Neko...?!

14 O que é brinquedo para o gato, é morte para o rato


Notas iniciais
~ Capítulo com cenas fortes, quem não quiser, ou não tiver estômago para ler, pode pular para a POV do Allen ~

Eu via o desespero claro refletido nos olhos prateados na medida em que ele observava Neah cortar o resto da minha roupa fora, não que aquilo em especifico me incomodasse, mas o olhar asqueroso daquele monstro sobre mim me fazia querer me enfiar embaixo de uma lona ou me esconder embaixo do sofá, e não estar amarrado e exposto aquele maldito daquela forma.

E o pior era o modo como meu corpo formigava. Eu me arrepiava toda vez que ele me tocava mesmo sentindo apenas nojo, meu corpo parecia mais e mais quente, mas não da maneira como Allen deixava, era mais como se eu tivesse com uma forte febre que estivesse me matando por dentro.

– Nee Yuu, onde você gosta de ser tocado? – Sussurrou no meu ouvido soltando as algemas, fazendo meus braços caírem inertes ao lado do meu corpo. – Eu quero ver a cara do seu namoradinho te assistindo gemer igual a uma cadela no cio. – Continuou falando e mordendo a minha orelha.

Quando Allen mordia minha orelha, eu sentia um frio gostoso na barriga.

Quando Neah mordia minha orelha, doía e eu sentia nojo do meu próprio corpo.

– P-Para... – Murmurei com um fio de voz apertando o lençol da cama com força e tentando aguentar aquelas mãos em mim.

– Parar? Eu nem comecei. – Falou com um sorriso sádico, me deitando na cama e subindo em cima de mim. – Vamos Yuu, coopere. Se você for um garoto obediente eu posso te fazer gostar muito disso. – Sussurrou em um tom esquisito passando a mão pela parte interna das minhas coxas.

E podia sentir o peso do olhar de Allen sobre mim, mas não me atrevia a encará-lo de volta, era vergonhoso. E também não havia nada que eu pudesse fazer já que meu corpo mal se mexia, o que tornava tudo ainda pior.

– Olha garoto Walker... Seu gatinho não é tão puro quanto parece... – Murmurou lambendo as minhas costas com aquela língua nojenta e molhada. Mas mesmo assim a minha pele se arrepiava em resposta. Era horrível.

– N-Não...

– “Não” o quê, Yuu? Não quer que eu pare? – Voltou a falar próximo a minha orelha, encostando seu corpo no meu e lambendo meu pescoço, ou melhor minha cicatriz. – Você quer que eu marque seu corpo mais uma vez, não quer?

Se eu pudesse me mover, eu arrancaria as entranhas desse desgraçado com minhas próprias garras.

– Morra. – Sussurrei juntando o máximo de força para que minha voz não se quebrasse no meio da sentença.

– É apenas isso que tem a dizer? – Riu. E seu riso não era apenas sádico e doentio. Tinha algo mais ali. – Por que eu não dou uma ocupação mais útil a essa sua boquinha tão tentadora?

De inicio eu não entendi o que ele queria dizer com aquilo. Como assim “ocupar minha boca”? Eu achei que ele iria me amordaçar como fez com Allen, mas quando ele começou a abrir a própria calça eu percebi o que o maldito pretendia.

Tentei me mexer, me afastar daquele humano asqueroso, só que meu corpo ainda estava completamente dormente, o máximo que eu podia mexer eram as pontas do meus dedos.

Eu não queria fazer aquilo de jeito nenhum.

Eu não queria que Neah obtivesse prazer de mim, a única pessoa que tinha esse direito era Allen Walker. Ele era meu dono e eu era seu gato. Só seu. De mais ninguém. Eram apenas seus lábios que eu queria sentir, apenas seu toque fazia eu me sentir bem, e apenas sua voz e seu calor que faziam eu me sentir seguro.

Eu não podia deixar aquele monstro se meter nisso.

Trinquei meus dentes com toda a força quando ele me empurrou contra aquilo, se esfregando no meu rosto. Era imundo, sujo, terrível.

– Yuu você não vai querer fazer isso por mal... – Falou em tom de advertência.

