Necromancer
1 Diário Pessoal de Asterion Garnonari M.
A terra era árida e isso incomodava seus pés e suas botas. A última vez que Asterion tinha passado por aquele lugar era quando ele possuía ainda cinco anos. Idade onde um fatídico acidente ia de encontro aos seus pais, atingindo-os mortalmente e enviando-os diretamente para o Mundo dos Mortos. Ajoelhando-se em frente às lápides, o rapaz pousava lentamente seu cajado e seu grimório de um lado, fechando os olhos e começando uma prece em algum idioma desconhecido. Ao finalizar, seus olhos ficavam semicerrados por um tempo.
— Aconteceu muita coisa nesse período. Já fazia um bom tempo desde que eu os visito nesse solo profanado. Nem isso... nem isso eu tive a decência de conseguir para vocês. — Sentando-se na frente das lápides, o rapaz respirava fundo. — Acho que no mínimo vocês vão me ouvir se eu contar a história desde o início. Mas finalmente obtive respostas sobre os dois e... sinceramente? Podiam ter evitado tanto trabalho nesse longo período de tempo.
Asterion negou com a cabeça, olhando para o céu nublado e trovejante. Uma chuva começaria em breve, então, ele precisaria ser prático... e talvez rápido.
— Vocês morreram em um momento tão difícil da minha vida... e... cá estamos. E depois de tanto, tanto tempo... saber que vocês não eram vocês... é no mínimo triste. Enfim, vamos ao que realmente interessa. — Asterion abria lentamente o seu diário, escondido dentro de sua bolsa, lendo em voz alta.
I.
Verdade seja dita, eu era uma criança. Uma pobre criança, filha de uma mortal com um dos... necromantes que... bom, quase colocaram o Reino de Aegis no fundo do poço. Seth Garnorari tinha se metido em muitas “travessuras” durante sua vida. Filho legítimo de um casal de necromantes, o seu poder, seu fluxo de magia necrótica era altamente instável. Levemente sádico com os animais de estimação que tivera durante sua vida inteira: pedradas, envenenamento, esfaqueamento e esse tipo de coisa. Apenas para estudo (o que ele podia justificar com um sorriso quase sem dentes e um rosto sujo de terra) e ressuscitação. Nada demais.
Necromantes não são nem um pouco confiáveis aos olhos do Rei, por mais que Seth fosse amigo próximo do príncipe Vonnen, que vez ou outra jantava com os Garnonari. Era óbvio que a família real iria executar a família de seu amigo uma hora, o que... não demorou muito.
Depois de um encontro mal sucedido para que Seth ensinasse os fundamentos da necromancia, os Garnonari-pai e Garnonari-mãe (ou só avós, tanto faz) foram condenados a forca e executados em praça pública. Seth beirou a insanidade e, no último encontro com Vonnen, apontou uma adaga para ele, brandindo em alto e bom som: “Não me procure. Da próxima vez que ousar falar comigo ou com qualquer um que eu amo, essa adaga irá para o seu pescoço e eu juro com todas as forças da escuridão que me persegue... que não deixarei com que descanse nem no inferno.”, acredita em mim, esse trecho foi ele mesmo quem me disse quando eu tinha quatro anos. Não esqueço desde então.
Em suas viagens para aprimoramento de... bom, seu poder necromântico, Seth encontrou uma cigana travessa nas ruas do Reino de “Hellside” (é... literalmente o nome do reino), Jia. Jia Mernentornye (nunca soube escrever o nome da minha PRÓPRIA mãe. Parabéns, familiares horríveis) nunca chegou a conhecer os pais, diferente de Seth, que tinha vivido com eles até os quinze anos de idade.
Essa bela moça o conheceu durante um roubo no meio da praça, ameaçando o necromante de morte. Um Garnonari nunca daria nada de valor para um desconhecido, mas ele? Sabia que não era apenas coincidência. Eles se veriam novamente uma hora ou outra, então, apenas lhe entregou um anel com uma joia esverdeada. A cigana ladra, desesperada para o seu almoço do dia seguinte, saiu para vendê-lo. E adivinha: não valia nada, porque a joia... era falsa.
