Nem tudo é o que parece
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Foi escrita para um desafio onde o tema era LoveXhate.
Boa leitura ☺️
— Eu cansei! Se você continuar barrando meus projetos, eu juro que volto pra Coreia e...
— E o que? Vai correndo chorar pro Junmyeon me mandar embora porque eu quero impedir você de gastar um dinheiro que pode não voltar pra ele?
Os dois estavam brigando.
De novo.
Desde o primeiro dia aquela era a rotina que tinha se estabelecido, já que eram completos opostos quando se falava em trabalho.
Nos primeiros dias os outros empregados ainda tentavam apaziguar toda a situação, mas depois de quase um mês naquela rotina quase diária, todos apenas observavam e apostavam silenciosamente em quem ganharia a discussão da vez.
— Como você pode saber?
— Porque eu moro aqui há 4 anos. Eu fiz essa empresa virar o que é hoje e ela estava muito bem.
— Tão bem que o Suho me mandou pra cá, não é?
Silêncio.
Aquele era um ponto delicado para Sehun.
— Tudo bem. Se quer tanto colocar esse projeto em prática, vai ter que ser com a minha supervisão. Vai ter que me mostrar cada pequeno detalhe. Seu horário agora é o que eu precisar. – Sehun estava de costas, encarando a janela, mas Jongin podia ver sua tensão através das costas rígidas.
— Eu não sou seu empregado.
— É pegar ou largar. Vai mesmo querer voltar para a Coreia sem ter feito o que Junmyeon precisa?
E lá estava Sehun usando o ponto delicado de Jongin contra ele.
Dois podiam jogar aquele jogo, afinal de contas.
Os dois trabalhavam na mesma empresa e com cargos bem distantes. Jongin cuidava do Marketing enquanto Sehun era o todo poderoso da contabilidade. Eles dificilmente se viam ou se falavam, já que Sehun era da filial chinesa, mas alguns meses antes Jongin tinha recebido o pedido de seu chefe e amigo Junmyeon para que ele organizasse a área de marketing na China.
Ele poderia recusar? Se fosse em qualquer outra empresa, ele não pensaria duas vezes em fazê-lo, mas não podia se dar ao luxo de negar algo para Junmyeon. O mais velho sempre esteve ao seu lado, desde a escola. Ele que o protegia quando tinha problemas com os garotos maiores ou quando brigava com os pais. Ele ela o melhor amigo que poderia ter e o melhor chefe também.
Mas trabalhar com Oh Sehun era uma tortura e aquilo ele não podia negar. Sehun era frio demais, calculista demais, chato demais... Isso, é claro, sem contar que os dois tinham uma rivalidade nada saudável desde antes do mais novo ser promovido e se mudar para a China.
Era incrível como eles conseguiam brigar até mesmo por vídeo-conferência e trabalhando juntos tudo ficava ainda pior.
Sehun implicava com seus projeto, seus gastos e até mesmo com como Jongin gostava de se vestir. Era sempre um jeito diferente de alfinetá-lo e começar uma discussão.
E aquela não era a primeira vez que eles discutiam daquele jeito por causa de dinheiro. O investimento era grande demais na visão de Sehun, mas Jongin achava que era pouco se fosse comparado ás outras empresas do mesmo ramo, então faria questão de aceitar todas aquelas imposições para provar que estava certo.
Se Sehun iria fazê-lo trabalhar dia e noite, Jongin o faria admitir que estava errado no final de tudo.
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As semanas seguintes foram bem interessantes de serem assistidas. Jongin estava disposto a provar para Sehun que seu projeto de marketing era o que a empresa realmente precisava para abrir portas internacionalmente, e fazia aquilo com uma precisão ímpar. Mas o mais engraçado para todos era que, depois que eles tinham enfiado as cabeças naquilo, era bem difícil ouvir os dois brigando. Eles discutiam sempre, mas era como se estivessem em uma trégua, mesmo que todos vissem que Jongin se segurava muitas vezes para não jogar Sehun pela janela. Nessas horas ele apenas respirava fundo e saía, deixando o outro falando sozinho.
