Neighbors
6 Capítulo 5 - Freedom
Notas iniciais
Erick Dallas
Eu nunca fui um homem acostumado a ter tudo o que queria em minhas mãos, minha única família teve origem no Texas, na região Sul dos Estados Unidos. Desde quando rapaz meus pais me ensinaram a correr atrás dos meus sonhos, e não vou mentir, eles sempre foram grandes. Meu pai, Anthony Dallas, que veio a falecer quando eu tinha quinze anos, olhava no mais profundo dos meus olhos e dizia com todas as palavras “A vida é dos espertos, apenas tente superá-los, e então, chegará ao mais alto que quiser.”, essas palavras serviram como um mantra para que eu crescesse. Eu só queria chegar ao topo, mesmo que esse objetivo me fizesse ter que mexer meus pauzinhos algumas vezes.
Economia foi o curso que decidi seguir na Washington State University. Deixei para trás tudo o que eu tinha, o pouco que eu tinha que se resumia a minha querida mãe Eva Dallas. Eu queria me formar o mais rápido possível para que eu pudesse trazê-la para perto, construir algo melhor para nós o que meu pai nunca foi capaz de nos proporcionar. Mas minha vida tomou rumos diferentes, a Universidade de Washington sempre foi conhecida pelo empoderamento político, e quando me dei por ver, estava participando com afinco de grupos sociais, me engajando em projetos que iam mais longe do que o simples curso de economia poderia me levar. Meus amigos de graduação diziam que eu tinha certo cuidado com as palavras, que minha lábia com as pessoas me fazia um bom diplomata.
A política propriamente dita surgiu na minha frente assim que terminava meu último período em economia, no mesmo momento em que tive um dos maiores impactos de toda a minha vida. Eu havia descoberto que minha mãe fora encontrada morta em nossa antiga casa por motivos desconhecidos, algumas pessoas dizem que a morte foi devido à saudade do meu pai e pela distância entre nós. Em contrapartida, outros têm a coragem de dizer que foi um assassinato pelas dívidas que Eva herdou do meu pai. Isso mexeu com minhas estruturas, eu pensei em desistir e voltar para o Texas, deixar tudo para trás e viver a dor e a culpa que tinha por ter perdido minha única família. Porém, a morte de Eva Dallas tomou uma proporção política maior do que eu e minha chapa eleitoral esperávamos, de repente me dei conta de que meus assessores tinham aproveitado da minha vulnerabilidade para promover minha candidatura. A morte trágica da minha mãe me fez ser conhecido como “O órfão que faria de Nova Iorque sua nova família”. O mundo político me fez entender que nada é fácil, que por vezes precisamos aproveitar de certos acontecimentos para conseguir dar dois passos à frente, que devemos trocar favores como trocamos figurinhas de um álbum, mesmo que isso nos faça ter que esconder um pouco da poeira para de baixo dos tapetes.
Ainda não cheguei ao ápice, mas sou mais esperto do que pensam, eu não me importaria de puxar o tapete de qualquer pessoa que ouse tentar cruzar o meu caminho. Perdi meus pais muito cedo, usei da morte da minha mãe para promover minha candidatura. Eles não tiveram a chance de ver quem me tornei, do poder que tenho nas palmas das minhas mãos, mas sei que onde quer que estejam estão orgulhosos. E ficarão ainda mais quando veem do que eu sou capaz... Como diz o ditado “Quer conhecer um homem? Dê poder a ele.”, eu conheci a força que o poder tem, ele nos alimenta, nos deixa mais seguros e imponentes. Eu não deixarei que nada e ninguém tome a força que conquistei.
— Você acha mesmo que Felicity não suspeitou da sua reunião de negócios interminável? — Helena está com a voz rouca devido à sonolência. Lá fora ainda é escuro, o sol não anunciou a sua chegada. Eu prefiro que seja assim, sair durante a madrugada mal iluminada do flat luxuoso onde nos encontramos me parece mais seguro, ainda mais para mim, um homem de respeito e prestes a se casar nos próximos dias.
— Felicity não tem voz alguma, ela assente ao que eu disser. — ao terminar o nó impecável da minha gravata grafite, giro em direção ao corpo nu de Helena Bertinelli espalhado pela extensão do macio lençol. Seus cabelos de um liso primoroso brincam com o travesseiro. Eu alcanço com facilidade a parte de baixo da sua lingerie podendo sentir o aroma de sexo repleto de luxúria que tivemos há poucas horas. — Eu ficarei com isso para me lembrar de como ficou molhada antes de fodê-la.
Helena engatinha com cautela pelo colchão até conseguir entrelaçar seus braços ao redor da minha nunca. Ela ronrona na altura do pé do meu ouvido esquerdo, e no final, termina sua ousadia com uma mordia languida ao lóbulo da minha orelha, fazendo-me arfar. Suas ações são propositais, ela quer que eu a prenda nas costas dessa cama com a minha gravata, voltando a preencher sua bunda com tapas fortes até as marcas roxas dos dedos das minhas mãos a deixar marcada.
— Aposto que não cheira as calcinhas da sua futura esposa.
— Felicity conhece apenas o arroz com feijão na cama, fui o primeiro homem que a tocou... Digamos que eu prefira dizê-la que sou um respeitador.
— Erick Dallas... Você é um exemplo de respeito! — os lábios molhados de Helena carimbam a linha do meu maxilar que se movimenta pelo trincar dos meus dentes. — Foi um golpe de mestre montar aquele circo de evento beneficente para que vocês se conhecessem...
— Concordo que você tem as melhores ideias.
— Ela anda assinando nossos papéis?
— Eu a disse que se tratava de documentos para fecharmos com o cartório. — não sou capaz de conter uma risada maquiavélica. — Mas prefiro que siga com o plano!