Nem me surpreendi quando logo em seguida um soco forte me atingiu no rosto. Mesmo assim mantive meus dentes cerrados. Outro soco atingiu minha barriga, e mais outro, e outro... Eu podia sentir o sangue preencher minha boca em alguns momentos e o ar me faltar, mas mesmo assim não cedi.

Até que ele pegou uma arma e apontou na direção de Allen.

– Tem certeza que quer me desobedecer, Yuu? – Falou me puxando com força pelo cabelo e virando meu rosto na direção do albino.

Pela primeira vez desde que aquela tortura começara, eu me permiti olhar para Allen. Lágrimas grossas e abundantes desciam pelos seus olhos cor de lua, que embora me transmitissem preocupação, encaravam Neah com um ódio indescritível. Juro que se ele me olhasse daquela maneira alguma vez, e pegaria minha katana e fugiria para debaixo do sofá sem pensar duas vezes.

– Então Yuu... Vai continuar resistindo?

Eu não queria que aquele desgraçado maculasse a minha relação com Allen.

Mas com certeza não haveria relação alguma se Allen estivesse morto.

Aquilo seria completamente repulsivo, mas mesmo assim eu fechei meus olhos para não ter que ver o que estava fazendo ou o olhar de Allen sobre mim e abocanhei aquela coisa, engasgando quando o filho da puta resolveu empurrar minha cabeça para baixo de vez, fazendo o troço bater no fundo da minha garganta.

Me puxando pelo cabelo com a maior brutalidade possível, ele movimentava minha cabeça para cima e para baixo, machucando minha garganta e me deixando ainda mais sem ar. Mesmo fechados, meus olhos lacrimejavam e meu estômago de revirava horrivelmente.

Meu peito estava apertado. Eu queria chorar... De raiva, de vergonha, de desespero, de tristeza... Mas não faria isso na frente daquele ser desprezível. Eu morreria antes disso. E também não queria que Allen ficasse ainda mais preocupado comigo do que já estava, ele tinha que se preocupar consigo mesmo, por que sinceramente eu não sei se quero imaginar o que pode acontecer a ele depois que Neah se cansar de mim.

O demônio gemeu longamente e eu senti algo quente e gosmento invadindo minha boca, descendo direto pela minha garganta, me afogando e me deixando sem ar. Provavelmente percebendo que eu iria acabar morrendo sufocado, ele saiu da minha boca, empurrando minha cabeça para o lado e eu não agüentei, vomitei o meu estômago para fora, me sentindo somente ainda mais enojado enquanto suava frio e o mundo parecia girar a minha volta.

– Nee Yuu, alguém já te disse que você é realmente bom com a boca? – Provocou com um sorriso mais do que satisfeito enquanto eu vomitava compulsivamente.

Apenas lhe lancei um olhar de puro ódio antes de cuspir bem na sua cara.

A cara dele foi impagável, valeu até a dor dos vários socos que eu levei depois.

– Yuu eu nunca te disse nada sobre mim, não foi? – Sussurrou com um tom de voz mais doente que o normal, me levantando pelo cabelo enquanto eu sentia o sangue escorrendo pelo meu rosto, estava começando a ficar tonto. – Pois hoje eu vou te contar uma história da minha adolescência. – Continuou me forçando a encará-lo, e ver seu rosto me dava ainda mais náuseas – Quando eu tinha mais ou menos sua idade, eu me apaixonei por um garoto. Mas ele era bem rebelde e não aceitava meu sentimento, era igualzinho a você, talvez seja por isso que eu gosto tanto desses seus olhinhos desafiadores. Gosto mais do que deveria se quer saber, você me enlouquece Yuu, e eu vou fazer com você do mesmo jeito que eu fiz com ele: Eu vou arrancar esse brilho dos seus olhos, eu vou domar você. E quando te deixar bem mansinho, vou te tornar completamente meu. – Concluiu sussurrando contra meu ouvido, me fazendo recuar. O efeito da droga que o miserável me deu parecia estar passando.

– Eu nunca vou pertencer a você. – Respondi, mesmo que em fio de voz já que minha garganta queimava como se tivessem me feito beber ácido.

