Nem Tudo é Ganância

16 ♕ Capítulo Dezesseis ♛


Assim que os primeiros raios do amanhecer florescem na janela do quarto, desperto. Estou deitada sobre uma superfície que desce e sobe. Franzo a testa. Thommy. Claro. Como não lembrei disso antes. Pelo balançar de sua respiração creio que ainda está adormecido, revolvo não me mexer para não acorda-lo.

Seu peito é tão suave que poderia ser o melhor travesseiro de penas existente, dormiria para sempre aqui e não me queixaria.

O que estou falando? Não posso esquecer de Juan.

Pelos céus, havia me esquecido de Juan. Que ele nunca saiba disso, tenho certeza que ficaria magoado. Mas... Ele teria que compreender, estou vivendo o pior momento de toda a minha vida, os meus pais... Me deixaram.

Não quero pensar nisso. Não posso pensar nisso. Preciso viver.

Se Thomas conseguiu sobreviver sentindo essa dor, também posso.

A porta do quarto ganha duas batidas leves e em seguida é aberta. Não me atrevi a me mexer, se não poderei acordar Thomas. É Geneviève. Ela se aproxima da cama com os olhos arregalados. Coloco um dedo sobre meus lábios, com a maior delicadeza, em pedido de silêncio. Ela sorri e acena.

Logo ela se sente desconfortável, seguro uma risada que desejava sair de meus lábios ao vê-la nesse estado.

— Vou preparar o seu banho. — ela sussurra.

Geneviève não espera minha afirmação. Segue em passos delicados pelo piso. Logo escuto o soar de algo caindo sobre o chão. Semicerro meus olhos com o ruído. Thomas se mexe, isso é sinal de que está acordando.

Tiro minha cabeça de seu peito e sento-me de joelhos. Seus cabelos estão despenteados. Abre os olhos e parece estranhar o teto que está sobre ele, mas logo as lembranças chegam aos seus olhos. Os azuis que encaravam o teto procuram os meus olhos e quando os encontra um sorriso brota de seus lábios, o que instantaneamente libera um sorriso tímido em meu rosto.

— Bom dia. — ele fala.

— Bom dia. — falo abaixando a cabeça envergonhada.

Seus dedos pousam em meu queixo, com eles levanta minha cabeça.

— Por que está tão envergonhada? — pergunta e sinto o calor tomar conta das maças da minha face.

— Porque você dormiu aqui comigo. — assim que termino a frase coloco minhas mãos tampando meu rosto.

Thomas bufa. O colchão se mexe e em seguida sinto suas mãos tirando as minhas de meu rosto.

— Não há do que se envergonhar. Não fizemos nada. — suas mãos deslizam sobre minha face e sinto algo me puxando em sua direção.

— Mas, Geneviève nos pegou juntos. — assim que falo seus olhos se arregalam.

— Bom... — ele se levanta da cama, começa a calçar suas botas — Se Geneviève esta aqui é melhor eu ir embora.

Ergo as sobrancelhas estranhando sua reação. Ele pega o casaco, veste e no momento que está saindo de perto da cama Geneviève entra novamente no quarto.

— Aaarah, aonde você está indo? — Thomas paralisa, fico observando, pois sinto que isso renderá bastante.

— Estou de saída Geneviève tenho alguns assuntos para resolver... — ele fala se direcionando a porta com rapidez.

— Não Senhor, pode voltando agora mesmo. — Geneviève fala com autoridade e Thomas obedece.

—Geneviève não fizemos nada. Juro por Deus. Jamais abusaria de uma donzela. Só dormimos. Ela não estava bem e precisa da minha companhia. —Geneviève parece ainda processar as palavras de Thomas e depois acena para a porta, ele sai rapidamente.

Pisco meus olhos olhando para a porta e depois de alguns momentos olho para Geneviève.

— O que foi isso? — pergunto curiosa.

— É um prazer ouvi-la falar Senhorita. —Geneviève se curva — E para explicar o acontecido, fui criada da rainha desde antes do nascimento de Thomas.

Não é necessário mais explicações. Por isso essa forma maternal, Geneviève viu Thomas nascer e provavelmente deve ter lhe criado.

— É melhor ir tomar seu banho, a água está quente e depois comer algo. Você não se alimenta a três dias. — ela fala e sorrio com a maneira que fala, Geneviève gosta do que faz.

O banho é rápido, não escolho minhas roupas deixo a cargo de Geneviève, ainda não estou com cabeça para poder me vestir. Depois ela chama uma criada e pede que tragam meu café da manhã. Quando ele chega mais parece um banquete. Há pães, leite quente, um bule de chá, suco de laranja, morangos e mel. Nunca vi tanta comida. Geralmente em casa comemos pão com uma xícara de leite quente ou chá. Comíamos. Resolvo atacar a comida e ignorar a pontada em meu peito ao lembrar que não tenho onde morar.

Na verdade tenho, mas... Uma ideia ilumina minha mente.

Agora posso me casar com Juan.