Isso parece coisa que você leria num livro romântico que qualquer reino venderia. Mas... é sério. Foi literalmente isso. Eles se encontraram pouco tempo depois e Seth, como um bom homem otário, pagou uma bebida para a moça, criando um laço que duraria até o fim de suas vidas.
Depois de tanto blá-blá-blá, coisa que me dá vontade de vomitar, eles viajaram o mundo inteiro até se instalarem em uma das florestas mais densas do continente, um pouco mais para o oeste: Valaqhia. As árvores altas e secas, com uma tonalidade próxima do preto... era o lugar perfeito para que um necromante e uma cigana se instalassem. E assim o fizeram. Por comodidade, uma comunidade de bruxos vivia por perto, então, mesmo que morassem um pouco mais pra DENTRO da floresta, eles eram sua família.
Numa noite quente de verão... eu nasci.
II.
Não me leve a mal. Eu tive uma boa infância, mas eu... preferi ficar longe dos dogmas dos bruxos e dos necromantes (repassado por mim pelo meu pai). Magia nunca foi o meu ponto forte, pra começar, porque eu tecnicamente sou um mestiço. Minha mãe nunca sentiu esse... poder estranho pelas suas veias, cérebro e coração. Meu pai? Pfft, um poço de poder dos mortos. E eu, Asterion, um pouco de cada. Seth, O GRANDE NECROMANTE, inicialmente nunca aprovou essa ideia. Mas, felizmente, ele acabou aceitando com o passar do tempo.
Minha educação era em casa até... os meus cinco anos. Ajudava minha mãe a colher ervas para as conjurações de meu pai e o ajudava a anotar alguns feitiços que ele mesmo tinha inventado. Um prodígio? Não. Um sonhador.
Depois do meu aniversário... as coisas começaram a ficar tensas. Um novo rei, vindo diretamente de Aegis, estava querendo conquistar tudo: tirar toda a raça suja, cruel e profana do solo que é seu por direito. Esse rei, descendente direto dos Stormbreaker, estava prestes a cruzar a linha entre a magia e o metal, ignorando todos os acordos feitos durante milênios de história continental. Ele se importava? Nem um pouco.
Seth, meu pai, sabia dessa história. SABIA quem era. Seu melhor amigo de infância, o qual ameaçou após a execução de seus pais. Vonnen Stormbreaker, Primeiro de Seu Nome e “Escolhido da Tempestade”, pronto para o reencontro e o acerto de contas. Depois dos diversos avisos, os bruxos acabaram por se movimentar para outros lados do mapa, mas o Garnonari permaneceria ali até a morte. Por mais que Jia se recusasse a abandonar seu amado, era necessário para a sobrevivência. Eu, Asterion, relutante, decidi ir junto da minha mãe com os bruxos – era óbvio que existiam alguns que não gostavam da ideia de uma humana e um mestiço junto deles... mas Seth tinha feito muito por eles. Era o suficiente para que nós dois integrássemos a rota de fuga deles.
Em uma expedição, Vonnen liderava seus cavaleiros. Ao ver no horizonte apenas um homem de cabelo curto e barba por fazer, sabia que era seu antigo amigo. Com o trovão de música de fundo, os dois estavam frente a frente, prontos para cruzar caminhos mais uma vez. De um lado, um general renomado e novo Rei de Aegis... do outro, um necromante em sua forma mais pura.
O que poderia dar errado?
A luta não tinha sido justa. Depois da óbvia desvantagem de seu Rei, a expedição avançou diretamente contra Seth, o pegando de surpresa. Após ser perfurado por 20 espadas, o necromante caía no chão, vendo o rosto de seu amigo uma última vez antes de perecer.
A chegada da notícia só chegaria na comunidade fugitiva de bruxos depois de cinco dias, quando a cabeça do rapaz tinha sido colocada na ponta de uma lança, na capital de Aegis. Eu era apenas uma criança, mas sabia que pelas lágrimas constantes da minha mãe, tinha acontecido algo horrendo com meu pai. A fé na humanidade, ou pelo menos, coisa que eu deveria ter naquela idade, tinha se dispersado como areia no vento. Esse tipo de pensamento negativista só atingiu meu peito depois da comunidade ser atacada.