— Ainda não estou pronta.
As pontas dos meus dedos que antes passeavam deliberadamente pelos lindos seios de Helena, encaixam-se na base do seu pescoço com certa força, a pele fina que o envolve me permite sentir o ar que fica preso em sua garganta seguido de um pequeno grunhido.
— Você irá demiti-la ainda hoje. — Helena assente rapidamente recebendo em troca o alívio das minhas mãos ao redor de seu delicado pescoço. Eu poderia ficar segurando-o até que o ar parasse de sair pelas suas narinas, isso é muito excitante. Mas eu tenho uma garota inteligente comigo, ela sabe o quanto é importante que Felicity seja demitida para que nosso plano siga com total perfeição.
Conhecer Felicity não aconteceu puramente por obra do destino, foi tudo minuciosamente desenhado. Helena sempre foi a mulher em que eu podia contar na cama, sua atitude e esperteza me instigaram desde a primeira vez que a conheci em um coquetel onde ocorria a abertura da Revista V. Eu poderia ir mais a fundo, fazer com que tudo fosse bem mais do que sexo, mas Helena sempre foi uma raposa extremamente inteligente, entendendo a política muito bem. E em um mundo onde a voz do povo é considerada a voz de Deus, sabia que a imagem perfeita para ser vendida era de um homem íntegro com uma família humilde. Foi assim que colocou Felicity no meu caminho, uma menina nova em uma cidade nova, distante dos familiares e fotógrafa, sem sangue azul e muito menos uma menina fútil com uma herança milionária na conta. Além da sua simplicidade, as crianças e idosos se apaixonaram por ela no primeiro evento em que aparecemos juntos, o resto foi tão fácil como tirar o doce de um bebê.
Mas para o meu azar, Felicity é bem determinada e competente, prefere trabalhar por sua conta e pagar suas próprias dívidas ao invés de aceitar meu dinheiro, e bem, isso dificulta um pouco meus interesses. A realidade é que se Felicity aceitasse minha ajuda com roupas de grife, um duplex em meio a Empire State e uma gorda quantia em dinheiro no final do mês seria muito mais fácil coloca-la em meu eixo. Ela assinaria alguns papéis dos meus empreendimentos secretos sem tantas perguntas, e, contudo, eu não precisaria armar um grande casamento para me trazer segurança de que tudo que coloquei em seu nome continue sendo meu. Porém, somente assim, uma das minhas maiores riquezas vai estar dormindo ao meu lado, e não estou me referindo a Felicity, mas sim a laranja em que deposito tudo o que eu ganho por fora do meu cargo político e que algum dia se algo der errado não serei eu quem sofrerá as consequências.
— Eu não gosto quando me trata assim. — Helena rosna diante a minha atitude, empurrando-me para frente à medida que esconde seu corpo com o lençol. Eu rio de sua reação amedrontada à medida que a ignorando me viro para vestir o blazer apoiado sobre a cadeira, dando-a minhas costas como resposta ao seu ataque descabido, mas ela continua. — Desde quando você dá as costas para uma Bertinelli? — suas mãos espalmam meus ombros me guiando até uma pequena mesa em frente ao espelho, fazendo com que os poucos frascos de perfumes sobre ela balancem com o impacto. Ela sussurra palavras que me fazem querer apertar seu pescoço mais uma vez. — Não brinque com alguém que jogue tão sujo quanto você, querido.
— Eu não estou brincando, querida... — gemo de imediato ao sentir as pontas afiadas das unhas de Helena afundar meus pulsos presos as suas mãos por trás de minhas costas.
— Quando disse que ainda não estava pronta para demitir a loira, não foi por pena! Eu apenas tinha me acostumado em fazê-la de gato-sapato. — ela solta uma risada divertida, apertando mais meus pulsos ao mesmo tempo em que esfrega seu corpo ainda coberto pelo lençol. Eu poderia muito bem virar o jogo e mostrar a Helena como se coloca as cartas sobre a mesa, mas não posso negar que esse domínio e a ardência que suas unhas fazem em minha carne me faz subir uma adrenalina pelas veias que é gostoso de sentir.
— Dê um jeito de arrumar outro brinquedinho. — o ar que sai da minha boca após rir do seu comentário se contrasta ao espelho em que estou encurralado, deixando-me sem a visão perfeita dos lábios de Helena escuros pelo batom negro manchado.
Suas mãos soltam meus pulsos rapidamente enquanto ouço passos de quem se distancia. — O sol está se preparando para nascer lá fora, você precisar ir. — a mão gira a maçaneta, e então, o lençol branco em um transparente exímio que estava sendo segurado pela mesma escorrega pelas suas curvas, parando sobre os pés que ainda vestem os saltos agulha. E para completar o cenário, assim que dou passos singelos até a porta, a sobrancelha direita de Helena arqueia seguidamente de um sorriso sensual de soslaio que faz todas as minhas veias saltarem.
— Faça o que mandei! — seguro seu queixo com propriedade, levantando sua boca até a minha que parece formar uma almofada pelo inchaço que está nos lábios. Eu mordo o inferior o puxando e recebo um grunhido baixo, logo amorteço minha mordida com a ponta da minha língua, terminando a despedida com um rápido tocar de nossas bocas.
— Até que irá ser divertido. — ela concorda após nossas carícias e antes que eu vá, bate forte com a porta em minha face, arrancando-me uma risada. Eu gosto do misto de emoções que as atitudes de Helena me arrancam, acredito que essa seja a fagulha que deixa nossa relação acesa como um vulcão acordado.
Eu apenas sigo.
Para mais um dia.
