Neighbors

2 Capítulo 1 - Should I Stay or Should I Go?


Notas iniciais
Bom dia, meninas! Então, eu sei que estou em dívida em "Recomeçar", mas em minha defesa se tratando de um último capítulo eu preciso tentar dar o meu melhor. E como estamos em plena semana de Carnavrau, eu não ando tendo tanto tempo para me dedicar! (O capítulo está na metade, logo postarei), e aí eu decidi postar essa Fic que tem uns bons capítulos encaminhados. Enfim! Quero agradecer a minha linda Sophie River pela recomendação e dizer que eu fico imensamente feliz! Obrigada, minha querida! ♥.♥ Irei responder aos primeiros comentários, são importantes para o andamento da história. Sem mais delongas, boa leitura. ♥

"Querida, você tem que me dizer

Devo ficar ou devo ir?

Se você disser que você é minha,

Eu ficarei aqui até o fim dos tempos.

Então você tem que me dizer,

Devo ficar ou devo ir?

Sempre me provocando,

Você fica feliz quando estou de joelhos.

Um dia é ótimo, outro é péssimo.

Então se você me quer longe de você.

Bem, ande logo e me diga.

Devo ficar ou devo ir?"

Should I Stay or Should I Go? — (The Clash)

Oliver Queen

Nova Iorque é uma das metrópoles mais populosas dos Estados Unidos, digamos que tudo por aqui costuma ser ensurdecedor. Há luzes para todos os lados, as pessoas andam com pressa pelas ruas não se importando se estão passando por cima das outras, elas apenas precisam alcançar seus objetivos. Eu gosto de me referir a Nova Iorque como a cidade que nunca dorme, você pode estar precisando de qualquer coisa, não importa, é só você sair pela porta de seu prédio, entrar no primeiro beco iluminado que estiver em seu campo de visão, e pronto, encontrará o que procura.

Os pubs são ótimos, sempre bem movimentados e com pessoas disponíveis para uma boa conversa. Os drinks são perfeitos, não são fortes ou enjoativos, sem falar sobre as músicas, elas são perfeitas para dançar.

Mas esse caos chega a me perturbar algumas vezes, mesmo sendo um nova iorquino de carteirinha devo confessar que meus miolos precisam de uma calmaria por certos momentos. Então, eu venho para cá onde eu classifiquei ser o meu refúgio. A vista é maravilhosa, eu consigo enxergar a Times Square ainda apagada como o final de um filme indicado inúmeras vezes ao Oscar, sendo abordada pelo nascer do sol que indica que mais um dia está chegando a nós. O alaranjado do céu contrasta perfeitamente aos raios solares, montando uma paisagem magnífica.

Este é o “telhado” de nosso prédio, mas não um telhado como os outros. Ele é arborizado, tem um pequeno jardim nas laterais que é mantido pelos próprios moradores. Também há um pequeno sofá encostado de baixo de uma marquise, ele é confortável e consegue me fazer pegar ao sono quando estou pregado pela insensível insônia. Eu não costumo trazer mulheres para cá, porque além de ser um pouco público demais, eu gosto de ter aqui como um lugar sagrado, longe de sêmen, preservativos usados, e claro, garrafas de cerveja vazias.

— Não acredito que você é a primeira pessoa que vejo no início do meu dia!

Felicity está enrolada em um roupão de vovó segurando uma xícara de café.

— Então posso garanti-la que terá um belo dia. — dou de ombros.

— Você não cansa de desfilar praticamente nu pelo prédio?

Ela deve estar se referindo a minha cueca Box estampada.

Hoje a estampa é dos Simpsons.

Uma de minhas preferidas.

— Espera aí... Foi você quem colocou uma folha impressa com o código penal sobre ultraje público ao pudor presa a minha porta? — pergunto incrédulo.

— Não somos obrigados a ver tudo isso...

Seus olhos caem pelo meu abdômen desnudo, deixando com que sua voz fraqueje certo instante. Eu gostaria de rir, normalmente Felicity deixa escapar uma de suas pérolas enquanto está comigo, ela não pensa sobre o que vai dizer, apenas diz. Depois suas bochechas coram imediatamente a deixando com vontade de enfiar sua cabeça no primeiro buraco que encontrar. Geralmente essas pérolas têm um duplo sentido que a deixa adorável.