A expedição não tinha parado com a morte de Seth... meu pai. Seguindo rastros mínimos perdidos em Valaqhia, os homens de Vonnen chegaram no acampamento improvisado com tochas e espadas ensanguentadas. Ao ver a aproximação, alguns dos bruxos se preparavam para a luta, mas outros começaram a fugir, abandonando o sangue do próprio sangue. O poder dos bruxos não era suficiente para a fúria cavalariça. Brandindo, cortando e incendiando, os impuros seguidores de Stormbreaker simplesmente fizeram a desgraça correr solta, como um cavalo no campo, em cima de seus inimigos.
Eu e minha mãe tínhamos corrido o suficiente. Porém, haviam mais homens recuados, posicionados justamente para capturar aqueles que tentavam fugir. Uma, duas, três... quatro flechas. Quatro bruxos caíam. Cinco, seis, sete... uma humana caía. Oito, nove e dez, um garoto órfão fugia.
Atingida por três flechas nas costas, Jia tentava se arrastar, aos prantos. Mesmo naquele estado doloroso tanto para mim quanto para ela, ela manteve o sorriso, sussurrando, “eu vou ficar bem. Mas você precisa correr. A mamãe te ama.”. Aquela voz... aquelas lágrimas... não saem da minha cabeça até hoje e ecoam enquanto fico conturbado com qualquer acontecimento.
E então, pela trilha de terra... eu corri. Corri até que minhas forças sumissem e minha consciência se esvaísse por conta da exaustão.
III.
Quando minha consciência voltava ao seu devido lugar, eu já estava em uma casa velha e fedida a mofo. Tinha sido resgatado por uma boa e gentil senhora, vivendo reclusa naquela área tão... estranha e... solitária. De início, pensei que fosse apenas uma armadilha, mas ao ver a inocência e a solidariedade em seus olhos, apenas fui abraçado. Um abraço caloroso e que pela primeira vez em muito tempo, me fez com que eu sentisse segurança.
Ela tinha me dado comida e casa por um bom tempo, até eu finalmente descobrir que ela era uma feiticeira aposentada, graças ao seu diverso acervo de feitiços, truques e receitas de poções. Não houve medo e nem receio, apenas... surpresa. Ao finalmente contar minha origem para a idosa, ela me ajudou a controlar meus poderes, ensinando-me tudo que sabia. As estações trocavam com uma velocidade altíssima, até que me via com dezoito anos. A senhora Lemahe Riralbi estava em seu leito de morte. Diferente dos meus pais, fiz questão de enterrá-la quando ela morreu segurando minha mão. Preferia honrar pelo menos a memória de alguém.
A partir daí, as coisas se “acalmaram”. Preferi viver uma vida de viagens, obtendo um pouco de conhecimento de cada Reino e o que cada um poderia me oferecer de melhor. No final das contas, isso só foi enchendo meu diário de viagens... infelizmente perdido em uma viagem marítima. Foi horrível.
O epicentro dessa história se encontra principalmente no encontro com Maya Serondon, uma feiticeira que dava aula em uma das Universidades mais prestigiadas de Aegis. Tínhamos a mesma idade: mas ela era... tão perfeita. Inteligente e bem mais superior. É claro que em tantas viagens, uma relação ou outra era bem-vinda, mas nenhuma das moças com a qual me relacionei... eram como ela. Houve um tchan. Depois de finalmente conversar com ela, visto que a moça era extremamente ocupada com a universidade, descobri que não tínhamos nada, nada haver.
Maya Serondon era filha de um dos conselheiros de Aegis, braço direito de Vonnen. Teve seus altos e baixos, mas graças aos contatos de seu pai, conseguiu se tornar professora... e é uma das melhores do reino. Feiticeiros de todo o continente vêm até ela para aprender um pouco mais. Isso só fez, é claro, com que o interesse aumentasse ainda mais. Era perigoso se envolver diretamente com alguém da corte, ainda mais do ASSASSINO DO PAI, mas, mesmo assim, eu, Asterion, não dava a mínima. Ela era perfeita.
