Nas Páginas De Um Caderno
1 A história de um sentimento
Notas iniciais
Era fim de tarde quando ele chegou àquele parque, logo dirigindo-se à um banco mais afastado, um que ficava embaixo de uma grande cerejeira e praticamente encoberto por alguns arbustos que haviam ali. O local não era muito freqüentado, por ser quase nos limites da cidade era constantemente palco de disputas de gangues de delinqüentes e arruaceiros, um local perigoso para qualquer pessoa, porém, não pra ele. Ninguém seria louco – ou burro – o suficiente para mexer com Heiwajima Shizuo, o homem mais forte de Ikebukuro.
O loiro gostava de ir ali, era praticamente o seu refúgio particular, principalmente naquele determinado banco, que por estar oculto pelas plantas que cresciam sem cuidado algum em volta, tornava-se quase um esconderijo. Um esconderijo que por muito tempo achou ser apenas seu, mas que recentemente, à cerca de pouco mais de um mês, descobrira que outra pessoa também o conhecia.
Um caderno. Havia encontrado um caderno caído ao lado banco. Um caderno simples, do tipo que se usa para fazer anotações, e como certamente não era seu, significava que mais alguém costumava ir ali. O caderno não tinha nenhum nome na capa por isso tomou a liberdade de folheá-lo, para ver se encontrava algo a respeito do dono, mas não havia nada do tipo, nenhuma palavra escrita, mas havia desenhos, vários desenhos preenchendo algumas das folhas daquele caderno.
Shizuo não era enxerido, mas ficou curioso, e um pouco admirado até pelas imagens ali retratadas. Quem quer que fosse o dono do caderno era um bom desenhista, e disso o loiro realmente entendia. Desde criança sempre tivera um pavio muito curto, se irritava com muita facilidade, então seus pais, depois de se aconselharem com a psicóloga infantil do colégio, o estimularam a fazer alguma atividade que o acalmasse e que desenvolvesse um pouco seu lado criativo. No início não deu muito certo, mas depois de um tempo acabou pegando gosto por desenhos, era bem talentoso inclusive, embora não desenhasse mais com freqüência desde o colegial. E aqueles desenhos ali no caderno eram realmente bem feitos, nas primeiras páginas algumas paisagens simples e aleatórias, mas a partir da décima, uma pessoa era retratada. Uma mesma pessoa retratada de vários ângulos. Bom, ao menos era isso o que ele achava por conta dos traços semelhantes, mas como as figuras não tinham rosto ficava difícil ter certeza.
Foi virando as páginas daquele caderno e notou que os desenhos iam ficando mais descritivos, detalhados, alguns ocupando a página toda e outros apenas a metade, ou então um terço ou um quarto delas; e dava pra notar uma certa seqüência naquelas cenas, como se fosse uma espécie de mangá, mas sem falas ou narração, uma história contada apenas por desenhos. Depois das primeiras cenas o personagem, o único até então, foi adquirindo certas características um tanto quanto familiares, e se os desenhos não fossem apenas à lápis preto comum, tinha certeza que a cor daqueles cabelos seria amarelo. Era ele. Haviam-no desenhado nas folhas daquele caderno. E com essa certeza, voltou algumas páginas, até o ponto em que uma história começou a ser contada, prestando atenção no que cada cena retratava.
Várias páginas depois um outro personagem passou a fazer parte da história, um personagem também com traços bastante familiares para si, mas apesar de estarem até mesmo juntos em algumas cenas, ao mesmo tempo encontravam-se distantes, pois não interagiam entre si, na verdade, o primeiro personagem, o que com certeza possuía cabelos descoloridos, sequer tinha conhecimento da presença do outro que sempre o observava de longe, em segredo. A história estava inacabada e Shizuo não resistiu a imaginar um certo rumo pra ela. Notou um toquinho de lápis caído próximo de onde encontrou o caderno e se pôs a desenhar na página seguinte. Desenhou duas cenas, na primeira retratou a si mesmo desenhando no caderno e na segunda, ele se distanciando dali mas deixando o caderno e o pequeno lápis sobre o banco.
Assim que acabou o desenho o loiro fez como havia retratado, deixando o caderno sobre o banco e indo embora. Quando voltou no dia seguinte, não foi surpresa encontrar o caderno ali no mesmo lugar onde havia deixado, e também não foi surpresa ver que havia mais desenhos depois dos que havia feito, dando continuidade àquela história.
Aquilo acabou por se tornar uma rotina, todos os dias o loiro ia até aquele local, encontrava o caderno sobre o banco e dava continuidade às novas cenas que ali encontrava, e isso já durava cerca de um mês.
