—Um cordeiro inocente vai morrer e você nem liga?! — Ezra cruzou os braços.

— Não, e nem você. — Iako, seu melhor amigo, replicou com tranquilidade. — Isso acontece todo ano, e eu nunca te vi incomodado antes.

— Bem, as pessoas mudam! E como isso pode não te incomodar? Um animal dócil e inocente vai ser assassinado. Tudo por causa de um feriado idiota.

Iako tomou um momento para olhar a paisagem e esquecer um pouco essa discussão idiota. Um cordeiro era sacrificado ao fim de cada quaresma e toda a aldeia o comia para celebrar, o que havia de estranho nisso? O estranho era Ezra ficar todo sensível de repente. O que será que deu nele?

— Ei, será que dá pra você pelo menos fingir que se importa com essa discussão? — Ezra começou a gesticular para chamar atenção. — Fala sério, é você quem cria os animais. Isso não te incomoda nem um pouquinho mesmo? Criar, alimentar, cuidar, pra no fim eles serem mortos?

— Eu não me apego a eles. E desde quando você acha esse “um feriado idiota”? Você ama a Páscoa. — Essa história estava mesmo muito estranha.

— Amava. — Ezra declarou com convicção. — Agora você vai me ajudar a salvar o cordeiro ou não? Não podemos deixá-lo morrer assim!

Iako suspirou. Ezra podia ser o filho do chefe da aldeia e, consequentemente, o futuro líder, mas ele com certeza não inspirava confiança alguma, ninguém em sã consciência seguiria seus planos.

— Tudo bem, o que você quer fazer?

E ele provavelmente não era alguém em sã consciência.

— Sabia que podia contar com você! — Ezra sorriu. — E eu já tenho tudo planejado!

*

Os dois foram até o curral onde o cordeiro escolhido era mantido separado dos outros. Iako aproveitou para alimentá-lo e limpar o curral, que eram suas tarefas rotineiras.

— Então, qual a sua brilhante ideia?

— Simples. — Ezra pareceu alheio à ironia. — Precisamos treiná-lo para lutar!

Iako ficou em silêncio, esperando uma risada ou um “é brincadeira, esse não é meu plano de verdade”, mas Ezra permaneceu sério. Esse não podia ser o plano dele mesmo, podia?

— Por favor, me diz que você tá brincando.

— E por que eu estaria? É uma questão séria!

— E como exatamente ensinar o cordeiro a lutar vai mudar alguma coisa?

— Bem.... — Ezra hesitou. — Eu falei com meu pai e ele disse que, se o cordeiro resistisse, não seria sacrificado.

— E por que exatamente você falou disso com seu pai? — Iako sabia que a relação de Ezra com o pai não era exatamente das melhores. Eles tinham muitos pontos de vista divergentes.

— Eu já disse, eu quero salvar o cordeiro! — Exclamou, a voz aguda denunciando a mentira óbvia, mas Iako deixou passar.

— Ok, mas você sabe que o sacrifício é em três dias, certo?

— O que quer dizer que temos pouco tempo. Então, como treinamos um cordeiro?

— E o que te faz pensar que eu sei? O plano é seu!

— Ora, é você quem cria os animais, deve saber treinar um!

Os dois discutiram por alguns minutos e, no fim, concordaram em tentar treinar o cordeiro do mesmo modo que se educa um cão: recompensar bons comportamentos e punir os maus. Mas, no caso, o bom comportamento seria tentar sobreviver e o mau, aceitar a morte serenamente.

Pareceu um plano bom o bastante para eles.

*

— Esse cordeiro não aprende! — Ezra exclamou depois da décima quarta encenação de sacrifício. Era sempre a mesma coisa, ele chegava com uma faca e uma postura ameaçadora e a criatura, em vez de correr como qualquer animal sensato faria, apenas o observava se aproximar e sequer tentava lutar.

— Por que você acha que sacrificam cordeiros? Eles não lutam contra a morte, são os sacrifícios perfeitos. É só a natureza deles. — Iako comentou.

— Não é não! — O outro praticamente gritou com raiva. — Ele vai aprender, só precisa de mais tempo.

— Como você é teimoso. — Iako comentou, não pela primeira vez. — Certo, vamos continuar a encenação.