Um dia de vitórias na minha cidade Nova Iorque.
~~~
Oliver Queen
“Eu vou esperar até que você me peça.”
Onde eu estava com a cabeça quando essas palavras foram ditas pela minha boca?
Não, eu tenho que ter uma explicação para esse erro... Talvez as minhas bolas amassadas e a dor intensa que meu testículo estava sentindo tenha me deixado zonzo o bastante para ter dito essas palavras sem total sentido.
Eu deveria bater a minha cabeça fortemente em uma coluna de concreto para que meus parafusos voltem para os lugares certos, estou me referindo aos lugares da sensatez e razão. Não onde o meu pau queira que eles estejam. Mas por que estou tão angustiado desde que àquela porta voltou a se fechar contra mim? Seria por que estou tentando mentir para eu mesmo? Eu não sei o que estou sentindo, eu não sei se quero saber o que estou sentindo. Apenas não quero aceitar que estou me enganando.
Pela primeira vez.
Jesus Cristo, o que essa mulher tem que consegue me deixar tão freneticamente distante do meu eu interior? Eu a tive a centímetros dos meus lábios, as bilhas de um azul transparente de Felicity me pediam para beijá-la, para ultrapassarmos nossas barreiras. Mas então me vi paralisado, observando com cautela cada pequena extensão do seu lindo rosto que me mostrava uma feição de medo frente a qualquer tipo de passo que eu pudesse dar. Mas sua reação contradizia a vontade que sua boca me mostrava, ela malditamente queria o mesmo que eu, ela estava tentando sucumbir o medo de me aceitar, relutando contra as forças que queriam que eu me afastasse, mas então, eu continuei parado em um êxtase que nunca vivi em todos os anos que percorri na minha vida até chegar aqui.
Até encontrar Felicity.
Naquele momento confessei a mim mesmo que precisava dela, necessitava provar o doce dos seus lábios tocando os meus. Mesmo que o mundo acabasse eu não me importaria, porque eu apenas precisava dela.
— Oliver! — Sara chama por mim percebendo o quão estou longe.
— O que foi? — pergunto assustado com o alto da sua voz que ressoa por todo o consultório.
— Você está distante. Aconteceu alguma coisa?
Sim, aconteceu, eu estou aqui perdendo meu tempo precioso pensando na minha vizinha extremamente maluca que fará uma das maiores loucuras da sua vida se casando com o grande otário de Nova Iorque. Isso não deveria me afetar, queimar meus miolos, mas eu estou aqui fazendo exatamente isso. Sem conseguir parar de sentir um só segundo uma dor intensa, e não estou me referindo as minhas bolas – não que elas não estejam ainda doloridas -, mas sim em relação à dor de não ter sanado a vontade dos meus lábios terem percorrido sobre os de Felicity.
— Não está acontecendo nada. — suspiro longamente depois de afastar os pensamentos conturbados de dentro da minha cabeça. — Sara...
— Diga.
— Está livre essa noite?
Nada que uma rodada de tequila resolva a minha insanidade.
E Sara é a mulher perfeita para isso.
Ela gargalha em alto e bom som. — Chegou tarde demais, Ollie.
— Por que estou sendo rejeitado por todas as mulheres dessa cidade? — pergunto incrédulo e recebo mais uma gargalhada divertida de Sara.
— Gostaria muito de ser sua psicóloga essa noite... — ela trava suas palavras rapidamente antes de seguir em frente. — Quero dizer, não, eu não gostaria. Você costuma ser a merda de um dramático, mas é que essa noite eu tenho um encontro.
— Eu posso participar da brincadeira?
— Cale a boca... — ela se levanta da poltrona ao meu lado, arrumando sua saia grudada em sua bela bunda. — Nyssa não parece gostar de participações masculinas.
— Isso é mentira! Você está com medo de que essa mulher se apaixone por mim e você perca o encanto.
— Oliver, eu voltarei a te ignorar. A propósito, não faço sacrifício algum em ignorar você. — Sara caminha até a porta com a prancheta nas mãos. — Abrirei a próxima consulta... Tente não ficar no mundo da lua enquanto atende os bichinhos!
Assinto a sua provocação antes que saia.
E mais uma vez, rejeitado.
Não, eu não estou sendo a merda de um dramático.
O mundo da lua conseguiria ser mais animador do que a bosta que está a minha vida. Eu costumo ser bem focado no meu trabalho, por incrível que pareça, quando passo pela porta da minha clínica, tento deixar tudo que considero um problema do lado de fora, simplesmente porque acredito que meus pacientes não têm culpa da merda que estou passando. Porém, hoje, assim que passei por àquelas portas meus pensamentos continuaram em um misto de emoções, eu não consigo separá-las, deixa-las do lado de fora junto com centenas de outras preocupações que rondam a minha vida. Mas parece que Felicity se tornou uma pedrinha insuportável dentro dos meus sapatos, se não bastava tê-la que suportar todos os dias pelo condomínio, agora ela está presente também na minha cabeça. Pulsando entre meus neurônios, guardando-os para ela de uma forma malditamente egoísta, tirando-me a paz.
Literalmente.
Mas como dizia Isaac Newton “Se o dia está uma merda, ele tende a permanecer uma merda” e a minha constatação sobre essa teoria se define à medida que ouço um grito estridente percorrer por todo o meu pequeno quadrado, ela é fina e irritante. E, sim, estou me referindo a Mackenna, a dona de uma das bundas mais empinadas que já tive o prazer de tocar, mas também a mais maluca que já tive o desprazer de fugir.