Shizuo sentou-se no banco e pegou o já tão familiar caderno, folheando-o calmamente até chegar às últimas páginas preenchidas, acabando por sorrir de leve enquanto acompanhava o desenrolar da história. No dia anterior havia desenhado o início de um desfecho, porém, deixando o fim propriamente dito em aberto; havia feito uma proposta na verdade. Finalmente chegou à página em que havia desenhado anteriormente, vendo a si mesmo retratado ali, sentado naquele mesmo banco e com aquele mesmo caderno nas mãos. Estava prestes a virar a folha quando alguém se aproximou. Sorriu, de forma quase imperceptível, ao ver quem era.
O loiro pôs o caderno, ainda aberto, sobre o banco e ergueu-se, dando alguns passos em direção ao outro até estar bem a sua frente. Viu-o engolir em seco, aparentando certo nervosismo por estar ali, afinal, sua presença significava que tudo o que havia naquele caderno era genuíno, que aquele sentimento demonstrado naquelas páginas era verdadeiro, e não aquele outro, gritado aos quatro ventos pelas ruas de Ikebukuro por anos. Deu mais um passo, ficando ainda mais próximo do outro, que susteve a respiração por breves instantes. Shizuo não pôde evitar se sentir ansioso naquele momento, aquela era a proposta, uma pergunta sem palavras a respeito de como seria o final daquela história, a história deles. Havia desenhado exatamente aquela seqüência de cenas; primeiro ele próprio naquele banco com o caderno em mãos, e então a chegada dele na cena seguinte; o momento em que o loiro se aproximava, e por fim, o último desenho que havia feito no dia anterior: o momento em que esperava pela resposta.
~*~
Izaya, naquele momento, não estava nem reconhecendo a si próprio, ele não era inseguro, ou hesitante, aquele definitivamente não era seu estado normal. Contudo, já havia desistido de tentar agir ou pensar normalmente quando se tratava de Shizuo, ou melhor, desde que parara de negar o óbvio a respeito do que sentia pelo loiro. E embora tivesse aceitado aquele sentimento, não via nenhuma possibilidade de ele ser recíproco, e nem tinha intenção de fazer com que fosse, Shizuo era imprevisível demais, jamais conseguiria manipulá-lo a ponto de fazê-lo se apaixonar, e tentar conquistá-lo de verdade soava ridículo até em pensamentos.
Izaya nunca teve esperança alguma de ser correspondido, e exatamente por isso sua surpresa foi tamanha ao abrir seu caderno assim que o recuperou depois de tê-lo esquecido e ver que havia um desenho a mais ali, um desenho que não havia sido feito por ele, mas sim pela única outra pessoa que constantemente ia ali, naquele lugar específico. Não soube o que pensar. Na hora seu coração quase parou, aquele caderno não deveria ser visto por ninguém, menos ainda por ele. Aqueles sentimentos deviam permanecer ali, nas páginas daquele caderno, que inclusive seria queimado quando estivesse completo, assim como todos os outros foram antes dele.
Não fazia idéia de qual havia sido a intenção do loiro ao dar seqüência àquelas cenas. Talvez não tivesse entendido do que realmente se tratava aquela história. Talvez não houvesse reconhecido os personagens ali retratados. Ou mesmo não tivesse levado a sério o sentimento contido ali. Izaya não sabia, mas decidiu dar continuidade àquilo e ver no que resultaria. E com o passar dos dias e das novas cenas daquela história sendo compartilhadas naquele caderno, foi ficando cada vez mais difícil sufocar aquela ínfima esperança de ser correspondido, e que havia crescido vertiginosamente no dia anterior quando viu os últimos desenhos do loiro.
Seu coração estava batendo forte contra o peito, e tinha também plena consciência de que seu rosto devia estar corado naquele momento, não só pela proximidade do loiro, mas também pelo olhar que ele lhe dispensava, um olhar expectante, ansioso pelo que aconteceria em seguida. O moreno engoliu uma grande quantidade de saliva e mordiscou brevemente o lábio inferior antes de dar um passo à frente, acabando com a distância entre eles e colando seus lábios aos do mais alto, dando tudo de si naquele beijo e recebendo exatamente o mesmo em troca.
Uma leve brisa passou por eles, mas de tão envolvidos naquele beijo, naquele sentimento, sequer notaram. Assim como também não notaram que aquela leve brisa havia sido suficiente para virar algumas páginas do caderno ainda aberto sobre o banco e parando exatamente na que continha a última cena daquela história, a cena que mostrava a resposta do segundo personagem, a cena que mostrava o beijo apaixonado que eles trocaram no fim. Porém, não era apenas isso que havia naquela última página, diferente de qualquer outra folha daquele caderno, ali, no cantinho da página, bem abaixo do desenho, havia uma pequena frase escrita:
“Esse final será apenas o começo.”
Notas finais
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