Depois da vigésima oitava tentativa, eles decidiram mudar a abordagem.

— E se o cordeiro morder em vez de correr? — Ezra sugeriu. — Afinal, se ele não vai fugir, lutar é a outra forma de resistência.

— Não vai adiantar nada eu te dizer que cordeiros não atacam, vai?

— Não mesmo. Agora vamos tentar!

— Tá bom então. Qual o plano?

— Simples, eu vou encharcar meu braço com leite e fazer o cordeiro morder. Aí ele vai aprender a morder pessoas e é só uma questão de tempo até ele morder pessoas que o ameacem. Simples assim.

Iako achou melhor não dizer que esse plano não era nem simples nem muito lógico, afinal, seu comentário seria ignorado de qualquer forma. E ver Ezra empolgado assim era divertido também.

*

— Morde! Morde vai. Morde, bicho burro! — A cada “morde”, Ezra tentava enfiar o braço embebido em leite na boca do cordeiro. — Por que você não morde?!

— Talvez porque cordeiros não mordam. — Iako ofereceu um pano para ele limpar o braço. — Mas você tentou.

— E quem disse que eu desisti? Ainda deve ter algo que a gente possa fazer! E se ensinarmos uma rota de fuga pra ele? Ou tentarmos a encenação de novo? Ou arrumarmos um esconderijo pra ele?

Iako observou o amigo por alguns segundos e se rendeu à determinação do outro. Ezra era teimoso e, se ele não desistiria da ideia, o mínimo que Iako podia fazer era acompanha-lo nessa loucura e quem sabe se divertir com as ideias malucas dele.

— Certo, mas já está escurecendo. Amanhã tentamos algo, ok?

— Combinado!

*

No dia seguinte, Ezra acordou Iako logo cedo, o que não o deixou exatamente contente.

— O cordeiro ainda vai estar aí à tarde. — Comentou. — Por que temos que acordar cedo pra isso?

— Porque o tempo está passando! Além do mais, eu vou ser obrigado a participar de uma reunião idiota com meu pai à tarde. “Coisa de chefe”, ele disse. — Ezra deixou claro o desgosto em sua voz.

— Ah, não precisa ficar tão chateado, talvez você até se divirta. — Iako tentou ser otimista.

— Me divertir? Numa coisa chata de líder? Até parece. Enfim, vamos lá, temos um cordeiro para treinar.

— E qual o plano dessa vez, chefe? — Perguntou em tom de brincadeira.

— Não me chama assim! E eu fiz um plano de fuga. Se treinarmos o cordeiro para seguir esse caminho no altar, ele vai fugir e não vai morrer. — Explicou, passando para Iako um papel com o rascunho de sua rota de fuga.

Eles levaram o cordeiro até o altar cerimonial, o animal os seguiu docilmente como sempre, o que já estava irritando Ezra. Ele ia morrer! Não podia ao menos se rebelar um pouquinho? Só um pouquinho! Uma mordida ou uma fuga já serviriam, só para quebrar essa tal “natureza dócil” que todos atribuíam ao cordeiro.

E ajudaria se Iako parasse de falar dela também. Era sempre “cordeiros não fazem isso”, “cordeiros não fazem aquilo”, “cordeiros não mordem”, “cordeiros não fogem”.

— Se você tem tanta certeza que o cordeiro vai morrer no fim, por que está me ajudando? — Ezra perguntou enquanto fazia uma trilha de feno, na esperança de que o cordeiro a seguiria e aprenderia a rota de fuga.

— Ora, você é meu amigo. Se você quer tentar salvar o cordeiro, vamos tentar salvar o cordeiro. — Deu de ombros e tentou conduzir o cordeiro pelo caminho, para ver se ele se interessava pelo feno a sua frente, mas o animal permaneceu apático. — Mas eu ainda acho que você está tentando ir contra a natureza dele, cordeiros são pacíficos.

Ezra permaneceu em silêncio ante o comentário.

Depois de uma manhã inteira tentando de todas as formas fazer o cordeiro fugir do altar, o máximo que conseguiram foi que ele pastasse um pouco do feno. Decepcionante. Ezra ainda queria tentar mais, mas logo a tarde chegou e ele precisava ir para a reunião chata que seu pai insistia em arrastá-lo por ser “o futuro líder”.

