Nascidos da Noite - Livro Rigor Mortis
23 Capítulo 23 - Dois olhos vermelhos na escuridão
Estavam no segundo andar da mansão, no quarto de Dorotéia.
Dorotéia acertou o rosto de Cachorro Louco com o cabo da arma, e um filete de sangue escorreu por sua bochecha, até o queixo. Ele teve que se segurar para não gritar, e depois para não chorar. Não daria a ela esse prazer.
— Pela última vez, quem te mandou aqui? – perguntou ela, irritada.
— Ninguém!
— Diga Adam! Diga Cachorro Louco! Diga seu vadio de merda! Quem te mandou aqui?
Mais pancadas. Cachorro Louco sentia o sangue escorrer quente por seu rosto. Sua visão ficava desfocada a cada novo golpe, e ele sentia que desmaiaria a qualquer momento. Mas não disse nada.
— Você não vai dizer, não é mesmo? Seu vadio de merda. – Dorotéia parecia cansada. Sentou-se em uma poltrona na frente de Cachorro Louco e ficou olhando para ele com desdém.
Ele se manteve em silêncio.
— Pois bem, sua hora chegou. Chega para todos, não é mesmo?
A mulher ergueu-se novamente. Puxou Cachorro Louco pelo braço. Cambaleante os dois seguiram até a varanda. Ali, havia um estranho aparato: uma espécie de garra metálica que se projetava para fora da janela. Presa à garra havia uma corrente, e na ponta da corrente um gancho.
— Por favor... Eu não volto mais aqui...
— O tempo de falar acabou, garoto – disse Dorotéia, amordaçando Cachorro Louco.
Depois, Dorotéia prendeu o gancho às mãos amarradas de Cachorro Louco. Então, apertou um botão junto à parede, e o garoto foi erguido pela garra metálica. A mulher começou a mexer em algumas alavancas, e Cachorro Louco foi projetado para fora da casa, suspenso pelos braços.
Ali, suspenso sobre a escuridão, ele pensou em sua morte. Na verdade, conseguia sentir mãos frias apertando seu pescoço, arrancando sua vida à medida que a respiração se tornava mais difícil e arrastada. Por que Samanta não fazia nada?
Samanta assistia ao espetáculo, escondida no meio dos arbustos. Ainda não era a hora de agir. Primeiro, Dorotéia precisava ficar confiante a ponto de baixar a guarda e sair de casa. Se ela desconfiasse de alguma coisa jamais sairia. Mas quem desconfiaria de um curto-circuito?
— Adeus, pivete!
Dorotéia começou a descer Cachorro Louco lentamente. Ele se contorcia, preso à corrente, tentando se soltar. Abaixo dele, havia o poço – agora a tampa havia se retraído, provavelmente por um comando remoto. Cachorro Louco olhou detidamente para baixo, e viu duas órbitas vermelhas brilhando na escuridão. Apesar de todo o barulho causado pelo aparato mecânico no qual estava preso, poderia jurar que um som quase animalesco se projetava para fora daquele poço.
Quando estava na metade do caminho até o nível do chão, o aparato parou. Um som agudo ecoou, e toda a casa ficou escura.
Dorotéia apertou os botões do painel que controlava o gancho com impaciência.
— Mas que droga! – gritou. – Essa casa está caindo aos pedaços!
Furiosa, Dorotéia agarrou uma lanterna portátil, a qual usava fixada na blusa e, com a arma em punho, desceu as escadas. No primeiro andar, ela pegou o spray de água-benta e caminhou na direção da porta dos fundos, por onde conduzira o pivete mais cedo.
Pendurado sobre o poço, Cachorro Louco agradecia aos deuses (fossem quem fossem eles) por ainda estar vivo. Lá embaixo, as órbitas vermelhas estavam inquietas, se movimentando de um lado para o outro, e ele acreditou ouvir rugidos cada vez mais constantes.
Dorotéia saiu da casa e caminhou até um painel eletrônico, junto ao muro. O cadeado estava rompido, a porta aberta e os fios que levavam energia para a casa foram rompidos de uma forma que ela não conseguiria consertar.
— Mas quem...
— Titia, quanto tempo – ecoou uma voz atrás de Dorotéia.
Lentamente ela se virou para a escuridão. Duas órbitas vermelhas flutuavam há menos de dez metros. Estava escuro demais, e ela percebeu que acabou de cair em uma armadilha. Ela inclinou um pouco o facho de luz da lanterna na direção do vulto.
— Você?
— Por que a surpresa, titia? Não vai abraçar sua querida sobrinha?
