Neighbors
2 Capítulo 2
–Oi – disse com a voz animada ao abrir a porta.
–Bom dia – Damon disse abrindo um meio sorriso. – Está pronta?
–Aham! Deixa eu só pegar minha bolsa... – disse e deixei a porta enquanto dava uma rápida corrida até meu quarto onde havia deixado a bolsa em cima da cama, dei uma rápida olhada no espelho ajeitando meu cabelo e voltei quase me esquecendo de pegar as chaves em cima do sofá. – Vamos – fechei a porta e apaguei a luz antes de sair.
–Por onde quer começar? – ele disse enquanto entravamos no elevador.
–Não sei – respondi monótona.
–O que conhece daqui?
–Hm – vasculhei pontos que havia guardado nas vezes que havia visitado a cidade – O aeroporto, um McDonalds bem perto de lá... E nem saberia fazer o caminho até lá.
–Uau! – ele disse rindo – Você pretendia sobreviver?
–Eu sei me virar, eu acho – eu ri. Na verdade não sei me virar, acabaria morrendo de fome ou de claustrofobia, não disse, apenas pensei.
–Bom, então primeiro vou te mostrar onde encontrar uma farmácia, um mercado, coisas do tipo, depois podemos ir aos pontos turísticos...
–Obrigada – disse aliviada – De verdade. – dei uma pausa — Sinceramente? Não sei me virar sozinha e me sinto grata por você ter me convidado para conhecer a cidade. – ele riu.
–Disponha; qualquer coisa que precisar, é só falar. – Damon disse educadamente.
Chegamos na garagem naquele instante, não havia perguntado se ele tinha carro, mas imaginei que pelo convite ele teria – e não estava errada. Caminhávamos na direção oposta dos elevadores, o odor de gasolina e pneu queimado fazia minhas narinas arderem. Paramos em frente a uma Ferrari preta reluzente. Senti minha boca abrir de choque. Ah mas é claro! – pensei — Ele era só mais um filho da puta rico querendo se exibir. Era tão óbvio, e eu achando que ele estava tentando ser legal. Ah, pelo amor de Deus. Também não voltaria atrás, eu realmente precisava conhecer a cidade, e já que ele se oferecera, não desperdiçaria a oportunidade.
–O que te trouxe aqui? – Damon perguntou casualmente quando já estávamos dentro do carro.
–Faculdade. – suspirei.
–De...?
–Teatro – suspirei. – Na realidade já sou formada, mas em Sociologia, e descobri que o que eu realmente quero ser é atriz.
–Amo teatro, acho lindo – ele comentou.
–E você? Faz o que? – arqueei uma sobrancelha.
–Sou modelo – Ah isso explicava, mais uma vez, as coisas. Que metido.
–Legal – disse com certo tom de ironia.
Passados dois minutos de silêncio ele me chamou e me mostrou uma farmácia, e fez breves comentários sobre o local.
–Essa é a mais próxima, se quiser pode vir até andando.
–Acho melhor eu anotar – disse e saquei um bloquinho de minha bolsa juntamente com uma caneta, depois meio que desenhei meio que escrevi o endereço. E assim foi pela hora seguinte, Damon me mostrava o lugar e eu anotava/desenhava em meu bloco.
–Aqui é o supermercado, não é o mais próximo, mas garanto que é o melhor em questão de tudo – ele disse enquanto olhava pelo retrovisor – pode vir de metro, a estação é bem ali – Damon apontou para a esquina – ou se preferir pode me chamar, eu trago você. – rabisquei o endereço no bloco.
– Terei de vir aqui mais tarde – comentei e depois repeti o endereço em um sussurro tentando memorizá-lo.
–Por que mais tarde se você já está aqui? — disse Damon – Vai, eu te espero.
–Posso?!
–Deve – ele abriu um sorriso encantador – hoje sou seu motorista particular, abuse o quanto quiser.
–Isso quer dizer que estou abusando – disse em um tom de brincadeira.
–Vai logo, vou estar aqui no carro. – eu ri enquanto ele estacionava o carro numa vaga em frente ao prédio a esquerda do supermercado.
Andei pela calçada de pedra até o mercado, não estava cheio por minha sorte. Depois de me encontrar comecei a colocar um pouco de tudo que precisava no carrinho, não querendo demorar, e me saí bem, admito, em menos de 15 minutos já estava pagando tudo – no cartão me dar o trabalho de ter que conferir o troco.