Dito e feito, suas bochechas estão corando agora.

— Infelizmente... Eu sinto muito calor. — pego a xícara de café que está em suas mãos.

— E o que nós moradores temos a ver com isso? — ela rebate minha imposição. — Devolve o meu café!

Tomo um gole de seu café e o mesmo me faz estremecer.

— O que você tem contra o açúcar? Isso está tão amargo quanto você nessa manhã.

— Você diz isso todas as vezes que rouba o meu café. — ela o toma de minha mão.

— É um hábito e você nunca aprende.

— Cale a boca...

— Mas eu vou ficar com isso. — volto a pegar sua xícara caminhando para as escadas.

— Eu já disse que não o suporto?

Ela grita para mim sem tirar seus pés do chão para me seguir.

É engraçado, praticamente todas as minhas manhãs são assim.

— Essa é a quinquagésima vez... — meneio a cabeça enquanto ingiro o café amargo.

— Gostaria de enforca-lo por isso.

Ainda distante certos metros consigo sentir o quanto está bufando. Quando disse que isso é um hábito é porque realmente é, eu tomo seu café amargo não porque quero e sim por conta de minha cafeteira estar quebrada. Falo algumas banalidades que a deixa pasma e saio rapidamente a deixando para trás exatamente como agora, expelindo ar pelas ventas, com as bochechas coradas e milhares de palavrões presos à garganta.

— Tenha um belo dia vizinha!

Aceno antes de desaparecer de nosso telhado.

— E que você tenha um péssimo dia, vizinho! — ela retruca o mais alto que consegue para que eu possa ouvir.

E é assim que começa o meu dia.

Meu nome é Oliver Jonas Queen, eu quase nunca utilizo o meu nome do meio. Quero dizer, minha mãe costumava gritá-lo pelos quatro cantos quando estava com o capeta em seu corpo.

Tenho trinta e seis anos de idade e exerço uma das profissões mais idealizadas por todos. Eu sou Médico Veterinário, atendo em uma clínica particular que tem o meu nome no outdoor e as horas do meu dia são todas concentradas para os meus pacientes de quatro patas. Após cumprir a carga horária em relação às consultas particulares, minha secretária abre vagas para a ala beneficente onde eu atendo pacientes que não têm condições de pagar uma consulta particular.

É uma das horas que mais me realizo no meu trabalho, posso não ganhar muito com isso, mas fazer o bem aos que nunca fariam mal a nós é gratificante.

— Sara o que temos para hoje?

— A senhora Renault está te esperando em seu consultório.

— Mas ela esteve aqui semana passada... — murmuro confuso.

— E na retrasada também. — Sara contém uma risada. — Ela é louca Ollie, só vem aqui para ganhar alguns minutos do seu tempo precioso.

— Não fale isso, ela é apenas uma senhora de idade!

— Uma senhora de idade muito safadinha que quer agarrar um certo Doutor Queen. — ela ironiza.

— Isso é intragável, Sara.

— Vá trabalhar e dance como um Gogoboy para a senhorinha!

Eca.

Após tirar de minha cabeça as imagens embaraçosas que surgiram, assinto a sua ordem.

Sara Lance é minha secretária, ela separa as planilhas, as transfere para um sistema mais tecnológico e mantém toda a minha bagunça organizada. Ela tem tributos interessantes, seu cabelo é um loiro aberto e os fios são alongados chegando até o início de sua bunda redonda.

Um dia qualquer Sara me perguntou qual a parte de seu corpo que eu mais achava encantadora... Eu respondi que seus olhos azuis eram espetaculares, ganhei um sorriso de uma orelha à outra, mas no fundo de minha alma pecaminosa eu queria dizer que seus seios em formato de limões e sua bunda eram perfeitos, porém eu iria ganhar uma bofetada em uma das minhas faces ao invés de um receptivo sorriso.

— Bom dia, senhora Renault!

Ao entrar em meu consultório, avisto a senhorinha segurando sua bengala em uma das mãos enquanto brinca com seu Chihuahua.

— Olá meu rapaz! — seus olhos verificam toda a extensão de meu corpo coberto pelo jaleco branco.

Um calafrio sobe das extremidades dos meus pés até o último fio de meus cabelos curtos.

— Esse garotão está se sentindo mal? Na última semana ele não apresentava nada além de uma autentica saúde.

