Necrofilia II: A Ilha
9 Eduard Falahee
Notas iniciais
Seis meses depois...
Retomei minha vida de onde parei desde que voltei daquela ilha, a parte complicada fora apenas explicar – mentir— para família de Cayo sobre o que de fato acontecera com ele. Quando superei essa dificuldade consegui tomar de volta as rédeas da minha vida comum em Miami.
Vendi a casa onde Cayo e eu morávamos e comprei um apartamento menor em North Miami Beach, mais próximo da praia e com uma vizinhança menos barulhenta. Tinha colocado o trem de volta nos trilhos e assumido o controle, deixando o passado para trás.
Continuei trabalhando em Downtown, retornando ao meu cargo de diretora de uma importante empresa do setor financeiro. Tudo ia bem.
Cheguei ao trabalho antes das oito como de costume. Estacionei o carro, tomei o elevador e saltei no décimo nono andar. A empresa ocupava cinco andares do prédio e aquele era o último andar que nos pertencia. Fui direto para minha sala, mas antes cumprimentei as pessoas na recepção com um aceno de mão e virei na direção da porta de vidro que levava as demais salas da empresa. Ao entrar na minha sala dei de cara com Charlotte, minha secretária, sentada na poltrona à frente da minha mesa, fuçando algumas coisas em seu iPad.
— Não deveria estar ligando para aqueles investidores? – perguntei.
— Há algo mais importante.
— O que seria mais importante? – tomei o meu lugar, sentando-me diante dela.
— Recebemos uma ligação da empresa de Softwares WBB One Networks da Philadelphia, fomos informados que o CEO da corporação, senhor Eduard Falahee, estava vindo para cá em seu jato particular para ter uma conversa com você.
— Ele deveria ter marcado uma hora!
— Ele não é apenas o CEO – ela disse como se ser apenas o diretor executivo de uma empresa fosse algo comum – ele é o dono da corporação.
— Meu Deus! Quando ele chega?
— Segundo seus assessores ele já está em Miami, a bordo de seu helicóptero e deve chegar... agora!
No mesmo instante a porta da sala foi aberta e o poderoso homem entrou, acompanhado de dois seguranças. Era muito bonito, forte, os cabelos castanhos e longos, a barba do mesmo jeito – lembrou-me Cayo por um instante – e os olhos verdes que mais me pareciam lentes.
Charlotte levantou-se da cadeira abruptamente, se ajeitando. E eu fiz o mesmo.
— Seja bem-vindo senhor Falahee, aceita um café, um suco ou algo do tipo? – Eu disse.
— Água está bom – ele respondeu, sua voz soou grave e forte.
Charlotte saiu avidamente da sala para buscar a bebida.
— A que devo a honra de sua visita?
Conversamos sobre negócios por um bom tempo. Eduard queria que a empresa que dirijo gerisse alguns setores e subsidiárias da sua própria empresa, para que nós pudéssemos melhorar os resultado financeiros. Após uma conversa calorosa ele se despediu, me convidando para um jantar de negócios em sua cobertura na cidade, onde ele explicaria melhor suas ambições.
Uma limusine foi enviada para me buscar meia hora antes do horário que fora combinado. Tinha estado poucas vezes dentro de limusines, mas nenhuma era tão deslumbrante como aquela. Estava começando a imaginar que o senhor Falahee – aparentemente muito jovem para ser chamado de senhor – tentava me impressionar, talvez o jantar de negócios tivesse pautas menos corporativas, depois de tomar boas taças de vinho seco e jogar conversa fora.
A cobertura do CEO era em Miami Beach, onde estavam as celebridades, magnatas, políticos e todo o resto de gente rica e pomposa. Chegamos ao prédio suntuoso à beira da praia pontualmente. O motorista abriu a porta da extenso carro e me entregou a outro rapaz, encarregado de me recepcionar até o último andar do belo edifício. Dois seguranças estavam parados à porta do apartamento, que toma todo o andar. Um deles abriu a porta, deixando que eu entrasse, agora sem a companhia do recepcionista.
O apartamento era de tirar o fólego! O hall de entrada levava à um lounge espaçoso, muito bem decorado e ornamentado, com móveis lustrosos e brilhantes, pinturas nas paredes, vasos de plantas exóticas, uma estante repleta de livros e uma TV com tantas polegadas que quase não foi possível vê-la sem precisar virar o rosto. Só tinha um problema, onde estava o senhor Falahee?
Caminhei pelo lounge, passando pela sala de jantar igualmente bem ornada e vi uma silhueta por trás dos vidros fumês que levavam ao pátio externo. O homem virou-se fazendo sinal para que eu fosse até ele. Ao aproximar-me das portas elas se abriram automaticamente e eu passei, juntando-me a ele.