Jongin estava mesmo empenhado. Ele só não contava que conviver tanto com o mais novo pudesse começar a despertar coisas dentro de si mesmo.
Um belo exemplo era o fato de não querer mais bater em no outro a cada comentário irônico que ele soltava. Ele passara a apreciar aquele humor ácido e, muitas vezes, tinha que sair da sala para não dar o gostinho para Sehun de vê-lo rindo de alguma coisa que ele dissera.
Outro ponto era que começara a reparar demais nele. Nos olhos analíticos, no sorriso sarcástico, nas mãos grandes, nas costas largas... Em seu pensamento não era nem um pouco normal pensar em sua maior desavença como alguém extremamente sexy e atraente.
Menos ainda quando era obrigado a varar a noite com ele dentro de um escritório.
— Tá tarde e eu tô com muito sono pra continuar a ouvir sua voz. Posso ir embora? – aquela noite estava realmente difícil para ele, que quase não tinha dormido na anterior por ter tido um sonho um tanto peculiar.
Com Oh Sehun.
Envolvendo apenas a gravata dele.
E aquilo era absolutamente bizarro e sem o mínimo sentido, então colocara a culpa no tempo demais que estava passando com ele.
— Você parece mesmo cansado. Deveria dormir melhor e não ficar saindo durante a noite.
— Mas eu não saí... Espera. Desde quando você sabe alguma coisa da minha vida? – Jongin estreitou os olhos, irritado.
— Eu não sei, apenas imaginei que Zhang tivesse tomado coragem pra te chamar pra um encontro, já que ele não desgruda de você um segundo. – Sehun revirou os olhos, murmurando um “patético” e soltando a caneta que segurava.
Nisso Sehun tinha alguma razão, já que Zhang Yixing, secretário de dele, não era exatamente discreto sobre seu interesse em Jongin. No começo talvez, mas depois de quase dois meses de convivência, ele não deixava nenhuma oportunidade escapar.
— Patético por quê? Por querer sair comigo?
— Por não tomar uma atitude, eu diria.
— Acha que eu sou fácil e que ele só precisaria pedir?
— Por que você adora colocar palavras na minha boca? – Sehun parecia mesmo irritado, já que levantou e deu a volta na mesa, ficando de frente para a cadeira que Jongin ocupava e apoiando as mãos nos braços da mesma para encará-lo de perto. – Você não consegue enxergar mesmo, não é? É mesmo incapaz de ver um palmo diante os seus olhos. – a respiração dos dois se chocavam pela proximidade e ele podia jurar que viu Sehun encarar seus lábios por alguns segundos. E foi por conta disso que acabou cometendo uma loucura ao puxar a gravata alheia até que suas bocas estivessem coladas.
Jongin podia jurar que seria empurrado ou que o mais novo se afastaria. Nada o tinha preparado para ter Sehun correspondendo aquele beijo. Eles estavam entregues, as boca se encontravam com força e os dentes e as línguas brincavam, provavam e provocavam cada canto e cada reação. Jongin se sentia indo ao inferno ou aos céus, ele não tinha muita certeza, e não entendia como tinha demorado tanto tempo para perceber que queria estar exatamente ali.
Mas, do mesmo jeito que começou, o beijo se desfez e os dois se encararam, ofegantes, por apenas alguns segundos.
Ele culparia o sono depois, claro. Jongin ia preferir morrer á assumir que ficou muito decepcionado quando Sehun se afastou, virou de costas e saiu da sala, deixando-o sozinho, perdido sobre o que acabara de acontecer.
