Notas iniciais
Autora: Laura Umbelino (primeira colocada) Sinopse: Quanta dor pode se esconder atrás das paredes de um lar comum? Quantas vezes uma mulher pode ser psicológica e fisicamente massacrada por quem jura amá-la e protegê-la? Quantos ciclos começam muito antes disso e terminam, se é que terminam, muito depois do que deveriam? Por que tantas vítimas continuam em Silêncio? Avisos: Violência física e psicológica, relacionamento abusivo. Pode conter gatilhos psicológicos.

Capítulo 1.

Quinze anos! Idade em que muitos já tiveram sua primeira vez em tudo que diz respeito à juventude como: sexo, drogas, primeiro namoro, primeira desilusão...

Já eu, aos quinze anos, me encontrava encolhida no canto do meu quarto, sentindo o corpo arder pelas diversas chibatas da cinta em minhas costas, dadas por minha mãe. Ela dizia, após ficar sóbria, que eram para o meu bem. Como algo assim poderia ser para o meu bem?

Dizia também que eu devia ter cuidado com os meninos, mas na verdade eu tinha que ter cuidado com ela, que chegava todos os dias bêbada.

Capítulo 2.

Poucos anos depois, casei-me com o único intuito de sair de casa. Não aguentava mais aquele inferno chamado de vida.

Meu marido, com trinta e sete anos, e eu, com apenas dezoito, tivemos uma linda cerimônia, a única coisa bonita em nossa relação.

Ele era muito violento, mas como minha mãe havia me ensinado, aquela violência era para o meu bem, era algo bom para me manter a salvo das atrocidades do mundo. Mas agora trancafiada no banheiro, ouvindo seus socos sendo desferidos contra a porta prestes a arrebentar, me pergunto que parte mesmo disso tudo foi boa para mim.

Capítulo 3.

Meu coração exaurido se aquece de medo vendo os olhos assustados de minha pequena filha. Às vezes gostaria que ela não tivesse o pai que tem, mas não posso deixá-lo. Não há como agora.

Os tremores continuam e continuam enquanto seguro a pequena bebê em meu colo, enquanto meu corpo trêmulo e fraco tenta se controlar para lhe dar o máximo de conforto. Ele me encara dizendo o quanto estou feia e gorda aos seus olhos, mas há dias que não como.

Como pode agir assim em frente ao nosso pequeno tesouro? Como pode agir dessa forma desumana para comigo?

Capítulo 4.

Nas noites em que estou trancada no porão, sinto raiva de minha mãe por me fazer acreditar nessa mentira de que "violência é para seu bem".

Eu, tão ingênua, acreditei que a severidade do “amor” dos outros me manteria protegida da maldade do mundo, mas ela está dentro de minha própria casa, levantando a mão e abaixando minhas calças.

Por que a senhora foi tão má com sua filha?

Neste momento, a escuridão é minha única amiga, me acolhendo de braços abertos em seu abraço oco e vazio, as lágrimas descem atrevidas e quentes, ardendo minhas bochechas, aumentando minha vergonha.

Capítulo 5.

Seu amor é como fogo. Um fogo caótico, controlador, destruidor e implacável. Sinto seus efeitos a cada ano que passo ao seu lado.

Hoje, a maior felicidade da minha vida é ver nossos filhos saindo de casa e indo para a faculdade, eles não terão mais que lhe aguentar. Eu, como mãe, obviamente escolho a felicidades deles à minha, por isso deixo que vão.

Quanto a mim, estou presa a você até que a morte nos separe. E agora penso se devo lhe beijar ou lhe denunciar.

Mas eu não consigo me libertar por isso. Mais uma vez me calarei.

Notas finais
Lembrem-se, quando você está há muito tempo no chão, é difícil levantar-se se ninguém estender a mão. Apoiem, sejam solidários. Denunciem.