Dorotéia esboçou uma expressão de terror – como nunca havia feito antes. Negou com um movimento da cabeça, e apontou a arma para Samanta.
— Deveria ter imaginado que era você.
A vampira olhou com desdém. Esquecera a maior parte do que aconteceu antes de ser encontrada por Cachorro Louco, mas algumas memórias eram fortes demais para serem apagadas – e a tia era uma delas.
Samanta cruzou os braços. Olhou para a arma segurada por Dorotéia – uma espingarda, aparentemente. Inútil contra vampiros. Também havia um spray de água-benta preso à cintura.
— O que me impede de estraçalhar você neste exato momento? – perguntou Samanta.
— Tiros secundários, querida – disse Dorotéia, recomposta. – Sei que balas comuns não são eficientes contra sua espécie, mas, e quanto a balas de água-benta?
Samanta imaginou se aquilo não seria um blefe da velha Dorotéia. A tia nunca foi uma boa jogadora, mas poderia blefar razoavelmente bem caso houvesse alguma coisa importante em jogo – como sua vida, por exemplo.
— Veio me matar por vingança, Samanta? Acha que sou culpada pelo que você se tornou?
A vampira se manteve em silêncio. A tia era uma criatura patética, digna de pena. Apesar das memórias confusas, Samanta sabia que ela era uma pessoa horrível, e que sua transformação em vampira era obra dela.
— Eu quero a verdade, tia.
— A verdade é que você é uma puta! Uma sanguessuga amaldiçoada, Samanta. Tentou roubar meu bem mais precioso de mim, e por isso mereceu esse destino! E quando eu terminar com você, vai se transformar em uma pilha de pó fumegante, que eu varrerei para o lixo...
Samanta se colocou em posição de ataque, ao que Dorotéia respondeu segurando firme a arma.
— Mais um movimento e eu estouro seus miolos, sanguessuga! – gritou Dorotéia.
O que aconteceu a seguir foi uma mistura de planejamento com destino. Samanta, prevendo que a tia ficaria perto do painel de eletricidade, esticou uma corda junto ao solo, e cobriu-a com areia, amarrando uma das pontas na base do painel. Agora, enquanto conversavam, a vampira tratou de encontrar a ponta solta da corda e, habilmente, enrolou-a ao pé. Com um movimento, Samanta puxou a corda na horizontal, derrubando Dorotéia. Um estampido ecoou pelo ar frio da noite quando a velha atirou para o alto. Samanta rapidamente saltou sobre a tia, arrancando a arma das mãos dela. Dorotéia ainda tentou agarrar o spray, mas foi impedida por Samanta, que segurou-a pelo pescoço, erguendo-a do chão.
— Diga a verdade, e talvez eu a deixe viver – disse a vampira.
Começou a flutuar, cada vez mais alto na escuridão da noite. Agora, eram só as duas. Samanta deixou Dorotéia segurar seu braço, libertando-a do enforcamento.
— Deixei-me descer... Samanta...
— Tudo o que eu quero é a verdade, titia. Nada mais do que a verdade.
— Eu imploro... Se não por mim, por meu filho... Ele não vai sobreviver sem mim...
Samanta esboçou um sorriso.
— Por que tentou me matar, titia?
Dorotéia mal conseguia se segurar no braço de Samanta. Estava quase caindo para a morte.
— Eu não queria isso... Ele queria você – disse a mulher, escorregando. – Amadeus...
Samanta se lembrou dele. Um dos clientes de Dorotéia, Amadeus Boyne. Um homem assustador.
— E a senhora deixou que ele fizesse o que queria comigo...
— Eu precisava do dinheiro... Não pode condenar uma mulher doente – disse Dorotéia. – Fiz pelo meu filho... Seu primo...
Samanta fechou os olhos. Estava cansada de ouvir que os fins justificavam os meios. Deixou que Dorotéia escorregasse de seu braço. A cidade iluminada parecia um parque de diversões vista lá de cima.
— Samanta... Me ajude! Por favor!
Dorotéia escorregou, os braços tentando agarrar a sobrinha, em vão. Despencou de cem metros de altura, aterrissando em cima do painel de eletricidade que alimentava sua casa. Durante alguns segundos seu corpo serviu de ligação entre os fios, ligando novamente o braço mecânico que sustentava Cachorro Louco sobre o poço.
O braço, descontrolado, desceu com toda a velocidade. Cachorro Louco mergulhou no poço, e ficou suspenso há dois metros do fundo, quando o movimento parou novamente.
Lá embaixo os dois olhos vermelhos brilhavam na escuridão.
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