Já fazia mais de meia hora que eu havia sido deixada em total escuro pelo estranho que havia me sequestrado. Sem saber há quanto tempo ele havia me levado para aquele lugar, eu esperava que os outros estivessem me procurando e que logo me encontrassem. Com minha visão noturna já era possível destingir onde haviam objetos, não que aquilo me fosse útil já que eu ainda estava acorrentada. Ouvi a porta de ferro abrir e alguém entrou fazendo barulho. A luz se acendeu e eu fechei os olhos que se assustaram com a repentina claridade. Mantive-os pressionados por alguns segundos antes de abri-los vagarosamente até acostumar com a luz. Do outro lado da cela estava um rapaz parado. Ele vestia uma espécie de vestido daqueles que se usavam no deserto, carregava um animal morto em uma das mãos e na outra uma besta. Era o rapaz de antes, o que havia me nocauteado. Agora finalmente eu podia vê-lo. Seu cabelo era longo e preto, provavelmente alcançava os ombros, mas estava peso de forma bagunçada. Os olhos escuros e a pele bronzeada fazia ele ter um ar sombrio com as sobrancelha franzidas me encarando. Ficou me observando por longos minutos antes de praguejar baixinho. Sentindo seus olhos em mim, eu notei que estava começando a perder os sentidos. Eu iria desmaiar e não sabia se acordaria em uma situação melhor.

Quando acordei, não estava mais em pé e sim deitada, mas continuava com os braços e pernas amarradas. Agora estava presa em uma cama e estava tudo escuro. o que ele não sabia é que eu podia vê-lo claramente em pé ao lado de uma parede segurando uma longa lança. Minha barriga roncava de fome e meu corpo estava dolorido das posições que eu havia ficado nas últimas possíveis longas horas.

—Você acordou? — A voz do rapaz me assustou — Quero que responda as minhas perguntas. — Ele deu uma pausa, mas eu só respirei fundo e esperei. — Quem são vocês, porque saíram do mar e o que querem matando nossa gente depois de tanto tempo em paz?

—Uma coisa de cada vez, cowboy. Será que pode me desamarrar? — Tentei a sorte.

—Nem pensar, responda logo.

—Meu nome é Tamryn, sou uma celeste aquática. Eu morava em uma plataforma em alto mar, com mais umas trinta pessoas. Alguns aquáticos e alguns celestes. Éramos todos uma grande família feliz — Debochei. — Alguns nômades nos faziam entregas mensais em forma de trocas.

—O que são esses nômades? — Ele parecia irritado por não saber.

—Bom, são alguns aquáticos ou celestes que não se fixam em uma família, não ficam com um grupo e sim sozinhos. Eles precisam de alimentos então acabam conseguindo coisas para trocar conosco por comida. Alguns ficaram amigos nosso e quando eles não apareceram e depois novamente não apareceram no mês seguinte, nós desconfiamos que havia algo errado. -Respirei fundo. — E tinha.

O rapaz se moveu apertando algo na parede e uma luz se acendeu me assustando e então o rapaz sequestrador caminhou até mim com a lança nas mãos apontada para o meu coração e parou bem perto de mim.

—O que havia de errado, demônio?

—Será que da para parar de me chamar disso? — Reclamei. — Acha que se eu fosse um demônio teria sido capturada tão facilmente? Espera, isso é energia elétrica?

—Responda! — Gritou me assustando.

—Bom, nós fomos até uma plataforma perto da nossa que é enorme e com uma população grande e ai... estavam mortos. Decapitados.

—Quem fez isso?

—Eu não sei. — Respondi com raiva. — Eu não faço ideia do que foi aquilo. Quando voltamos para casa para contar ao nosso povo, dois terrestres apareceram...

—Está dizendo que terrestres fizeram isso? Terrestres em alto mar? — Ele riu. — Não tente nos culpar, coisa imunda, nós não temos motivos para entrar no mar e ataca-los. -Aproximou a lança do me pescoço e encostou-a apertando.

—Eu não disse isso seu imbecil, você me faz perguntas e não em deixa responde-las.

—Não me chame de imbecil! — Ele dessa vez estava apertando mais forte e senti a ponta afundando sem saber se o que e sentia era dor o aflição.

—Você vai me deixar terminar? — Pelo silêncio que ele manteve, me senti encorajada. — Os humanos foram nos pedir ajuda achando que éramos deuses.

—Há! Deuses? Aqueles tolos...

—Escuta aqui, vocês são todos tolos, nós não somos deuses nem demônios, somos pessoas normais como vocês. Não é porque moramos em um lugar diferente que somos assim tão diferentes... — Então eu diminui o tom de voz. — Pensando bem, somos todos tolos...Nós sempre acreditamos que vocês eram monstros ou no mínimo selvagens. — Fiquei pensativa por alguns instantes.

Estávamos todos errados no fim das contas? Nós não éramos deuses nem demônios, pelo menos não até onde eu sabia. Eles não eram monstros selvagens. Eu tirava isso pelos dois terrestres que haviam ido nos visitar em alto mar com um desesperado pedido de socorro, e por esse que mesmo comigo presa ele estava tremendo como vara verde. Talvez eles até fossem mais fracos que nós aquáticos e celestes.

—Acho que todos nós estávamos errados. — Eu falei pensativa e ele parecia também estar. — Sabe, nossa plataforma foi atacada. Muitos dos nossos morreram, crianças também. Nós não sabemos o que houve, quem era e o que queria. A única coisa que sabemos é que nosso lar foi destruído e nós fugimos desesperados procurando abrigo. — Senti meus olhos ardendo e uma lágrima escorreu mesmo eu tentando segura-la.

Eu finalmente estava me permitindo sentir a perda. Nossas casas, nossa vizinhança, nossos amigos e familiares. Tudo havia acabado. Não tínhamos para onde ir, não tínhamos um lar, não tínhamos segurança e estávamos em terra estrangeira cercada de possíveis inimigos mortais.

O rapaz colocou a lança em cima de uma mesa de madeira e caminhou para fora do cômodo. Me permiti chorar veemente por alguns segundos, mas ele voltou e segurei as lágrimas como pude. Nas suas mãos havia uma pedra grande, só chegando perto consegui sentir o cheiro do peixe. Era uma vasilha feita de pedra., como um prato ou uma panela, eu não saberia dizer que nome davam àquilo.

—Vou te desacorrentar. Se você tentar algo, eu te mato sem dó.

—Eu juro que não vou tentar nada. — Eu fui sincera.