Neko...?!
15 Gato escaldado tem medo de água fria
Notas iniciais
Minha consciência voltava aos poucos, mas tudo ainda parecia embaralhado, nublado, confuso... Meu corpo todo estava dolorido, meus membros fracos e minha cabeça pesada, mas de certa forma eu não me sentia assim tão mal.E a medida em que a minha percepção ia voltando eu entendi o motivo.
Suas mãos deslizavam deliciosamente pelas minhas pernas por baixo da coberta grossa que tinha seu cheiro grudado nela, seus lábios desciam pelo meu pescoço, fazendo minha coluna se arrepiar como só ele era capaz.
Mantive meus olhos fechados com preguiça de abri-los, apenas aproveitando seus toques, relembrando o quanto era bom sentir sua pele na minha, seus lábios nos meus... Me inclinei pra frente sentindo meus lábios formigarem quando sua respiração quente os atingia, acabei soltando um gemido de dor involuntário quando senti o corte fundo que aquele miserável havia me feito ser pressionado acidentalmente.
As lembranças do que ocorreu naquele lugar iam e voltavam na minha mente, fazendo uma sensação gélida se espalhar pelo meu corpo, me dando náuseas, como se tivesse percebido, ou talvez tendo a mesma necessidade de fugir disso que eu, ele me apertou ainda mais forte contra seu peito aconchegante, tomando meus lábios em um beijo faminto.
Agora, mais do que nunca, eu precisava, ou melhor, necessitava, do calor dele.
Mesmo que meu corpo estivesse todo destroçado e seus toques doessem algumas vezes eu não queria que ele parasse. Muito pelo contrário. Puxei-o para mais perto, sentindo seus toques mais fortes, suas mãos mais exigentes, me aquecendo por dentro e por fora.
Tentei me aproximar mais dos seus toques cálidos como raios de sol na minha pele gelada — embora que bem mais quentes mesmo com menor temperatura — mas nesse instante, seu corpo avançou sobre o meu, o que acabou movendo minha cauda quebrada de mau jeito, fazendo um grunhido dolorido escapar pelos meus lábios e meus olhos embaçarem.
Se Neah estivesse vivo, eu o mataria mais umas dez vezes só em vingança a minha cauda.
– Kanda! Você está bem? – Ele parou de repente, afastando seu rosto do meu.
– N-Nyuu... – Eu tentei responder, mas minha voz simplesmente não formava nada de coerente á algum humano. Merda.
– Estou te machucando... M-Me perdoe... Eu... Vou me controlar, ok? Prometo. – Começou a falar nervosamente, entendendo exatamente o contrário do que eu queria dizer.
Que ótimo...
Tentei falar alguma coisa, mas antes que pudesse pronunciar qualquer sílaba que fosse, ele me interrompeu, parecendo ainda mais nervoso que antes.
– Vou... Buscar algo pra você comer e alguns analgésicos. – Sorriu falsamente em uma tentativa falha de me acalmar. – Descanse, sim? – Falou fechando a porta.
Descansar seria a última coisa que eu iria fazer depois dessa. E o que porra são “analgésicos”?
“Duvido que ele vá querer te tocar novamente depois do que eu vou te fazer hoje.”
A voz daquele desgraçado soou alto na minha cabeça como se eu estivesse em algum dos meus pesadelos onde a alma dele voltava para me atormentar.
Não... Isso não podia ser verdade. Quer dizer, a coisa branca não me deixaria... Deixaria?
Tch... E se quando ele tocasse em mim, só conseguisse ficar lembrando do que aconteceu? Como ficaríamos de agora em diante?
Que tipo de relação teríamos depois do que aconteceu?
Respirei fundo, me levantando da cama ainda meio tonto, tendo que me apoiar no móvel ao lado da cama para não cair de cara no chão, e caminhei lentamente até o banheiro, sentindo todo o meu corpo doer miseravelmente.
Apanhei um pouco para conseguir abrir a torneira e depois enfiei a cabeça ali debaixo, esperando que aquela tontura horrível passasse.
Minha cabeça parecia presa em um pesadelo formado pelas minhas próprias lembranças. Memórias do dia em que fui atacado por aquele velho asqueroso e a forma como fui repudiado por Neah logo em seguida, me pareciam mais vivas do que nunca, como se eu as tivesse vivenciado ainda ontem.
Sabia que Allen não iria me machucar, mas ele seria capaz de continuar o mesmo depois de tudo o que aconteceu? Ele ainda sorriria bobo pra mim mesmo depois de ter me visto matar alguém sem uma gota de remorso? Ainda me abraçaria apertado quando eu estivesse assustado com os documentários sobre aliens?
Suspirei pesadamente tirando o rosto de baixo da torneira, limpando meus olhos com as mãos e tomando coragem para me encarar no espelho e...
Oh merda, eu não deveria ter feito isso.
Minha cara fazia parecer que eu fui pisoteado por um cavalo, por causa dos hematomas nas laterais do rosto principalmente, tinha uns círculos escuros embaixo dos meus olhos e fora que eu estava pálido como leite, o que só deixava as marcas e a cicatriz que eu tinha no pescoço ainda mais aparentes, o que por algum motivo, fazia eu me sentir ainda pior.
Tirei a camisa grossa de lá que eu estava usando para poder avaliar melhor os estragos e não agüentei passas mais um segundo naquela forma.
Um calor intenso e um formigamento gelado se espalharam conjuntamente pelo meu corpo, e logo eu sentia minhas patas tocarem silenciosamente o chão frio, e me surpreendi como a tontura melhorou absurdamente enquanto a dor no corpo pareceu triplicar.