— Bebeeeeeeeê! — antes que eu possa guiar minha atenção em direção à voz aguda, Mackenna distribui passos lentos até a poltrona em que estou sentado. O barulho que seus sapatos fazem no chão de porcelana me trazem arrepios da ponta do meu pé ao último fio do meu cabelo. Eu nunca fui um homem de ter medo das mulheres, na verdade, esse dom é que as traz para mim, uma vez que a maioria dos homens costuma ter certo medo de algumas mulheres, principalmente quando elas têm mais dinheiro ou algo que possa reduzir o ego masculino ao tamanho de uma nós. Mas com Mackenna passei a rever meus conceitos, e agora, a simples lembrança do fatídico dia em que ela quase tirou a minha vida, faz com que eu não tenha apenas medo mas também pavor.
— Mackenna! — afasto a poltrona da mesa de centro me mantendo longe da sua presença altiva.
— Sentiu saudades?
— Eu poderia dizer que sim, mas estaria mentindo.
— Imagino... — ela desvia da mesa que antes era um obstáculo para chegar até onde estou, permitindo que agora eu consiga ter uma visão completa do seu traje. Mackenna está vestindo um sobretudo que ultrapassa a linha dos seus joelhos em um tom madeira. Os salto-altos são da cor nude que e se contrastam perfeitamente a sua pele morena cor de jambo.
— Se você der mais um passo... Chamarei a polícia! — minha voz assustada garante uma risada divertida de Mackenna que ao se aproximar completamente, deixa com que seu sobretudo se abra na minha frente. Eu poderia me afastar, correr para porta e pedir socorro à Sara, mas a lingerie em tom rosa pink rendada prende minha atenção, e lá está ela, as algemas prateadas reluzindo meu reflexo presa bem a sua cintura. Puta que pariu, eu estou perdidamente ferrado.
— Você não chamaria a polícia, porque para o seu azar, eu sou a polícia. — seu misto de ironia unido à voz sensual volta a arrancar arrepios intensos por cada partícula do meu corpo tensionado. E repleta de atitude Mackenna puxa a poltrona, me levando até ela, deixando com que eu sinta o quanto está em chamas, seu cheiro é puramente hormônio, eles estão exalando por todos os lados. Seus lábios negros estão presos pelos dentes famintos, e eu gostaria de abraçar minhas pernas contra meu peito e chorar feito um garotinho.
— Como você conseguiu entrar aqui? Eu tenho uma consulta nesse horário... Mackenna, meu trabalho não é uma brincadeira! — minha voz sai até mesmo trêmula. Que diabos está acontecendo aqui? Parece que desenvolvi uma fobia, talvez o peso daquela barra de ferro que poderia ter me atingindo a desenvolveu. Então Mackenna faz um sinal negativo com a cabeça à medida que senta com certa vontade no meu colo, ela faz uma pequena movimentação estratégica sobre meu pau, encostando minhas costas na poltrona.
E dói.
Ainda estou sentindo dor pela noite passada.
Inferno.
— Eu marquei a consulta... Inventei que meu cachorrinho estava convulsionando! — ela volta a rir como uma hiena enquanto desliza sua língua pela pele do meu pescoço. E eu malditamente volto a arrepiar feito um bastardo, afinal Mackenna conhece perfeitamente onde se encontram os meus pontos fracos, e esse local, ele é o primeiro da sua listinha infernal.
— Isso é jogar sujo. — arrepio mais uma vez ao sentir o dente afiado de Mackenna passeando por todo acesso do meu pescoço. Involuntariamente meus braços agarram a sua fina cintura e com movimentos rápidos, coloco-a sobre a mesa, deixando com que meu torso se acomode entre suas pernas abertas que logo me prendem contra seu corpo que está o próprio vulcão. — Você precisa parar com isso...
— Ao contrário de você, eu senti sua falta! — seu sussurro atinge o pé do meu ouvido ao mesmo tempo em que suas mãos puxam a gola do meu jaleco para mais perto, unindo nossas faces, nossos narizes, nossas bocas. O ar quente que escapa por elas se misturam, e como um covarde, eu deixo com que Mackenna continue fazendo de mim o seu brinquedinho.
— Você veio brincar de Polícia e ladrão? — correspondo ao seu sussurro.
— Eu não viria aqui para outra coisa!
Mackenna geme assim que sente minhas mãos cravarem suas coxas nuas, agora estamos praticamente colados um no outro. Nossos lábios encontram uma posição favorável, e assim que sua boca entreabre deixo com que minha língua a adentre com famigerada fome. O ritmo é veloz, as suas mãos estão dançando pelo meu peitoral, arranhando-o ainda por cima do tecido descendo até a fivela do meu cinto, o desfazendo com uma rapidez conhecida. Nossas respirações estão aceleradas, a forma com que beijo Mackenna é como se eu quisesse suprir algum tipo de frustração.
Geralmente eu gosto de degustar a boca de uma mulher, dando a ela toda atenção que merece. Descobrindo o real sentido de um beijo, de como um simples tocar dos lábios consegue ser tão íntimo quanto a troca de um simples olhar. Mas não é o que está acontecendo com Mackenna, eu estou quase a engolindo, passando por cima de tudo que sei fazer de melhor por conta de uma frustração. Porque mesmo que eu esteja com a minha língua dentro da sua boca, eu não consigo sentir nada.
Não há tesão.
Não há vontade.
Não acontece nada em lugar nenhum.
Céus.
Assim que as mãos apressadas de Mackenna abrem o zíper do meu jeans, o barulho do mesmo me faz descolar dos seus lábios. Ela sorri para mim, mas como resposta eu dirijo um olhar assustado, de como quem está fazendo isso pela primeira vez. Meu coração está atropelando os batimentos, meus neurônios batem um contra o outro em uma verdadeira bagunça, as mãos que antes apertavam as coxas de Mackenna em uma tentativa deliberada de aguçar meus sentidos, agora estão vibrantes.