– E eu também não iria por as minhas mãos em você nunca mais, segundo o seu namoradinho ali, mas olha só onde terminamos! Eu não vou colocar apenas minhas mãos em você... – Falou em um tom completamente detestável, passando aquela língua imunda no meu rosto enquanto olhava para Allen.

Antes que eu dissesse algo, senti um de seus dedos subir pelo meio das minhas pernas até alcançar minha entrada, me causando um calafrio de puro medo.

– N-Não... Isso não... – Meu coração disparou, parecia que eu ia entrar em pânico e as lembranças de quando eu era menor que aquele velho asqueroso tentou... Tentou me...

– Ora Yuu, que olhar é esse? – Sua voz parecia distante, sua mão que segurava meu cabelo desceu até meu pescoço, me enforcando, deixando as lembranças daquele dia ainda mais vívidas a ponto de me tomar quase que completamente os sentidos.

Naquele dia, antes de Neah me espancar, quando ele me trancou com aquele velho. O modo como aquele ser nojento me tocava e me lambia, e depois quando eu o matei, e quando Neah me fez aquela cicatriz, e agora quando ele conseguiu ser ainda mais asqueroso e repulsivo que aquele velho, e o fato de que Allen esteve vendo tudo ate agora...

– NÃO! PARA! – Encontrei forças para gritar, mas não para afastá-lo. Eu mal conseguia me mexer, e meus esforços para arranhá-lo pareciam insignificantes.

– Não Yuu, você tem que aprender... – Sussurrou empurrando meu rosto contra os lençóis, subindo em cima de mim e sem nenhum aviso prévio, enfiando dois dedos com força na minha entrada me fazendo gritar com a dor.

Enterrei minhas unhas na cama, enquanto sentia-o me invadir cada vez mais fundo, era insuportável. Era simplesmente insuportável ser humilhado, usado e subjugado daquela forma pela pessoa que você mais despreza no mundo.

– Tão apertado... Ah Yuu, você vai ser uma delícia... – Murmurou com um risinho desgraçado, começando a movimentar aqueles dedos malditos e fazendo eu me sentir como se fosse ser rasgado ao meio. Doía... E doía muito... E não era só fisicamente.

– J-Já... Chega... – Meu corpo inteiro parecia queimar de pura dor, meu estômago de revirava de puro asco. Eu não agüentava mais, iria acabar enlouquecendo com aquilo...

Até que algo surpreendente aconteceu.

–------- POV do Allen ---------

Eu não tinha palavras para descrever o que eu estava sentindo.

Ficar amarrado e amordaçado, apenas assistindo o sofrimento da pessoa que você mais ama era indescritivelmente insuportável.

O modo como aquele filho da puta miserável maculava o MEU Kanda fazia uma fúria avassaladora tomar conta de mim, me consumindo de dentro pra fora, crescendo junto com a angústia de ver o neko naquele estado, sendo violentado daquela maneira...

Porém, eu não podia me dar o luxo de apenas ficar chorando sem fazer nada. Eu havia prometido proteger Kanda, e mesmo que eu morresse, eu iria tirá-lo das mãos daquele psicopata.

Depois de minutos, que pareceram anos, de desespero, eu lembrei que mesmo aqueles caras tendo pegado minha arma e meu canivete quando me capturaram, eu ainda tinha uma última coisa comigo. Uma caneta, que eu sempre carregava no meu bolso da calça por puro hábito.

Sem hesitar nenhum segundo, eu destampei a caneta e comecei a tentar desatar os nós que prendiam minhas mãos, e estava funcionando, só que eu estava indo devagar demais com aquilo, e eu não tinha todo esse tempo a perder.

– Eu nunca vou pertencer a você. – A voz de Kanda soou mais fraca que um sussurro, fazendo meu coração apertar ainda mais.

Ele estava todo machucado, repleto de cortes e hematomas, suas mãos tremiam, sua pele coberta de manchas estava muito mais pálida que o normal, e ele estava visivelmente drogado.

O desespero me dominou por um momento e a caneta caiu no chão.

MERDA!

Me remexi apressadamente tentando recuperá-la, mas ela acabou escapando para ainda mais longe.