Sinto uma semana sem me levantar do sofá vindo por ai.
Como na forma de gato eu não conseguiria abrir a porta, sai pela janela do quarto e fui andando para a frente da casa, onde havia uma portinha para gato na entrada. Parei um momento na varanda, sentindo a textura macia do tapete que fazia cócegas nas minhas patas quando ouvi um som de vozes e resolvi prestar atenção no que falavam. A coisa branca e a Lenalee pareciam estar discutindo.
– O Kanda acordou e... Eu não posso voltar lá de jeito nenhum.
– Heim?! Não acredito no que estou ouvindo. Não foi você que passou esse tempo todo agoniado por que ele não acordava?!
– Sim mas... As coisas mudaram Lena. Eu... Eu não consigo. Se eu voltar, olhar pra ele... Eu não vou conseguir tocá-lo sem sentir...
“Nojo”.
Completei mentalmente, parando de ouvir naquela parte por que simplesmente não suportaria ouvir aquela palavra saindo daqueles lábios tão doces sendo dirigida a mim.
Sai correndo estabanadamente, sem saber para onde ir ao certo, acabei esbarrando num vaso antes de quase cair os degraus da varanda por causa da minha tontura. Eu só queria ir pra longe, para algum lugar onde aquelas orbes prateadas não me encontrassem.
Corri até minhas patas queimarem, e depois continuei correndo, sem rumo, destino ou direção. Só queria correr até aquele aperto insuportável no peito melhorar.
Mas só piorava a cada segundo.
–----- POV da Lenalee ------
Apaguei o cigarro rapidamente quando ouvi o som de passos se aproximando, não estava com cabeça para ouvir bronca do Allen, e também me sentia frustrada com o fato de que a “fazenda de animais ‘exóticos’” do monstro que fez aquilo com o Yuuzinho (que ele não me ouça falar assim) ser em outro país e o aeroporto mais próximo da cidade onde estávamos não estar liberando nenhum vôo devido ao mau tempo.
Levantei os olhos da tela do notebook, observando a cara a cara de morte do garoto – ele podia ter noventa anos, mas ainda era um pirralho pra mim – que havia se sentado no sofá a minha frente.
– Desembucha. – Falei me sentando ao seu lado e puxando sua cabeça para o meu colo, como sempre fazia.
– Eu sou um idiota Lena. Do pior tipo. – Desabafou me olhando com aqueles olhos prateados cheios de remorso.
– Por que diz isso? – Indaguei em um tom brando, deixando-o á vontade para responder quando quisesse enquanto me distraia fazendo carinho nos seus fios esbranquiçados.
Eu e Allen fomos criados juntos praticamente desde que nascemos, tínhamos um laço forte e inquebrável, e toda vez que eu o via sofrendo, era como se sua dor fosse minha também. Eu faria qualquer coisa para vê-lo sorrir, mesmo que minimamente.
– O Kanda acordou e... Eu não posso voltar lá de jeito nenhum. – Falou parecendo agoniado com as próprias palavras.
E eu sabia exatamente qual o motivo do desespero nelas.
Ainda estávamos no Japão, já que Kanda havia ficado inconsciente por cinco dias inteiros. E nesses cinco dias, eu vi um Allen desolado como nunca antes.
Nesse período, eu e Allen também pudemos conversar devidamente sobre tudo o que aconteceu — mesmo que 90% das conversas tenham, misteriosamente, acabado em Kanda – o que foi bom tanto para dissipar qualquer clima estranho que houvesse ficado entre nós, como para conhecer melhor o relacionamento dos dois.
Nunca acreditei que duas pessoas pudessem ficar tão profundamente ligadas em algumas poucas semanas. Para mim, sempre foi o tempo o fator principal que fortalecia uma relação, porém esses dois passaram por cima de qualquer conceito pré-estabelecido que tivesse.
O olhar vazio e perdido de Allen sem seu companheiro, o modo angustiado como o gatinho sussurrava o nome do albino enquanto dormia... Aquela ligação era única, era tão algo incrivelmente raro de se ver nos dias de hoje, onde as pessoas se tornavam cada vez mais gélidas, corrompidas e individualistas, fechando e endurecendo seu coração por causa de seu egoísmo.
Na primeira noite depois do incidente, quando Tikky voltou a Londres para investigar as informações que encontramos no cativeiro de Kanda – havia uma pasta cheia de nomes, telefones e endereços – quando só estávamos eu e Allen na casa, na expectativa de que um certo gatinho acordasse, passei a noite escondida no meu quarto, chorando com ódio do mundo e imaginando que era bem provável que o albino estaria fazendo o mesmo agora.
E foi ai que eu tomei uma decisão: Eu protegeria aqueles dois, não importa como, e custe o que custar.
Eu não deixaria esse mundo desgraçado destruir algo tão bonito quanto a relação deles dois.
– Heim?! Não acredito no que estou ouvindo. Não foi você que passou esse tempo todo agoniado por que ele não acordava?! – Exclamei com uma cara mal humorada.
O que tinha dado naquela criatura?
Ele soltou um suspiro agoniado, escondendo o rosto nas mãos.
– Sim, mas... As coisas mudaram Lena. Eu... Eu não consigo. Se eu voltar, olhar pra ele... Eu não vou conseguir tocá-lo sem sentir... Essa vontade insana de me afogar naquele garoto e não voltar nunca mais. – Ele respirou fundo e eu indiquei com um movimento de cabeça para que continuasse. – Kanda é sempre tão forte e decidido, e não é que eu não goste desse lado dele, eu adoro, mas quando ele está mais... Mais frágil, é diferente. Eu sinto uma necessidade incontrolável de protegê-lo de tudo e todos, mas ao mesmo tempo é como se esse estado dele me atiçasse de alguma forma. Não sei explicar. Hoje ele parecia tão perdido, e tão insanamente tentador ao mesmo tempo... Droga, eu acabei perdendo a cabeça.