Ela continua. — Calma, bebê...
— Não estou me sentindo bem. — me distancio de Mackenna que permanece me segurando pelas suas pernas.
— Você precisa relaxar um pouquinho... Esse trabalho deve estar acabando com você!
— Não é o trabalho. — desfaço o laço que suas pernas fazem ao entorno do meu torso, estabilizando minha respiração. A feição de Mackenna é de decepção, ela está esperando que eu faço o que ela esperava ao vir até meu consultório, mas eu não consigo fazer nada. Porque nem mesmo eu sei o que está acontecendo, eu nunca deixei de funcionar. Na verdade, aconteceu uma vez durante uma festa da faculdade mas eu estava muito bêbado e dizem que o álcool dificulta um pouco o funcionamento nos países mais baixos. Embora eu tenha passado por isso em um passado bem distante, isso nunca voltou a acontecer, com nenhuma outra mulher.
Essa porcaria aqui em baixo não quer dar sinal de vida.
Ele nem se esforça para isso.
Espera aí... Eu não acredito que estou sendo amaldiçoado por Felicity até aqui. Ou será que estou doente? Deus, eu não posso estar doente.
— Então por que está insistindo em negar fogo? — ela pergunta demonstrando sua impaciência.
“Seria engraçado se você não conseguisse... Você sabe... Chegar lá!”
— Merda! — subo com certa afobação o zíper da minha calça à medida que busco as chaves da minha moto e carteira. Passo pelo corpo desnudo de Mackenna que está paralisada enquanto me assiste. — Desculpa, mas eu tenho que resolver uma coisinha. — antes que ela entreabra a boca para me dar uma resposta, eu lhe dou as costas correndo pela porta e dando de encontro a Sara.
— Você não olha para onde anda?
— Sara, eu preciso que você cancele todas as consultas do dia. — arremesso o jaleco sobre seus braços. — Tem uma louca no meu consultório, dê um jeito de tirá-la de lá de dentro!
— Do que você está falando? — sua pergunta é confusa.
— Eu não posso explicar agora, é questão de vida ou morte. No caso, a morte de uma reputação que não foi fácil construir! — aponto para baixo. — Isso aqui não está funcionando, eu apenas preciso ir fazer com que volte a funcionar.
— É, hoje você não está bem. — Sara revira os olhos.
— Mas vou ficar! — ela continua sem entender uma só palavra, mas eu não tenho tempo para voltar a explica-la, eu só preciso correr para o meu prédio. Esbravear até que Felicity retire suas malditas palavras sobre eu ficar um tempo sem “chegar lá”.
Quem ela pensa que é?
Ela não tem esse direito.
Não que eu acredite em superstições, volto a frisar.
~~~
Felicity Smoak
— A vaca da sua chefe resolveu te dar um tempinho de folga? — Iris pergunta ironicamente, mas suas palavras passam por mim sem que eu as pegue. É quando sinto sacos de lingeries atingirem minha cabeça em cheio, conseguindo com que eu volte à atenção. Iris é dona de algumas lojas de produtos eróticos, vulgo Sex Shop’s, e nesse momento, eu acabo de ser atingida não por calcinhas normais, e sim por àquelas comestíveis com sabor de frutas que, na minha opinião, é algo que não deveria ser comercializado. Quem mistura comida com sexo? Ok, isso ficou um pouco confuso. — Felicity, Terra chamando. Câmbio, Smoak!
Eu rio timidamente, ajeitando o óculos de grau em meu rosto. Geralmente costumo usar lentes de contato, mas por algum motivo, não sei onde elas foram parar hoje. Não costuma ser assim, eu sou atenta às minhas coisas, tentando deixa-las sempre organizadas quando possível. Mas hoje, depois que acordei não me importei com essas banalidades, não me importei com nada. A água ainda fria do meu chuveiro contrastada com o vento frio que escapava pela pequena abertura do basculante pouco me afetou. Polly se aproveitou da minha leve falta de atenção e comeu todo o meu cereal — a última porção dentro do pacote — e isso também não me afetou. Tampouco saber onde enfiei minhas lentes de contato está me incomodando.
A verdade é que estou assim desde que voltei a bater a porta contra o rosto do meu insuportável vizinho. Como é que ele teve a audácia de me tocar daquela forma? Não deveríamos ultrapassar nossas barreiras, permanecer distante foi uma regra que criei. Mas depois de tudo o que aconteceu ontem, depois de ter tido seu corpo rígido tão perto me aquecendo ainda diante das gotas gélidas de água que batiam contra nós, eu apenas não consigo tirá-lo da minha cabeça. Oliver Queen parece ter feito um grande estrago na minha consciência, porque eu queria, queria com todas as minhas forças me entregar ao beijo que quase aconteceu, mesmo que eu sucumbisse ao arrependimento no momento em que nossos lábios se distanciassem.
“Eu vou esperar até que você me peça.”
Remendo ironicamente a frase somente nos meus pensamentos, e involuntariamente meus olhos reviram. O motivo de eles reagirem dessa forma é porque essas palavras foram ridículas, tão ridículas quanto quem as disse. Isso é uma loucura das grandes, eu não vou pedir nada a esse cara, estou a ponto de dar a minha palavra de que isso não irá acontecer.
Será que eu preciso jurar com o meu dedinho mindinho?
Felicity, você precisa parar de pensar nisso.
É uma ordem.
— O que foi? — pergunto assustada.
— Eu é que pergunto! Você parece estar no mundo da lua, Felicity.
Vibro com sua menção.