– E eu também não iria por as minhas mãos em você nunca mais, segundo o seu namoradinho ali, mas olha só onde terminamos! Eu não vou colocar apenas minhas mãos em você... – O maldito falou se dirigindo a mim, e quando nossos olhos se cruzaram, ele fez questão de abraçar Kanda possessivamente, puxando-o pelo cabelo e lambendo seu rosto enquanto o gato grunhia de nojo.

FILHO DA PUTA MISERÁVEL!

Alcancei novamente a caneta, tendo o dobro da dificuldade que tive da primeira vez para encaixá-la no meio do nó e continuei trabalhando em me livrar daquelas cordas desgraçadas.

– N-Não... Isso não... – A voz de Kanda soou assustada e eu me desesperei mais ainda.

Uma onda de agonia tomava o meu corpo, eu precisava me soltar logo... Não, imediatamente!

Eu não podia permitir que aquele maldito o tocasse por nem mais um segundo!

– Ora Yuu, que olhar é esse?

Meu interior borbulhou de ódio quando percebi o que o desgraçado pretendia com o meu Kanda.

– NÃO! PARA! – O pequeno gritou agoniado, tentando se debater, mas não parecia encontrar forças para isso.

Comecei a trabalhar mais desesperadamente, minha mente trabalhava a mil por hora fixa no mesmo pensamento:

Eu não permitiria que aquele ser desprezível tocasse Kanda com suas mão imundas por nem mais um instante.

– Não Yuu, você tem que aprender... – Sussurrou ele subindo em cima do pequeno.

Consegui soltar uma das mãos e comecei a arrancar as cordas da outra sem me preocupar em arrancar minha pele junto.

Eu tinha que tirá-lo dali.

– AAAARRRRRGGHHHHHHHHH!!! – Um grito de pura dor invadiu o recinto fazendo meu sangue congelar nas veias por um segundo.

Era a voz de Kanda.

Depois disso eu não vi nem ouvi mais nada alem do som do meu sangue pulsando nas minhas veias.

Uma fúria abrasadora dominou todo o meu corpo, e no instante seguinte eu já estava do outro lado do quarto, com o pescoço daquele miserável em minhas mãos.

– EU VOU TE MATAR! – Minha voz soou irreconhecível até para mim de tão irada.

Soltei uma das minhas mãos que estava no seu pescoço, começando a socá-lo com toda a minha força. Iniciando pelo rosto, e quando ele já estava bem ensanguentado, comecei a acertar no mesmo lugar onde eu havia acertado os tiros na noite retrasada, percebendo que não havia nada ali, provavelmente ele estava usando um colete naquela noite, e só pela frustração de saber que não tinha baleado aquele maldito, comecei a acertar sua barriga, aproveitando para dar o troco de quando ele bateu em Kanda, sentindo uma onda de satisfação ao sentir duas de suas costelas se quebrando.

– VOCÊ VAI SOFRER DESGRAÇADO! – Continuei espancando-o, e não importava o quanto eu batesse, o quão alto o som de alguns de seus ossos se partindo soasse, a minha ira não diminuía.

Eu estava tão cego de raiva que nem vi quando ele pegou aquele bisturi, só percebi quando ele o enfiou com toda a força no meu ombro, me fazendo vacilar por um segundo, o que foi tempo o suficiente para que ele me acertasse um chute no rosto, me fazendo bater com força contra a parede do lado oposto, ficando momentaneamente zonzo por causa do impacto.

– HAHAHAHAHAHAHAHAAA! QUEM IRIA MORRER AQUI MESMO HEIM ALLEN? – Riu histérico me acertando um chute no abdômen que me fez cuspir sangue. – Achou mesmo que era páreo para mim pirralho? – Adicionou em um tom sombrio, fazendo menção de voltar a rir, mas se calando quando ouviu um estalo que fez toda a sala mergulhar em um silencio abissal.

– De joelhos. – Uma voz levemente infantil em um tom assustadoramente frio partiu o ar daquela atmosfera de tensão que estava a nossa volta.

Eu mal podia acreditar na cena que tinha diante dos meus olhos.