Fiquei olhando pra cara dele com os olhos do tamanho de pratos e de queixo no chão.
Ok, como aconselhar alguém nessa situação?! Mangás yaoi da vida, cadê vocês pra me ajudarem agora?
– Allen... E qual o problema de perder a cabeça com ele? Está na cara que vocês dois são doidos um pelos outro. – Falei tentando acalmar a criatura que parecia a beira de um ataque de nervos.
– Como eu posso encarar Kanda com esse tipo de pensamento?! – Se desesperou ignorando completamente a minha fala e começando a andar em círculos. – Ele deve estar me achando um pervertido agora... – Lamuriou.
– Ah, mas isso você é mesmo. – Comentei.
– Lenalee, não está ajudando. – Resmungou me olhando de lado.
– O que mais você quer que eu diga? Você tem fantasias sexuais com um garotinho fofo de catorze anos. Claro que é pervertido. Aceite esse seu lado. – Dei de ombros. Sério, eu não entendia como Allen complicava tanto as coisas.
– Ele tem dezesseis! E... Eu sou horrível, ele deve estar assustado, traumatizado e eu aqui só pensando em como esses cinco dias sem ouvir sua voz foram... Ah, sou um egoísta maldito... – Continuou tagarelando e andando em círculos... Até que minha paciência foi pro espaço.
– Allen seu imbecil!
– Eu sei, eu sou o pior tipo de perv...
– Não! Eu não quis... ARGH! Dá pra calar a boca?! – Gritei mesmo, empurrando-o para se sentar de volta no sofá e me arrependendo logo em seguida quando me lembrei dos seus machucados. – Ai, desculpa, eu...
– T-Tudo bem. – Murmurou com o rosto meio vermelho de dor ainda.
Respirei fundo sentando ao seu lado e cobrindo suas mãos com as minhas, sentindo uma pontada no peito ao ver seus pulsos enfaixados.
– Allen... É óbvio que o Kanda está assustado, traumatizado e mais um monte de coisas, até por que aquele garoto passou pelo inferno duas vezes sem nem ter desencarnado, e uma pior que a outra, mas entenda, é exatamente por isso que, não importa a forma, você tem que estar ao lado dele. E pode apostar que ele certamente deve estar enfrentando problemas mais sérios do que reprimir pensamentos pervertidos. – Falei seriamente, fazendo-o se remexer inquieto.
– Mas e se... – Começou incerto.
– “ E se...” o quê? – Insisti.
– E se eu acabar o machucando por isso? – Sussurrou nervosamente.
Eu até iria dizer que com esses ataques de garotinha ele ia acabar como uke dessa relação futuramente, mas preferi deixar essa para falar na frente do Yuu e ver a cara do albino.
– Allen, pode acreditar que se for no sentido em que você está dizendo, o Kanda-kun quer ser machucado. – Falei sugestivamente.
– Lenalee! – Repreendeu ficando da cor de um tomate.
– Eu não o deixaria sozinho se fosse você. Muito menos agora. – Reforcei mirando sua face pensativa.
– Eu não quero deixá-lo sozinho também, de jeito nenhum, mas... – Mal começou a falar e eu o interrompi com um tapa estalado na sua perna.
– “Mas” porra nenhuma. O que você precisa para entender que, mais do que qualquer coisa, ele precisa de você?
Como é difícil enfiar as coisas na cabeça dessa criatura!
– Lena... – Falou me puxando para um abraço apertado. – Não sei o que faria sem você... Obrigado por existir. – Sussurrou no meu ouvido.
– Nah, você só ficaria meio doido, mas ia sobreviver. – Desconversei tentando sair daquele clima meloso antes que acabasse chorando.
Sim, eu sou uma manteiga derretida para essas coisas.
– Vem cá sua besta. – Resmungou me puxando para o seu colo e bagunçando meu cabelo, que ficou uma moita.
– Tá, tá cacete! Agora larga meu cabelo e sobe lá antes que eu te chute. – Me afastei empurrando-o em direção ao corredor enquanto tentava tirar o cabelo da cara. E tudo isso ainda ouvindo o engraçadinho rir da minha cara me chamando de “Samara”.
Me joguei de volta no sofá procurando o controle remoto da TV – sim né, por que eu que não iria ficar escutando os dois “se entenderem” daqui, o pervertido da casa é o Allen – porém, nem tive tempo de encontrá-lo quando ouvi a porta bater com força e passos rápidos ecoarem pelo corredor, e depois mais sons de portas batendo e coisas caindo no chão.
Ok, tem algo muito errado ai.
Levantei na intenção de ir ver que porra era aquela quando Allen me aparece mais branco do que já é e com uma carinha apavorada que fez um calafrio atravessar a minha espinha.
– O que foi? – Indaguei assustada vendo-o passar por mim e começar a vasculhar a casa.
– Kanda... Ele... E-Ele sumiu! – Murmurou bagunçando os fios brancos numa atitude desesperada.
– O QUÊ?! – Gritei incrédula.
– Ele não está em lugar algum! – Exclamou com a voz embargada.
– E-Espera, ele deve estar escondido por aqui. Não p-pode ser outra coisa... – O medo tomava conta de mim a cada segundo que passava enquanto eu o ajudava a procurar o gato.
E imagina o nosso desespero quando não o encontramos em nenhum lugar daquela casa.