E o tempo estava correndo.

*

O sacrifício era amanhã e o cordeiro ainda era uma criatura irritantemente dócil e incapaz de lutar pela própria vida. Ezra já estava quase arrancando os próprios cabelos em frustração. Por que aquele bicho não aprendia?! Ele já até podia sentir o gosto amargo da derrota, não tinha jeito de ensinar o cordeiro a fugir ou lutar em um dia.

— Calma, ainda temos tempo. — Iako tentou animá-lo. — Não muito, mas temos tempo.

— Você é péssimo animando os outros, sabia? — Ezra comentou, mas sorriu mesmo assim. — Mas você está certo.

— Qual o plano dessa vez?

— Bem... Eu pensei em escondermos o cordeiro. Se ele não puder ser encontrado, não vai ser sacrificado. Isso é uma vitória, certo?

— E não é trapaça? Quer dizer, tecnicamente não vai ser ele fugindo e se escondendo, nós é que vamos escondê-lo.

— É o melhor que eu pude pensar, tá?! A não ser que você tenha uma ideia melhor.

— Não, tudo bem, vamos esconder. Onde?

— Eu sei o lugar perfeito!

Eles pegaram alguns suprimentos necessários e passaram o resto da manhã adentrando a mata com o cordeiro. Logo as árvores baixas e esparsas deram lugar à mata cerrada e vegetação alta. Era o local perfeito para se esconder algo.

Depois de passar por algumas árvores tão próximas que formavam barreiras naturais e contornar carcaças de pequenos animais mortos que exalavam o cheiro azedo de putrefação, Ezra encontrou um bom lugar entre duas grandes árvores tortas. Era uma espécie de abrigo, e isso serviria, ele colocou lá um vaso raso com água e uma boa quantidade de feno. Era um ótimo local provisório, só até depois do dia de sacrifício, depois eles o pegariam de volta.

Tá, talvez aquilo fosse trapaça, mas pelo menos o cordeiro sairia vivo, certo?

Quando foram embora, o cordeiro tentou segui-los de volta à aldeia, então Iako usou um grande pedaço de corda que tinha levado para amarrá-lo no lugar, tomando o cuidado de garantir que ele tivesse acesso à água e à comida e conseguisse se movimentar bem.

— Tem certeza que tudo bem deixá-lo aí? — Iako perguntou.

— Claro, é só até amanhã no fim da tarde. Ele vai ficar bem. — Ezra sorriu. Não era bem como ele planejava, mas uma vitória era uma vitória.

*

Iako foi até a margem do rio, onde sabia que encontraria Ezra. Ele sempre ia para lá quando queria ficar sozinho.

— Oi. — Cumprimentou timidamente. — Quer companhia?

— Não é justo. — Foi tudo que Ezra disse, claramente chateado.

— Bem, você salvou aquele cordeiro... — Ele se sentou ao lado de Ezra, à margem do rio. — Não era isso que você queria?

— É, mas outro cordeiro foi sacrificado! Não é justo! — Ele jogou uma pedra no rio com força. — Eu salvei o cordeiro, então não devia ter sacrifício!

— Bem, tecnicamente você não cumpriu o acordo. O cordeiro não fugiu sozinho, nós o escondemos...

— Você está do meu lado ou do lado do meu pai?!

— Só estou dizendo a verdade. — Fez um gesto de rendição. — E, sabe, eu falei com seu pai depois do sacrifício... Ele não achou que você ia mesmo tentar salvar o cordeiro.

— Claro que ele não achava. — Retrucou com raiva. — Ele nunca me leva a sério.

— Quer me contar o que houve? Porque, sabe, você nunca me explicou realmente por que queria salvar o cordeiro pra começar...

Ezra contemplou a correnteza do rio por um tempo, ponderando a resposta.

—... Tá, mas é bem idiota.

— Sou todo ouvidos.

— Ok... Então, era mais um daqueles compromissos chatos de chefe e meu pai queria me arrastar, mas eu não queria ir. Aí ele começou aquele mesmo discurso chato de como eu vou ser o chefe um dia e como é minha obrigação conhecer as tarefas de um chefe e como as reuniões são importantes e blá blá blá. Eu disse que não queria ser o chefe da aldeia, nunca.