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Ele queria poder dizer que não pensou sobre o beijo. Também queria poder dizer que não tivera mais nenhum sonho envolvendo o executivo, gravatas e, agora, cadeiras e mesas de escritório, mas não era muito bom de mentir para si mesmo. Mentir para os outros, no entanto, ele era um pouco melhor, já que não demonstrou em nenhum momento que estava abalado com aquilo tudo.
Muito pelo contrário. Na semana seguinte fez ainda mais força para não brigar com Sehun em momento algum do tempo em que passavam juntos – que se resumia quase ao dia inteiro – e ainda fez questão de aceitar algumas das ideias mais chatas dele.
Por dentro ele estava querendo morrer por cada vez que achava Sehun extremamente sexy pela manhã, quando chegava carregando o sobretudo em um braço e a gravata solta sobre a camisa impecavelmente lisa. Ele queria se esconder por sorrir quando ele era sarcástico com algum outro funcionário ou quando fazia algum comentário maldoso. Ele queria morrer por estar muito afim de beijar Sehun mais uma vez e por isso tomou a melhor das decisões.
Chamou Yixing para um jantar.
Ridículo, porém em sua cabeça aquela era a melhor solução para tirar Sehun de seus pensamentos e sonhos.
Se aquilo deu certo de alguma forma?
Não.
Não que Yixing fosse ruim, muito pelo contrário. Ele era um fofo, um completo cavalheiro e ainda ria de suas piadas bobas, mas...
Ele não era Sehun.
E quando ele o beijou no final da noite, tudo o que Jongin conseguiu pensar foi no beijo que trocou com o outro no escritório.
— Ok, acho que estou mesmo desatualizado. Oh Sehun não era aquele que você pretendia jogar de uma escada e depois esconder o corpo da última vez que a gente conversou? – seu amigo Taemin não conseguia segurar o riso enquanto falava com ele pelo telefone. – E não seria o mesmo cara gostoso por quem eu dizia que você tem tesão reprimido?
Sim, aquilo era algo que seu hyung dizia o tempo todo.
— Deixa o seu namorado saber que você acha outros caras gostosos. – tentou revidar a provocação, mas sabia que não daria certo. O namorado do amigo daria Sehun pra Taemin se ele pedisse. – Eu não sei o que eu faço, hyung.
— Conversa com ele. Qual é o problema das pessoas com diálogo? – ele sabia que o mais velho rolava os olhos do outro lado da linha. – Diz que está atraído, que quer transar, sei lá.
— Ele me odeia.
— Se odiasse tanto, não teria correspondido ao beijo. Sem contar que você já fez o teste com outro e já comprovou que tá caidinho pelo Oh... Inclusive, que sobrenome bom pra gemer, né?
— Tchau, hyung! — ele não perdeu tempo em desligar o telefone. Não duvidava que seus sonhos nada castos se lembrariam das palavras idiotas do amigo.
Agora ele estava sozinho em seu quarto, olhando para o teto e pensando onde sua vida tinha ido parar em tão pouco tempo.
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— Você não vai voltar pra cá. Não com um projeto pela metade. Kim Jongin, você é melhor do que isso.
Junmyeon sabia ser pior que uma mãe quando dava bronca e sempre o deixava achando que era a pior pessoa quando o decepcionava, mas o que poderia fazer quando não estava conseguindo conviver mais com Sehun? Depois que todos do escritório ficaram sabendo de seu encontro com Yixing, parecia que sua trégua com o mais novo tinha ido por água abaixo porque Sehun estava ácido, irritado e descontava sua aparente frustração em qualquer pessoa que passasse mais do que cinco minutos em sua frente.
— Não tem como continuar desse jeito, Suho. Eu não quero brigar mais... E também não consigo ignorar o que eu tô sentindo. – ele usava o apelido do amigo para ver se conseguia que ele mudasse de ideia. – Eu prometo terminar todo o prometo quando eu chegar e ainda faço com o orçamento que ele deixar, mas... Deixa eu voltar pra casa? — ele encarou a tela do celular onde conversavam por chamada de vídeo com uma expressão chateada, que pareceu convencer o mais velho.