Tenho uma casa. Sei que mamãe morreu decepcionada comigo, mas sei que com o tempo ela entenderia. Há também a questão do dinheiro, mas posso costurar, ou aprender mais. Mamãe me ensinou um pouco. Também tem a terra, sei plantar. Aprendi de tudo um pouco, isso pode nos render algo e tudo que mais quero nesse momento é está ao lado de Juan. Não importa quais dificuldades iremos encontrar. O importante é estarmos juntos. Tenho que aflorar essa ideia.

O dia passa depressa. Geneviève trás sopa ao meio dia, ela diz que preciso ir devagar se não poderei passar mal. Durante o entardecer trás leite quente com biscoitos.

Assim que o sol se põe já tenho algo em minha mente. Falarei para Thomas que sou apaixonada por um rapaz a algum tempo e que poderei me casar com ele o mais rápido possível para que não venha lhe trazer despesas. Se perguntar onde moraremos falarei que papai havia comprado uma casa, o que é óbvio que ele já sabe. E se caso pergunte de que viveremos falarei que daremos um jeito, o que importa é o amor, o resto se ajeita.

Sei que Thomas virá me ver hoje a noite, ele vai querer saber como foi meu dia.

Peço a Geneviève que vá dormir, pois ficarei bem sozinha.

Não demora muito para que ouça uma batida na porta, isso é só um aviso. Thomas aparece, mas seus olhos parecem cansados, assustados e preocupados. Ignoro a conversa que havia planejado.

— Aconteceu alguma coisa? — pergunto preocupada.

Ele me encara em silêncio por alguns instantes. Sinto meu sangue gelar.

— Sente-se. — ele me direciona para a cama e se senta na poltrona que estava na noite anterior — Tenho uma pergunta para lhe fazer. Não é o momento certo para isso, mas é necessário.

A primeira situação que vem a minha mente é o pedido de casamento, se for isso, irei recusar depois seguirei meu plano original. Mas não faz sentido, ele não estaria transparecendo tanta... Qual é mesmo a palavra? Aah, sim. Tensão.

— Há uma simples possibilidade, quero que me responda com toda sinceridade — fala com o olhar severo.

Isso está me assustando. Sinto um frio na espinha.

— Há uma possibilidade de seu pai ter tido algum inimigo? — pergunta tenso.

Franzo o cenho.

Que pergunta esquisita. Meu pai foi uma das pessoas mais queridas dessa vila, porque alguém iria querer o seu mal. Ele sempre gostou de ajudar as pessoas. Sempre. Muitas vezes mamãe brigava com ele chamando-o de tolo, mas na verdade era tudo da boca para fora, ela amava vê-lo ajudar todos a sua volta.

— Claro que não. — respondo — Papai era a pessoa mais querida da vila.

Meu coração está acelerado. Por que ele está me perguntando isso?

— Você tem certeza? — aceno em afirmação — Eu temo que isso não seja verdade.

— Como assim? Por que está fazendo essas perguntas estranhas? Por que não acredita em mim? — minha voz sai um pouco alterada, estou apavorada, meu coração parece que vai saltar do peito.

Thomas respira fundo.

— O que aconteceu com seus pais, — meu coração se aperta ao lembra do pior dia da minha vida — não foi um acidente.

Arregalo os olhos.

— Como assim? — parece que a única pergunta que consigo formular é essa.

— Achei muito estranho o que aconteceu. Aquilo não parecia natural. Nunca vi algo pegar fogo daquela maneira, mas a alguns anos chegou ao reino uma especie de bola, há um pino nela prendendo algumas substâncias que quando liberadas explodem. Encontramos duas dessas na liteira que estava seus pais, ou seja, podemos concluir que eles...

Foram assassinados.

Minha mente trabalha rapidamente. Parei de escutar o que Thomas estava dizendo. Estou processando as informações. Depois de alguns momentos resolvo interromper o que ele estiver falando.

— Mas não havia ninguém... — falo e no mesmo instante me calo.

"É, mas se seus pais estivessem mortos, sem dúvida nenhuma isso iria aproximar vocês dois."

Meu coração para. Tudo parece paralisar a minha volta. Não pode ser. Não. Não posso aceitar isso. Ele. Ele não pode ter feito isso comigo. Ele me ama. Nós nos amamos. Ele sabia que meus pais eram importantes.

NÃO SEJA TOLA.

Minha cabeça fala.

Não há ninguém. Ninguém faria tal coisa com eles.

NÃO FOI ELE. NÃO ACREDITE NISSO.

Meu coração está desesperado, mas o ignoro. Ele está errado. Pela primeira vez ignoro o que ele tem a me dizer.

— Giovanna, volte para mim, por favor. — Thomas me desperta do meu pior pesadelo.

Pisco algumas vezes e lágrimas rolam sobre minha face. Lágrimas de amor, decepção, magoa, rancor e ódio.

— Estou bem. — não reconheço minha voz — Não sei mesmo quem poderia ter feito isso.

Thomas acena e me abraça. O melhor lugar que poderia está no momento era aqui, em seus braços. Ele se importa comigo. Ele parece ser do bem e há muitas pessoas aqui, que podem atestar isso. Quero me apaixonar por ele. Quero me casar. Quero me sentir segura. Quero amá-lo.

Porque o Juan... Que Juan? Nunca existiu nenhum Juan em meu coração. O único Juan que conheço é o assassino dos meus pais.