Natureza
1 Flocos de neve
Notas iniciais
A irritação que passava pelo corpo de Aerys nunca havia sido sentida antes. Não só por ela, mas por qualquer outro humano — ou, ao menos, era assim que pensava.
Seu coração palpitava de maneira incrivelmente rápida, até a fazendo questionar por um segundo se não estaria tendo um ataque do coração. Lembrou-se que tinha dezessete anos e que cuidava muito bem de sua alimentação, entretanto, então pôde descartar essa possibilidade. Seus membros tremiam levemente e, se sua mão não estivesse fechada em formato de um punho, certamente teria que descontar sua raiva em alguma coisa. Andava de um lado para o outro, caminhando sobre a neve gelada naquele parque perto de sua casa. Tinha que fazer algo para esquecer os pensamentos que a rodeavam ou então acabaria chutando uma das crianças que brincavam alguns metros à sua frente.
Mas como poderia, entretanto? Mesmo que tentasse acalmar-se um pouco, sentando no banco de madeira atrás de si, algo certamente a faria lembrar de seu trabalho de química, uma matéria que odiava, mas que passara três semanas tentando fazê-lo. Era a única chance que tinha para passar, graças à misericórdia de seu professor, e tinha dedicado tempo, esforço, saúde mental e sacrificado biscoitos que sua mãe fizera inúmeras vezes. E quando finalmente viu-se livre de todo o papel e pesquisa que a dominavam, percebeu que todo o seu trabalho tinha sido para nada. Literalmente nada. Tudo porque a neve que caíra naquelas últimas semanas tinha sido tão forte que todas as aulas foram canceladas.
Pronto. Havia lembrado mais uma vez.
Grunhiu estridentemente. Alguns garotos a olharam assustados, mas ela não se importava. Deveriam estar agradecidos por ela não ter expulsado todos, e, consequentemente, suas risadas irritantes da região.
— Que droga, droga, droga. — Repetia, batendo seus pés no elemento branco e macio sobre o chão. — Tudo sua culpa. Sua culpa. Sua culpa! — Gritara mais uma vez. Ao contrário de seu grunhido prévio, entretanto, o ruído era fino e desesperado. Tão forte e tão intenso que tirara suas forças subitamente. Teve que se sentar. Não estava pensando de forma racional.
Obviamente, a culpa não podia ser da neve, porque era apenas um estado de água inanimado. E Aerys Fehér nunca negava o óbvio, muito menos quando teria que ir contra a algum fato. Não conseguia tirar sua raiva dentro de si, entretanto, nem mesmo queria fazê-lo; eram poucas as vezes que seus ataques furiosos eram justificados e aproveitaria cada segundo daquele momento. Então o que faria? Tinha que extravasar sua raiva por meio da culpa, mas não encontrava um culpado. Seu professor tinha sido extremamente gentil, ela mesma havia se dedicado por completo e a neve, como já discutido, estava fora de questão.
Seus olhos começaram a mexer-se rapidamente como sempre faziam quando queria encontrar alguma solução. Não importava para onde tentasse ver, contudo. O céu nublado, mas ainda assim iluminado; o parque e todas as suas árvores cobertas e brancas; os bancos marrons espalhados por todas as direções e as crianças que, agora, jogavam bolas de gelo umas nas outras simplesmente não permitiam que sua imaginação fosse para muito mais longe da sua infância e da estação. Se lembrou de sua família, de seu antigo quarto, das cantigas de ninar. Lembrou-se do sorriso de sua mãe toda vez que lhe contava uma história para dormir e, por consequência, a preferida da mais velha: Jack Frost.
De repente, seus olhos brilharam. Sua mente exclamou: eureca!
— Jack Frost. — O nome saiu por entre dentes. — Seu babaca! Você tinha que estragar tudo, não tinha? Por que não conseguiu esperar somente mais alguns dias? Aliás, por que não esperou até eu me formar? Detesto quando as aulas são canceladas. Mas você esteve tão preocupado em acabar com a minha vida que até mesmo as matérias que eu mais gosto foram interrompidas! Nem quando eu tento tenho tanto sucesso em meus planos assim, garoto! — Em um rampante intenso, gritou tudo o que desejava. Sabia que suas bochechas, provavelmente, estavam tão vermelhas quanto costumavam ficar no frio. Também sabia que sua boca doeria por alguns segundos após falar tanto quanto fez, mas tinha valido cada movimento. Sua raiva tinha sido despejada e de forma lógica. Talvez não tão lógica como desejava, mas culpar alguém — mesmo que imaginário — lhe parecia muito mais razoável do que reclamar para um ser não vivo.
Sentia satisfeita o suficiente para pegar sua bolsa e ir embora dali para que pudesse chorar em seu banheiro, e realmente teria o feito. Até mesmo moveu o seu corpo em direção ao banco, planejando sua ida, mas algo a impediu. Após dar seu sorriso da vitória e poder respirar aliviada, uma voz divertida, mas que reclamava, tomou conta de sua audição.