— Frederico começou a tossir na noite anterior, fiquei preocupada!

— Entendo...

Ergo o pequeno cão em miniatura até a mesa metálica a minha frente. Os olhos da senhora não saem de meus movimentos, ela averigua tudo o que estou fazendo com bastante atenção, deixando-me um pouco desconfortável. O estetoscópio desliza de minhas mãos até o tórax pequeno de Fred, e ao auscultar não vejo nenhum som de secreção, seu focinho também não apresenta coriza e ao estimular a tosse não há corrimento.

Ou seja, a velhinha não está aqui pelo seu cãozinho.

Desastradamente deixo com que o estetoscópio caia de minha mão, para meu azar, ao me levantar a senhora com seu corpo musculoso se joga para cima de mim, empurrando meu corpo encima da poltrona. Assustado deixo com que minhas mãos segurem sua cintura impedindo que seu corpo se incline até minha boca, ela está forçando seus lábios na direção dos meus.

— Sai vovó!

— Você é um garoto mal...

Sara tinha razão, essa velha é uma tarada.

Tommy havia dito que tinha sofrido assédio de uma senhora em uma de suas consultas, eu só não esperava que isso fosse verdade. Afinal de contas, Tommy tem um gosto exótico para mulheres, eu não iria estranhar se tivesse comido a velhinha.

Tem garotos que preferem leite em pó.

Não é o meu caso.

— Eu não quero machuca-la senhora Renault.

— Meu sonho era pegar em sua bengala, meu garoto. — sinto sua mão apertar meu pau sobre minhas calças.

Que horror.

Estou sendo bolinado por uma senhora de setenta anos de idade.

— Tire a mão daí.

Levanto rapidamente da poltrona com a intenção de retirá-la de cima de mim, mas a velha está grudada em meu torso como um bicho preguiça. Meu estômago quer revirar com o cheiro enjoativo que está vindo de sua colônia, eu gostaria de vomitar nesse exato instante.

— Essa bengala é grande. — a velha gargalha depois de me apalpar.

— Socorro!

Grito em direção à porta para que alguém venha me socorrer, eu sei que isso é vergonhoso, mas essa coroa está apertando meu pescoço contra sua pele flácida tirando as forças que tenho para arrancá-la de mim.

Isso é o ápice do meu fracasso.

Tommy aparece de repente na porta de meu consultório, ele encosta sob a coluna da porta e cruza os braços, divertindo-se da cena que está assistindo.

— Eu lhe disse que essa velha era uma tarada...

— Apenas tire ela de cima de mim!

— Está tão gostoso aqui... — a senhora continua passando suas mãos de minha nuca até meu cabelo, apertando meu rosto contra seus seios.

— O que está acontecendo aqui? — Sara pergunta espantada ao se deparar com a cena.

— Por tudo o que é mais sagrado, tire essa senhora de cima de mim! — grito exausto.

— Senhora Renault contenha-se! — as mãos de Sara puxam o quadril da senhora para si, retirando-a de cima de meu corpo. Seus braços ainda estão entrelaçados em minha nuca impedindo que eu me veja livre, sem contar os gritos que saem de sua boca atraindo a atenção das pessoas que esperam pela próxima consulta.

Tommy está rindo como uma hiena.

Eu quero mata-lo.

— Eu não curto a terceira idade vovó! — arremesso o corpo da senhora para longe do meu. É impressionante como essa briga me cansou.

— Venha, eu vou leva-la para tomar um ar!

Sara pega a guia de Fred que está escondido de baixo da mesa assustado e rapidamente vai guiando a senhora para longe de meu consultório. Ela está gritando para as outras pessoas que eu a ataquei, que tentei retirar sua inocência.

Inocência?

Essa velha deve ter pedido a ingenuidade antes de Cristo, isso não é problema meu.

— Eu vou esclarecer aos tutores o que realmente aconteceu. — Tommy se debulhando em risadas deixa o consultório.

— Por favor. — respirando fundo, deixo com que meu corpo desabe sobre a poltrona.

Depois de algum tempo, Tommy surge pela porta novamente. Ele está com um sorriso idiota em seus lábios se preparando para tirar sarro da minha cara.

— Alguém já te disse aquela frase: “Quem avisa amigo é?”

— Você sempre teve fetiches exóticos, como eu iria acreditar que não era “O maníaco das velhinhas”?