–Mas já?!
–Fui fazer compras e não ao cabeleireiro. – disse entrando no carro com apenas duas sacolas de compras.
–Achei que mulheres demorassem para fazer tudo – ele disse de brincadeira. Tudo bem, ele podia estar se amostrando, mas mesmo assim me parecia uma pessoa legal.
–Não demoro em nada – disse séria – desculpa se não nasci com um pau no meio das pernas. – Damon deu uma gargalhada e deu a partida no carro.
Durante o caminho até o teatro da cidade – que ele fazia questão que eu conhecesse – conversamos sobre coisas aleatórias, e rimos muito. Ele me perguntou onde estudaria, como foi estudar na Ryerson University e por que eu havia estudado Sociologia, uma coisa chata e sem graça, segundo ele, se eu tinha algum hobby e quais eram eles, e quando eu respondi que gostava muito de cantar e que era uma ginasta, ele me perguntara como era ter tantos talentos. Damon também perguntou como era morar em Toronto, se eu me lembrava da minha infância em Sófia e se eu sabia falar búlgaro – inclusive me fazendo falar também, se divertindo as minhas custas e pedindo-me para que eu o ensinasse a falar francês. Descobri que ele estudara interpretação em Nova York quando era mais novo, e já havia viajado por toda a Europa a trabalho, já havia feito várias participações significativas em séries de TV, e que seus pais eram separados, também que ele era um mulherengo – era de se imaginar com tamanha beleza.
–Eu posso te levar na faculdade, se quiser – ele se ofereceu – Oxford é um tanto distante, e pode ser perigoso você indo e voltando sozinha...
–Ah, por favor, você não é meu escravo, eu não sou criança, e não vou ficar abusando de sua boa fé.
–Não faço nada o dia inteiro – ele resmungou – não está abusando, e se estivesse não ligaria, quero mais é ser escravizado mesmo. – Damon abriu um sorriso amarelo.
–Não vai te atrapalhar?
–De maneira nenhuma.
–Certeza?
–Absoluta.
–Mesmo?
–Que horas eu tenho que estar na sua porta?
–Minhas aulas começam as 8hrs da manhã e terminam as 15hrs. — esperei que ele voltasse atrás em sua decisão.
–Então às 7hrs estarei lá. – ele riu – Começa quando?
–Semana que vem. – respirei fundo – Sabe que não precisa fazer isso, né? Mal me conhece e já estou tomando todo o seu tempo.
–Sei que não preciso, e sei que eu quero. – ele deu uma pausa e falou em um tom brincalhão: Deixa eu fazer algo útil para alguém pelo menos uma vez na minha vida. – eu ri.
–Tudo bem então, mas quando enjoar me avisa.
–Não vou enjoar, gostei da sua companhia. – ele deu uma piscadela. – Você não é metida e cheia de não me toques como eu pensei.
–Hm – corei – achei que você só estava tentando exibir seu carro e todo seu charme, coisas do tipo.
–Ui, ela me acha charmoso – ele fez um bico sexy.
–Ah para! – ri alto.
–Minha vizinha, que é poliglota, cheia de talentos e inteligente me acha charmoso, sinceramente, acho que vou casar – ele disse num tom de brincadeira. – Por favor, Elena.
Eu o encarei séria e depois comecei a rir.
–E chegamos. – Damon anunciou e estacionou o carro no estacionamento vazio.
Caminhei por o enorme jardim tendo noção de Damon atrás de mim. Assim que entramos no teatro fiquei totalmente absorta olhando os quadros e toda a estrutura em si. Podia ter ficado horas andando de um lado para o outro em silêncio tentando absorver o máximo de detalhes que meus olhos permitiam. Andei em meio as cadeiras vazias passando a mão no tecido vermelho delicado que as cobria.
–É lindo – sussurrei.
–Imaginei que fosse gostar – Damon sorriu torto.
Desci as escadas até chegar o mais próximo do palco possível, e depois me virei encarando o enorme teatro vazio, maravilhada.
–Está como fome? – ele perguntou assim que deixamos o teatro.
–Hm, mais ou menos – respondi com sinceridade.
–Quer almoçar?
–Pode ser – dei de ombros.
–Alguma preferência?
–Não, fica por sua conta.
–Deixa eu pensar então... – Damon olhou a sua volta – Gosta de comida japonesa?
–Nunca comi.
–Então isso vai ser engraçado.
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