Notas iniciais
Oi! Bom, hoje é feriado (e coincidentemente é terça), então eu resolvi cumprir a minha promessa e postar um capítulo a mais nessa semana. Agora sim as coisas vão começar a ficar mais sérias e mais confusas, espero que gostem!

Música: System Of A Down - Aerials (http://www.youtube.com/watch?v=L-iepu3EtyE&ob=av2n) // Sou apaixonada por essa música, pfvr escutem

06 DE JULHO DE 2006

Nora ouviu novamente a voz feminina da caixa postal. Já havia perdido a conta de quantas vezes tinha ligado para o Brian. Jogou o celular na cama e passou a mão na testa. Ela estava preocupada; Brian estava a quilômetros de distância e provavelmente algo estava errado. Sentiu-se incapaz de ajuda-lo, como se suas mãos estivessem amarradas enquanto ela observava o sofrimento dele. Foi até o banheiro e jogou um pouco da água fria no rosto. Olhou-se no espelho e lembrou-se de Matt.

O dia anterior havia sido divertido. Tomaram sorvete e entraram em todas as lojas do shopping pequeno. Nora soube mais sobre a vida do simples filho do padeiro. Seus pais eram casados desde que tinham dezesseis anos. Após algum tempo, o pai de Matt se envolveu com uma mulher mais velha e teve uma relação extraconjugal, o que resultou em Lizzy. Após alguns meses, a mãe de Lizzy morreu de uma doença que adquiriu ao fazer o parto da filha em sua própria casa sem as condições mínimas de higiene. Após a descoberta de Lizzy, a mãe de Matt – ao contrário do que outra mulher faria – aceitou Lizzy e perdoou seu marido, devido ao grande desejo de terem uma filha mulher. Os dois sempre se referiram a Matt e Lizzy como “os filhos perfeitos”. E realmente eram. Matt trabalhava desde cedo na padaria com a irmã, e sempre soube dar valor às coisas que os pais lhe davam com tanto esforço.

Nora ficou encantada com o orgulho que Matt sentia dos pais e das irmãs, sempre os colocando em primeiro lugar. Ela queria ter uma família unida como a dele. Queria chegar da faculdade e ver seus pais sentados no sofá esperando ansiosos por ela. Ela reconhecia o esforço do pai, sabia que não era fácil criar sozinho uma filha. Nora nunca teve um exemplo feminino. Gostava de jogar futebol, assistir séries policiais e não gostava de pentear o cabelo. Não gostava de esmaltes e nem joias, apenas usava uma pulseira fina de ouro que havia sido de sua mãe.

Matt a havia deixado na porta de seu prédio um pouco antes do pôr do sol, e depois seguiu para o trabalho na padaria. Nora havia ligado inúmeras vezes para o celular de Brian durante o passeio no shopping, mas ele não atendeu. Voltou para o quarto e checou o celular em busca de alguma chamada não atendida ou alguma mensagem, mas não havia nada. Perdeu a paciência e desligou o celular. Se Brian não queria falar com ela, ela respeitaria a decisão. Ligou o notebook e começou suas pesquisas rotineiras sobre alguma novidade policial. Alguns roubos em outros estados, alguns assassinatos em outros países, e nada de muito importante que prendesse a atenção de Nora.

Não demorou muito para que ela se entediasse e desligasse o notebook. Foi até a cama e pegou o celular jogado em cima do edredom claro. Sentiu um arrependimento por ter desligado o celular e o ligou, esperando ver alguma nova mensagem. No mesmo instante o celular tocou; alguém deveria estar ligando para ela desde a hora que ela havia desligado o celular. Leu o número desconhecido no visor e atendeu com receio.

– Oi. – Brian respondeu com a voz baixa.

– Oi! – ela respondeu com receio. – Que número é esse?


– Tive que trocar de celular. – ele respondeu calmo.


– Hum. O que aconteceu ontem? Você estava estranho...


– Não era nada. Só uns problemas com o apartamento aqui. – ele respondeu depois de um tempo.


– Algo sério?


– Vou ter que me mudar, mas ainda não sei pra onde... Talvez eu volte pros Estados Unidos.


– Você podia vir me fazer uma visita. – ela respondeu mordendo o lábio.


– Não sei... Talvez seja uma boa ideia. – ele respondeu depois de pensar um pouco.


Nora sorriu. Não demorou muito para que Brian tivesse que desligar. Nora colocou o celular em cima da mesa da sala e resolveu conhecer um pouco mais da cidade. Até agora, ela só conhecia o shopping e a rua onde morava. Lembrou-se de quando Matt disse que havia um parque bonito no final da cidade, mas que ninguém ia mais lá. Resolveu fazer uma visita ao lugar e colocou uma blusa fina. Esperou pacientemente o elevador enquanto um senhor alto parava ao seu lado.


– Você é Nora Mayson? – ele perguntou enquanto virava-se para ela.


– Sim. E o senhor? – ela perguntou com receio.


– Sou Nicholas Freeman. Você trabalha na polícia, não? – ele perguntou com curiosidade.


– Sim... Como o senhor sabe? – ela perguntou curiosa.


– Também trabalho lá. Sou da parte de vitimologia. – ele respondeu orgulhoso.


– Legal! – ela respondeu com um sorriso. – Sou da perícia criminal.


– Eu sei... Northamptonshire não é o melhor lugar pra gente trabalhar. – ele respondeu balançando a cabeça.


– Concordo... – ela respondeu cruzando os braços.


– Vai pra delegacia? – ele perguntou enquanto o elevador abria a porta.