Digo, em quase nenhum lugar.
Caminhei até a porta, abrindo-a na intenção de verificar o único lugar que não havia sido vasculhado de cima a baixo – a varanda – quando encontro um cenário um tanto desesperador.
O vasinho de planta que ficava ao lado da porta tinha sido derrubado e, graças a isso, era possível ver pequenas patinhas de lama no piso indo em direção a saída. Observei o quintal mais atentamente, mas a chuva forte não me deixava ver muita coisa.
Voltei para dentro calçando minhas botas, pegando meu casaco, celular e lanterna, gritando um “já volto” rápido para Allen antes de sair correndo para a rua. Até por que, duvido seriamente que aquele gato sairia de casa na chuva só pra se esconder no quintal.
Liguei a lanterna e comecei a procurar inicialmente pelos lugares que eu sabia que o gato conhecia, como o restaurante em nos encontramos, a praça principal... E nada. Sem bem que procurar uma coisa pequena e preta, no escuro e no meio da chuva era complicado, mas não poderia ser impossível!
Depois de várias voltas, eu não agüentava mais meu celular tocando – Allen desesperado que deveria ter saído na rua pra procurar também, aposto. – nem meus pés latejando e me sentei em um banco qualquer de um parque abandonado sem me importar com a chuva forte que me deixava completamente ensopada, salvando apenas o celular que estava enfiado dentro da bota de couro. O som da tempestade enchia meus ouvidos, e eu mal conseguia enxergar devido ao tempo cinzento, mas estava bem assim. Não me incomodava.
Não quando eu me sentia tão desolada quanto agora.
Suspirei repassando todos os acontecimentos que me levaram até ali na minha mente enquanto tentava não ceder a vontade de chorar.
Tudo começou realmente no ensino médio. Sempre fui a princesinha da escola, e só deus sabe o quanto isso é uma merda. Sua família tem dinheiro, você tem uma boa aparência e tira notas altas, e logo surge uma corja de abutres a sua volta. Se eu não tivesse Allen ali comigo sempre, eu certamente poderia dizer que não tinha ninguém na vida além do meu irmão.
Eu e o cosplay ambulante do Shion fomos criados juntos desde pequenos, eu acreditava que ele era como um irmão pra mim, mesmo sabendo que nos casaríamos no futuro, e estava tudo bem assim. Até que no segundo ano do ensino médio, eu flagrei Allen aos beijos com nosso amigo de infância também, Lavi, e foi aí que eu percebi que algo estava errado. Até por que, tirando o caso excepcional do maníaco do meu nii-san, irmãos não costumam sentir TANTO ciúme assim um do outro, não é?
Olha que merda, me descobri apaixonada pelo meu melhor amigo que eu sabia que nunca ia me dar uma chance. Mas enfim, era algo superável, sempre acreditei que fosse, mesmo na faculdade quando ele seduzia, conscientemente ou não, praticamente todas as meninas da faculdade, e homens também (inclusive um professor nosso que era casado caiu de amores por ele), só que... Nunca passava disso.
Deixe-me explicar melhor: As pessoas se apaixonavam por ele, mas nunca chegava a ser recíproco. Allen nunca tinha suspirado o nome de ninguém pelos cantos, não tinha pressa de correr para nenhuma pessoa especial, não sorria bobo com olhando alguém sem seu alvo perceber, não sentia uma vontade louca de ter uma certa pessoa em seus braços, não se abalava com nenhum beijo... Nem mesmo com os que eu pude roubar com a desculpa de ser um acidente, ou de estar muito bêbada e ter misturado as coisas.
Eu nunca tinha perdido nenhuma parte da atenção de Allen para ninguém.
Então, não tinha com o que se preocupar, né?
Nós nos casaríamos futuramente de qualquer maneira, então de todo o modo eu teria bastante tempo para conquistá-lo. Talvez tivéssemos até mesmo um filho...
E todos esses planos ruíram na manhã daquela segunda feira.
Na sexta, Road e eu precisávamos sair urgentemente, uma vez que minha melhor amiga ia passar uma semana fora e nem eu nem ela teríamos ninguém para desabafar durante esse tempo (Ela parecia estar apaixonada por uma garota que não lhe correspondia também, ou seja, ambas nessa merda de situação) e, por algum motivo, ela não queria deixar aquele gato que tinha desde a infância sozinho em casa (só agora entendo o motivo), e eu lhe dei a idéia de deixá-lo sob os cuidados de Allen. E, admito, também foi uma forma de ter certeza de que ele não sairia de casa e acabasse em algum lugar promíscuo com o safado do Lavi.
No sábado de manhã, cheguei em casa crente de que eu acordaria um belo albino preguiçoso e iríamos tomar um café da manhã em algum lugar que tivesse bons doces e um bom capuccino, e quando abro a porta do quarto... Uma surpresa. Allen dormia tranquilamente com uma de suas mãos apoiadas carinhosamente em uma cabeleira longa e escura que estava em cima do seu tórax. Reparei melhor na cena e percebi que dessa vez eu não o tinha encontrado com nenhuma puta ou colega de faculdade sem sal, mas sim com um pequeno e — devo adicionar mesmo que isso mate minha auto-estima – lindo garotinho que não tinha cara de ter mais de quatorze anos... E sem nenhuma roupa no corpo.
Imaginem o nó na minha cabeça. Olhei para Allen, percebendo que ele ainda estava vestido, e depois para o modo, digamos, carinhosamente intimo, que os dois estavam dormindo... Só conseguir imaginar a imagem de Allen sedento pelo corpo do pequeno e o arrastando para o seu covil/apartamento, o subornando com doces e depois, ainda mais sedento pelo corpo juvenil, o enganado com alguma brincadeira, tirado suas roupas e afogado o seu desejo no corpo do pequeno garotinho inocente...