O assunto “Oliver Queen” quase foge pela minha boca, mas eu o engulo de volta. Falar sobre o que aconteceu com meu vizinho insuportável faria tudo voltar com mais força dentro da minha cabeça, e eu não quero que isso aconteça, não quero que isso se torne tão sólido. Eu apenas preciso esquecê-lo, guardar todas essas emoções para mim, porque isso se resume a uma simples carência. É a merda de uma carência, nada mais do que carnal, não há sentimentos, não há apego e muito menos interesse. Não estou interessada no cara mais irresponsável e cretino de Nova Iorque, o que aconteceu ontem foi culpa dos hormônios femininos.
Foi isso, não há com o que me preocupar, só preciso esquecer.
Eu esquecerei.
— Só estou... — respiro fundo tentando encontrar alguma justificativa que não envolva lembranças de Oliver molhado com seu peitoral tencionado friccionando o meu corpo. — Preocupada!
— Com o que? — ela pergunta confusa.
— Com o casamento, todos os preparativos... Os dias estão voando. — bufo.
Ela volta a rir. — Você não me parece nem um pouco animada.
— É claro que estou animada. — dou de ombros.
— Lis, o casamento é como o final feliz de uma princesa. Você não me parece estar contente com o seu final feliz. — as mãos de Iris se unem as minhas, acariciando-as.
Final feliz?
Assim como os filmes da Barbie e o Quebra nozes?
Que besteira, é claro que o meu final feliz é com Erick. Nos conhecemos perfeitamente, ele sabe qual é a minha cor e comida preferida. Minha mãe o adora assim como milhares de cidadãos americanos, ele tem os melhores discursos que se encaixam em qualquer situação. Não há erro, ele está pronto para tudo, é responsável e fiel a mim, não existe possibilidade de Erick Dallas não ser o meu final feliz, ele seria o final feliz de qualquer mulher.
— É claro que estou. — desvio nossas mãos, levantando-me do pequeno sofá e procurando pela janela mais próxima que me dá a visão de uma boa parte da cidade.
— Você não acha que tudo aconteceu rápido demais?
Eu tenho que finalizar essa conversa agora ou Iris vai acabar de me deixar perturbada. Não tenho dúvidas sobre as minhas ações, eu decidi casar com Erick porque eu quis, porque ele foi o meu primeiro, foi o primeiro a me ver como uma mulher, não quis atropelar todas as etapas que envolve conhecer alguém só para me levar para a cama. Eu nunca vou me esquecer de quando nos encontramos no evento beneficente, eu estava com as minhas mãos sujas de farinhas preparando pães e ainda sim ele não se importou de apertá-las em um cumprimento. Seus olhos em um verde claro envolveram os meus antes mesmo de trocarmos as primeiras palavras. Erick não foi só o primeiro homem que me permiti na cama, entregando a ele o que eu tinha de especial, mas foi o primeiro que acreditou em quem eu era, me ajudou a ser quem me tornei.
— Claro que não! Erick é... — um silêncio me cerca abruptamente.
— O homem que você ama? — Iris pergunta espremendo os olhos na minha direção.
Amor?
Assim como o meu pai amou a minha mãe um dia?
Que te faz querer viver para a pessoa antes mesmo de viver para si?
— Por que está me fazendo essa pergunta? — a respondo com outra pergunta.
— Você não o ama! — Iris conclui com perspicácia.
E sua afirmação me atinge como um balde de água fria, afinal Iris não é a primeira a chegar a essa conclusão. Seria uma conclusão? Meu Deus. No entanto, antes que eu possa respondê-la o celular no meu bolso começa a vibrar, e ao olhar “Helena” no visor, estranhamente sinto um alívio percorrer as minhas entranhas.
Salva pelo gongo.
Literalmente.
— Eu preciso atender. — a voz de Helena é amistosa à ligação, o que faz com que o alívio em que senti ao vê-la no visor do meu celular desapareça. Na maioria das vezes Helena prefere que eu entenda os seus sinais de fumaça ao invés de simplesmente discar o meu número, tudo isso para dificultar a comunicação. Mas ao atendê-la, sua voz calma e sem nenhum pedido estratosférico realmente está me deixa ligeiramente preocupada. Se o mundo estiver para acabar, algumas muralhas da China estão indo ao chão nesse exato momento, eu deveria fugir para lugares altos antes que um Tsunami ou terremoto nos atinja. Porque Helena não costuma ser educada com seus funcionários, muito menos comigo, e por mais que a conversa tenha sido breve, ela não desligou na minha cara como sempre faz.
— Pela sua cara, aposto que foi a vaca quem ligou! — a voz de Iris é em deboche.
— Estranho... — murmuro.
— O que é estranho?
— Helena quer conversar comigo. — busco dentro das minhas memórias o que eu possa ter feito de errado, mas não consigo encontrar nada. Hoje, por exemplo, ainda não nos vimos, eu não tive nem a chance de fazer algo de errado.
— O que será que ela quer? — Iris pergunta tão intrigada quanto estou.
— Não faço a mínima ideia... — olho em meu relógio e tomo um susto com o pouco tempo que tenho até chegar à sede da Revista V. — Merda! Iris eu preciso voar. — pego minha bolsa com os equipamentos e rapidamente deposito beijos na superfície de uma das suas bochechas recebendo um pequeno sorriso.
— Lis? — paro de imediato antes de cruzar a porta de saída. — Ainda não terminamos essa conversa.
— Nos vemos na prova do vestido de noiva? — sorrio timidamente em uma tentativa de ignorar a tal conversa que ainda não terminamos.
Iris suspira respondendo-me com um sinal positivo com a cabeça.
Então eu fujo dali, querendo também fugir de Helena, fugir de mim.