— Você é nojento, Ollie!

Ele meneia a cabeça para ambos os lados.

— Eu sou nojento? Essa velha apertou o meu pau! Ela quem é a nojenta aqui. — suspiro longamente.

— Enfim. — ele cessa a risada mudando de assunto.

— Só um instante...

Minhas vísceras ainda estão revirando em meu estômago, o cheiro da colônia da senhora ainda está preso a minhas narinas fazendo com que meu suco gástrico ácido suba pela minha garganta. É impossível impedir que todo meu café da manhã seja jorrado no chão ao meu lado, e então, sou tomado por uma sensação de alívio sobrenatural.

— Homem de Deus... — Tommy se afasta prontamente de mim.

— Eu precisava disso.

Estou com asco de mim mesmo.

— Cara, foca em mim! — ele chama minha atenção. — The Irish pub amanhã à noite com muita cerveja e calcinhas comestíveis, topa?

Rio de sua menção às calcinhas comestíveis. — Um soldado não foge de uma guerra.

— Não se ele for americano! — Tommy me dirige uma piscadela.

— Isso aí.

— Agora vamos ao trabalho seu “Comedor de velhinhas”!

Ele solta a piadinha de mau gosto antes de sumir de minha frente.

— Otário! — grito para que ouça no consultório ao lado.

Tommy é um parceiro de faculdade, nos formamos na mesma época, mas o destino fez com que seguíssemos caminhos diferentes. Ele conseguiu um emprego em Los Angeles onde ficou alguns anos até ter sido pego pelas câmeras da clínica transando com uma boneca inflável. Acredito que o proprietário era cristão e deve ter achado a atitude do meu amigo imperdoável, Tomas Merlyn foi despedido no mesmo dia. Eu não poderia deixar um amigo desempregado, então o convidei para trabalharmos juntos, ele é bom no que faz e há anos nunca me deu problema algum, pelo contrário, somos praticamente melhores amigos.

Exceto quando eu quero mata-lo.