Desnecessário dizer que é claro que eu surtei.
Corri pra casa do meu irmão, que para a sorte daquele branquelo pedófilo, estava em viagem, e passei o sábado enfiada lá, incomunicável. Óbvio que eu estava querendo matar aquele maldito de cara rabiscada, mas quando o tempo foi passando, a raiva foi diminuindo e eu resolvi que talvez fosse hora de parar de me anular... E se no fim das contas o problema fosse que Allen não tinha encontrado ninguém que estivesse realmente disposto a lutar por ele?
Minha mente estava uma bagunça, mas pela primeira vez eu estava determinada a fazer alguma coisa decisiva. De manhã cedo no domingo, fui lá e me joguei em seus braços roubando um beijo, o primeiro sem usar a bebida ou qualquer outro entorpecente como desculpa. Não o deixei dizer nada, não queria ouvir que ele só me queria como amiga, ou como não me correspondia, isso eu já sabia. E era o que eu estava disposta a mudar.
E foi na manhã da segunda feira, quando eu tinha acordado de cinco da manhã pra começar a me arrumar, seguindo milhares de conselhos retardados de fóruns femininos mais retardados ainda (a que ponto eu cheguei... Putamerda...), me empiriquitado toda que... O pouco de esperança que eu tinha foi brutalmente pisada. Logo quando Allen entrou pela porta da empresa eu percebi, seus olhos estavam distantes, e sua cabeça com certeza estava em outro alguém. Eu até que tentei dar uma de “sou sexy”, mas foi um completo desastre. Derramei café no coitado e depois ainda tomei um fora quando tentei novamente seduzi-lo no banheiro.
Sou um completo desastre. Fato.
E quando o vi saindo da sala de reuniões todo carinhoso com o gatinho da Road eu fiquei realmente brava. Até o gato merecia mais atenção que eu! Aposto que ele ainda estava mantendo aquele garotinho em casa e o gato era o bichinho adorado do pequeno! Provavelmente acariciar aquele gato o lembrava de quando o garotinho de traços orientais o colocava no colo e brincava com o bichano... Aquele garotinho que tinha roubado o brilho dos olhos de Allen para si... (eu pensando nisso agora, me dá vontade de bater a cabeça na parede pela minha idiotice na época, mas como eu ia saber que ele era o gato?!).
Depois daquela segunda feira maldita, eu me tranquei de novo na casa do meu irmão. O Lavi até que veio me visitar algumas vezes, e pelo jeito como ele contornou o assunto quando eu perguntei se Allen estava com alguém, eu tava certa. E o sorriso ultra mega safado que o Cross deu quando eu o questionei sobre o assunto, então?! Nossa, deu até medo da cara que aquele pervertido fez...
Eu estava muito ocupada remoendo a minha mágoa e juntando os cacos do meu coração despedaçado (ok, sou um pouco dramática, admito) durante toda aquela semana que nem ao menos pensei em ir até o apartamento do meu melhor amigo e irmão de criação para saber o que estava acontecendo, e quando paro pra pensar nisso, eu me sinto realmente envergonhada. E se eu já estava me sentindo mal, imaginem então quando eu recebo a noticia de que ocorreu nada menos do que uma explosão no apartamento dele!
Claro que eu fiquei maluca. Eu iria correr até onde ele estava naquele exato segundo quando Tikky me avisa que ele estava fora do país! Se eu já estava maluca antes, imagine agora que a situação parecia pior! Foda-se raiva, foda-se auto-estima destruída, foda-se coração bagunçado, foda-se a porra do mundo! Era de Allen que estávamos falando! E se ele estava em perigo eu estaria ao lado dele custe o que custar e não importando as circunstâncias. Montei uma mala rápida, priorizando qualquer item que pudesse ser usado para protegê-lo, como armas de choque, armas de fogo, as katanas e a coleção de facas do meu nii-san (sim, ele usava isso para assustar os caras que davam em cima de mim, e até mesmo Allen e Lavi às vezes), e liguei para Tikky, jurando fazer da vida dele um completo inferno até conseguir a localização exata do albino.
A primeira surpresa, eu diria, que foi a própria localização em si. A casa de campo pertos das montanhas no Japão onde ele e Mana passavam as férias. E quando eu digo ele e Mana, é apenas eles dois, somente eles dois e unicamente eles dois. Nem mesmo eu havia sido convidada para uma única visita lá. E pelo que eu arranquei de Tikky, Allen e companhia haviam viajado para lá.
Céus! Mal passei uma semana fora e olha o que acontece!
Pelo estilo da minha narração até agora, você provavelmente deve estar achando que eu fiquei brava. Ou melhor, muito puta da vida e que estava morrendo para acabar com a “companhia” do meu Allen e coisa e tal... Pois é, eu não sou tão louca assim.
Sim, eu estava brava, admito, mas acima de tudo, eu estava curiosa. Afinal, eu já vira aquele branquelo sair com homens, mulheres, solteiras, casados, dondoquinhas, chefes de gang, piranhas, religiosas, semes violentos, ukes dramáticos, pervertidos, devassas, inocentezinhos... Quero dizer, eu estava morrendo para saber em que tipo aquele garoto se encaixava, qual personalidade fora capaz de prender aquele albino inalcançável em tão pouco tempo.
E quando o pude conversar com ele pela primeira vez, percebi que Kanda simplesmente não se encaixava.
O garoto que tinha o coração do meu amigo Don Juan cabia com perfeição na categoria: Indescritível.
