Necromancia
1 Ouija
Notas iniciais
FADE IN
Depois de tanta insistência de minha parte, lá estavam eles, meus melhores amigos, saindo da sala de cinema após assistir Ouija, o filme que me deixou sem dormir por várias noites. Esses filmes de terror realmente me assustam, mas esse conseguiu superar todos os anteriores.
Eu já tinha sofrido ao assistir pela primeira vez, fui novamente apenas porque precisava saber a opinião deles. Fiquei surpresa, esperava uma reação muito diferente da parte deles. Imaginei que ficariam tão assustados quanto eu, entende?
Ao invés disso, saíram da sala rindo.
Mesmo tendo passado pela experiência de assistir Ouija pela segunda vez, eu fiquei tão atordoada que só consegui dar atenção aos comentários dos meus amigos quando o Rafael passou os braços pelos meus ombros.
— Não acredito que passou noites em claro por causa desse lixo, Key – Disse usando seu típico tom delicado.
As vezes ele me fazia ficar confusa. Eu não sei se esse jeito carinhoso com que ele me tratava significava alguma coisa a mais do que uma boa amizade. E, cá entre nós, o Rafa não era de se jogar fora, pelo menos para uma garota como eu, que ama meninos ruivos.
— Nem eu, cara. É obvio que é tudo mentira, eles só querem uma história pra contar! – Luciane argumentou – Uma bem bosta, por sinal.
Confesso que eu não estava me dando muito bem com ela nos últimos tempos, talvez porque nossos signos são opostos.
— Bem bosta, mas que faz certas menininhas mijarem na cama – Não poderia faltar um comentário grosseiro de Lucas.
— Cala a boca, garoto! – Revidei.
Lucas era aquele tipinho de garoto pegador que faz piadas sem graça, um “rato de academia”, como diria o Rafa. Apesar disso, tenho que admitir que ele sempre foi um grande amigo e, mesmo tendo esse jeito babaca, nunca saiu do meu lado quando precisei.
— Ih... Se a carapuça serv...
— Qual é, gente?! Não começar uma briga por causa desse filme, né? – Giovana interrompeu, prevendo como aquilo terminaria.
Giovana, tá aí uma pessoa que me conhecia bem. Não sei nem o que dizer sobre ela, deixe-me pensar...
Ela foi a última que conheci, irmã do Rafa, mesmo assim foi a que mais tive contato, poderia até chamá-la de melhor amiga.
— Ninguém tá brigando aqui, Gi. Só tô constatando o péssimo gosto que sua amiguinha tem pra filmes. – Lucas debochou.
— Olha aqui, moleque. Opinião é que nem... – Comecei, fazendo com que Gi precisasse interromper novamente.
— Oww! Vamô parar vocês dois? Que stress...
— Ah, minha querida... Vai falar que ‘cê gostou dessa merda?!
— Não, eu não gostei, mas também não precisa falar assim, Lucas. – Giovana me defendeu.
— Ah tá, beleza, desculpa aí então. – Lucas falou com um tom cínico e logo depois mexeu em meu cabelo.
— Sai, garoto! – Dei um tapa na mão dele, fazendo-o rir.
— Galera, vamô sentar aqui um pouco? Tô querendo pegar um sorvetinho. — Propôs Rafael, indo em direção a uma mesa do shopping.
Giovana riu.
— Meu Deus, esse menino não para de comer!
— Ah, irmãzinha... Preciso manter a minha “não dieta”.
Todos nos sentamos na mesa, com exceção de Rafael.
— Querem alguma coisa? – Ele ofereceu.
— Pega um Sandae pra mim, mas pede pra não colocarem amendoim, sou alérgica. – Pediu Luciane.
Rafael assentiu e foi em direção à sorveteria.
— Mas é sério isso, cara? Você acreditou mesmo nesse tal Ouija?
— Claro, Lu! Aliás, semana passada, depois de assistir a primeira vez, eu pesquisei, tá? – Respondi animada por finalmente poder apresentar algum argumento.
Com o canto do olho observei que Lucas revirou os olhos.
— Fique você sabendo, Lucas, que é uma história real e tem várias outras pessoas que jogaram e passaram por situações parecidas com as do filme. Não é um caso só, beleza?
— Eles ‘tão inventando essas coisas, mano. Será que você não percebe? Essa gente é pirada!
— Lógico que não, garoto. Lu, olha só... – Tentei começar a explicar de novo.
— Não, Key, na boa... Mas eu meio que concordo com o Lucas, cara. – Luciane me interrompeu.
— E quem não concorda? Puta bobagem! – O garoto se gabou.
— Se toca, você pode falar que Hitler era gente boa que a menina vai concordar com você.
Apesar de eu saber do ceticismo de Luciane, ela sempre concordava com o Lucas, chegava a mudar de opinião só para agradá-lo. Era mais do que obvia a paixonite que ela tinha por ele. Ignorei o olhar desaprovador que ela me lançou e me voltei para Giovana esperando que ela me apoiasse.
Eu fiquei bastante irritada por não acreditarem em mim. Foi aí que tudo aconteceu...
Rafael chegou bem a tempo de me ouvir dizer:
— Amanhã a noite, na minha casa. Vamos todos jogar Ouija.
FADE OUT
Fale com o autor