Iako escutou em silêncio, ele não estava realmente surpreso, não era a primeira vez que Ezra dizia algo assim para o pai, mas ele queria ver onde essa história ia parar.

— Ele disse que eu era muito novo pra saber e que ser o chefe era meu destino, meu dever como filho dele. — Continuou. — Começamos a discutir e ele tentou me explicar, como se eu fosse uma criança, que ser o líder era meu destino assim como ser sacrificado era o dos cordeiros, que essa era nossa natureza e que não se luta contra a natureza, que era a ordem natural das coisas. Então eu gritei que ia mudar a natureza e fui correndo te procurar pra salvarmos o cordeiro. Porque, se eu pudesse salvar o cordeiro, talvez....

Talvez eu pudesse me salvar também, o resto da frase nunca foi dito, mas Iako entendeu.

— Bem, você salvou um cordeiro. — Ele pôs uma mão no ombro do amigo. — Não todos, mas um deles. E isso deve valer alguma coisa.

— É, talvez... — Ezra não parecia muito convencido.

—Além disso — Tentou animá-lo. —, ainda tem muito tempo até você precisar se tornar o líder. Talvez até lá algo aconteça e outra pessoa tome seu lugar. — Sorriu. — Ou pode ser que você comece a gostar da ideia de ser o chefe... — Insinuou não pela primeira vez.

— Ah, nem vem! Eu nunca vou querer toda a chatice de ser chefe, tem reunião, tem o conselho, tem um milhão de responsabilidades...

— E também tem cuidar das pessoas da aldeia, garantir que todos estejam bem, e nisso você é bom. Você se importa com as pessoas, e sempre tem planos mirabolantes e nunca desiste do que acredita, essas são qualidades de um bom líder.

— Tá, até parece... Eu seria um péssimo líder. — Revirou os olhos.

— Bem, eu te seguiria. — Iako disse docemente, e era verdade. Por mais loucas que as ideias de Ezra pudessem ser, ele o seguiria porque confiava nele.

—... Obrigado. — Ezra não sabia bem como responder.

— Mas, se não quiser ser o chefe da aldeia — Iako continuou. —, não precisa ser. As coisas vão dar certo no futuro, ok?

— Ok. — Sorriu. — Você está ficando bom nessa coisa de animar os outros, sabia? — Brincou.

— É, ainda temos que pegar o cordeiro que deixamos amarrados na mata... — Mudou de assunto. — Quer pegar um pedaço da carne do sacrifício ou seria heresia depois de tudo que fizemos?

Ezra pensou em recusar, mas seu estômago roncou bem na hora e, bem, carne de cordeiro era uma delícia no fim das contas...

— Vamos pegar um pedaço antes de ir. — Decidiu.

*

Eles pegaram um pedaço da carne salgada e deliciosa de sacrifício e foram mata adentro esperando pegar o cordeiro de volta antes que anoitecesse. Andar na mata à noite era bem mais difícil. Ezra, enquanto comia da carne, se viu bem menos chateado com a morte do cordeiro do que estava antes. Talvez Iako estivesse certo no início dessa história toda e ele não se importasse realmente com o cordeiro, apenas com seus interesses pessoais envolvidos.

Seja como for, um cordeiro foi salvo, e ele estava orgulhoso do trabalho que fez, mesmo que quase todas as suas ideias tenham dado errado.

Enquanto ele e Iako levavam o cordeiro de volta, Ezra pensou que talvez ele não precisasse ser o chefe no futuro, mas talvez, e só talvez, ele pudesse gostar da ideia de ser o líder. Se ser o líder significasse salvar os outros com planos malucos e muita determinação, ele podia se acostumar com a ideia.

Seja como for, no momento ele estava feliz. Talvez outro cordeiro morresse ano que vem, talvez seu pai estivesse certo sobre a natureza das coisas, talvez ele fosse um bom líder como Iako dizia, talvez não, no momento nada disso importava. No momento, ele estava contente com as coisas como eram, então pra que pensar tanto nos “talvez”?

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