Logo quando desembarquei na cidade, aluguei um quarto em um hotel perto do campo e um carro logo em seguida, pretendia seguir até a casa onde eles estavam quando uma visão no parque me deteve. Na minha situação, eu deveria considerar a cena triste, mas na realidade foi uma das mais lindas que já presenciei.
O dia estava ensolarado, mas não muito quente, as cerejeiras estavam floridas e pétalas róseas flutuavam pelo ar, nesse cenário estavam Allen, que sorria verdadeiramente como nunca, com uma luminosidade que eu nunca mais havia visto depois da morte de Mana, e o garoto que eu havia visto naquela vez, só que usava uma bandana na cabeça e também sorria, embora de um jeito bem mais tímido, mas igualmente luminoso.
Observei Tikky se aproximar dos dois, olhando para mim furtivamente, temi que ele dissesse algo, mas como nenhum dos dois me percebeu presumi que ele tinha ficado de bico calado. Quando se afastou dos dois, comentou comigo para ter cuidado e para tomar conta dos dois. E no decorrer do dia percebi o motivo: Eu não era a única a segui-los.
Um moreno alto, de porte atlético, daqueles que não pareciam ser especialmente forte, mas pelo olhar dava pra dizer que ele arrancaria seu coração do peito ainda batendo com um sorriso no rosto. Sua aura não parecia nada boa, e pelo visto, o garoto também percebeu, já que por um momento eu o vi ficar meio tenso, mesmo que depois de um pouco de carinho da parte de Allen, ele logo esqueceu o que quer que o estivesse preocupando e foi perseguir uma borboleta azulada.
E no meio dessa perseguição, eu vi algo que realmente me impressionou. Estávamos todos em um parque abandonado, e talvez por isso, ainda mais bonito. As plantas cresciam naturalmente, sem corte ou trato, flores e ervas daninhas de misturavam de uma forma harmoniosa, a água do pequeno lago refletia o sol, parecendo ser prateada, pétalas e mais pétalas de cerejeira flutuavam pelo ar e um pequeno garoto, que deixara sua bandana cair, corria com as orelhinhas felinas dobradas junto ao crânio e a cauda balançando atrás da borboleta, emitindo pequenos rosnados que pareciam mais fofinhos que ameaçadores.
Era... Encantador.
Allen sorria que nem um retardado mental de tanto que babava no pequeno, sua felicidade e encanto pareciam deixá-lo ainda mais belo, com os cabelos platinados brilhando ao sol, a pele pálida iluminada, os olhos brilhando como estrelas. Ele ria como o menino que nunca tinha deixado de ser e corria atrás do garotinho com orelhas de gato que só podiam ser reais pelo modo espontâneo como se mexiam. Era assim que uma pessoa apaixonada parecia então...
Se eu soubesse que veria essa cena há alguns dias, eu diria que me sentiria triste e iria embora com o rabo entre as pernas, mas só consegui sorrir, um sorriso pleno de alivio e felicidade, assim como as lagrimas que brotavam sem querer e desciam pelas minhas bochechas. Nunca tinha visto o Allen tão... Livre, tão feliz, tão à vontade em toda a minha vida...
Eu não era apaixonada por ele. Eu o amava, o amava verdadeiramente, e sentia que enquanto ele estivesse feliz, eu também estaria, não importava como.
Olhei para a direção em que os dois pombinhos corriam, vendo uma sombra negra atrás de uma arvore e me lembrei das palavras de Tikky... Ah, sim, eu não deixaria ninguém manchar aquela felicidade, mas de jeito nenhum!
Segui os dois por todo o dia, vendo um Allen que — nem mesmo eu, que julgava conhecê-lo tão bem — nunca tinha visto, e fiquei infinitamente feliz em ver, se divertindo junto de um garotinho de jeito marrento, mas doce, agressivo e tímido, mas que retribuía o olhar do albino de forma tão intensa que era como se nada mais existisse no universo além dele.
Era o casal mais lindo que eu já vira.
Enquanto eu os seguia, eu pensava em uma maneira de abordá-los, de perguntar como começou, como estão, de saber mais sobre o moreno, de saber o que tinha sido aquilo da bomba... E quando eu os vi entrando no restaurante, até pensei em esperá-los sair e topar com os dois “por acidente”, mas quando vi aquele cara que me parecia um legítimo filho da puta entrar no estabelecimento um pouco depois... Não me segurei. Tirei meu canivete de dentro da bota e entrei no restaurante sem pensar duas vezes.
Tanto que quando dei por mim, estava na frente da mesa dos dois e o filho da puta que eu vinha perseguido estava a duas mesas de nós. Allen me cumprimentou animadamente e eu fiquei com cara de retardada uns segundos, vendo o cara encarar fixamente o garotinho e quando eu percebi já estava encarando o menino também. Respondi ao albino meio sem jeito, tratando de enfiar o canivete no bolso da saia antes que alguém percebesse.
E foi ai que uma das coisas mais loucas da minha vida aconteceu e o meu inegável encanto por um pirralho de língua afiada chamado Kanda começou.
Ele se levantou de repente, mandando eu e Allen calarmos a boca na cara dura, me passou um sermão que nem mesmo meu irmão já tinha me passado alguma vez, e tudo isso em um tom de voz sério e maduro acompanhado de um olhar intenso e valente na minha direção, jogando todas merdas que só agora eu percebia que tinha feito na minha cara e ao mesmo tempo, sem perceber, demonstrando o quanto se importava com Allen, tanto quanto eu.
Ambos lutávamos pelo mesmo objetivo, ambos queríamos que aquele sorriso verdadeiro nunca mais sumisse do rosto do nosso branquelo, ambos queríamos que as coisas permanecem como naquele momento... Que tudo continuasse completo.