Tipo agora.

~~~

Felicity Smoak

“Então posso garanti-la que terá um belo dia.”

Como ter um belo dia se a primeira paisagem que avisto é de meu vizinho infernal?

Ele sempre está lá com seu corpo esculpido pelos deuses desfilando pelo meu telhado sem nenhum pudor com os demais moradores, como se ali fosse o seu território. Eu poderia apostar que urina nas pilastras do prédio assim como a sua bola de pêlos faz quando fica solta pelos corredores do condomínio.

Oliver Queen consegue me tirar do sério logo pela manhã, mas se já não bastasse sua presença ilustre, ele não é o único responsável por tornar meu dia uma grande bosta. Além de ter que acordar tão cedo deixando para trás meus lençóis tão macios, eu tenho que enfrentar o frio que faz lá fora, porque os rapazes que cuidam do lixo de nosso prédio não fazem seu trabalho como deveriam.

Nós mesmos que temos que levar as bolsas de lixo até a caçamba como estou fazendo agora, meu roupão de algodão é a única peça de roupa mais confortável que me defende da brisa fria que bate contra meu corpo. A caçamba de ferro é alguns metros mais alta do que eu o que faz com que eu tenha que pegar um tremendo impulso para arremessa-la para dentro, muitas vezes consegui fazer com que a bolsa rasgasse sobre mim em uma tentativa falha, tendo que suportar a risada irônica da vizinha do 340 gargalhando como uma Lhama.

— Uma loirinha tão gostosa como você deveria ser um crime...

Escuto essa frase de dois em dois dias na semana, Cedric faz meu estômago revirar cada vez que surge com uma cantada baixa sobre meu corpo.

Sua voz rouca pelo cigarro e bebidas é pavorosa.

— Cedric, me deixe em paz!

— Eu sou a paz que você precisa. — ele arremessa a guimba de cigarro próxima aos meus pés.

Preciso me mudar o mais rápido possível.

É só o que passa pela minha cabeça em situações como essas.

Eu poderia criar uma lista de como os meus dias são arruinados por eu simplesmente abrir meus olhos assim que acordo. Porque somente em abrir meus olhos eu dou de cara com meu vizinho praticamente nu desfilando pelo meu telhado, sem contar o frio que tenho de enfrentar tendo que descer com minhas próprias pernas mais dez lances de escadas para arremessar sacos de lixo pesados em uma caçamba duas vezes mais alta do que eu. Ah, e tem as cantadas nojentas que saem da boca de um desconhecido que acha que tem liberdades comigo. E para fechar essa lista que classifiquei como interminável, meu chuveiro quebrou a resistência no início do mês, ou seja, tenho que enfrentar a água fria se chocar contra a pele quente de meu corpo.

Isso é apenas uma amostra grátis do que espero para o restante do meu dia.

Só o que me faz relaxar é o café da manhã em que posso comer meu cereal preferido com um pouco de leite quente. Eu tenho inúmeras caixas dentro de meu armário armazenadas, porque em minha cabeça eu devo sempre estar preparada para um possível final do mundo ou uma invasão zumbi.

— Pare de olhar, mocinha! — ordeno a Polly, minha Labradora, para que pare de me vigiar enquanto como meu cereal. Polly coloca as patinhas na frente de seus olhinhos tentando me fazer charme, mas não há nada que faça com que eu divida meu cereal com ela.

A porta principal se abre e de sua direção vem uma voz conhecida.

— Bom dia flor do dia!

Caitlin está com seu ar jovial adentrando meu apartamento, seu cheiro de panquecas embriaga todo o lugar, fazendo-me suspirar somente em sentir o gosto açucarado em minha boca.

— Como conseguiu as chaves do meu apartamento? — pergunto intrigada.

— Alguém a esqueceu presa do lado de fora! — Caitlin arremessa o molho de chaves sobre minha mesa. Ela estica suas mãos pegando meu pote de cereais.

— Minha cabeça está uma bagunça! — bufo. — Tem como você devolver os meus cereais? O que fazem vocês pensarem que podem ter essa liberdade comigo?

— Você sabe que o que dizem na embalagem desses cereais é uma grande mentira, não é? Há tanto açúcar nisso quanto há em uma panela de brigadeiro!

— Não me importo.

— Quer uma carona? Estou indo em direção à prisão que é o seu emprego! — Caitlin zomba ao ingerir colheradas de meu cereal.

— Helena precisa de mim apenas na parte da tarde. — levanto do banco que estou sentada para organizar a montanha de louça que se formou em minha pia. — E não fale assim do meu emprego, é através dele que pago minhas contas, não tenho do que reclamar...

