Não sei como descrever esse local. Na verdade, ainda não sei se esse local existe mesmo ou é só coisa da minha imaginação. Ok, vamos por partes. Logo após minha “queda” do navio, eu só me lembro de engolir bastante água. Depois disso, tudo ficou escuro. Não sei quanto tempo eu fiquei desacordado, porém quando eu me dei por mim já estava aqui. Certo, vamos descrever o “aqui”: imaginem uma espécie de praça comercial, só que gigante e povoada de seres completamente desconhecidos e que, com certeza, não são humanos. O ambiente é um tanto úmido, mas não corre brisa alguma. Parece um local fechado, mas bem aberto ao mesmo tempo. Ficou confuso? Imagine eu que estou vendo isso. Meu cérebro ainda não conseguiu assimilar tudo muito bem. Existem várias tendas, com esses seres gritando coisas como “Promoção do dia! 10 por 1!” e “Venham antes que acabe!”, típico de feiras. Há também vários armazéns com caixotes imensos por toda parte. É uma espécie de porto, porém sem o oceano. Tem também uma praça muito espaçosa, com o chão de pedra esverdeada. Estou bem no meio dela, ao lado de um elevador com uma placa luminosa ao redor. A placa diz “Bem-vindos a Baía Abissal.” E, logo abaixo dessa mensagem de boas-vindas, existe outra em letras miúdas: “Vivos não entram!”. Minha alegria em saber que eu tinha chegado misteriosamente ao meu destino acabou de morrer ao ler essa última frase. Bom, nenhum alarme foi disparado e nenhum guarda está atrás de mim, então está tudo bem. Eu tenho trabalho a fazer. Tenho que procurar um tal de “Capitão Zhung”. A julgar pelo nome, achei que fosse mais lógico procurar alguém de aparência chinesa. Porém, isso só se aplicaria a seres humanos. É, procurar um mercador nessa baía vai ser como procurar uma agulha em um agulheiro (me perdoem pelo trocadilho infame, mas foi o único que me veio à cabeça), então acho melhor começar.

– “Bom dia, senhor.” Digo, me aproximando de um vendedor de algas marinhas. Ele é um tipo humanoide, porém com uma cabeça de tubarão-martelo. “Estou procurando o Capitão Zhung. Você o conhece?”

– “Hmm, boa tarde.” Corrigiu-me o peixe estranho. “Acho que foi o que você quis dizer.”

– “Sim, me desculpe. Não consigo distinguir muito bem as horas por aqui.” Disse eu, olhando para o céu.

– São todos assim quando chegam aqui na Baía. Logo se acostumam. Mas quem você estava procurando?

– O Capitão Zhung. Conhece-o?

– Nunca sequer ouvi este nome. Sinto muito. Posso ajudá-lo em alguma outra coisa? Gostaria de dar uma olhada nessas algas recém-colhidas do MES?

– “Não, obrigado.” Recusei ao sentir o aroma fétido que aquilo expelia. “Vou continuar minha busca. Até logo.”

Procurei durante horas, porém sem resultado. Não acredito que ninguém aqui conhece esse tal Zhung. Não é possível que ninguém aqui nunca tenha ouvido falar neste nome. A praça já está começando a ficar vazia, os mercadores começam a desfazer suas tendas e irem embora.

– Ei, rapaz!

Após ouvir isso, só me lembro de virar-me e ser atingido na cabeça por algo bastante duro. Já acordo amarrado em uma cadeira de madeira verde, rodeado por criaturas meio humanas e meio peixe. O ambiente onde estou é relativamente escuro, só consigo ver em um raio de 7 metros ao meu redor. A cadeira é um tanto desconfortável, as correntes que me prendem os pulsos e os pés estão bem apertadas e as cordas que me envolvem o corpo são de uma fibra bem grossa. Creio que alguém esteja bastante irritado comigo.

– “Olhem, rapazes. Parece que o garoto está acordando...” Disse uma das criaturas que se encontram ali. Esse tem um porte físico forte, cabelos louros como os raios do sol e os olhos de um verde profundo e intenso. Agora vem a parte esquisita: a parte de baixo do corpo, da cintura para baixo, a criatura no lugar das pernas possui uma extensão de corpo de peixe, com escamas douradas e uma cauda um tanto curta.

– “Onde estou? O que aconteceu?” pergunto, ainda meio grogue.

– “Nós que fazemos as perguntas aqui, humano. O que está fazendo na Baía Abissal?” falou a criatura de cabelos louros.

– Estou à procura de um certo alguém. Por que se importa? Quem é você?

Tomo um soco no estômago. Quase apago de novo. Definitivamente, hoje não é o meu dia.

– Já disse que nós é que perguntamos. Você só responde.

– Vai com calma, peixinho dourado. Se eu morrer, não terei como te responder.

Os outros ao redor começam a rir. Eles somam três, todos de mesma aparência e porte físico, mudando apenas a cor dos cabelos: os de um são vermelhos como o fogo, os de outro são de um azul escuro como as profundezas do mar e os do terceiro são negros como o piche.

– Não posso matar quem já está morto. Mas posso te reviver, só para ver sua cabeça explodir em sangue com a pressão da água aqui em baixo. Vou repetir somente mais uma vez: quem é você e o que está fazendo aqui na Baía Abissal?

Não tenho ideia do que ele quis dizer com “não posso matar quem já está morto”, mas creio que não quero descobrir. Me limitei a responder as perguntas.

– Meu nome é Frank Hank, e estou à procura do Capitão Zhung. Tenho negócios a tratar com ele.

– Pois hoje é seu dia de sorte. Muito prazer, meu nome é Hideki Zhung, ou como sou mais conhecido, Capitão Zhung.

– “O incrível Capitão Zhung é uma sereia?” Não consegui segurar o riso. E, claro, me arrependi logo em seguida.

A criatura meio homem e meio peixe sacou sua cimitarra e me golpeou bem na altura do peito, puxando-a de baixo para cima e abrindo um horrível corte no meu tronco. A dor que senti foi quase indescritível. Imaginem a dor de ser furado com uma agulha. Agora imaginem que essa agulha é cem vezes maior e duzentas vezes mais afiada, e ela está extremamente quente. Ou seja, ao mesmo tempo que sinto a dor do corte, também sinto a dor da queimadura. Se você é capaz de imaginar isso, então tem uma boa ideia do que eu senti. Após isso, não me lembro de mais nada. Tudo apagou e, novamente, lá ia eu para o mundo dos sonhos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.