Natur

2 Queimada


Depois da entrada teatral de todas as deusas, eu já estava entediada. Esperei sinceramente que Dagda aparecesse, mas nada aconteceu. Tinham me falado isso. Mas eu esperava que fosse mentira. Depois de esperar por 10 minutos a presença da deusa, percebemos que era tempo perdido e decidimos ir embora. Todas se levantaram, e eu senti um formigamento no corpo. Em um piscar de olhos, tudo ficou diferente. Senti meu corpo se aquecer e olhei para trás a tempo de ver dois grandes braços saírem da fogueira e me envolverem. O fogo não me puxou para a fogueira: ele veio até mim. Um calor insuportável se apoderava de mim, mas eu não sentia dor. Olhei para o fogo que me rodeava e percebi que ele dançava a minha volta, chegando cada vez mais perto. Analisando por mais tempo, consegui distinguir dois olhos vermelhos, que se camuflavam na loucura do fogo. Logo abaixo, a boca que estava em um sorriso irônico ficou séria e perguntou, em uma voz sedutora:

- Pronta para isso, Pwyll?

— Virar carvão? — Consegui responder, ofegante.
Ela soltou uma risada e a luz entrou na minha mente. Não conseguia pensar. Não conseguia respirar. Senti meu corpo sendo sugado por um furacão. Logo depois, eu estava caindo. Quando cheguei ao chão, não foi uma pancada, e sim como se eu tivesse sido deixada gentilmente na terra. Quando me senti firme no solo, fiquei de pé e olhei ao redor. Se eu estivesse na minha vila, Dadga seria aterrorizante, medonha. Porém, ela pertencia àquele local. Enormes torres de castelos se erguiam do lado de fora da caverna em que estávamos. Nas paredes, lava escorria livremente. Andei até a abertura da caverna, a tempo de ver um enorme dragão passar na minha frente.

— AH! Cum¹! — Gritei e andei para trás.
Ouvi um risinho atrás de mim e me virei para examinar Dagda mais precisamente. Tudo nela pegava fogo. Me sentia fervendo só de estar perto dela. Os cabelos crepitavam, os olhos queimavam e a roupa vermelha parecia ondular à sua volta como fogo queimando madeira. Me olhava com um sorriso irônico. Fechei o rosto para ela.
— É assim que você cuida dos seus bichinhos? Deixas esse lagarto gigante brincar por ai?

— Ah, pena que não gostou da minha pequena salamandra... Ia ser um presente para você. — E sorriu, fingindo tristeza.
Como um raio, a verdade me atingiu. Eu estava com Dagda, a deusa do Fogo. Algo que eu pensei que nunca aconteceria. Meu sonho. Eu seria uma escolhida. A segunda pessoa a ter esse dom. Eu seria imortal! Segurei a súbita vontade de gargalhar. Dagda estava se aproximando de mim. Ela era do meu tamanho, constatei. Sempre pensei que ela seria grande, forte, enorme... Mas era uma pessoa minúscula. E muito mais aterrorizante por isso.

— Queres mesmo isso, Pwyll? Não tem volta. Eu não vou estar lá para te guiar a todo momento igual as outras deusas. Terás um caminho solitário.

— Sim, eu quero. — Não conseguia falar muito alto. Tinha medo de gritar com ela e estragar tudo.

— Perfeito. — O sorriso irônico voltou aos seus lábios. — Vou entrar em contato com Dewi, ela vai te ensinar o básico. Ela pode demorar um pouco, então continue sua vida normalmente até ela aparecer.

— Sim, claro. — Esperava que a ironia não tivesse ficado perceptível, mas ela achava mesmo que eu iria levar a vida normalmente quando eu era uma Tannyr²? Por favor. Mas ela apenas sorriu e se aproximou mais. Ficamos face a face, e ela encostou a ponta dos seus dedos no meu ombro. Senti uma terrível dor de queimadura no lugar. Logo em seguida, soprou a ferida que se formou.

- Gorffwys, plentyn, gorffwys... (Descanse, criança, descanse...) O calor da ferida se espalhou pelo meu corpo rapidamente, e assim que ela pronunciou as palavras, meus olhos começaram a pesar, e eu me senti estranhamente leve. O calor ainda existia nas minhas veias, mas agora era parte de mim. Eu não podia apenas controlar o fogo. Eu era o fogo. Me senti extremamente forte e capaz de destruir tudo e todos. Bem, menos Dadga, mas me sentia poderosa como nunca me senti antes. Deixei meu corpo descansar, sabendo que em breve eu raramente me sentiria cansada novamente. Fechei os olhos.

Notas finais
Cum¹: Porra, caralho.
Tannyr²: Seguidoras do Fogo. São extremamente raras, como diz no primeiro capítulo. Desde o começo dos tempos até os anos atuais, apenas 4 pessoas foram escolhidas como seguidoras do fogo. Dewi foi a primeira delas, e Pwyll a segunda.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.