— Mentira! Você odeia aquele lugar, Felicity...

Tá, Caitlin tem certa parcela de razão, eu odeio aquele lugar com todas as minhas forças. Não porque é um lugar negativo, mas sim porque tenho a pior chefe de toda Nova Iorque, Helena pode fazer muito bem o seu trabalho em comandar uma das maiores indústrias de modelos de toda a metrópole, mas é só isso que sabe fazer com propriedade, pois atrás dela estou eu quem organiza as papeladas, quem fotografa as mulheres mais lindas e magérrimas que já vi em toda minha vida. No final, Helena apenas dá às ordens ganhando todos os holofotes para ela, pouco se importando para nós meros mortais.

— Eu não tenho saída.

— Você tem milhares de saídas, apenas não quer reconhecer. — a sabichona após lamber o pote de cerais o joga dentro de minha pia. — Nossa você precisa dar um jeito nisso. — ela se refere à quantidade de copos e pratos.

— Não comece com esse assunto de novo, Caitlin! — ando pelo meu apartamento afastando a bagunça que Polly fez por todo canto, alcançando a maçaneta. — Você está atrasada.

— Você é sempre tão sutil? — ela ri se aproximando da porta.

— Só quando tenho minha melhor amiga espaçosa em meu apartamento! — dou de ombros.

— Tudo bem, você tem toda razão. Estou atrasada. — os braços aconchegantes abraçam minha cintura por breves segundos à medida que encosta seus finos lábios na base de minha testa. — Nos vemos amanhã à noite.

— Amanhã à noite? — franzo meu cenho.

— Sua despedida de solteira no The Irish pub. Combinamos isso desde o mês passado, não venha dar para traz justamente agora!

A voz de Caitlin é frustrada.

Porque a verdade é que por mais que nos entendamos há anos eu nunca fui uma amiga “vamos” como Iris ou Nyssa, eu sempre preferi ter a segurança que precisava para aceitar qualquer tipo de convite, então posso dizer que sou a amiga “preciso pensar”. E eu me arrependo profundamente por ter topado essa loucura de despedida de solteira, Erick não é um homem como os outros, ele costuma seguir uma linha impecável e para estar ao seu lado devo evitar vexames.

Digamos que o álcool tem certo poder sobre mim.

Mas se eu não concordar em embarcar nessa loucura com Caitlin, Iris e Nyssa, talvez eu tenha sete anos de azar.

— Estou dentro! — envergo meus ombros para dentro forçando um sorriso animado para Caitlin, ela sabe o quanto estou desconfortável com a ideia, mas pouco se importa.

Uhul... A tequila que nos espere! — animada ela manda um beijo no ar para mim que a me ver pegá-lo some pela porta atrás de si.

Isso não irá dar certo.

Ao me voltar para o meu apartamento, a visão de toda bagunça me faz ter que concordar com Caitlin, preciso dar um jeito nisso.

As horas em Nova Iorque passam tão rápido como em um piscar de olhos, a faxina que dei em cada partícula de meu apartamento me deixou exausta e acabou de provar que aqui as horas voam como um passe de mágica. O relógio pregado em minha parede me mostra que em menos de duas horas estarei atrasada para chegar a cede da Revista V, onde Helena Bertinelli irá estar me esperando com suas unhas afiadas sedentas para arrancar cabeças.

Deparo-me então que estou suada como quem correu uma maratona e sem meu almoço de cada dia. Mas não importa, terei que aguentar meu estômago resmungar até que eu tenha um horário em minha agenda para respirar um pouco, claro, se Helena não me matar antes de disso.

Então o próximo passo é o chuveiro com sua água fria novamente, na maioria das vezes eu gosto de apreciar um banho, deixar com que a água passeie por cada parte de meu corpo enquanto o macio sabonete líquido desliza pela minha pele dourada. Porém estou atrasada e tudo o que posso fazer é tomar um banho rápido, e também tem o meu closet que está com suas portas quase explodindo contra mim, eu não vou mentir que gosto de me vestir bem, afinal de contas eu trabalho em uma das empresas de moda mais valorizadas de Nova Iorque.

O meu estilo é um pouco desleixado, mas eu o adoro, calças jeans rasgadas e uma blusa branca com mangas dobradas são os meus uniformes, sem contar a jaqueta de couro para dar um toque final ao look. Pronto, estou arrumada, meus equipamentos de fotografia de marcas importantes estão em minha bolsa e é tudo o que preciso para que meu trabalho seja colocado em prática. No entanto hoje não é um dia normal como os outros, meu carro está no mecânico para trocar os pneus, logo o que me resta é ter que enfrentar o metrô da cidade. Eu poderia tentar um taxi, mas o caos me faria atrasar alguns minutos que contribuiriam para uma possível morte minha.