~~~
— O que as minhas coisas estão fazendo na sua mesa? — pergunto ao adentrar a sala de Helena que se encontra sentada em sua poltrona. Ao ouvir minha voz ela gira sobre a poltrona e me acerta com seus olhos marcantes. As pernas estão cruzadas expondo a pele de sua coxa pelo detalhe da saia de alfaiataria que está vestindo, ela então sorri à medida que dá a última tragada no cigarro.
— Você está atrasada. — ela levanta da poltrona com verdadeira finesse afundando o cigarro em um cinzeiro de cristal antigo. Caminhando até a caixa de papelão onde estão os objetos que deveriam estar sobre a mesa do meu pequeno cubículo no corredor, ela passa a mão por eles até alcançar um porta-retrato. Ela sorri maquiavelicamente após observá-lo, e então, dirige-se a mim. — Essa é a sua mãe?
— Sobre o que quer conversar Helena? — ignoro sua pergunta sobre a mulher que está no porta-retrato. É uma foto antiga, eu a tirei da minha mãe com a minha primeira câmera profissional. Donna Smoak sempre foi uma mulher deslumbrante, uma musa, eu apenas precisava guardar a sua beleza em algo que não possa ser esquecido, e uma foto é uma dessas lembranças que não podem ser apagadas. Eu levo essa foto para onde quer que eu vá.
Ela ignora minha pergunta, continuando. — Eu fico me perguntando se ela é tão fracassada quanto você. Seria algo de família?
— Não ouse falar assim da minha mãe!
— E por que eu faria isso? Felicity, não seja patética. — ela gargalha.
— Que diabos você tem para falar comigo?
Eu trinco meus dentes.
Não tenho sangue de barata, ouvir Helena tocar no nome da minha mãe fez o sangue das minhas veias subir. Ela está brincando comigo, querendo que eu saia do eixo e a ataque da mesma forma. Helena joga suo, mas nunca precisou utilizar meios tão baixos para me atacar, eu não sei o porquê de ela querer me atingir dessa forma tão cruel. Todos os dias em que eu piso na entrada desse lugar eu sinto que precisarei matar um leão, é difícil ter que estar aqui, ter guardar todas esses ataques para conseguir realizar o meu sonho.
— E o seu pai?
— Você está indo longe demais.
— Ele foi tão fracassado quanto você é?
Sua última pergunta serve como a gota d’água em um copo prestes a transbordar, eu impulsiono minhas pernas para frente a empurrando contra as janelas de vidros frente ao arranha-céu. Helena de imediato arregala os olhos ao sentir a extensão de suas costas batendo contra o vidro gelado, eu a forço para trás mantendo nossos olhos no mesmo campo de visão, enquanto eu tenho a fúria queimando minha íris Helena parece estar se divertindo, porque ela conseguiu. Ela conseguiu me tirar do sério, pois eu estou fazendo exatamente o que quer, forçando meu antebraço na base de seu pescoço ao mesmo tempo em que rosno como um cão raivoso.
— Nunca mais você vai se referir ao meu pai dessa forma. — eu friso cada palavra até compor minha frase, recebendo como resposta outra risada ardilosa sua que se quer se esforça para rebater minhas investidas sobre seu corpo.
— Ele morreu, não é?
— Para de falar do meu pai! — minha voz embarga.
— Sabe Felicity... — sua voz entrecorta devido ao aperto no pescoço. — Eu tenho pena de você. Uma família de tragédias em uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos em que a mãe é uma viúva decadente que ainda sofre a morte de um mecânico falido. Deve ser algo difícil de lidar.
Dou um tapa na face esquerda de Helena arrancando sangue da ponta dos seus lábios, e então, Helena reúne forças para me empurrar. Ao me afastar, mantenho-me atônita pelas palavras fortes que me atingiram como um tiro a queima roupa, há um formigamento que se estende da minha cabeça até os dedos dos meus pés. Isso é a merda de um joguinho com o intuito de me fazer chegar exatamente onde estou, no fundo das lembranças que tanto guardar. Ela poderia ter usado qualquer arma contra mim, não há motivos para essa crueldade, mas eu estava o tempo todo aqui para aguentar tudo o que recebi há tanto tempo, no entanto usar meu pai para implicar comigo é desumano.
— Eu vou acabar com você! — eu grito tão alto que no mesmo instante os seguranças entram pela porta segurando meus braços e me carregando para longe de Helena que continua a sorrir enquanto limpa o sangue que escorre.
— Pronto... Agora eu posso demiti-la por justa causa. — ela volta se sentar sobre a poltrona puxando um documento de dentro da gaveta do lado.
— Não acredito que você foi tão longe para simplesmente me demitir! — me debato entre os braços grandes dos dois homens que permanecem me segurando.
— Eu precisava de algum motivo para demiti-la com classe.
— Eu odeio você Helena! — volto a gritar.
— Você não é a primeira querida e não será a última. — ela dá de ombros.
— Me larguem! — o esforço que faço para me soltar dos dois homens me deixa exausta para continuar. Eu respiro fundo, impedindo que nenhuma lágrima ouse escorregar pelo meu rosto, embora eu esteja quebrada por dentro eu não posso permitir que Helena me veja assim.
— A levem para o RH, eles vão saber o que fazer. — ela ordena aos homens.
— Você não vai conseguir outra profissional tão boa quanto eu! A maioria capas da Revista V foram feitas por mim. — esbravejo.
— A levem daqui agora! — pela primeira vez sinto certa raiva na voz de Helena.
