Notas iniciais
Sim, está estranho.
Sim, vocês provavelmente vão me odiar.
Eu me odeio.
Mas enfim.
Mais detalhes nas notas finais.
Boa leitura à todos o/
E, na duvida, tirem a segunda derivada e confirmem se é um ponto de máximo ou de mínimo global :3
(em ritmo de provas o/)

- Nada?

- Foi o que eu disse.

Mello faltou se jogar em cima de Near, de tão perto que chegou para olhá-lo o mais profundamente que pudesse, direto dentro dos olhos.

Mais um pouco e os arrancaria, para poder analisa-los melhor.

Mas não importava. Por mais que esquadrinhasse cada canto daqueles globos negros e profundos, não achava nada, senão uma maldita sinceridade.

- Você está falando sério.

- Claro.

Deixou-se cair na cama, sentado, errando por pouco as pernas de Near, ali estiradas.

Apoiou a cabeça nas mãos, estas apoiadas nos joelhos. Recurvado, os cabelos loiros caindo sobre o rosto.

Observado.

- Espera, deixa-me ver se eu entendi. Você se deixou ser agarrado pelo Matt. O Matt brigou comigo, te defendendo. Ele tentou me acertar com uma voadora. Foi embora, fugindo pro seu quarto. Eu te bati. Vocês ficaram desfilando juntos, como um casal. Eu e ele brigamos. Fomos mandados pro Roger. Ficamos de castigo. Você armou um incêndio. Ficou no meio do incêndio. E tudo isso para nada?

O pequeno albino tomou um ou dois instantes, repassando a retrospectiva de Mello parte por parte, como se conferindo se ela se encaixava.

- É, com você falando desse jeito parece meio patético.

-Mas É patético! — ergueu o rosto, indignado.

Uma enfermeira abriu a porta do quarto, olhando mais do que feio para Mello, que apenas bufou, virando a cara.

Algo sobre ‘’hospital’’, ‘’gritaria’’ e ‘’descanso’’ foi dito, antes que ela se fosse.

- Você não vai convencer que fez tudo isso só pela ‘’diversão’’. Essa desculpa até faz sentido com o Matt, mas não com você — continuou, o tom de voz bem mais baixo, mas ainda irritadiço.

- Eu poderia dizer que na verdade foi exatamente por isso e não estaria realmente mentido para você, Mello. Foi, realmente, bem divertido, como, inclusive, já lhe disse.

- Quer parar de ficar se reafirmando com os argumentos que você já usou?!

- Melhor baixar a voz, Mello. É que eu já te dei todas as respostas. Não há mais o que discutir.

O loiro trincou os dentes.

- Se eu já tivesse as respostas, não estaria fazendo perguntas.

- Estaria, se não tivesse a capacidade de entendê-las.

Near chegou a sentir o soco que deveria ter levado, depois de um insulto tão aberto. Mas a lembrança da enfermeira logo ali pareceu pesar, baixando o punho fechado.

- Então, eu já tenho a resposta?

- Ao menos, me lembro de claramente ter respondido.

- E qual foi?

- Você está aqui, Mello.

- Não me diga!

- Está vendo? Não adianta te responder, se você não entende.

- Não, eu já entendi essa parte, que ‘’você me salvou e eu não sou o Matt’’ e sei lá mais o que. Mas e daí? Isso não significa que eu... — a palavra se engasgou. — Goste de você.

- Oh, não. Sei que você me odeia demais para gostar de mim. Mas agora, também, tenho a certeza que me ama.

Deliciou-se, vendo um rubor incomum subindo pelo rosto travado e cômico de Mello. Olhos arregalados, narinas contraídas, bochechas vermelhas.

Fora pego de surpresa.

- Matt te contou, não? A ideia do plano era ‘’confirmar se o Mello sentia algum tipo de amor romântico por um de nós dois. ’’- ênfase no romântico.

E ênfase no ‘’confirmar’’, também.

- Não fiquei falando essas coisas tão alto!

- Quem está falando alto é você. E eu, particularmente, não tenho com o que me preocupar. Não fui eu que me deixei envolver, como alvo, numa situação embaraçosa dessas. A grosso modo, Mello, você foi usado. Sua mente, seu corpo, seus sentimentos. O que não deixa de ter sido fácil, o que só torna tudo mais embaraçoso. Para você.

A lembrar: a primeira pessoa que viesse falar sobre como Near era vazio, ou como ele era fofo, ou como ele parecia uma criancinha, seria virada do avesso. E desvirada, depois, só para passar pelo processo duas vezes.