A viagem é conturbada, o metrô é bem cheio e as pessoas esbarram em você sem ao menos se desculparem. Os nova iorquinos não tem essa preocupação, não que sejam mal educados, mas eles apenas não se importam. A viagem costuma ser “longa”, mas eu não costumo desistir tão facilmente, e andando quase com meus pés atropelando uns aos outros avisto o prédio que trabalho, há mais de sessenta andares de puro luxo.

— Está atrasada! — Helena Bertinelli passa por mim como um trator arremessando seu sobretudo sobre minha mesa impecavelmente organizada.

Assim como “O diabo veste prada” Helena é um tipo de Miranda Priestly só que mais diabólico, a diferença do filme para minha vida real é que não sou sua assistente. Meu cargo é muito mais acima, sou uma fotografa renomada, já fui responsável por edições com Jeniffer Lopez, Drew Barrymore e Kate Moss nas capas. Eu mereço pelo menos um pouco mais de respeito.

— Tive problemas no metrô... — a acompanho até sua sala sofisticada.

Tive problemas no metrô uma ova!

Estou atrasada apenas no relógio dessa louca, porque no meu eu estou até alguns minutos adiantada.

— Me poupe de suas desculpas senhorita Smoak, não sou seu diário pessoal! — a mulher intragável tão magra quanto um dedo mindinho senta sobre sua poltrona, colocando seus óculos de graus à medida que mexe em seu tablet.

Engulo a seco seu desdém.

— No que poderia ajudá-la, Helena?

Ela suspira abaixando seus óculos até a linha mediada de seu fino nariz, olhando-me de cima a baixo com seus olhos azuis macabros.

— Eu precisava de alguém para ir buscar meu almoço naquele restaure vegano que abriu a poucas quadras... Você foi a primeira pessoa que surgiu em minha cabeça! — um sorriso surge nas pontas dos lábios de Helena, ela deve estar sentindo o cheiro de meus miolos borbulharem dentro da minha cabeça.

Não é possível.

Essa mulher me fez cruzar a cidade às pressas para ir buscar seu almoço em um maldito restaurante vegano?

Tive de enfrentar pessoas amassarem minhas roupas, passarem por cima de meu Oxford graxeado sem que eu pudesse retrucar, só para eu estar aqui no horário determinado. Isso não é justo para uma profissional do meu gabarito, se não fossem minhas perspectivas de crescimento dentro dessa empresa eu juro que iria embora após cuspir dentro do café da Starbucks preferido de Helena.

Felicity você apenas precisa respirar fundo e entender que é muito superior do que isso.

Um.

Dois.

Três.

— Senhorita Bertinelli, há mais algo que possa fazer? — minha ironia grita pelos meus olhos, em minha defesa, eu não posso me conter.

E ela sabe disso.

Estamos jogando uma com a outra.

— É só isso... Após buscar meu almoço, está dispensada! — seus dentes afiados e reluzentes são postos para fora em um sorriso vencedor.

Antes que eu possa engolir todos os palavrões que gostaria de por para fora na cara dessa mulher intragável e sumir daqui, ela pigarreia chamando minha atenção.

Helena continua com seu ar superior. — Para a futura noiva do atual prefeito de Nova Iorque você precisa melhorar essas roupas, minha querida!

Estou contando até três mais uma vez.

— Irei pensar nisso. — forço um sorriso cortês até sair completamente da cova da leoa.

Eu odeio.

Odeio quando me intitulam a futura noiva de Erick Dallas o atual prefeito de Nova Iorque.

Eu estou pouco me importando com o cargo que Erick tem, eu o conheci em um almoço beneficente para crianças portadores de câncer, eu não sabia quem ele era e muito menos que tinha um cargo tão importante. Apenas conversamos poucos minutos e o seu eito galanteador me impressionou, sempre tão cordial e passivo me fez confiar em suas palavras, e somente então, eu descobri sobre seu cargo como prefeito. A partir dali o acompanhei em vários comícios, festas de caridade e outros lugares que essas presenças imponentes costumam comparecer.

Um grande tédio para mim.

Erick é um bom homem, ele não se importa com minha forma de vestir, como me porto em relação às outras pessoas e muito menos o local em que moro. Ele me aceita como sou e isso me faz querer tê-lo por perto, me sinto confortável com sua presença ao meu lado.

Mas me rotularem como “primeira dama” realmente consegue me tirar dos eixos.

Como agora.