— Está fazendo uma bela noite não é mesmo? – ele indagou.
— Sim, está. As noites aqui quase sempre são estreladas.
— Parece-me bom.
Eu sorri.
— Venha comigo. Dispensei os empregados essa noite, prepararei o jantar.
— Nossa! Você cozinha? – que pergunta tola!
— O que? Um homem rico não pode fazer sua própria comida?
— Não é isso...
— Eu estou brincando, venha.
Eu o acompanhei até a cozinha, tão espaçosa quanto todos os cômodos da casa. Parecia que tudo ali era grandioso. Eduard me serviu uma taça do seu melhor champanhe, o maravilhoso Boërl & Kroff Brut— simplesmente um dos dez melhores champanhes do mundo!
O homem tinha todos os ingredientes sobre a bancada: alguns temperos, manteiga, cenouras e vagens, e é claro... a vitela; para que fosse preparado o Blanquette de Veau, uma comida tipicamente francesa.
— Será que poderia cortar as cenouras para mim? – ele perguntou com um largo sorriso, olhando-me nos olhos.
— Claro – respondi gentil.
Dei a volta no grande balcão central da cozinha e parei ao seu lado. Ele me estendeu uma tábua e uma faca afiada, além das próprias cenouras. Comecei a cortar em rodelas.
— Não, não! – ele disse chegando-se por trás de mim e me envolvendo em seus braços para me mostrar como cortar. – Você deve cortá-las na diagonal, assim... desse jeito.
Eu confesso que fiquei um pouco nervosa. Ele estava muito próximo de mim, praticamente me abraçando, pondo suas mãos no meu corpo de forma macia e suave e um instante depois ele se afastou, voltando aos seus afazeres culinários.
Quando tudo ficou pronto organizamos a mesa com pratos, talheres e taças. Ajeitamos as travessas e ele fez questão de me servir. A comida estava divina! O que me surpreendeu muito, pois cheguei a duvidar de que ele realmente soubesse o que estava fazendo.
— O que achou?
— Está mesmo muito gostoso – admiti.
— Na minha casa o cheff sou eu – ele respondeu rindo.
— E os negócios?
— Estou tentando ter uma boa conversa com você. Vamos esquecer o trabalho! Será que você consegue?
— Podemos tentar – tomei um gole do champanhe, olhando-o por sobre a taça.
— Um brinde a vida, ao luxo e ao futuro.
As taças tilintaram ao se tocarem, fazendo o som vibrar até meus ouvidos, enquanto eu perdia a noção do tempo.
Assim que terminamos ele me convidou novamente para ir até o terraço. Tínhamos tomado toda a garrafa de champanhe e ele nos trouxe outra.
— Acho que não quero ficar bêbada – informei dando um meio sorriso.
— Vamos, tome comigo!
Nos sentamos à beira da piscina, deixando os pés descalços mergulharem na água iluminada por uma série de holofotes subaquáticos. Eduard tocou minha mão como se não tivesse a intenção de tê-lo feito, depois olhou-me fixamente por um longo tempo. Nossos rostos se aproximando lentamente. Sua boca cada vez mais próxima da minha. O coração pulsando de forma descompassada. Os lábios se tocando à luz das estrelas.
O beijo era estranhamente familiar.
— Tenho uma cama macia no quarto – ele comentou com um sorriso matreiro.
Eu me limitei a olhá-lo meio nervosa, meio surpresa.
Fomos para o seu quarto, onde ele me jogou na cama, caindo sobre mim como um leão selvagem. Rolamos na cama, fiquei por cima dele, beijando-o enquanto Eduard apalpava minhas nádegas com vontade. Comecei a desabotoar sua camisa com pressa, ele segurava meus cabelos, causando-me arrepios na nuca. Mas o que veio a seguir me fez arrepiar ainda mais, dessa vez de medo e incredulidade.
Assassino psicopata.
As minhas letras. As mesmas letras! cicatrizadas e agora tatuadas para esconder as horrorosas cicatrizes. Como eu não tinha percebido? O cabelo estava tão diferente, a barba tomando conta do rosto e os olhos mascarados com outra cor. A face não carregava mais as marcas sangrentas que deixei. Provavelmente servira de molde para algum cirurgião plástico trabalhar o seu dom, reconstruindo-a sem deixar sequer vestígios de que um dia houveram cicatrizes ali.
A última coisa de que me lembro é de ver o seu velho sorriso sádico transparecendo, se deliciando com a minha completa surpresa.
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