Anos de conversas... até que a moça, envolvida pelos encantos do álcool, apenas admitiu tudo que sentia em uma frase, escondidos como adolescentes em um dos festivais de aniversário de Vonnen. Aquela noite, por mais que tenha sido embebida e abençoada pelos deuses beberrões, foi a melhor de toda a sua vida e, com uma proposta arriscada, ela disse:
“Vamos fugir.”
Juro para você que... aquele pedido tinha sido tão... convidativo. Por mais que houvessem consequências, aceitei. No dia seguinte, Maya estava nos portões de Aegis, apenas com o necessário.
Era o começo de algo grandioso, mas também, o presságio para o fim do que eu chamaria de Vida.
IV.
Anos se passavam. Maya se sentia livre, leve e solta pelo mundo afora, estudando, se divertindo e me beijando no processo. O espírito da liberdade corria por suas veias, até que a fatídica notícia de que uma expedição estava a procura da minha cabeça e a de Maya. Eles a queriam viva para que seu pai, o conselheiro, pudesse castigá-la e prendê-la. Tamanha afronta contra seu patriarca era inaceitável, ainda mais um homem da tão alta CORTE! Corremos mais e mais pelo mundo, até chegarmos, finalmente... naquele ponto.
Eles ainda estavam no nosso pé quando chegamos novamente em Valaqhia. Nos vimos cercados e prontos para o combate. Ela ficava tão bonita com raiva e pronta para cortar cabeças...
Uma luta intensa e sangrenta, conosco em desvantagem contra mais de 10 homens. Conseguimos resistir às primeiras hordas, mas depois, eles no sufocaram. Precisaríamos fugir para longe dali o mais rápido possível.
Usando de magia para nos dar cobertura, o pior tinha acontecido. Um dos homens do pai de Maya tinha acertado não uma, mas três flechadas nas costas dela. Naquele lugar... naquela floresta... da mesma maneira que minha mãe. Ao vê-la cair lentamente, com muito sangue escorrendo, foi o suficiente para que toda a fúria... toda a fonte de poder dentro de mim explodisse. É a última coisa que me lembro até acordar, a noite, com corpos me cercando e Maya já... gelada do meu lado.
Chorei.
Chorei como um bebê, soquei o chão como um idiota. Não podia perder mais ninguém. Ritos necromânticos eram extremamente proibidos e desaconselhados. Por isso, ninguém podia saber que eu poderia fazer algo... daquele nível. Matar pessoas inocentes para trazê-la de volta. Era uma boa ideia. Uma vida por outra vida.
Após friamente assassinar dois guardas de Stormbreaker nos arredores de Valaqhia, tudo já estava pronto... de maneira corrida, é claro. Um círculo de magia aqui, algumas ervas ali e um crânio por perto... além de dois corpos, o suficiente para trazê-la de volta a vida...
Não é...?
Depois de tanta concentração, ela se levantava. Mas... não era Maya. Ou, pelo menos, era para ser ela. Olhos vazios, pele acinzentada e um lamento doloroso que ainda ecoa até hoje em meus ouvidos. Já não era a minha amada.
Aquela... criatura... aquele zumbi... se aproximava lentamente. Usando uma adaga, era o suficiente para cortar sua última ligação com o mundo, por mais que doesse tanto dentro do meu peito. E depois, eu chorei... muito mais do que deveria.
[...]
Asterion fechava seu diário, pousando-o lentamente entre as lápides de onde deveriam estar os corpos de seus pais. Mas ele sabia que... estavam vazias. Era apenas simbolismo para afugentar seu pobre coração.
— Eu perdi tudo que mais me importou. No final... ainda há uma coisa que permanece. — Ele se levantava, com a chuva caindo sobre seu corpo. Com os pingos de chuva, era difícil saber se... eram lágrimas ou a água da chuva. — Eu. Continuarei caminhando... para onde? Eu não sei. O que espero encontrar? Não faço ideia. Posso morrer amanhã, mas... quem se importa? Talvez não vocês. — O rapaz respirava fundo, se virando. — Bons sonhos, vocês dois.
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