~~~

Oliver Queen

A noite está nos dando as boas-vindas e não posso negar que foi um dia cansativo. As consultas pareciam intermináveis, sem contar com a quantidade de pacientes que tive que consultar da ala beneficente, eles pareciam brotar do chão como raízes de árvores. Estou completamente exausto e tudo que preciso agora é de um banho quente e minha cama macia só para mim.

Mas toques exasperados são dados em minha porta assim que desabo sobre meu sofá, eu gostaria de ignorá-los, mas a voz conhecida de Felicity me faz despertar. Além dos murros que continuam a serem dados em minha porta, se eu não levantar desse sofá imediatamente eu não precisarei mais abri-la, porque ela virá ao chão.

— O que você quer? Que eu mate uma barata? — pergunto sem papas na língua ao abrir a porta.

Seus olhos estão arregalados para mim, suas pernas parecem trêmulas não deixando com que seus pés fiquem firmes no chão. Eu poderia dizer que Felicity está com os nervos à flor da pele e quando isso acontece não parece ser algo simples, permitindo com que eu me arrependa brevemente pela brincadeira que fiz há poucos segundos.

— Polly não está bem!

— Merda...

Passo pela porta indo em direção ao apartamento de Felicity e Buggy nos acompanha. Ao adentrá-lo, Polly está deitada em sua cama aconchegante. Ela abana seu rabo para mim em cumprimento, arrancando-me um sorriso breve. Assobio para ela que com dificuldade caminha até mim, sua cabeça roça minhas pernas e seu rabo continua balançando alegremente, porém sua animação não é pela minha presença. Buggy, meu Golden Retriver, é o responsável por essa animação, mas antes de deixa-los se divertirem a examino rapidamente.

— O que ela tem? — Felicity pergunta tentando acalmar seu desespero.

— Não é nada... O peso do leite deve estar impedindo os movimentos, nada além disso.

Rio após liberar Polly para brincar com Buggy.

— Isso é culpa desse seu cachorro abusado, ele vive andando pelos corredores!

Agora eu tenho de volta minha vizinha de voz irritante colocando toda a culpa sobre minhas costas.

— Buggy não tem mais as bolas antes que Polly ficasse prenha, não o culpe. — sento sobre o confortável sofá de Felicity, descansado meus pés sobre a mesa de centro.

— Você tem como me provar isso? — ela cruza seus braços em minha direção, espremendo seus olhos.

Felicity é linda.

Insuportável.

Mas detestavelmente linda.

— Quer mesmo brigar comigo? Isso é culpa do 504. — busco o controle da TV. — Tem cervejas em sua geladeira?

Felicity me dirige seu olhar matador.

Eu gostaria de rir.

Que se foda.

Deixo uma gargalhada escapar de meus lábios.

— Saia do meu sofá e tire esses seus pés imundos da minha mesa! — ela empurra meu corpo pesado para fora de seu sofá, não conseguindo, desiste sentando ao meu lado.

— Dia ruim? — pergunto ao notar uma leve ruga entre suas sobrancelhas. Felicity pode ser uma máquina destrutiva de vizinhos, vulgo Oliver Queen, vulgo eu, mas ela sempre tem um semblante descansado. Não é como estar agora, há algo a incomodando.

Não que eu me importe.

Não estou me importando não.

— Não é da sua conta! — ela suspira sem trocar um só olhar comigo.

— Tudo bem... Não está mais aqui quem falou. — antes de me levantar, avisto uma montanha de revistas de casamento sobre a mesa. — Você ainda não desistiu dessa história de se casar com o almofadinha?

— Não se refira a Erick dessa forma. — as palmas de suas mãos estão me empurrando em direção à porta. Isso significa que não há nenhuma chance de cervejas geladas e assistir ao jogo de beisebol em seu confortável sofá.

— E como você quer que eu me refira a ele?

— Como meu noivo!

Felicity me guia até o limite de sua porta, as palmas de suas mãos estão descansadas em meu peitoral largo sem que ela perceba. É notável o calor que elas transferem para cada célula de meu corpo, me dando a vontade de encurralá-la na primeira parede que eu encontrar e tirar toda essa tensão que a envolve diariamente.

— Depois de exatos três meses você ainda continua se iludindo? — um passo meu é capaz de deixar com que minha respiração pesada se misture a sua. O cheiro de Felicity é um doce suave que embriaga minhas narinas sempre que passa pelos corredores. Nossos olhares estão pregados um no outro, eu nunca estive tão perto assim. — O amor é uma besteira, baby!

Pronto.

Os olhos de Felicity fraquejam em cima dos meus, ela engole a seco sua respiração que se tornara acelerada conseguindo forças nas palmas de suas para voltarem a me empurrar para fora.

— Não me chame de baby, é horrível. Você é horrível, sua voz é horrível, seu peitoral é horrível... — ela pausa suas palavras antes que elas a compliquem.

Eu estou rindo divertidamente.

— Isso é um “Boa noite”?

— Interprete como bem entender, Queen!

A porta se fecha na minha cara.

Forte.

Encosto a superfície de minha testa sobre a madeira lisa da porta, contendo ainda o riso em minha boca, e assim, faço um sinal de comando para que Buggy me acompanhe.

— Que mulherzinha... — sussurro à medida que caminho de volta para meu apartamento.

Jesus Cristo.

Estou tão duro.

O que me faz pensar que a noite será dolorida e o banho frio não vai amenizar.

Notas finais
EITA PAINHO! HAHAHAHAHA *fuego* Bom, os capítulos não serão muito longos... Esse foi mais para conhecermos como será daqui em diante. Eu tentarei postar de cinco em cinco dias, tudo bem? Espero que tenham gostado, as espero nos comentários! ♥