— Você diz que sou uma fracassada, mas você é quem não passa de uma inútil! — infelizmente minhas últimas palavras não conseguem ser ouvidas por Helena, porque a porta se fecha contra nós. Os seguranças continuam me segurando pelos braços enquanto passamos pelo corredor, as pessoas me olham com temor, consigo sentir a dor que sentem por me verem nesse estado. E à medida que esperamos as portas do elevador se abrirem eu permito que as lágrimas escorreguem pelo meu rosto, e assim que as portas se abrem me deparo com Erick pronto para sair.
— Felicity? — ele se assusta a me ver.
— Erick! — abaixo minha cabeça, e agora as lágrimas parecem escorrer como um riacho.
— Soltem ela! — ele ordena os seguranças que assentem.
— O que aconteceu minha querida? — ele pergunta me levando para a sacada do andar que estamos, há um pequeno jardim e nos dá a visão perfeita da cidade.
— Helena... Ela me demitiu.
— Por que ela fez isso?
— Ela me odeia.
— Tem que haver algum motivo, Felicity! Ninguém odeia uma pessoa por nada.
— Não há motivos, ela faz isso com todos os funcionários. Parece que ela se diverte nos tratando como escravos, pode ser um tipo de hobbie. Mas chega, ela foi longe demais, me fez ir longe demais.
— Tudo bem, já passou. Apenas pare de chorar, eu não aguento vê-la assim... Estou aqui e ninguém tocará se quer um dedo em você novamente. — a voz terna de Erick consegue me acalmar, estou tentando engolir as lágrimas que continuam insistindo em descer, eu as odeio, não suporto demonstrar minhas fragilidades. Há tempos com Erick ele nunca me viu assim, dessa forma tão entregue aos meus sentimentos. Mas não consigo frear toda a dor que Helena trouxe a tona, lembrar do meu pai não é algo que traga apenas lembranças felizes, eu o perdi muito cedo. Dizem que os pais esperam seus filhos crescerem para darem o seu “adeus”, mas eu não estava preparada para algo tão súbito. Ele sofreu um câncer no pulmão que deu metástase para os demais órgãos, eu passei a ajudá-lo com a oficina e aprendi muito, todos os dias ele tentava me manter longe das dificuldades, parecia que estava tudo bem, mas não estava. Ele veio a falecer três meses após a descoberta da doença, e suas últimas palavras nunca sairão da minha cabeça, elas diziam para continuar a trilhar meus caminhos mesmo que aparecessem obstáculos a frente, porque eles só estariam ali para me deixar mais forte. E somente assim eu conseguiria alcançar os meus sonhos.
— Desculpa... — sussurro.
— Não há pelo que se desculpar, querida. — os braços de Erick me apertam contra o seu corpo.
— É que...
— Não precise argumentar, está tudo sobre controle. Eu lhe darei todo o apoio que precisar... Tenho dinheiro o suficiente para nós dois. Sempre a disse que essa ideia de emprego não daria em nada, que não precisava dessas migalhas.
Não.
Se já não bastasse o caminhão de bosta em que me encontro, Erick começará novamente com seu discurso diplomático que eu, como a primeira dama, não deveria me submeter a um trabalho digno.
— Não vamos começar com esse assunto! — empurro seu corpo de perto do meu, caminhando para próximo das flores do pequeno jardim.
— Como não Felicity? Eu preciso que você cumpra com algumas responsabilidades e permanecer com esse emprego não está nos planos.
— Planos? Que tipo de planos?
Minha pergunta faz com que Erick pense um pouco antes de responder, o que me faz estranhar momentaneamente. Ele suspira abraçando-me por trás, os braços me giram mantendo-nos de frente um para o outro, os lábios encostam os meus ligeiramente se molhando com as lágrimas estagnadas sobre eles. Em contrapartida, eu não consigo sentir empatia, não é como antes em que eu apenas aceitava o seu toque me acalentando. Desta vez é como se eu estivesse sendo abraçada por algum estranho, o que me faz querer voltar a empurrá-lo, distanciá-lo o mais rápido possível.
— Esqueça meu amor, não é algo com que tenha que se preocupar...
— Chega Erick! — a palma das minhas mãos o distancia, e por incrível que pareça, sinto um grande alívio. E essa tranquilidade se assemelha ao que recebi dos músculos reconfortantes de Oliver me abraçando de baixo do chuveiro sem que eu ao menos o pedisse, ele disse que estava aconchegando seu corpo no meu porque sentiu que eu precisava assim como estou precisando agora. A grande merda é que estou fazendo o que prometi não fazer, pensar nele como uma adolescente boba. Comparando o homem que vou me casar a poucos dias com alguém que não suporto.
Possivelmente Helena tenha razão.
Talvez eu seja uma fracassada.
— O que está dizendo? — ele pergunta assustado.
— Eu não aguento quando você deixa de me falar as coisas, de quando você não faz o mínimo esforço para me entender. Não estou nesse lugar porque eu gosto, Helena nunca foi educada comigo, ela me mandava fazer coisas que eram funções de uma secretária qualquer. — suspiro. — Eu sou muito maior do que isso, muito maior do que uma simples “primeira dama”, não vou me esconder atrás da sua sombra quando posso provar o quanto sou grande. Engoli sapos aqui dentro tempo demais, não vai ser a assinatura de uma mulherzinha que vai voltar a me camuflar, entendeu?
— Não fale assim comigo. — Erick meneia a cabeça voltando a se aproximar, mas dou passos para trás, não vou conseguir ceder ao seu toque. Não agora.
— Você ainda quer se casar comigo?
— É claro, meu amor!
Ele reage temeroso.
— Então repense as merdas que você falou e não me procure essa noite.
— Felicity! — ele segura fortemente o meu pulso.
— Não torne as coisas mais difíceis.
Após soltar meu pulso, apenas vou embora.
“Nada é mais difícil e, portanto, tão precioso, do que ser capaz de decidir.”
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