Neah se ajoelhava cuidadosamente para não acabar caindo de vez devido aos ferimentos graves enquanto Kanda lhe apontava uma arma.

O gato tinha ferimentos por todo o corpo, de cortes a hematomas, sangue escorria pelas suas pernas, sua cauda parecia quebrada, seu cabelo completamente bagunçado e desgrenhado contornava seu rosto coberto de (ainda mais) sangue destacando apenas seus olhos azuis cor de noite que pareciam brilhar. Um brilho frio e cruel.

– Kanda... – Sussurrei sentindo minha garganta fechar. O que havia acontecido com o meu Neko? Meu não tão doce e inocente Neko?

– Yuu... Pense bem nas suas próximas ações. – Falou o desgraçado. Seu rosto estava irreconhecível devido ao espancamento, mas a única orbe negra que ele conseguia manter aberta possuía um olhar puramente maligno.

– Onze anos. Pensei durante onze anos no que faria se tivesse essa chance... – Sussurrou Kanda em um tom que fez minha espinha gelar. – Não é a mesma coisa quando é você que esta sendo olhado de cima, não é? – Continuou o gato encostando o cano da arma na testa do maldito. – Vamos Neah... Não está se divertindo?

– Ora seu...!!!

Antes que ele pudesse completar a sentença, Kanda desviou a arma dando um tiro na sua perna, fazendo-o cair meio sentado para trás, se encostando na parede.

– ARRRRRGHHHHHHH!!!!!

– Ah, tá doendo? Não é engraçado quando quem esta sofrendo é você, não é? – Kanda estava... Sorrindo?

Seus olhos estavam frios e um sorriso de puro sadismo maculava as feições angelicais.

Eu estava em choque, não conseguia fazer nada alem de observar.

– Dizendo essas coisas... M-Mas você está se divertindo, não é? – Sussurrou Neah em um fio de voz, provavelmente estava perto de morrer de hemorragia. – Somos iguais afinal.

O sorriso do neko morreu por um momento e seus olhos se tornaram ainda mais duros. Lentamente ele encostou o cano da arma novamente na testa daquele miserável.

Não, eles não eram iguais.

Por que se pudesse escolher, Kanda definitivamente não estaria aqui agora.

E não sujaria suas mãos com o sangue daquele monstro.

– Te vejo no inferno Neah.

Um disparo.

A parede se manchou completamente de vermelho e o corpo inerte caiu para o lado logo em seguida fazendo um barulho repulsivo.

A arma caiu no chão logo depois, sendo acompanhada pelos joelhos trêmulos do garoto que a empunhava.

– A-Acabou. – Sussurrou baixinho encarando o sangue que tinha respingado em suas mãos.

– Kanda... – Me levantei de onde estava com dificuldade, caminhando até o seu lado e tocando delicadamente seu ombro.

– N-Não me olha agora... Onegai... – Murmurou com a voz embargada, tremendo fortemente como se estivesse em estado de hipotermia.

Ignorando seu pedido, puxei seu rosto na direção do meu, apoiando minha testa na sua e olhando dentro de seus olhos, vendo ali uma mistura de emoções, medo, nojo, alívio, culpa, carinho, dor, desespero... Mas nem sinal daquela frieza e crueldade que o dominavam minutos atrás. Kanda havia voltado a ser o Kanda que eu conhecia, meu gato, meu companheiro, meu amor.

– Gomenasai... – Sussurrei observando de perto seus olhos se enxerem de lágrimas que logo começaram a transbordar, se misturando com o sangue na medida em que escorriam pelas suas bochechas. – Me perdoe, eu disse que não iria sair do seu lado, mas...

– Você me odeia? – Perguntou de repente. – Não tem nojo de tocar alguém como eu? – Sua voz parecia tão angustiada que eu sentia como se um rolo compressor passasse por cima do meu coração naquele momento.

– Eu te amo, Kanda. Incondicionalmente. – Falei puxando-o para meus braços, mas sem apertá-lo muito por medo de machucá-lo ainda mais, tendo apenas um breve vislumbre da sua expressão surpresa ao ouvir minhas palavras. – In-con-di-cio-nal-men-te, entendeu? – Sussurrei na sua orelhinha, vendo-a se agitar com meu hálito quente.