Ainda me lembro das suas expressões em cada fala enquanto o gato fazia uma dissertação sobre o que eu vinha aprontando nessa ultima semana.
“Burra, por que se em todos esses anos vocês não se pegaram, não ia ser agora que isso ia acontecer.” Ditou, em uma clara demonstração de ciúme.
“Estúpida, por que não percebe o quanto é importante para ele.” Genuinamente preocupado com o albino que assistia a cena com uma cara de idiota hilária.
“E egoísta por que ta querendo foder com tudo só por que as coisas não são do jeito que você quer. Tch, francamente...” Bravo comigo por que sabia o quanto eu me preocupava com meu amigo, e como me machucaria o fim de tudo. O quanto machucaria nós três. Eu, Allen, e ele que eu sei que sofreria uma vez que o outro não estivesse bem.
No fim das contas, Kanda entendia toda a situação melhor do que ninguém. Não foi a toa que havia conquistando o coração escorregadio de Allen sem esforço algum.
Aquele pequeno tinha uma coragem de enfrentar a vida que me faltava, aliás, faltava em todos que eu conhecia. Era sincero, não temia as próprias palavras, não entendia direito como as pessoas agiam (depois fui entender que, bem, ele era um gato, o comportamento humano naturalmente lhe seria estranho), mas entendia o bastante de sentimentos para saber o que era certo e errado. Ele não se importava com valores morais pré-estabelecidos, nem nada parecido, o coração das pessoas era o suficiente para que julgasse se gostaria delas ou não.
Quando ele me deixou a sós com Allen e eu ouvi a história toda, muita coisa ficou clara ao mesmo tempo em que várias outras ficaram confusas, mas eu estava feliz assim. Tudo parecia tão certo, tão perfeitamente certo...
E foi como se uma sombra pesada caísse sobre nós quando Allen olhou pela janela e viu que Kanda havia sumido. Olhei para trás e percebi que o cara do olhar psicopata não estava mais lá. Senti como se toda aquela alegria a nossa volta estivesse desmoronando dolorosamente. E eu não iria permitir. De jeito nenhum.
Quando resgatamos Kanda, e de certa forma Allen também, eu pensei que tudo ficaria bem agora. Que poderia respirar aliviada, me jogar no sofá e assistir algum anime com personagens morenos e albinos para shippar e ainda comparar com o que eu tinha em casa (eu e Allen tínhamos essa mania quando menores, por isso até hoje digo que ele é um Shion em 3D), mas aquela felicidade que vinha sendo restaurada começou a ruir novamente.
E agora eu não tinha um inimigo para enfrentar, não tinha uma localização, não tinha um meio de resolver o problema, não tinha nem um motivo!
Olhei para cima, sentindo a chuva no meu rosto e soltando um grito de frustração que logo foi seguido de lágrimas e soluços. Eu sou assim, não consigo resolver as coisas, ai choro, resolvo as coisas, ai choro de novo. Sou emotiva, não posso evitar.
Me surpreendi quando senti algo quente e trêmulo nas minhas costas. Não me mexi, apenas virei levemente a cabeça dando de cara com uma cauda negra e enfaixada na ponta do meu lado.
– N-Não chore... Vo-Você faz isso d-demais. – Sua voz soava bem mal e ele tremia freneticamente por causa do frio. Afinal, gatos são sensíveis a temperatura.
– D-Desculpe... – Respondi sem jeito, enxugando as lágrimas mesmo na chuva.
– Tch. – Resmungou se encolhendo.
Tirei meu casaco e me virei, envolvendo-o com ele e o puxando para o meu colo, como quando ele era um filhote. Abraçando o pequeno com força, usando meu corpo para aquecê-lo e relaxando quando não encontrei resistência da sua parte.
– Ainda me lembro de você pequenininho, sabia? – Comentei quebrando o silencio desconfortável.
– Tá ficando velha, heim? – Respondeu mal humorado.
Fiquei encarando-o incrédula por um bom tempo antes de começar a rir loucamente. Como essa criatura ainda tinha cabeça pra me agulhar depois de tudo isso?! Era inacreditável, mas encorajador ao mesmo tempo. Saber o quão rápido aquele garoto se recuperava.
– O que diabos você veio fazer aqui? – Indaguei voltando ao normal.
– Esfriar a cabeça. Não tá vendo toda essa água? – Retrucou ácido. Uiiii...
Levantei uma sobrancelha o encarando fixamente.
– Se você pretende me irritar para me fazer desistir de te arrastar pra casa, ou de te perguntar por que você sumiu, você tá fodido. Eu não consigo me irritar com coisinhas fofas. – Murmurei na sua orelhinha vendo-o corar violentamente.
– Quero te ver repetir isso depois que eu meter minhas unhas na sua cara. – Era para ser uma ameaça, mas ouvir isso vindo do gatinho que estava tremendo de frio no meu colo só me fazia querer apertar as bochechas dele.
– Allen está maluco atrás de você. Tem ideia do quanto o preocupou fugindo desse jeito? – Fui direta, já que pelo visto se eu ficasse enrolando, Kanda me enrolaria de volta e nunca sairíamos dessa lenga-lenga.
– Ele não quer olhar na minha cara, só fiz um favor. – Respondeu com a voz dura, abaixando o rosto e encolhendo as orelhinhas.
Mas o quê?!
– Você bateu a cabeça?! – Indaguei querendo saber de onde aquilo veio.
