Natural Born Killer
9 Por Enquanto
Notas iniciais
Espero que gostem!
20 DE JULHO DE 2006
Nora não havia ido até a delegacia desde o último telefonema de Brian, e também não havia falado com ele após isso. Seu apartamento estava mais decorado; havia alguns quadros simples enfeitando o corredor dos quartos e do banheiro. Alguns potes coloridos também enfeitavam a pequena cozinha. Nora só não havia comprado as cortinas; ela não queria que panos cobrissem a bela vista que ela tinha daquele andar. Ela podia jurar que conseguia ver Londres e até mesmo o palácio real. O apartamento tinha dois quartos – um deles, Nora usava como depósito para as caixas de papelão que ela teimava em achar que poderia usa-las para alguma coisa –, um banheiro, uma grande sala com a mesa de jantar e uma pequena cozinha que era separada da “mini-lavanderia” por uma porta de vidro. Tudo ali tinha a cara de Nora: desde o chaveiro pendurado na fechadura até o jeito de dobrar as roupas dentro do armário. Aquele era o seu refúgio, o seu esconderijo; era como se nada pudesse ameaça-la enquanto ela estivesse lá dentro.
Ela colocou a xícara de café dentro da pia vazia e andou até a sala. Logo, Matt a viria buscar para um passeio noturno pelas ruas movimentadas de Northamptonshire. Ela se sentia feliz com ele, era como se ele pudesse protegê-la do mundo. Ele a fazia esquecer-se de toda a saudade e de todo o arrependimento que sentia por ter deixado seu pai sozinho nos Estados Unidos. Ele a divertia com suas histórias e ela gostava da cara que ele fazia quando ela começava a contar sobre sua vida americana. Podiam jurar que eram feitos um para o outro; Nora não sabia cozinhar e Matt tinha uma lista imensa de pratos deliciosos que ele sabia preparar. Em contrapartida, Nora fazia com que Matt aguçasse seu gosto por livros e seriados policiais – até então desconhecido por ele. Eles eram como irmãos gêmeos que conseguem completar as frases um do outro. Um sabia exatamente o que o outro estava sentindo, eles não precisavam de palavras para se comunicar.
Apesar de toda a excitação e ansiedade que o novo amor causava em Nora, ela se sentia insegura. Às vezes, acordava no meio da noite e se via perdida em um lugar totalmente estranho. Sentia vontade de pegar o primeiro avião e voltar para os Estados Unidos sem olhar para trás. Era uma aventura instigante, Nora não podia negar, mas era ao mesmo tempo um precipício que ela não sabia a profundidade e tinha medo de olhar. Ela nunca teve tempo para se relacionar com as pessoas, para sentar em um bar e conversar sobre assuntos sem sentido. Passou metade da vida com a cara enfiada nos livros de psicologia e criminalística. Após terminar a faculdade, passou os meses trancada na Academia de Polícia enquanto era alvo de piadas machistas e nojentas. Ela não sabia se relacionar; não tinha assuntos e muito menos interesse em ouvir. Era automático: ela não sabia conversar sem analisar as expressões e os gestos. Ela não tinha paciência para as pessoas. Apenas para os criminosos.
Nora perdeu a conta de quantas vezes já havia passado a mão nos cabelos; eles já deveriam estar oleosos. Era nove horas da noite e Matt já deveria ter chegado. Começou a se preocupar e resolveu descer até a calçada. Assim que abriu a porta, se deparou com Matt saindo do elevador. Ela sorriu aliviada.
- Desculpa, meu pai me fez ficar até mais tarde na padaria. – ele falou sorrindo sem graça.
- Tudo bem. – ela respondeu sorrindo.
Matt abraçou sua cintura e depositou um selinho demorado em seus lábios. Sorriu enquanto abriu a porta e deu passagem para que Nora entrasse. Ela sorriu ao ver as covinhas dele.
- Trouxe uns filmes. – ele falou enquanto tirava uns DVD’s de uma sacola plástica – Achei que como estava tarde, você ia preferir ficar em casa. Mas se quiser sair, tudo bem. – ele deu de ombros.
- Não, filme está ótimo. – ela sorriu enquanto pegava os DVD’s da mão dele.
- Não vai ver quais são? – ele perguntou enquanto Nora colocava os DVD’s do lado da televisão.
- Não, confio em você. – ela sorriu.
Matt sorriu tímido e a abraçou por trás, beijando seu ombro. Nora sentiu um arrepio e fechou os olhos, passando as mãos por cima das dele. Ela virou e passou os braços em volta do seu pescoço, enquanto ele cruzava as mãos atrás das costas dela. Matt distribuiu rápidos beijos em sua bochecha, até chegar a seus lábios, onde deu um beijo rápido. Nora sorriu e deu um selinho demorado nos lábios de Matt, que sorriu também. Logo, estavam se beijando calmamente. Já fazia nove dias desde o primeiro beijo e Nora ainda não havia se acostumado com a língua quente e os lábios carnudos dele. Eles separaram os lábios buscando oxigênio e sorriram.
- Estou com fome. – ele sussurrou apertando os lábios.
- Ah. – Nora sorriu sínica – Vou ver se tem alguma coisa pra comer.
Nora deu alguns passos na direção da cozinha, mas Matt segurou seu pulso.
- Deixa que eu cozinho. – ele pediu sorrindo.
- Não, eu quero aprender alguma coisa. E quando eu estiver sozinha? – ela perguntou erguendo as sobrancelhas.
- Você me chama e eu me venho cozinhar pra você. – ele respondeu tirando uma mecha de cabelo do rosto dela.
- Não, Matt... Me deixa cozinhar. – ela pediu chorosa.
- Eu tenho medo. – ele respondeu sorrindo.
- Medo?! – ela perguntou enquanto batia de leve a mão no braço forte dele – Medo de morrer intoxicado? – ela perguntou irônica.
- Não... É... – ele respondeu fingindo pensar.
Nora riu e soltou bruscamente seu pulso, indo até a cozinha e fingindo estar brava. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa de Coca-Cola.
- Isso mata a fome? – Matt perguntou enquanto Nora enchia um copo.
- Às vezes. – ela sorriu.
Matt a segurou pela cintura e olhou em seus olhos. Nora sorriu tímida e abaixou a cabeça. Ele segurou em seu queixo e a fez retomar o olhar.
- O que a gente é? – ele perguntou depois de um tempo.
- Como assim? – ela arqueou uma sobrancelha.
- Você sabe. – ele apoiou as mãos na pia, prendendo o corpo de Nora.
- Eu ainda não sei. – Nora respondeu respirando fundo.
- Quando souber, me fala. – ele pediu calmo.
- Pode deixar. – ela sorriu sem graça.
Matt sorriu, deixando a mostra suas covinhas. Nora passou o polegar pelo rosto quente dele, o fazendo corar. Bebeu um gole da Coca e segurou a mão de Matt, o guiando até a sala.
Ela não estava pronta pra assumir um relacionamento. Aliás, essa palavra sempre a assuntou. Era como se “namorar” ou “casar” fosse uma espécie conjunto de leis que ela deveria cumprir. Era um fardo pesado e ela não estava com vontade de carregar. Se pudesse, continuaria para sempre assim, sem saber o que realmente ela e Matt eram. Só sabia que tinham uma cumplicidade que ela jamais havia tido com alguém, e isso bastava para ela.
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