— Vou verificar o que posso fazer e te retorno, tudo bem? Mas pensa bem enquanto isso.
Jongin concordou com a cabeça, mas já estava decidido. Tinha certeza que a distância deixaria sua mente clara e ele voltaria a achar Sehun um completo babaca. Ele nunca mais ia querer beijá-lo ou ter sonhos perturbadoramente eróticos com o mais novo.
Voltar para a Coreia era a melhor ideia. Não que ele fosse a pessoa com ideias mais brilhantes, mas ainda assim era o que ele achava mais certo.
— Você não vai embora.
O susto que Jongin levou poderia ter parado seu coração. Estava muito absorto em pensamentos para perceber que alguém tinha entrado em sua sala.
— O que? Por que estava ouvindo a minha conversa? – ele tentou não parecer tão abalado ao ver Sehun fechando a porta e se aproximando, aparentemente irritado.
— Eu vim trazer os relatórios e... Quer saber, isso não importa. Você não pode ir embora.
— Não só posso, como vou. A decisão está tomada. – apesar de estar convencido, Jongin se sentiu balançar quando Sehun se aproximou. — E não tem nada que você possa...
— Eu amo você.
— Como é?
— Eu amo você. – Sehun falava tão sério que seu coração disparou com as palavras e a forma que ele o encarava. – Não desde o começo, porque quando a gente se conheceu eu só queria fazer você sumir, mas... Caralho, Jongin! Quem é que consegue conviver com você sem ficar completamente apaixonado? Seu jeito de se vestir, sua voz, seu sorriso. E você é inteligente, fofo... Lindo. – o espaço entre eles era mínimo agora e Sehun ergueu a mão para tocar seu rosto com as pontas dos dedos.
— Não mente. Você só implicava comigo e depois veio correndo pra China e ainda disse que estava feliz por se livrar de tudo e poder trabalhar em paz.
— É claro que eu disse. Você e Junmyeon eram grudados e todos tinham certeza que vocês namoravam. Por isso eu sempre fiz questão de te afastar e por isso também que eu aceitei trabalhar aqui. – a respiração dos dois se chocavam e Sehun falava baixo, como se fosse um segredo. Jongin, por sua vez, sentia-se arrepiar por cada contato e cada palavra.
— Pensei que me odiasse. Você sempre fez questão de brigar comigo. E depois que eu saí com o Yixing...
— Não fale disso, por favor. Quando eu soube que ele te beijou, eu quis matar alguém. – Jongin riu baixinho. Aquilo tudo era ciúmes? – E decidi me afastar de novo, mas se vai embora é porque não gosta dele, certo? É porque não quer ficar com ele e se você não tem ninguém e não que ficar com Yixing, isso significa que eu posso tentar, não é?
— Sentia ciúmes de mim com o Junmyeon assim também?
— Muito mais. Mas eu pensei que o amasse, por isso nunca te contei meus sentimentos. Eu preferi sumir e deixar com que fosse feliz. Mas então você veio e... E você me beijou. Por que você me beijou?
Jongin não sabia o que deveria responder. Nem ele sabia ao certo o que estava sentindo por Sehun. Se fosse o tal tesão reprimido que Taemin sempre falava, não seria justo dar esperanças ao outro, que tinha sentimentos maiores.
Mas algo lhe dizia que não era só sexo.
Não era amor ou paixão ainda, mas também não era qualquer coisa.
— Porque eu senti vontade. – foi sincero em sua resposta e, apesar de achar que Sehun iria embora, teve a surpresa de vê-lo sorrindo. – Você me deixa confuso e bagunça a minha vida. Antes era de um jeito ruim, mas agora... Eu não sei o que eu sinto.
— Por favor, não vai embora. – dessa vez ele pediu, já com os lábios roçando nos de Jongin. – Fica e a gente descobre juntos.
E como Jongin podia negar um pedido daqueles?
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