- Tudo bem, Mello. Não precisa confirmar ou negar. Suas palavras estão completamente abafadas pelas suas ações.

- Cala a boca.

Ficaram em silêncio alguns bons minutos, ainda na cama. Um voltara a enfiar a cabeça entre as mãos. O outro olhava para o lado.

Infelizmente, a enfermeira não voltou. Ninguém apareceu para cortar a cena, ou dar um fim àquilo. Teriam que resolver por si próprios. Do jeito chato. Do jeito que nunca aparece em seriados, novelas, animes ou filmes.

— E então, Mello?

- Então o quê?

A arte de se fazer de desentendido.

- Bom, eu não pretendo fazer nada — Mello bufou, irritado com a repetição — mas e você?

- Eu?

- É. O que você vai fazer agora?

Boa pergunta.

Sentiu-se lindamente tentando a soltar o mesmo ‘’nada’’ irritante que recebera alguns segundos atrás. Mas não saiu.

Até tentou, de verdade, mas a palavra se recusou, como se agarrasse em sua garganta, se recusando a sair.

Por que não era a resposta certa.

Certo, Mello. Hora de ser você mesmo.

- Que tal te agarrar? Ou talvez, o Matt. Vocês ficam o tempo todo falando sobre mim, mas ainda não vi nada do lado de vocês.

Ataque surpresa.

- Se bem que você tem razão – continuou — Fazer nada é a melhor opção. Depois de tanta coisa que aconteceu, a simples ideia de deixar tudo como está é tentadora. É como inércia, o movimento já foi dado, então, a sua tendência é continuar. E, ao ‘’fazer nada’’, você se mantém como observador, tendo a chance de apenas apreciar os resultados...

Near o encarou. Sobrancelhas meio franzidas.

Bingo.

- Aliás, agora tudo faz sentido. Não é como se você não precisasse fazer nada. Você não sabe o que fazer agora. Seus quebra-cabeças. Ou não termina a tempo, ou, quando termina, os desmonta, para começar de novo. O jogo já acabou. Descobriu o que queria. E agora? Vai me desmontar?

Um. Dois. Três.

E Quatro.

Near levou bastante tempo digerindo as informações.

Mello se permitiu saborear a pequena vitória.

- É. Desmontar me parece uma ótima opção.

Quê?

- Quê?

Uma mão encontrou a sua, que nem teve tempo de tirar.

Dedos se apertaram, sem aviso.

Uma reclamação estava pronta para sair já, mas não encontrou espaço entre os lábios que se colaram, fechados, ao seus.

Não teve língua, nem saliva, nem nenhum desses clichês.

No máximo, dedos que se enfiaram por seus cabelos, puxando. Mas estes, ele nem se deu ao trabalho de sentir, muito ocupado com aquele protótipo de beijo.

Quando se separaram, Near notou os olhos abertos de Mello.

Não surpresos ou chocados, ou algo do gênero. Só abertos mesmo.

Near o olhava debaixo, profundamente. De um modo tão fixo e curioso que chegava a ser grosseiro depois do que se passara ali.

- É só isso?

Por baixo da franja loira, um cenho se franzia. Meio que contrariado.

Emburrado.

- Bom, esperava algo mais?

Não é que esperasse. É só que...

- Ah, é só que depois de todo o seu discurso sobre ‘’nada’’, você me beija? Esperava mais, sim. Se vai se dar ao trabalho de fazer algo, faça direito!

Near se sentiu quase que ofendido.

Não eram muitas as chances que Mello tinha de criticá-lo. Ninguém, alias.

E, de todas, justo aquela?

- Para quem não queria se envolver, está ficando exigente, Mello.

Mello teria lhe dado a língua, se não fosse um gesto infantil demais para si.

Pego em seu próprio argumento.

...

- Quer outro beijo?

- Aquilo nem foi um beijo.

- Quer me beijar então?

- Não entendi a diferença.

- Você e essa sua mania de inferioridade não devem aceitar que o primeiro movimento seja meu. De repen...

- ‘’Mania de inferioridade’’!?

- Melhor não gritar.

- Não me diga o que fazer!

Louvável.

Como uma cena, que poderia ser romântica, é quebrada ao meio.

-...

-...

- Então?

- Então o que, seu irritante?

- Se não tem mais nada a fazer aqui, pode sair do quarto, sabe.

