar algo mais no estômago, explodo de tão cheio – os dois riram. Nemela apenas deu um sorriso. – Deixe na conta do Hod, por favor.
– Sem problemas quanto a isso, desde que o dinheiro chegue a mim. Mostrarei a vocês os quartos, por aqui – e saiu do balcão pela direita até dois quartos, um do lado do outro. – Caso mudem de ideia, deem-me um grito.
Nemela sonhou com o incidente de Helgen. Mas, desta vez, estava lutando contra o dragão. No lugar de trapos, vestia uma armadura dourada e reluzente. Ele cuspiu fogo, mas ela aguentou até o fogo se extinguir. Até mesmo a armadura resistiu ao fogo. Mesmo quando a batalha se limitou a rasantes e baforadas, ela não deu um passo para trás. Quando pousou, tentou mordê-la, mas cortou a sua boca no momento certo, pulou e cravou a sua espada em seu crânio. O dragão rugiu e rugiu, tentou cuspir mais fogo, mas não encontrava forças para isso. O seu corpo desabou e a vida se esvaiu pelo seu último rugido. O ar começou a se condensar, e uma energia acumulou-se acima do dragão e começou a migrar até Nemela. O que é isso?, perguntou, quando notara que a criatura estava se desintegrando. A sua pele estava dando espaço para o esqueleto, e um novo poder estava sendo adicionado ao corpo da mulher.
– Nemela, acorde – interrompeu Ulfric, de pé ao seu lado. A mulher se levantou de susto. Quando viu quem a acordou, levantou os lençóis para tampar a sua nudez. Envergonhada, tentando se recordar do que sonhou. – Teve um pesadelo? Eu também — pareceu ignorar a sua nudez e a sua vergonha. — O dragão estava jorrando fogo incessantemente sobre o meu corpo, e depois me mastigou. Sonhei com isso mais umas duas vezes, até desistir de dormir. Venha, já está na hora de partir.
Não, quis dizer, não foi um pesadelo. Eu sonhei, eu era uma Dovahkiin, eu matei um dragão e suguei a sua alma. “Um sonho, foi apenas isso. Eu sonhei que um dragão me mastigava, e aqui estou eu, inteiro”, ele provavelmente responderia. Resolveu apenas assentir com a cabeça e pedir licença para se vestir. Vestiu os mesmos trapos de antes, mas quando Ulfric a viu, fez sinal de ‘não’ com a cabeça e disse:
– Não pode ir até Whiterun assim. Se disser que veio de Helgen, podem pensar que você era uma prisioneira, desse jeito. Venha, acredito que Hod tenha roupas melhores para você.
Quando falaram com ele, porém, Hod respondeu:
– Não tenho nenhuma roupa que possa servir nela, mas vocês podem comprar alguma coisa vestível na loja do Lucan. Novamente, deixem por minha conta.
– Não é muita despesa para o seu lado? – perguntou Nemela, tímida.
– Não se preocupem, trabalhamos pra gastar mesmo – pausou para uma pequena risada. – Desde que não escolham nada muito caro, claro. Apenas alguma coisa para que não pensem que ela é uma fugitiva.
– Nesse caso, deixarei você escolher os seus trajes. Espero você com o Ralof, na saída norte – combinou Ulfric. Nemela assentiu com a cabeça e foi em direção à loja.
Era uma loja simples, com um balcão com os itens à venda, mesas redondas do outro lado e uma escada que levava ao segundo andar logo atrás das mesas. Em uma delas, uma mulher se levantava.
– Como pretende recuperar, hã? – indagou.
– Não importa. Sem mercenários e nem teatrinhos – o homem que estava no balcão parecia bravo com a insistência da mulher.
– Ah é? E o que vai fazer?
– Hã… Não importa, já disse, mas não deixarei que nenhum aventureiro de merda interfira nisso – gritou. – Chega dessa discus… O-oooaahh, peço desculpas pela briga. Venha, venha, o que você quer…
– O que aconteceu?
– Aahhnn, bom, digamos que fomos, uhm… assaltados – admitiu, com a voz fraca e gaguejada. – Mas ainda temos bastante a vender, sim! Não se espante! Eles só estavam afim de uma coisa, afinal.
– Apenas uma coisa? — perguntou, curiosa.
– Sim, sim. U-um objeto dourado em forma de garra draconiana. Dizem que é para algum tipo de segredo, mas eu nunca pude confirmar.
– Eu poderia te ajudar a recuperá-la – ofereceu Nemela, sem saber por que motivos o fez.
– Ah-a-ah, poderia? N-não se preocupe, já temos um…
– Sua ajuda será extremamente apreciada, cara aventureira – interveio a mulher. Seus olhos eram esguios e com feições parecidas com a de um Orc, apesar de não ser uma. Seus cabelos morenos estavam aprisionados num coque, e trajava um vestido que mais parecia ser de uma camponesa do que de uma comerciante. – Qual o seu nome?
– Nemela, apenas.
– Não tem um segundo nome? Que tristeza. Chamo-me Camilla Valerius, e aquele é o meu irmão, Lucan – apontou para o irmão, vermelho numa mistura de raiva e vergonha. Aparentava ser mais baixo do que a sua irmã e, ao contrário dela, tinha feições de Imperial, apesar de ambos serem. Um cavanhaque fino adornava o seu rosto, e ele se vestia mesmo como um comerciante. Por cima do camisetão vermelho claro, usava um colete amarronzado, onde pendurava duas pequenas bolsas, que era preso por um cinto. Calças brancas podiam ser vistas até os joelhos, e o resto era coberto por uma espessa bota.
– B-bem, sim, apreciaremos a sua ajuda — cedeu, relutante. — Caso volte com a garra, lhe daremos um bom valor em Septims, sim. Eu os vi correndo em direção à Bleak Falls Barrow, acredito que saiba aonde fica.
– Em todo caso, mostrarei a ela – interveio mais uma vez Camilla. – Antes, você queria comprar alguma coisa?
– Sim – confirmou -, queria comprar vestimentas melhores.
– Realmente, isso mal te dá um ar aventuresco. Como pretende recuperar a garra assim? – Preciso pensar em algo, rápido.
– Nesses casos, visto minha armadura. Quero apenas roupas, gosto de me importar com a minha aparência, nas cidades e vilarejos. – A mulher arregalou um pouco os olhos e balançou a cabeça. Ela acredita em mim.
– Muito bem, vou lhe mostrar as roupas.
No final das contas, Nemela comprou uma camisa cinza com um casaco beje que acompanhava com uma calça acinzentada e uma bota que cobria até os tornozelos, ambos como brindes. Saiu da loja com Camilla, que apontou para o oes-noroeste: um grande templo que se formava de uma montanha de gelo. Olhar demais para o local dava uma sensação de medo. Dirigiu-se até a saída norte, onde encontrou a dupla.
– Isso deve ter dado um prejuízo danado – comentou Ralof sobre a roupa.
– Nem tanto. Paguei apenas pela camisa e pelo casaco, o resto veio de brinde.
– Ah, sim, o Lucan é um grande amigo do Had. Não me espanta. – voltou o olhar para Ulfric. – Hora de viajarmos, e desta vez iremos longe.
– Precisamos nos preparar para uma nova investida contra os Imperials. Com os dragões em jogo, essa é uma boa hora para que eu possa me reestruturar.
Seguiram caminho para o norte. Após atravessarem uma ponte, Nemela olhou para uma estrada que aparentemente deveria levar até a Bleak Falls Barrow. Não agora, pensou, mas eu voltarei para cá. Ao invés disso, seguiram caminho pela estrada que seguia o rio.
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