Notas iniciais
Segundo capítulo do dia, êêêêê

21 DE NOVEMBRO DE 2007

Brian entrou na delegacia sendo acompanhado por três policiais e por um par de algemas que prendiam seus pulsos. O metal frio já não incomodava mais; havia perdido a conta de quantas vezes havia colocado suas mãos para trás para que o policial as prendesse. Foi conduzido até uma sala que ele conhecia bem: a sala de interrogatório. O policial o empurrou para que sentasse atrás da grande mesa de ferro e não demorou muito para que Alden aparecesse.


– Olha quem temos aqui... Você está ficando famoso, sabia? – Alden sorriu.


Brian manteve a expressão séria enquanto lançava um olhar desafiador para Alden.


– Não adianta me olhar assim, não vai me seduzir e você não vai sair daqui... Aliás, foi assim, Brian? Você seduziu as vítimas? Você jurou amor eterno ou simplesmente contou uma piada? – Alden perguntou fingindo curiosidade – Me conte, Brian.


Brian não respondeu.


– Você não vai querer que a Scotland Yard faça uma visita para você, vai? Você sabe, eles podem contatar o FBI, aí a coisa vai ficar pior pro seu lado... – Alden falou com calma.


Nenhuma resposta.


– Bom, Brian. – Alden respirou fundo – Eu entendo que você não queira falar nada. Mas saiba que mesmo você não confessando, eu já sei de tudo. Como você sabe, temos bons peritos aqui... – Alden sorriu.


Brian engoliu seco.


– Eu tenho uma, em especial, Nora Mayson, ela é realmente eficiente. Ela sabe todos os detalhes, achou todas as pistas... Foi ela que me entregou você, Brian. Ela me deu um relatório com toda a sua história aqui.


Respirou fundo. Alden sabia que tinha acertado; ele havia achado o ponto fraco de Brian. Há tempos Alden suspeitava da relação entre Brian e Nora e sabia que isso poderia ser usado de alguma forma. Resolveu continuar com o seu jogo.


– Ela também me disse uma coisa curiosa; contou-me a história por trás da morte da sua mãe. Ela estava certa, Brian? Você viu seu pai matando a sua mãe?


O moreno respirou fundo novamente e apertou os olhos tentando manter a calma.


– Estou vendo que você resolveu fazer voto de silêncio... Espero que na nossa próxima conversa você seja menos burro e me conte toda a verdade. – Alden falou enquanto andava em volta de Brian – Deixe ele aqui. – ele falou para um policial que estava parado no canto da sala.


Alden saiu nervoso da sala de interrogatório e entrou na sala de Varghese, o surpreendendo.


– O que aconteceu? – Varghese ergueu uma sobrancelha.


– Ele é esperto. Ele não falou nada. Ele é o culpado, Varghese. Ele conhece as leis, ele conhece as técnicas, ele sabe que não temos nenhuma prova. Ele sabe quando estamos mentindo. – Alden falava rapidamente enquanto andava pela sala.


– Alden, se acalme, por favor. – Varghese pediu – O deixe preso aqui por algum tempo enquanto a perícia analisa novamente as provas.


– Quais provas? Eu já falei, ele é esperto, ele não deixou nenhum fio de cabelo, nenhuma poeira que nos levasse até ele. – Alden chacoalhou a cabeça.


– Às vezes as provas não são físicas. – Varghese respondeu com calma.


– Não comece com suas metáforas, elas não me ajudam em nada. Nós não demos um passo sequer desde o começo da investigação. Não conseguimos traçar um perfil com clareza, não tivemos nenhuma denúncia. – Alden falou exaltado.


– Então espere Haner confessar. – Varghese continuou calmo.


– Não temos tempo...


– E por que não? Você está certo de que ele é o assassino e ele já está preso aqui. Não vamos perder outra vida.


– E se ele tiver um cúmplice? E se ele instruiu alguém para continuar a matança enquanto ele estivesse aqui?


– Alden, por favor, seja racional. Você está agindo como um psicótico. Se continuar assim, vou ter que pedir para que se retire do caso. – Varghese falou firme.


Alden respirou fundo e passou a mão na testa.


– Desculpe... É que eu me sinto idiota sabendo que estou com um assassino e não consigo tirar nenhum proveito disso.


– Achei que você estivesse acostumado.


– Não, Varghese. Você trabalhou no FBI, você sabe que lá era diferente. Nós convivíamos com loucos que não tinham nem consciência de seus atos. Eles eram previsíveis, nós sabíamos exatamente quem eles iriam matar e onde eles iriam matar. Nós traçávamos o perfil dois, três dias depois da análise da cena. Sempre tinha um fio de cabelo ou até mesmo uma ligação do assassino para a polícia. Brian não, ele age como um louco, mas fala como um gênio. Ele tem a sanidade e a loucura na medida certa. Eu tenho a certeza da culpa dele, mas ao mesmo tempo tenho medo de estar dando a chance para o verdadeiro assassino fazer outra vítima.


– Você conhece a história de um serial killer conhecido como “Zodíaco”? – Varghese perguntou tirando seus óculos e os colocando em cima da mesa de madeira.


– Claro.


– Então você deve saber que a policia ainda não faz ideia de quem ele seja.


– Sim...


– Não se culpe por não obter êxito, Alden. Algumas pessoas têm o dom e simplesmente escolhem usar esse dom para fazer o mal.


– Dom?


– Alguns enxergam como loucura, outros como possessão... Eu vejo como um dom. Sabe, Alden, quando você tem que conviver com tanta burrice e tanta ingenuidade, você passa a admirar essas pessoas. Não idolatro, claro que não, mas admiro a inteligência delas, admiro a superioridade.


– Zodíaco era inteligente.


– Inteligente o bastante para mandar cartas para a policia relatando seus crimes e mesmo assim nunca ter sido pego. – Varghese completou.


– Então... Simplesmente ignoramos? É isso? Está me dizendo para desistir e deixar Brian espalhar o seu “dom” pelo mundo? – Alden perguntou irônico.


Varghese sorriu.


– Não, Alden, estou falando para você aceitar o fato de que Haner é inteligente e que sabe manipular quem ele quiser. Estude isso, aprenda a ver as pessoas e o mundo da mesma forma que ele vê, e aí você terá todas as provas que precisa.