— Eu sei que consigo ser muito dedicado às minhas pegadinhas, garota — repetiu o modo como ela havia o chamado, com um tom de ironia palpável —, mas eu certamente não te conheço ou odeio tanto assim para estragar toda a sua vida. — Um jovem de cabelos e pele brancos, com brilho em seus olhos azuis e gestos tão suaves quanto os próprios flocos de neve pôde ser visto por ela. Ele estava em uma das árvores, apoiado com as suas costas, o que aumentava ainda mais a sua imagem de rebelde. Seus braços cruzados, porém pés soltos, revelavam o quanto ele não se importava. Parecia tratar aquilo como outra de suas brincadeiras.
Levou meio segundo para que Aerys assimilasse o bastão que segurava e sua imagem como um todo. Levou muito mais do que isso para que a menina retirasse seus olhos arregalados de sua direção. Não conseguia acreditar no que via, mas não era burra o suficiente para negar o que parecia estar acontecendo ali. Claramente, sua raiva tinha a levado para níveis ilusórios. Alucinava.
— Eu realmente estou ficando maluca. — Murmurou, ainda sem querer tirar ele de sua visão, entretanto. Mesmo que fosse uma imagem criada por sua mente, era uma bela demais para não ser admirada o máximo possível. Sua expressão de descrença e, logo após, surpresa ao perceber para onde a atenção de Aerys estava focada era ainda mais atrativa. Aliás, muito mais surpreso do que a própria estava. A menina conseguiu até faze-lo descruzar seus braços e retirar o sorriso divertido em seu rosto.
— Você consegue me ver? — Disse cada palavra pausadamente, como se nem acreditasse nelas o suficiente para que fossem ditas de forma natural. Parecia esperançoso, de uma forma fofa, como se estivesse pronto para ter outro amigo para brincar.
— E você consegue falar! — Animada, a garota riu de forma contagiante. — Até mesmo suas alucinações são elevadas, Aerys. Parabéns. — E, ao dizer isso, toda a esperança que parecia estar no rosto de Jack foram descartadas instantaneamente. Isso sempre costumava acontecer quando Aerys apertava sua própria mão, como fazia naquele momento, mas tinha a impressão de que não era esta a explicação daquela vez.
Jack, que antes parecia achar a interação agradável, aderiu um tom ofendido ao falar.
— Não sou uma alucinação. — Seus olhos estreitaram-se, porém não o suficiente para que sua cor cintilante pudesse ser escondida. — E preferir acreditar nisso do que em minha existência me diz muito sobre você. — Sem saber realmente o que ele queria dizer, e mesmo achando bobo se ofender com algo criado por sua própria mente, Aerys abriu sua boca em indignação. Desta vez, os olhos estreitos eram os dela.
— Ah, é? Isso é exatamente o que uma alucinação diria. — Cruzou os braços em uma clara posição de ameaça. Quase deixou formar um bico em seus lábios, mas decidiu manter sua dignidade intacta mesmo a níveis imaginários.
— E como sabe? Costuma ter elas muitas vezes? — O sarcasmo era, definitivamente, algo que caía bem em sua boca, porque não parava de o usar. Voltando em seu jeito divertido, mas, agora, de um modo muito mais ofensivo, Jack deu alguns passos para frente enquanto falava, talvez querendo ter dominância no que parecia ser uma discussão. Típica atitude de macho alfa — Aerys pensou.
— Eu tive uma ou duas quando fui atingida nas aulas de educação física... — Envergonhada, abaixou sua própria voz e não ousou encará-lo enquanto revelava seu passado. Até pensar que não precisava fazer isso, a elevando outra vez. — Mas isso não é da sua conta. — Tendo perdido uma boa parte de sua confiança, entretanto, a menina decidiu que não estava mais apta para continuar o que estavam fazendo. Resolveu acabar com tudo. — E eu nem sei porque estou tendo esse tipo de conversa com alguém que nem ao menos é real. Passar bem, perturbação mental. — Mais uma vez, virou as costas para que pudesse alcançar a sua bolsa.
— Se eu não fosse real, conseguiria sentir isso? — Ouviu a voz do menino dizer, mesmo sem vê-lo. Não deu muita atenção para o seu significado. Não antes de ser atingida por algum tipo de material gelado em suas costas. Lentamente, como se acumulasse toda sua raiva, trouxe seu braço para descobrir o que havia causado o impacto, vendo que, sim, ele havia jogado uma bola de neve.
— Você não fez isso. — Sem perceber a implicação daquele gesto, Aerys disse o que diria se discutisse com qualquer outra pessoa. Pouco a pouco, entretanto, o senso do que realmente acontecera a tocou. — Você fez isso. — Tirando seus olhos do chão e focando toda a sua atenção na pessoa em sua frente, sua boca ficou o mais aberta em toda história da sua vida. — Você tacou neve em mim! Você... você.... — Procurava palavras para descrever a situação de maneira perfeita, mas não conseguia. Nada surgia em sua mente além do fato de que aquele ser era verdadeiro. E extremamente lindo. — Você é Jack Frost. — Por fim, desistiu. Não havia outra menção que coubesse nele tão bem quanto seu próprio nome.
— Ao seu dispor, milady. — Sua graciosidade ao curvar-se diante da menina foi tanta que pensou ter sido ensaiada. Mas Aerys sabia que não tinha sido, não para ele. Não precisava ser.
Ele só era deslumbrante por natureza.
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