– Eu ouvi vocês hoje na sala. – Falou baixinho, abraçando os próprios joelhos. – Por isso eu quero que você me devolva para minha mãe. – Completou em um tom totalmente infeliz.
– Espera ai, você o ouve confessar que é insano por você, e ai sai correndo...? – Falei tentando entender. Falam que as mulheres são complicadas... Isso por que não conhecem os gatos!
Aproveitei o momento em que ele parecia muito distraído olhando para as mãos pousadas no colo e comecei a digitar discretamente uma mensagem de texto para Allen, aproveitando que a chuva agora não passava de uma neblina meio densa.
– Não minta pra mim. – Rosnou em um tom tão triste que me fez sentir um aperto no peito.
– Não estou mentindo. Ele até disse que não estava conseguindo ficar perto de você sem... – Comecei lembrando-me da confissão do albino.
– Sentir nojo? – Me interrompeu levantando o rosto para me encarar com aqueles olhinhos brilhantes que pareciam tão apagados.
– Kanda... Até onde você ouviu? — Perguntei estranhando completamente aquela conclusão.
– O suficiente. Apenas me leve para minha mãe, não quero ficar nesse lugar... – Murmurou parecendo agoniado, se encolhendo ainda mais no meu colo.
– Não enquanto vocês não se resolverem. – Ditei determinada, recebendo um olhar incisivo e irritado em resposta. – Pode pensar que eu estou mentindo, mas não estou. E, além disso, é simplesmente impossível que Allen te queria longe. Nesses cinco dias em que você ficou apagado, eu podia jurar que o coração dele tinha apagado também. Foram cinco dias de sofrimento e agonia, tenho certeza que para ele, o mundo não faz nenhum sentido se você não estiver nele. – Falei segurando seu rosto delicado nas minhas mãos e olhando profundamente em seus olhos.
E pelo tom rosado que suas bochechas assumiram, eu tive certeza que ele acreditou em cada palavra.
– Mas quando eu acordei... – Murmurou confuso, mordendo o dedo indicador. Que fofo!
– Quando ele saiu do quarto e veio me dar a noticia de que você finalmente tinha acordado, ele me disse também que não conseguia tirar as mãos de você de jeito nenhum, se é que me entende. – Falei dando um risinho malicioso que deixou o gatinho ainda mais vermelho. – E que tinha medo de te machucar, te assustar ou coisa do tipo...
Era nessas horas que eu tinha vontade de sentar a mão na cara daquele cabeça de boneco de neve.
– Ele é idiota? – Indagou o gato com uma orelha em pé e a outra abaixada, numa expressão cômica.
– Foi o que eu pensei. – Suspirei tranqüila, percebendo que o neko tinha realmente entendido. Alguém aqui conhecia a lerdeza de Allen tanto quanto eu.
– Tch. – O pequeno bufou, saindo do meu colo e se tremendo todinho ao pisar no chão molhado, o que era uma cena muito fofa.
– Kanda. – Chamei, fazendo suas orelhinhas se voltarem para mim.
– Hm?
– Obrigada por existir. – Falei de todo o coração, erguendo seu rosto lhe dando um beijo estalado na testa, observando-o corar intensamente logo em seguida.
– V-você... Tambem... – Sussurrou de volta baixinho, virando o rosto para o lado, acanhado.
Eu bem que estava com vontade de dizer mais coisas só pra deixar o gatinho vermelho dessa vez, mas uma voz desesperada nos interrompeu.
– KANDAAAA!! LENALEE SEGURA ELE!!! – Lá vinha um Allen desesperado na nossa direção.
E pela cara que Kanda fez... Er, é melhor eu dar uns passinhos para trás... Por precaução...
Quando Allen estava a um passo do moreno, Kanda foi mais rápido e o agarrou pela manga da camisa, derrubando-o de costas no chão em um movimento veloz e bem articulado, subindo em cima do albino atordoado logo em seguida, puxando-o pelo colarinho e lhe acertando um soco com uma força que eu nunca diria que alguém daquele mini tamanho possuiria.
Isso que eu chamo de temperamento explosivo...
– Se afaste de mim outra vez e eu quebro a sua cara, entendeu?! – O moreno rosnou em um tom... Agora eu entendi por que Allen chamava aquela coisinha fofa de gato psicopata.
– Mas... – O coitado do braquelo tentou dizer algo, mas foi puxado para um beijo arrebatador, daqueles que arrepia até quem está assistindo.
Os dois pareciam tão envolvidos no beijo que nem ao menos perceberam as várias fotos que eu tirei. Sabe como é, para fazer um álbum mais tarde...
– K-Kanda... Seus machucados... – Allen murmurou ofegante quando seus lábios se separam, tocando suavemente o corpo do pequeno por baixo do casaco.
Acho que meu nariz tá sangrando...
– Fodam-se eles. – Resmungou o neko, entrelaçando as mãos nos fios brancos e puxando o dono das mechas platinadas para outro beijo apaixonado de tirar o fôlego, deixando um pequeno gemido de deleite escapar quando sentiu o outro lhe abraçar fortemente em retorno.
E como eu já tinha bem uma idéia de onde aquilo iria terminar...
– Allen, eu estou indo para aquele quarto que vocês ainda deixaram em aberto na pousada. – Falei sem esperar resposta, tirando um pouco da água do meu cabelo enquanto isso. – Só para deixar avisado: Quando voltarem para a casa, ela vai estar totalmente, inteiramente e completamente vazia... Fui.
Me virei de costas para os dois, voltando pelo caminho de onde eu vim apenas para pegar o carro e depois pular fora.
Deixei um sorriso feliz e pretensioso brotar no meu rosto durante o trajeto.
– Missão cumprida.
Fale com o autor