- Eu já disse que eu faço o que eu quiser!

- Então, quer ficar aqui comigo, é isso?

- Só não quero sair daqui sem resolver tudo!

- Então resolva.

- Se eu soubesse como resolver, já teria resolvido, idiota.

- Vamos fazer assim. Me beija- ignorou a cara de nojo irritadiça de Mello- se você não gostar, nunca mais falaremos sobre isso.

- Isso é ridículo.

Near revirou os olhos.

- É ridículo desde o princípio. Mas chegamos até aqui.

... Acenou com a cabeça, pesando os prós e contras.

- Tá, mas pare de me encarar.

Near, obedientemente, fechou os olhos.

Mello engoliu em seco.

Não tinha clima nenhum ali, senão a tensão.

Sentou-se mais perto.

Desviava os olhos. Encontrou as mãos de Near, deixadas em seu colo.

Experimentou. Dedos na nuca. Viu a pele sempre tão irritantemente branca se arrepiar.

Near se contorceu, tentando evitar o contato desagradável.

E aquilo.... Foi a gota d’água.

Para algumas pessoas, ela chega quando alguém diz algo muito fofo. Ou muito extremo.

Para outras, no ápice de uma paixão, cheia de tesão e hormônios.

Mas ali, chegou por motivos menos nobres ou intensos.

Ou melhor. Chegou, por motivos óbvios.

Colou os lábios, de novo, mas fazendo mais pressão dessa vez. A mão na nuca ajudava.

Sentiu as mãos de Near se agarrarem em sua blusa.

O tecido repuxado contra sua pele o fez suspirar.

- Abre a boca.

A ordem foi cumprida com simplicidade, mas aceita com violência.

As duas mãos se enfiaram pelos cabelos brancos, cheias. Sentia as de Near em suas costas, o puxando. Se apoiando.

Mas, verdade seja dita, era um daqueles beijos horríveis de ver, e estranhos de se dar. Babados, desajeitados e tortos. Com língua demais numa hora, saliva sobrando na outra, e dedos escorregando ser saber onde pegar- ou onde nem encostar.

Foi Near que se separou, arfante. Soltara Mello, limpando os cantos da boca com as costas da mão.

Um amante mais sensível teria fica chateado.

Mello também arfava, pesado, tentando encontrar um compasso em sua respiração.

- E então?

A pergunta veio do menor, com rosto avermelhado escondido pela franja alva.

Não teve resposta. Apenas ouviu o som dos cabelos loiros sendo bagunçados.

Esperou.

- Isso... Foi estranho.

- Foi. Mas, bem. Vou cumprir minha promessa. Nunca mais falarei sobre tudo o que aconteceu...Agora...Melhor você ir.

- Porra, já disse pra parar de me mandar o que fazer!

Sentiu algo se fechar ao redor de seu pulso.

- Se eu quiser ficar aqui, eu fico.

Seus pulsos. Presos.

- ...Mello?

- Tem razão. Eu realmente te odeio demais para conseguir gostar de você. Só a ideia já me irrita.

Foi puxado.

- Mas... Nunca te vi tentando fugir de mim antes...

Near arregalou os olhos. Sentia-se levemente traído.

Por si mesmo.

Porcaria de arrepio.

Infelizmente, tiveram que resolver aquilo do jeito difícil. Porque nenhuma enfermeira apareceu até o dia seguinte. No máximo, quem viu a cena dos dois dormindo juntos na cama foi Roger. Mas ele, de todos, era quem menos se importava, afinal. Limitou-se a fechar a porta, e reiterar seu pedido de alta para ambos.

Notas finais
Capítulo saindo antes do fim do semestre só porque eu passei em Física o// //apanha
Agradecimentos à Brunatsu, pela sua linda recomendação ♥
''Aaaah, saiu capítulo novo de Junjou Romantica ^///^''
"E o seu capítulo, como anda?''
E foi assim que Beta me lembrou que eu ainda não tinha conseguido terminar capítulo ¬¬'
Agradeçam à ela, essa pessoa maravilhosa a quem, por sinal, acabei nem enviando o capítulo reescrito para betagem //apanha.
Ela me disse que o capítulo estava broxante, e que eu deveria tentar deixar mais fluffy. Falhei miseravelmente, como podem ver.
Mas ela é testemunha de que eu tentei ¬¬
Não, ainda não acabou~
Eu acho.
Enfim, obrigada à todas que ainda acompanham essa coisa embolada~
Grata,
Kalhens.