– E-Eu t... mnyumhfmf... – Ouvi-o sussurrar algo ininteligível antes desmaiar nos meus braços.

Tirei meu casaco apressadamente, enrolando-o no neko e saindo dali com ele em meus braços, andando com cuidado para não piorar o seu estado.

– Meu Deus... – Exclamou Lenalee logo quando nos viu, fixando o olhar em Kanda e logo depois em mim – O que aconte...? Esquece, vamos embora daqui. – Falou com a voz falha, me acompanhando até o carro enquanto fazia uma ligação, provavelmente avisando Tikky.

Eu não conseguia falar nada, o aperto em meu coração parecia se refletir na minha garganta.

Abracei Kanda mais forte, sentindo sua respiração em minha bochecha, encostei meus lábios na sua testa sentindo sua temperatura mais baixa que o habitual. Eu preferia ter pregos enfiados embaixo das minhas unhas do que vê-lo naquele estado.

– Oe... Tem uma coisa que eu quero que vocês f-façam... – Sua voz soou baixa, mas forte o suficiente para que eu , Lenalee e Tikky que se aproximava, ouvíssemos.

Abaixei minha cabeça mirando seus olhos que brilhavam extraordinariamente na escuridão daquela noite sombrio. Kanda possuía um brilho férreo no olhar, como se suas íris fossem feitas de aço derretido.

– O que quiser. – Respondi acariciando suavemente sua bochecha.

– Voltem lá, encontrem os pertences do maldito... Ele reabriu a fazenda. – Parou um tempo pra puxar um pouco de ar pelos pulmões, seu estado era realmente grave. – Quero que encontrem a localização dela, e depois queimem tudo. Absolutamente tudo.

Meu coração falhou uma batida, meu gato, meu garoto, meu amor, meu Kanda... Era simplesmente o homem mais forte de coração que eu já tinha conhecido.

Quando perdi Mana, demorei meses para superar, não só isso, eu havia me permitido dominar pela tristeza... Kanda não se deixava dominar facilmente, por nada. Isso me fazia admirá-lo ainda mais.

– Tem uma garrafa de gasolina extra no carro. – Lenalee respondeu séria.

Ela havia entendido que “absolutamente tudo” compreendia tudo e, principalmente, todos.

Voltamos para casa naquela noite deixando um verdadeiro inferno para trás. Um inferno de chamas rubras, e com demônios queimando nele.

Um inferno que não seria esquecido, mas seria superado.

Eu lutaria para que meu gatinho de coração valente voltasse a sorrir acanhado, voltasse a me perseguir gritando ameaças pela casa, a comer os meus peixes, a prender a cabeça na jarra de leite, a tentar assassinar o Lavi, a aparecer de surpresa no meu trabalho, a ter ataques fofinhos (ou não) de ciúmes, a me provocar enquanto falo no telefone, a trapacear no esconde-esconde... Lutaria para que ele continuasse firme e forte.

Lutaria para que meu amor pudesse curar suas feridas... E para que continuasse ao meu lado, fazendo eu me apaixonar ainda mais insanamente a cada dia.

Fiquei observando sua expressão enquanto dormia, sem soltá-lo do meu abraço nenhum segundo.

Kanda, quero que saiba que não importa o que aconteça daqui pra frente, meu coração é seu.

Incondicionalmente.

Notas finais
SPOILER PARA QUEM NÃO LEU A POV DO KANDA: Não, ele não foi estuprado, ok? (não completamente por assim dizer). É por que como eu escrevi a POV do Allen deu essa impressão.

Nossa, você não imaginam como foi complicado escrever essa cap, tipo encarnar o papel do Kanda que já tinha sofrido um abuso desse tipo, e reviver a experiência de forma ainda pior *coração na mão*, e o Allen então *le pessoa que não suporta ver alguém que ama sofrer e não poder fazer nada*.

Respirando pesado aqui, mas podem deixar que o próximo vai ser bem açucarado, e acho que o final desse já deu uma bela deixa :3

Muito obrigada por continuarem aqui ~
Kissu