– Não. E você? – ela perguntou entrando no elevador.


– Vou. Fui transferido há pouco tempo e tenho uns relatórios pra ler e preencher. – ele respondeu enquanto a porta fechava.


Durante a rápida descida do elevador, Nicholas contou para Nora seu último trabalho como vitimologista no FBI. Nora queria aquele universo, queria viver as situações que ela sempre havia visto nos seriados de televisão. Passaram conversando pela entrada do prédio, até chegarem à calçada.


– Bom, vou por ali. – Nicholas apontou para o lado esquerdo.


– Vou pelo outro lado. – ela sorriu.


– Nos vemos na delegacia qualquer dia desses. – ele sorriu.


– Claro!


Ela deu um aceno rápido para Nicholas e começou a caminhar pela rua. Deu alguns passos e fez sinal para um táxi.


– Brixworth Country Park, por favor. – ela pediu assim que entrou no táxi.


– Brixworth? Tem certeza? O lugar está abandonado. – o motorista perguntou sorrindo.


– Sim. – Nora sorriu.


O motorista balançou a cabeça rindo e ligou o carro. Andaram por quinze minutos até que o táxi parou em uma estrada vazia. Nora sentiu um frio na barriga e logo deu alguns euros para o motorista, descendo o táxi em seguida.


– Como eu faço pra ir embora? – ela perguntou sem graça.


– O vigia nunca saiu daí, é só pedir pra ele te levar até a cidade. – o homem falou antes de ligar o carro e voltar pela estrada.


Nora virou-se e viu a entrada do parque. Estava realmente abandonada; o arco de metal estava completamente tomado pelas plantas que disputavam lugar com as folhas velhas. Nora atravessou o arco, seguindo algumas placas enferrujadas que continham setas indicando a direção. Andou um pouco, até avistar um velho homem que varria algumas folhas mortas em baixo de uma árvore. O velho parou assim que viu Nora, encostou a vassoura no tronco da árvore e passou a mão na testa, ajeitando o chapéu.


– Oi? – Nora perguntou com receio.


– O que você quer? – o homem perguntou nervoso.


– Eu... Eu sou nova na cidade e... Um amigo me falou desse...


– Não tem nada aqui pra você. É melhor você voltar. – ele falou enquanto limpava as mãos num pano sujo.


– Mas...


– Olha, moça, eu não quero mais problemas pra mim. Eu sou o único que ainda vem nesse parque, eu prefiro nem pensar no que os vândalos vão fazer com isso se eu tiver que sair.


– Eu não vim causar problemas. Eu só gostaria de conhecer o lugar. – ela insistiu.


O velho bufou e guardou o pano sujo dentro do bolso do macacão jeans.


– Por que isso está abandonado? – Nora perguntou depois de um tempo.


– O Brixworth costumava ser o melhor parque do interior da Inglaterra. Todas as escolas traziam seus alunos aqui; eles costumavam fazer piqueniques enquanto os alunos menores brincavam com os patos. Esse lugar era cheio de vida. – ele falou enquanto andava na beirada do lago, sendo seguido por Nora – Eu trabalho aqui desde os primeiros anos de funcionamento do parque. É triste vê-lo se acabar desse jeito.


– O que aconteceu? – Nora perguntou enquanto olhava o lago.


– Foi quando o Colégio Pitsford trouxe seus alunos pra cá. Na época, um dos alunos era filho do chefe da polícia. O homem era um sujeito muito rude e bravo com o filho, não deixava o menino fazer nada. No dia, ele veio pra cá acompanhar o filho e trouxe a esposa. Eles sempre ficavam longe do resto da turma, a gente sabia que o menino queria ficar com os amigos, mas o pai nunca soltava o seu braço. Depois de um tempo, eu percebi que o pai e a esposa estavam brigando, e aí os três sumiram. Um pouco antes de ir embora, o pai voltou sem a esposa e nos acusou de ter sumido com ela. Eu lembro que vários carros da polícia invadiram o parque e as buscas só foram terminadas na noite seguinte, quando acharam o corpo da mulher encostado em uma árvore. – ele parou e olhou para o lago – Foi a noite mais horrível da minha vida. Nunca suspeitaram do policial, na época não existiam esses testes que existem hoje e o caso acabou arquivado.


– Meu Deus... O próprio marido matou a esposa? – Nora perguntou boquiaberta.


– Eu vi no olhar do menino; ele estava assustado, estava com medo. Ele havia visto alguma coisa. – o homem respondeu enquanto ajeitava o chapéu na cabeça – Depois disso, ninguém mais veio aqui.


Nora voltou seus olhos para o lago. O frio da Inglaterra deixava o parque mais assustador. Até mesmo quem não sabia da história seria capaz de sentir medo só ao pisar naquele lugar. O lago negro refletia as árvores, criando uma espécie de espelho gigante.


– O senhor... Pode me levar até a cidade? – Nora perguntou. Não queria mais ficar ali.


– Tenho que comprar umas ferramentas, eu posso te dar uma carona. – ele falou dando de ombros.


Nora agradeceu e seguiu o senhor até uma caminhonete velha. Nora não conseguiu tirar a história de sua mente durante o caminho inteiro. Aquele menino havia visto a morte da mãe. E se Nora procurasse por ele? E se Nora descobrisse o que realmente havia acontecido naquele dia? Ela sentiu uma ansiedade tomar seu corpo ao perceber que poderia ter um caso em suas mãos. O que ela não sabia é que estava realmente perto demais de descobrir a história real.